Aos cinqüenta e tantos, a visão da vida e do mundo já deixaram há muito de ser cor-de-rosa. Ter visão "rosa" me remete àquele filme "Mulheres Perfeitas" – bonecas lindas, feitas para servir. Usar rosa nem cogito. É uma cor tão de garotinha, de adolescente, de patricinha… Nossa, que preconceituosa! Por detestar qualquer tipo de preconceito, resolvi dar uma chance ao rosa. Comecei a procurar os rosados que fazem parte da minha vida. Claro, como toda mulher, pensei logo em roupas. Gosto de roupas escuras, pois escondem o excesso de peso. "Não tenho nada de rosa", disse.
Cheguei à conclusão de que o rosa não me seduz, não me fascina. Mentira! Muita mentira. Hoje, vendo a pontuação do meu time, num famoso Fantasy Game da internet do qual participo há três anos, ri muito da minha certeza. Meu time chama-se Rosa Choque. Com camisa, escudo, tudo cor-de-rosa. Fui para o meu messenger, e adivinhem: minha janela do MSN é rosa. Meu blog no MSN Spaces? Todo rosa com coraçõezinhos. E não acaba por aí. Tenho uma montanha de cortes de tecido pra fazer patchwork (arte de emendar tecidos). A maioria é rosa ou com estampas da mesma cor. Quando me lembrei das minhas bolinhas de golfe rosa, capitulei. Eu adoro rosa.Comecei a puxar lembranças do passado. O rosa participou de muitos momentos prazerosos. Meu primeiro vestido longo era rosa. Dancei a noite inteira com o primeiro amor. Lembro-me de uma roupa que eu adorava. Ganhei aos 10 anos, de presente da minha avó: uma saia curtinha de veludo azul-marinho com um conjuntinho rosa, blusa e casaquinho, de banlon (uma malha sintética super famosa no final dos anos 60).
Quando engravidei, fiz uma ultra aos cinco meses de gestação. A médica disse que era menina. Eu e minha mãe fizemos, de tricô, vários casaquinhos e sapatinhos cor-de-rosa. Acho que na época, início dos anos 80, a tecnologia não era tão precisa. Quando fiz outra ultra, com quase nove meses, apareceu lá um baita de um peruzinho. Tive que usar os casaquinhos rosa no meu meninão. Claro, criei moda para época. Era o macaquinho azul, com casaquinho e sapatinhos rosa. Não fez mal nenhum a ele. Nem faria, o preconceito é que não deixa os homens usarem essa cor. Um ou outro que use deve sempre ouvir alguma piadinha…
Imaginem que no início do ano, no Campeonato Paranaense, um zagueiro, chamado Alemão, do time Real Brasil (time novo e pobre, primeira vez na primeira divisão paranaense) jogou contra o Atlético Paranaense com chuteiras emprestadas cor-de-rosa. O destaque do jogo foram as chuteiras do pobre zagueiro. Ninguém se importou com o jogo. Somente com as chuteiras rosa e com as especulações sobre a opção sexual do jogador.
Acredito que cor é cor. O rosa, por convenção, passou a identificar o feminino. Talvez pela flor rosa, a mais linda de todas. A expressão "ver a vida em cor-de-rosa" é atribuída somente às mulheres. Coisa de "Alice". Hoje, fazemos quase tudo que os homens fazem, tanto no profissional, quanto no afetivo. Muitas vezes apelamos, querendo ser iguais aos homens em tudo. O Movimento Rosa me fez pensar no quanto a mulher de hoje perdeu a emoção, a meiguice, a pureza, a ingenuidade. Hoje, a vulgaridade assola o mundo feminino. Em busca da fama, somos melancia, melão, bundas e silicones. Ninguém namora mais; fica. O namoro já é um casamento. Enfrentam logo a rotina, a destruidora da paixão.
Vejo no Movimento Rosa uma oportunidade de resgate da verdadeira essência da mulher. Ser feminina, mas com todos os direitos iguais. Usar seu corpo com toda a liberdade – mas para a sua felicidade, não para ser usada. Amar e ser amada é o que no final importa nessa vida.