» vinhoSoniaMelier

Meu pai, esse cometa

by soniamelier em 12 de agosto de 2011 | 18:01

vinho2

“Pai, não põe limão na salada!” Lá estava eu, nos meus seis anos, reclamando como sempre. Não aguentava essa história de temperos – dos quais, por seu lado, o pai não abria mão. E olha que eram só umas gotinhas de limão, substituindo o detestável vinagre. Eu tolerava os verdes apenas com um pouco de azeite e sal.

Daqui a pouco vinha o prato principal: uma carne salteada com legumes, obra de minha mãe, que incluía, além das tiras de alcatra, gengibre fresco ralado, alho picado e pimentão vermelho em fatias (fora os aspargos, a acelga, as rodelas de cebola). Minha mãe ainda colocava vinagre branco. E meu pai entrava com vinho Madeira. Na mesa quase que obrigatoriamente uma garrafa de vinho, ora tinto, ora branco, que tomava com minha mãe, só os dois, demonstrando grande prazer. Observava com um misto de curiosidade e um respeito tangenciando o temor ante aquele líquido lindo, pois na taça poderia estar o equivalente ao gengibre, alho, cebola, pimentão e alho. Argh!

Mas eu tremia e cuspia essa temperada toda. Separava tudo, e ficava apenas com a carne, assim mesmo a contragosto, pois o tempero estava todo lá. Minha vontade era sair correndo. Sair da mesa, porém, era falta grave. Limão, cebola, gengibre, pimentão, alho eram sabores violentos para mim. Meus pais ficavam desorientados, sem graça. Mas insistiam.

Bem menina já distinguia todos esses temperos. Para mim, só faltava conhecer os vinhos. E isso só aconteceu bem mais tarde. Crescemos e nosso paladar cresce junto, mas sua capacidade de discriminar estímulos atinge a maturidade bem antes de nos reconhecermos adultas. Acho que nossa percepção de sabores chega ao máximo já pelos 15 anos.

Hoje, repito a receita de minha mãe (agora usando uma wok) e acho tudo muito sutil. Sim, a verdade é que a partir dos 20 anos, começamos a ir ladeira abaixo, pelo menos em termos de paladar. A turma que degusta vinho profissionalmente e está na quadra dos 50 anos evita esse assunto, insistem em desconhecer essa ladeira natural.

Reconhecer os sabores como o fazia com 15 anos, nunca mais. Contudo, os adultos possuem um trunfo na manga, uma vantagem que a turma mais jovem ainda não maneja devidamente. Podemos estocar em nossa memória praticamente tudo o que percebemos. Já pensou o que está lá registrado quando entramos nos cinquenta? O que não pode é um cinquentão desdenhar do paladar da garotada, capaz de descobrir detalhes surpreendentes.

Meu pai, um aficionado dos vinhos, não parava de falar sobre eles. Alertava para as sutilezas de suas cores. Aquela história dos matizes de brancos e tintos quando são jovens e quando ficam mais maduros. Aquilo me encantava e excitava. Queria experimentar, o que era tão proibido quanto sair da mesa antes da hora. Havia exceções, datas especiais quando beber o vinho era quase que obrigatório. Nesses casos, só um pouquinho, misturado com água e açúcar.

É fácil medir as alterações em nosso paladar à medida que o tempo passa. Já mocinha, conhecia cerveja, nossa levíssima. Mas aí topei com a Guiness, numa das muitas mudanças da família. A secular cerveja preta irlandesa, amarga que só ela, um verdadeiro desafio para novatas. Hoje, desce fácil, prazerosamente.

Naqueles tempos, meu pai apenas comentava sobre os vinhos: as cores, como eram feitos e em particular, suas origens, onde se demorava mais, contando histórias sobre regiões que mal ouvira falar. Por exemplo, foi ele quem me falou do galo preto, símbolo dos Chianti, que ele ainda tomava nos fiaschi, aquelas garrafas barrigudas semicobertas com palha (hoje, só aparecem penduradas nos tetos de pizzarias ou em sets de filmes e novelas).

Ele contava da hostilidade entre Florença e Siena, da guerra dos Guelfos contra os Gibelinos. Contava sobre aquelas duas repúblicas da Toscana na Itália do século XII e mostrava ilustrações com castelos, cidades muradas. Ficava maravilhada. Mas e o galo preto?

Florença queria fixar sua fronteira com Siena, mas seu objetivo era ficar com toda a região de Chianti. Siena não concordou e pediu que o assunto tivesse um árbitro neutro. O que foi feito, mas de modo curioso. Ficou acertado que um cavaleiro de Florença e outro de Siena cavalgassem de suas cidades assim que um galo em cada cidade cantasse. Onde se encontrassem seria fixada fronteira.

O povo de Siena selecionou um galo branco, bem roliço, pra lá de nutrido, um orgulho localmente. Já os florentinos escolherem um galo preto, que deram muito pouco o que comer – tão pouco que no dia da corrida, o galo desesperado de fome cantou muito cedo. Claro que o cavaleiro florentino chegou mais cedo, encontrou o oponente há poucos quilômetros de Siena. Não sei se tudo isso é lenda. Era meu pai quem contava, então era e continua sendo verdade. O fato é que toda a região do Chianti passou à jurisdição de Florença e o Galo Preto transformou-se em símbolo de Chianti.

O tempo foi passando e já madurinha brindava com meu pai os Madiran (terra do Cyrano de Bergerac, aquele narigudo, poeta e espadachim – eis como o velho me apresentava os vinhos), os da Borgonha (que Napoleão adorava), os Riesling, os argentinos antes dos chilenos, muitos vinhos do sul e, particularmente, os portugueses, inclusive os fortificados. Só bebia em casa. Na rua, nadinha.

Quando tive minha loja de vinhos na Serra, foi o velho quem mais me ajudou a formar a adega (e quem mais me levava garrafas “para experimentar”). Agora mesmo, quando o ex sommelier Christian Vanneque comprou uma garrafa do Château d’Yquem por US$ 117.000,00, safra de 1811, meu pai como que apareceu novamente diante de mim. Ah, como ele me falava sobre as safras. Por causa dele, sei que a safra de 1811 é uma das “safras do cometa”, nome aos anos em que ocorreu a passagem de algum cometa. Os produtores costumavam (e acho que ainda costumam) atribuir à passagem de um cometa antes da colheita às ótimas condições do clima e ao sucesso da safra e do vinho dela resultante. E, de fato, algumas das safras mais badaladas nos últimos duzentos anos foram as de 1811, 1826, 1845, 1852. 1861, 1985 e 1989 – em todas elas, apareceu um cometa.

(Vanneque, que foi sommelier chefe do famoso Tour d’Argent, de Paris, declara que pagou 117 mil dólares justamente para beber o reputado vinho doce de Sauternes. Vanneque tem certeza de que vai adorar. Eu, por meu lado, invejo o salário dos sommeliers franceses).

Quando minha aventura na loja de vinhos terminou, o velho não hesitou em elogiar minha coragem em enfrentar as agruras do comércio. E recomendou que não vendesse os vinhos que sobrassem: iríamos bebê-los todos, juntos. O que foi feito. Ele dizia que não podemos descobrir novos oceanos sem perder de vista a praia. E que eu sabia o endereço da praia. Era um cometa, esse meu pai!

Da Adega

A Speranza vive. Pois é, conheci primeiro a famosa pizzaria, a Speranza do Bixiga. E logo pelas mãos de meu pai, que na época fazia de Sampa uma de suas bases de trabalho. E descobri o que era uma pizzaria. Foi no fim dos anos 60, nessa mesma época do ano, um fila de espera danada, um frio mais danado ainda. E não tinha passado cometa algum. Agora, o que comemos foi maravilhoso, inesquecível. Falou em Speranza, meu pai aparece novamente.

Isso tudo para lembrar que nos tempos que correm temos a Cantina e a Pizzaria Speranza de Moema, mantendo a tradição de grandes pratos. Ambas participando mais uma vez do Restaurante Week, de 29 de agosto e 5 de setembro e cheias de novidades.

Experimente o cardápio da Speranza dessa semana especial: a Insalata de legume al forno, a torta napolitana de batata com salada de escarola, o gnocchi verdi com la mozzarella di búfala & provolone, o risoto di calabrese e pomodori secchi.

Isso sem falar da torta di limone e do cornettini di nutella.

Imperdível! Speranza Moema: Av. Sabiá, 786, fones: (11) 5051-1229; www.pizzaria.com.br, e-mail: atendimento@pizzaria.com.br

Taninos elegantes?

O termo “tanino” é largamente empregado no mundo dos vinhos. Explicá-lo é dar panos para manga

by soniamelier em 2 de agosto de 2011 | 10:47

vinhoLogo abaixo, na seção “Da Adega”, publico um release da Vinitude sobre o vinho Doña Paula Los Cardos Cabernet Sauvignon. E lá estão eles: “Um vinho com taninos elegantes e final marcante.” Taninos o quê?

Se existem os elegantes, pode ser que existam também taninos esculachados, ou mesmo grosseiros, malcriados, alguns talvez mais potentes e outros definitivamente débeis, sem contar com os espírito de porco. A confusão pode aumentar quando nos deparamos com extensões dessa poética da crítica de vinhos e aprendemos que, além de elegantes, os críticos falam de taninos “redondos” (como, existem os quadrados?), suaves, maduros, aveludados, exuberantes, ásperos, “mastigáveis”. Já anotei até “taninos sensuais”, na certa de alguém perto de chamar cachorro de minha loura.

O termo “tanino” é largamente empregado no mundo dos vinhos e tenho certeza que muita gente não sabe exatamente o que seja, muito menos que ele possa ficar entre elegante e áspero. Explicá-lo é dar panos para manga. Tentarei.

São os taninos que causam aquela sensação de secura e até de amargor em sua boca quando bebe um vinho tinto. Formam um grupo de componentes químicos que podem ser achados em frutas, no chá e em cascas de árvores. Chegam aos vinhos via galhos, cascas e sementes de uvas – e, ainda, através da madeira dos barris. Desde o cultivo da vinha e até o processo de produção do vinho são sempre um fator de preocupação: dependendo de como são tratados, afetarão profundamente o estilo do vinho que chegará à sua mesa.

Eles têm a capacidade de ligar-se a vários outros materiais químicos, em particular com as proteínas. Se aplicados a peles de animais, os taninos unem-se às proteínas transformando uma pele macia, mole, num material duro o bastante para fabricar sapatos, solas, cintos e selas. Os taninos formam, também, uma classe de compostos químicos existentes no vinho, os fenóis – que, por sua vez, dividem-se em duas categorias: os flavonoides e os não-flavonóides. Os nossos taninos estão no primeiro grupo.

Na vinha, os taninos agem como uma defesa. O seu papel é o de defender as plantas: quando jovens, as uvas ainda verdes, com sabor extremamente ácido e amargo, pois as sementes do fruto são o meio de sua reprodução, mas a planta só permite que o fruto seja consumido quando suas sementes ficam maduras. Quando um pássaro ou inseto tenta mastigar uma uva, taninos são liberados tornando a fruta horrível, amarga, indigesta.

Na medida em que as uvas amadurecem, a cor da casca se altera, tornando-a mais sedutora. Ao mesmo tempo, ficam menos ácidas e mais doces. E os taninos menos amargos. (Na verdade, os taninos não têm sabor: você os percebe pela maior ou menos sensação de secura e adstringência na boca, o que chamo de amargor).

Nessa progressão, os taninos vão de verdes, muito jovens e amargos, quase que “mastigáveis”, a mais macios, sedosos, aveludados. Ou seja: ficam maduros, mais elegantes. São fundamentais para a qualidade dos vinhos tintos. Além de sua participação nos componentes de cor, aroma e sabor e na preservação, contribuem para a sensação do vinho na boca, sua percepção no palato, sua textura (sedosa, aveludada, redonda, macia, elegante?).

Logo, nossos taninos são fundamentais – como suportes da estrutura de um edifício. Se um vinho tinto tem carradas de fruto e de álcool, mas pouca acidez e taninos, não está bem estruturado.

Quanto aos taninos elegantes, podemos acreditar que já estão bem maduros, bem equilibrados num vinho pronto para ser degustado.

Da Adega

Taninos elegantes II. A Vinitude oferece o Los Cardos Cabernet Sauvignon 2009 por um preço também elegante. Confira. Vinícola Doña Paula é original do Chile e está na Argentina desde 1997. Nunca ganhou menos do que 90 pontos da Wine Spectator.


Para o Papai. Quem sabe o Millésime Cabernet Sauvignon 2008, quinto Millésime da história da Aurora, ou o Pequenas Partilhas Cabernet Sauvignon, ou o Chardonnay Brut, que conquistou para a vinícola gaúcha a sua 12ª medalha internacional esse ano, no concurso Vinagora, na Hungria. Saiba mais sobre as ofertas especiais da vinícola.


Dicas para Fondue. Para fondue de carne, um Pinot Noir Swiss Valley 2007. Para o de queijo, um branco, o Petite Arvine Premium 2007 (medalha de prata no Wine & Spirits Competition 2008, em Shangai). A Petite Arvine é uma uva branca natural do Valais, grande região vinícola da Suíça. Saiba mais. Vamos aproveitar o frio enquanto ele ainda está por aqui.


Wine Weekend 2011 A segunda edição desse evento vai acontecer de 18 a 21 de agosto, no Jockey Club de São Paulo. Um fim de semana prolongado, de degustação, aprendizado, compra de vinhos especiais, vinoterapia e galeria de arte (peças sobre vinho de Antonio Peticov, Zélio Alves Pinto, Guilherme de Faria).


Vinícolas (com a Salton, Vila Francioni e Valduga), importadoras (Expand, D’olivino, Ravin, MS Import, entre outras) vão oferecer rótulos nem sempre encontrados com facilidade.


Esse grande fim de semana vai acontecer de quinta a sábado das 12 às 22h e domingo das 12 às 20h. Os ingressos dão direito a uma taça de degustação (entregue no local). Veja no site.

Vinho: negócio da China

by soniamelier em 20 de abril de 2011 | 19:38

Pode acreditar: o Brasil estará entre os maiores mercados de vinho do mundo já em 2015. Em termos de volume, somos apenas “Outros”, um daqueles que ajudam a compor 31% do comércio global de vinhos.

Os Estados Unidos assumiram o primeiro lugar em 2010 como o maior consumidor de vinhos do mundo, com 12% do mercado, ultrapassando a França, até então liderando o ranking.

Mas já em 2015 a história será outra, segundo pesquisa da reputada Euromonitor International (fonte desses dados).

dreamstime_5871339

+ Leia mais

Fukushima e os vinhos

Sabia que vinhos tintos podem proteger nossas células dos danos da irradiação? Essas e outras curiosidades interessantes, confira!

by soniamelier em 31 de março de 2011 | 19:23

fukushimamsn

Já nas primeiras notícias que li sobre o desastre nuclear de Fukushima o vinho tinto aparecia como santo remédio para neutralizar os efeitos da radiação, ao lado dos tabletes de iodeto de potássio. Um Google depois, víamos que na catástrofe de Chernobyl, em 1986, o vinho tinto tinha sido utilizado, além da vodca, como solução para os mesmos problemas.

Será que os tintos estão que essa bola toda? As matérias que li falam de um estudo feito em 2008 pela Escola de Medicina da Universidade de Pittsburgh, EUA, afirmando que o resveratrol, um antioxidante natural encontrado fartamente nos vinhos tintos, pode proteger nossas células dos danos da irradiação. Só que a experiência foi feita em ratos. Os doutores de lá ministraram o resveratrol antes de expor os ratos à radiação. + Leia mais

Folias

Uma encomenda, quatro vinhos e um grande mistério a ser desvendado, ou melhor, degustado.

by soniamelier em 10 de março de 2011 | 17:59

vinho-menagemsn

Aquele susto quando cheguei em casa nesse domingo de carnaval. A caseira me entregou uma embalagem com vinhos que nunca ouvira falar: Ménage à Trois. Um tinto, um rosé e dois brancos: teria vinho novo para brincar o meu carnaval. E quem os mandou estava querendo assunto. No horizonte, a possibilidade de passar o carnaval acompanhada. E o meu mestre-sala estava a fim de sacanagem. Prometedor, não? Para quem chega cansada de viagem e sem tempo para se organizar (ou seria desorganizar?) para o carnaval, abriam-se as perspectivas de folia.

Mas quem foi o autor dessa proeza?

+ Leia mais

Campanha “Eu bebo vinho”

Essa campanha representaria todos os setores da indústria de vinhos: vinícolas, varejistas, atacadistas, importadores, exportadores.

by soniamelier em 8 de fevereiro de 2011 | 13:36

Três milhões de dólares é o preço de um comercial de 30 segundos durante a transmissão de TV do Super Bowl, o maior evento esportivo norte-americano, que aconteceu neste domingo. Um espaço disputadíssimo, todos parecem dispostos a gastar milhares de dólares por um segundinho de atenção dos norte-americanos. E o Super Bowl é, com certeza, a hora de pegar quase todos os americanos pela TV.

+ Leia mais

O que é o que é?

Você sabe a origem da palavra tragédia e o que realmente significava?

by soniamelier em 26 de janeiro de 2011 | 13:40

Não chega a ser tradição, mas em 2010 (lembra dele, quando também aconteceram chuvas catastróficas no Sudeste, mas menos intensas no Rio?) comecei o ano com um quiz Um teste para começar. Para não perder o costume, essa terceira coluna é também um teste, que vai ter muito de vinho e um pouquinho de desastres. Melhor dizendo: tragédias.

+ Leia mais



perfil

Espaço para as mulheres que apreciam um bom vinho – e para as que querem entender melhor sobre esse universo