» 2008 » novembroSoniaMelier

Na ponta da língua

by soniamelier em 26 de novembro de 2008 | 21:00

Vimos na coluna passada como o perfil genético de cada pessoa promove diferenças na percepção de aromas e sabores num vinho. A bebida provada vai parecer diferente para cada pessoa. O que para mim parece baunilha, para outra pessoa é banana. E ninguém vai estar errado, como procurou demonstrar o texto Ai, o meu nariz. É natural que sejamos largamente individualistas e subjetivas com relação aos aromas e sabores da bebida.

Existe, porém, outra palavrinha que, no mundo dos vinhos, vem carregada de subjetivismo: equilíbrio. Estamos fartas de ler, dos mesmos críticos, que tal vinho é bem equilibrado. Harmonioso. Ou, o contrário, falta a eles o fundamental equilíbrio.

‘A relação entre açúcar e acidez acontece a toda hora. Temperamos a limonada para que ela não fique ácida demais: bem equilibrada, com açúcar e acidez nas quantidades certas, ela fica palatável, refrescante. O vinicultor busca a mesma coisa no seu vinho

Às vezes, equilíbrio se refere ao contraste entre certos sabores e aromas. Por exemplo, sabores de frutas contra sabores de carvalho.

Mas equilíbrio, nesse caso, diz respeito à relação entre elementos estruturais, essenciais para a qualidade de um vinho. Dizemos que um vinho é equilibrado se o seu volume alcoólico, acidez, açúcar residual e taninos se complementam, de modo a que nenhum desses componentes se destaque mais do que os outros.

Em certos momentos, não gostamos de certos vinhos e nem sempre sabemos encontrar a razão. Mas ela costuma estar em algum desequilíbrio. Reclamamos que um vinho, supostamente seco, está muito doce. Mas o que pensamos seja um excesso de açúcar na bebida é, na verdade, pouca acidez.

A relação entre açúcar e acidez acontece a toda hora. Temperamos a limonada para que ela não fique ácida demais: bem equilibrada, com açúcar e acidez nas quantidades certas, ela fica palatável, refrescante. O vinicultor busca a mesma coisa no seu vinho.

Quando o excesso de tomate torna o espaguete muito ácido, suavizamos com um pouco de açúcar. E, inversamente, colocamos algumas gotas de limão no suco de frutas ou no chá quando nos parecem doces em demasia.

O ponto de equilíbrio, portanto, é quando um elemento não se sobrepõe ao outro. Só que o que parece equilibrado para você pode não ser para outra pessoa. É a tal da subjetividade.

No seu livro "Le Goût du Vin" ("O Sabor do Vinho" – veja na Amazon), o francês Emile Peynaud (1912 – 2004), o homem que reinventou a enologia, cita outro grande enólogo, Max Léglise, para observar que "na Alemanha e na Escandinávia, o que se julga estar em equilíbrio implica em forte preponderância do açúcar sobre o ácido. O mesmo vale para os paladares femininos em qualquer lugar…" Aliás, o que Paynaud-Léglise comentam sobre os paladares germânicos e escandinavos valem também, em minha opinião, para as Américas. Ou seja, existe um dado cultural a ser considerado.

Então, quais seriam os sinais de que um vinho esteja desequilibrado em relação ao açúcar e à acidez? Peter Bell, vinicultor e palestrante da Universidade de Cornell, ensina que: "O vinho com pouco açúcar em relação ao ácido ficará áspero, cortante. Na mesma relação, um vinho com muito açúcar se tornará enjoativo, débil. Não vai refrescar o paladar".

A relação entre doçura e acidez, porém, não é a única a preocupar um vinicultor em busca de equilíbrio em seus vinhos. Existem outros elementos a serem trabalhados, especialmente em relação aos vinhos tintos. Trata-se da relação entre taninos, álcool e acidez.

‘No final, o que vai valer é o gosto de cada uma de nós. Como no caso dos aromas e do papel da genética, o equilíbrio também passa a ser uma questão subjetiva

Para não entrarmos em tecnicalidades, vamos reproduzir os exemplos oferecidos pelo crítico canadense Bill Zacharkiw. "Se habitualmente bebemos Cabernet Sauvignon de Bordeaux vamos achar que a versão americana (Califórnia, Chile etc.) é doce demais, enjoativa. Ao contrário, se estamos acostumados aos Cabernet do Novo Mundo e provarmos da versão bordalesa, vamos achá-la amarga, rala."

O crítico explica que "a combinação de altos níveis de taninos e de acidez resulta em vinhos muito adstringentes". E quando adicionamos o álcool nessa equação, "os altos níveis de taninos ficam mais aceitáveis ao nosso paladar se a acidez é baixa e volume de álcool é alto". Nesse caso, para determinarmos se o vinho é equilibrado, precisamos definir quais sejam esses tais "altos níveis".

Os Cabernets de Bordeaux costumam ser menos maduros do que as versões do Novo Mundo (tornando os vinhos mais ácidos, com mais taninos e menos álcool). Para quem não gosta dos Cabernets de Bordeaux, o vinho vai parecer desequilibrado. Para essas pessoas, haverá um intolerável domínio de taninos e de acidez, já que o volume de álcool é menor.

Para quem não gosta dos vinhos do Novo Mundo, acontecerá o contrário: a acidez e os taninos perdem para o alto volume de álcool, fazendo com que a bebida pareça suave demais – apesar de passar queimando pela nossa garganta. O vinho ficará parecendo mais um destilado. Desequilibrado, portanto.

No final, o que vai valer é o gosto de cada uma de nós. Como no caso dos aromas e do papel da genética, o equilíbrio também passa a ser uma questão subjetiva. "Num bom vinho tudo deve estar harmonioso; a sua qualidade está sempre relacionada a essa sutil relação de equilíbrio", ensina Emile Peynaud.

Fica a seu critério, leitora, decidir quanto à melhor receita para o seu vinho, tal e qual o caso do espaguete. A receita passa a ser sua. Equilíbrio, portanto, é um fundamento essencial nos vinhos. Só que em vez das respostas se concentrarem em nossos narizes, elas estão mais na ponta da língua.

Da Adega

Confraria Carioca. Mais um (bom) motivo para me abalar de Secretário para o Rio de Janeiro. É que já agora no dia 01 de dezembro será inaugurada a Confraria Carioca, uma butique de vinhos, acessórios e consultoria especializada para os entusiastas da bebida. A loja já conta com uma boa listagem de vinhos argentinos, chilenos, italianos e franceses, entre outras regiões. São mais de 450 rótulos.

A Confraria Carioca será tocada pela Duda Zagari, membro da Associação Brasileira de Sommeliers e da Sociedade Brasileira dos Amigos do Vinho. Oferecerá cursos, palestras e consultoria sobre enogastronomia. Não deixem de visitar: a nova loja fica no Rio Plaza Shopping (Rua General Severiano Ribeiro, 97, loja 35, Botafogo, Rio de Janeiro; telefone: 21-2244 2286).

Ai, o meu nariz

by soniamelier em 19 de novembro de 2008 | 21:00

O famoso crítico descobre num certo vinho aromas abundantes de pimenta, de solo arenoso, ervas secas provençais e de groselha e cereja. Fico desnorteada: meu pobre nariz só conseguiu perceber um pouquinho de pimenta, algo de coisa terrosa, alguma fruta vermelha e ervas, mas sem precisar sua chique origem provençal.

Por que cheiramos coisas diferentes num mesmo vinho? Um estudo feito pelo neurologista canadense, especializado em clínica genética, Patrick MacLeod, tem uma resposta possível para essa questão. Ele explica que nossas habilidades de identificar aromas num vinho podem estar relacionadas à genética. As pessoas não possuem os mesmos receptores de aromas e sabores. Patrick lembra que o genoma humano contém 347 genes olfativos (e apenas quatro para a visão). "E 50% deles são diferentes de uma pessoa para outra". (Patrick MacLeod é formado pela University of British Columbia em pediatria e clínica genética. Tem pesquisado o papel dos genes na saúde e nas doenças e trabalha numa clínica genética em Vancouver, Canadá).

‘O sentido do olfato pode enfraquecer-se à medida que envelhecemos. Mas a memória dos odores permanece, enquanto outras lembranças se apagam

"O olfato é a Cinderela dos nossos sentidos", afirma a Dra. Glenys Scadding, otorrino do Royal National Throat, Nose and Ear Hospital, de Londres. "Um por cento do nosso DNA é dedicado ao olfato, uma enorme parcela".

O sentido do olfato pode despertar memórias e emoções – e tudo isso acontece inconscientemente. Ele não reside propriamente no nariz, mas acima dele, na passagem nasal, no epitélio olfativo, que contém as células receptoras. Elas, por sua vez, estão conectadas com o sistema límbico, a mais antiga e primitiva área de nosso cérebro, responsável pelas nossas emoções. O que pode explicar porque os aromas podem despertar memórias, sentimentos, à la Proust, quando o narrador é transportado para outro tempo e lugar, a partir dos aromas de um bolinho, em "Em busca do tempo perdido", uma das maiores obras da literatura universal. O sentido do olfato pode enfraquecer-se à medida que envelhecemos. Mas a memória dos odores permanece, enquanto outras lembranças se apagam.

Sempre soubemos que diferenças existem. Mas por outras razões. A primeira sendo a nossa memória olfativa, a habilidade de armazenar um grande número de aromas em nossa memória. A segunda é prima da primeira, só que de ordem cultural. Diz respeito às nossas experiências: se nunca cheiramos uma pimenta rosa, como poderemos descrevê-la? Para resolver esses dois problemas, sempre recomendo incursões às feiras, hortas, pomares, jardins – exercitar nossos narizes, enfim.

Contudo, se isso é verdade, por que pessoas com perfis culturais idênticos e com igual capacidade de memória olfativa não conseguem perceber os mesmos aromas nos vinhos?

Um componente aromático como o Rotundone (uma classe de terpeno, um hidrocarboneto encontrado em plantas, folhas, sementes, raízes etc.), comum nas uvas Shiraz, resulta em aromas de pimenta-do-reino. Só que ele não é universalmente reconhecido. Algumas pessoas os identificam, outras não. O que é pimenta para uns, é chocolate para outros.

Catherine Rouby, editora e uma das autoras de "Olfaction, Taste and Cognition" ("Olfação, Sabor e Percepção"; Cambridge University Press, ISBN-13: 9780511060847) escreve que "os níveis limítrofes de certos odores podem facilmente variar por um fator de 1.000 (mil) entre as pessoas". Com tal variação, fica mais difícil duas pessoas identificarem os mesmos aromas.

Se MacLeod e Rouby estão certos, as habilidades e sensibilidades em perceber odores são diferentes de pessoa para pessoa. Dá para entender porque cada um de nós possa ter noções completamente diferentes de um vinho. E para dificultar mais as coisas, os vinhos contêm centenas de componentes aromáticos. Segundo MacLeod, o trabalho de nosso cérebro em descrever esses aromas é como "decifrar uma charada".

Não devemos, amiga, que eventuais rebuscamentos de estilo dos críticos nos confundam. Se, por exemplo, o famoso Robert Parker fala que um vinho tem aromas de "pain grillé" (assim mesmo, em francês), nossos humildes narizes saberão de que se trata apenas de uma humilde torrada. O caso aqui é simplesmente o de identificar essa torrada.

‘Cada vinho nos oferece uma história única, exclusiva. Nunca será a mesmice de uma Coca-Cola. E essas diferenças não residem apenas nos aromas

Então, o trabalho de um crítico profissional em perceber aromas e texturas dos vinhos que prova é redundante? MacLeod diz que não. Ele afirma que qualquer análise sensorial "permanece uma experiência individual" – que devemos comparar com a nossa. Pois os perfis culturais e genéticos de cada um de nós permitem que também descrevamos nossas experiências com os vinhos também individualmente.

Está aí uma das maiores qualidades dessa bebida: a de poder apresentar-se de modo diferenciado para cada um de seus consumidores. Cada vinho nos oferece uma história única, exclusiva. Nunca será a mesmice de uma Coca-Cola. E essas diferenças não residem apenas nos aromas. Existe outra palavrinha que implica em avaliações subjetivas: equilíbrio, um tributo também vital nos vinhos. Mas isso fica para a próxima semana.

O título da coluna é retirado de um dos maiores sucessos da música popular brasileira, Nasal Sensual, de Juca Chaves. Nele, o menestrel lamenta que falem mal do seu nasal, tão sensual, "maior que a miséria do país". Declara-se feliz, porém, pois "a minha personalidade está neste nariz".

Faça como o Juca, amiga, não se intimide com os narizes dos críticos. O seu é o quanto basta. Use-o, treine-o, experimente-o, ensine-o a ter personalidade própria. E aproveite ao máximo o seu vinho.

Da Adega

Nacionais no Olimpo. Não perca a degustação de vinhos nacionais Don Giovanni no Restaurante Olimpo. A sommelier Jaqueline Barrosa apresentará os vinhos Espumante Brut Stravaganze (método Charmat), Espumante Rosé Brut, Espumante Brut 12 meses (método tradicional), Don Giovanni Cabernet Franc e Espumante Nacional.

O Olimpo fica num dos mais belos recantos de Niterói, a Praia de Charitas. Em plena estação hidroviária, com total vista para a praia e para o melhor do Rio, um estupendo panorama. Não deixe de ir: Av. Quintino Bocaiúva s/n, Niterói, Charitas, RJ. Visite o site do restaurante. Faça reservas com o Ivanildo (21-2711 0554). Será no dia 26 de novembro, às 19h.

O nó da madeira

by soniamelier em 12 de novembro de 2008 | 21:00

A relação do vinho com o carvalho data da Idade do Ferro, através dos barris introduzidos na Europa pelos Celtas, mais ou menos em 1.200 a.C., dando um descanso às ânforas de barro. Eles eram feitos com a madeira do carvalho, a Quercus, com uma estrutura condensada e à prova de vazamentos, ideal para armazenar gêneros de consumo em geral, sobretudo líquidos, como o vinho, o azeite, a água. Além disso, o seu formato cilíndrico resultava em grande resistência. Podiam ser armazenados lado a lado ou uns sobre os outros. E quando na horizontal, fáceis de mover. Tinham tudo para ter vida longa.

Quando falamos sobre vinho, pensamos quase que exclusivamente na uva e em suas variedades. Mas existem dois outros elementos cruciais para a produção da bebida: levedo (Saccharomyces) – sem o qual não existiria vinho, apenas um suco de uva – e o carvalho. Sua relação com o vinho foi acidental, com vimos, mas crítica, pois a maioria dos tintos finos e uma boa quantidade dos brancos dependem dos barris de carvalho para enriquecerem o seu sabor.

‘O vinicultor sabe que pode criar "receitas" diversas para seus vinhos. As uvas têm sabores diferentes a cada safra. Os barris também podem oferecer alternativas. Há notáveis diferenças se são novinhos em folha ou se já foram utilizados

O processo de manufatura de um barril compreende o aquecimento de sarrafos num braseiro, de modo que fiquem encurvados e se transformem em aduelas, dando aquela forma bojuda aos tonéis. E essa ligeira queima, aliada às propriedades químicas da madeira, interage com o vinho, para transmitir à bebida sabores bem característicos.

Outra qualidade dos barris de carvalho é a de ajudar na maturação dos vinhos, permitindo uma pequena e controlada exposição ao oxigênio. Normalmente, os produtores fazem o que podem para evitar o contato de seus vinhos com o ar. Mas, nesse caso, o baixo nível de oxidação que esses barris permitem é benéfico para a estrutura e o caráter da bebida.

Mas como o carvalho afeta o sabor de um vinho? Nos tintos, é comum que a madeira acrescente uma pitada de tempero, faça aparecer algumas notas de baunilha, melhore a estrutura da bebida. Num vinho branco que tenha sido fermentado e maturado em barris, vamos notar um tom amanteigado, ao lado de especiarias e da baunilha comuns nos tintos.

Vinhos maturados em barris apresentam uma estrutura mais complexa, mais interessante do que aqueles que ficaram em tanques (de inox ou de cimento; neutros, portanto), embora algumas variedades brancas, como a Riesling e a Sauvignon Blanc, raramente se beneficiem com a presença do carvalho.

O vinicultor sabe que pode criar "receitas" diversas para seus vinhos. As uvas têm sabores diferentes a cada safra. Os barris também podem oferecer alternativas. Há notáveis diferenças se são novinhos em folha ou se já foram utilizados. E diferenças ainda maiores em razão de suas origens: se são feitos de carvalho americano ou de carvalho europeu (principalmente o francês). O carvalho americano (Quercus alba) tem outra anatomia: os grãos são maiores, mas menos porosos: as notas de baunilha e de especiarias mais evidentes. Já com o carvalho francês (Quercus robur), de grãos também grandes (e mais porosos), esses efeitos são mais sutis.

Os tanoeiros, antes de produzir os seus barris, "temperam" a madeira, deixando em contato com o ar, chuva, neve, frio e calor por meses. Eles tentam, assim, amaciar os taninos verdes do Quercus – que poderiam dominar o sabor do vinho e torná-lo intoleravelmente adstringente.

Fora aquecer os sarrafos para transformá-los em aduelas, o interior do barril também é "tostado" – tudo para chegar-se a um determinado estilo de sabor. E, ao planejar suas "receitas", os vinicultores decidem o que vão utilizar, considerando que os barris franceses são muito mais caros do que os americanos. Vão também optar por barris novos ou usados, por pipas mais ou menos tostadas. Ou seja, pelo "tempero" que desejam para seu vinho.

Os barris novos conferem o máximo de sabores, evidentemente – o que vai diminuindo com cada utilização e reutilização, de modo que, já no terceiro uso, os tonéis mal conseguem oferecer algum sabor. O produtor, muitas vezes, amadurece seus vinhos numa mistura de barris novos e usados, para evitar a presença dominante do carvalho no gosto da bebida.

‘Os barris novos conferem o máximo de sabores, evidentemente – o que vai diminuindo com cada utilização e reutilização, de modo que, já no terceiro uso, os tonéis mal conseguem oferecer algum sabor

Como os barris novos são caros, seu uso é normalmente reservado aos melhores vinhos. Mas o vinicultor gostaria que seus vinhos mais baratos tivessem também os benefícios do carvalho, sem os altos custos dos barris. Assim, passaram a utilizar alternativas ao barril: são lascas, picotes, flocos, grãos de carvalho que colocam num tanque neutro para emprestar o sabor da madeira. Os resultados são variáveis; os produtores estão aprendendo a fazer uso dessas opções não apenas por economia, mas para não deixar de fora o sabor do carvalho.

E os barris podem ser cada vez menos utilizados, em razão de técnicas novas, como a da micro-oxigenação, um processo que simula aquela gradual e mínima exposição do vinho ao oxigênio que acontece no barril. Um equipamento especial é colocado no tanque e libera micro bolhas de oxigênio de modo controlado. Essa técnica, utilizada em paralelo à das lascas de carvalho, simula o processo da maturação em barris, sem a presença destes (e de seus altos custos). É um método ainda em sua infância, difícil de prever se será adotada universalmente.

Os barris podem até desaparecer, mas o carvalho continuará na história do vinho. O nó dessa madeira ninguém desata.

Da Adega

Degustação de Vinhos Suíços. Se estiver no Rio de Janeiro, não perca. Será agora no dia 17, segunda-feira, no Porto Bay Rio Internacional Hotel (Av. Atlântica, 1500, Copacabana, Rio), às 20 h. Diversifique, amiga. Vá conhecer os vinhos feitos com a Marsanne ou a Humagne. Não deixe de provar o Dôle, entre as especialidades da cooperativa Provins du Valais (a maior da Suíça) e do produtor e enólogo Nicolas Zufferey, um dos mais premiados vinicultores do país, considerado o "Rei da Chasselas" (a mais popular uva branca Suíça, lá chamada de Fendant, responsável pelo o vinho preferido de James Joyce).

A importadora Vitis Vinifera apresentará o Rosé du Valais Gamay 2005, Le Blanc Assemblage 2004, o Marsanne Blanche 2004, o Clos des Bernunes Pinot Noir 2005, o Humagne Rouge 2005 e o Dôle du Valais 2006.

A Marsanne é uma branca originária do Vale do Ródano, onde é tradicional parceira da Roussanne, nos blends da região. Mas no Valais faz sozinha as honras da casa e se sai muito bem. A Humagne Rouge (tinta) é exclusiva da Suíça (assim como sua versão branca). Costuma resultar em vinhos impetuosos, fartos em taninos, que acompanham bem carne de caça. Já o Dôle se refere a um blend de Pinot Noir e Gamay, outra especialidade suíça.

Os participantes receberão do Consulado Geral da Suíça material informativo sobre vinhos, gastronomia e turismo. Informações e reservas pelos telefones: (21) 2235 7670 e 2235 3968. Vá conferir, amiga.

O perigo das pesquisas

by soniamelier em 5 de novembro de 2008 | 21:00

Grande parte das pessoas que conheço vai começar a cair morta no chão, a qualquer momento. É o que entendi da notícia que se espalhou pela Internet sobre um relatório feito por cientistas ingleses, da Universidade de Kingston, Londres. Ele fala sobre a existência de átomos de metais pesados em níveis perigosos nos vinhos: apenas uma taça diária de 250 ml de vinho tinto colocaria o consumidor em perigo de males como câncer e contrair o mal de Parkinson. A notícia teve origem no site da WebMed, especializado em medicina.

Segundo esse estudo, os vinhos de Portugal, Hungria, França e Áustria estão entre os mais contaminados pelos tais íons. Já os brasileiros, argentinos e italianos registraram níveis muito pequenos de "metais pesados".

‘O que me confunde ainda mais é que, da mesma Inglaterra, praticamente ao mesmo tempo, outro grupo de cientistas verifica que o vinho pode ser tomado (com moderação, claro) por gestantes

Os cientistas utilizaram uma fórmula (THQ, Target Health Quotient), uma espécie de quociente de saúde, em que 1 (um) é considerado um nível seguro. Mas, ao verificarem os níveis de metais como o vanádio, manganês, cromo, zinco, cobre, níquel e chumbo nos vinhos, os pesquisadores constataram que o gabarito ficava em torno de 110.

Um dos co-autores do relatório, o professor Declan Nauthton, sugere que os níveis de átomos fossem registrados nos rótulos dos vinhos e que a indústria deveria tomar providências para que esses metais fossem removidos durante o processo de produção. Talvez o tipo de solo, a utilização de pesticidas nos vinhedos, variedades de levedos ou até espécies de embalagens possam ser a origem desse aumento de níveis, especula o cientista. (Acontece que os vinhos já passam por eficientes processos de filtragem, o que certamente ajudariam a remover excessos desse tipo).

O problema não estaria restrito aos vinhos tintos: Declan alerta que também os vinhos brancos, sucos de laranja, cervejas pretas e até mesmo leite materno apresentaram o tal quociente acima de 1 (um).

A Food Standards Agency (FSA), agência governamental inglesa de proteção à saúde pública com relação a alimentos, disse que irá revisar as conclusões do referido relatório, explicando que os métodos utilizados pela equipe da Universidade de Kingston "não são muito utilizados na Europa".

O que me confunde ainda mais é que, da mesma Inglaterra, praticamente ao mesmo tempo, outro grupo de cientistas verifica que o vinho pode ser tomado (com moderação, claro) por gestantes. E, mais importante: as crianças nascidas de mulheres que durante a gravidez beberam em média de uma a duas taças por semana não apresentaram quaisquer tipos de déficits comportamentais e cognitivos. Ao contrário, até se sobressaíram com relação a filhos de mães abstêmias. A pesquisa foi realizada pelas Universidades do Colégio de Londres e Oxford. Leia a respeito aqui.

Por uma pesquisa, se bebermos vinhos, poderemos bater as botas a qualquer instante. Por outra, se bebermos esses mesmos vinhos, nossa vida e a de nossos filhos continuarão maravilhosas. Pesquisamos um pouco mais e chegamos à fonte da notícia publicada pela WebMed: ela está no Chemistry Central Journal.

E verificamos que os cientistas de Kingston analisaram apenas uma marca de vinho e em seguida projetaram resultados a partir da citada fórmula (THQ) sobre metais pesados em vinhos de 16 países. Ou seja: não analisaram dados produzidos por eles mesmos e que não foram coletados originalmente com o propósito de avaliações sobre saúde.

‘Vinho não é remédio. Também não é uma bomba letal entupida de metais pesados e nem foi feito para produzir crianças mais inteligentes. Apenas, há seis mil anos o vinho segue sendo um prazer a ser desfrutado com moderação

Todos sabem que a maioria dos metais citados (e encontrados nos vinhos) está em quase tudo o que comemos e são intensamente utilizados nas multivitaminas que consumimos. Agora, aproveitar-se de um estudo que ainda será checado (pela FSA) e alarmar consumidores é péssimo jornalismo.

Muitos textos que recebemos são quimeras, ilusões de comunicações, que podem resultar em decepções. E acho que o texto que originou todo esse alarme pode ser um exemplo dessa natureza.

A matéria foi escrita supostamente por um jornalista da WebMD Helth News, Daniel J. DeNoon, e revisado por uma médica, Louise Chang. Mas notei uma polarização, uma parcialidade. Vejam: já na home do site, a chamada é alarmante: "Wine Danger" ("Perigo do Vinho"). A matéria nos leva a pensar que podemos bater as botas a qualquer instante: basta apenas 250 ml de vinho tinto todos os dias.

Mas ao lermos sobre a pesquisa a partir de sua origem (no relatório do Chemistry Central Journal), verificamos que os cientistas de Kingston utilizaram dados de outros estudos. Um estudo por tabela. Não sabemos sobre os objetivos dos dados utilizados e aproveitados nesse trabalho.

A segunda pesquisa, sobre vinho durante a gestação, fez a mesma coisa: utilizou informações sobre 12.495 crianças de um projeto britânico que acompanha a saúde e bem-estar de crianças nascidas entre 2000 e 2002 na Inglaterra, Escócia, Irlanda do Norte e Gales. Outro resultado por tabela que a fonte da notícia (a "Wine Spectator") deixa bem claro.

Nos últimos tempos, tenho evitado comentar sobre estudos correlacionando vinho e saúde. Embora a maioria deles tenha resultados positivos e seja aparentemente bem baseada, pode, contudo, levar a idéias enganosas. Vinho não é remédio. Também não é uma bomba letal entupida de metais pesados e nem foi feito para produzir crianças mais inteligentes. Apenas, há seis mil anos o vinho segue sendo um prazer a ser desfrutado com moderação. E as pesquisas devem ser consumidas com mais moderação ainda.



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