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Quando misturar é melhorar

by soniamelier em 27 de agosto de 2008 | 21:00

A maioria dos vinhos finos do mundo é feita misturando-se diferentes variedades de uvas. Por aqui (e na maior parte do Novo Mundo), muita gente ainda pensa que vinhos feitos com apenas uma cepa são superiores aos feitos com mais de uma. Instintivamente, pensamos que um puro Cabernet Sauvignon é melhor do que uma mistura dessa cepa com outras duas ou três variedades.

‘Pense num prato de feijão. Agora, pense numa feijoada, um corte de mais uma dezena de elementos que resultarão num alimento mais complexo, com várias nuances, extremamente mais saboroso e estimulante, mas nunca ofuscando o importante papel do feijão

Porém, o vinho feito de uma cepa dominante, ou varietal, é uma herança recente, um conceito desenvolvido na Universidade da Califórnia, em Davis, logo depois do fim da Lei Seca, em 1933. Os produtores americanos foram encorajados a plantar cepas de melhor qualidade, o que resultou no sucesso dos vinhos da Califórnia a partir dos anos 70. Para começar, o consumidor americano aprendeu a distinguir um Cabernet, por exemplo, dos até então usuais rótulos vendidos no país com nomes genéricos, como "Borgonha" ou "Chablis". E de fato, ainda hoje continua sendo mais fácil identificar o vinho pela cepa do que pela região de origem, como é a regra há muitos séculos em grande parte da Europa.

No Velho Mundo, os vinicultores aprenderam a fazer com que o cravo não brigasse com a rosa. E, ao contrário, unissem seus aromas, formando uma nova e preciosa unidade. Se duas ou mais variedades de uvas de grande qualidade são misturadas, cada qual complementando a outra, o resultado final tende ser sempre mais interessante do que o vinho feito apenas com uma só variedade.

No Novo Mundo, o foco está sobre um punhado de algumas variedades: as brancas Chardonnay, Sauvignon Blanc e Riesling; e as tintas Merlot, Shiraz, Pinot Noir e Cabernet Sauvignon – o que torna mais fácil entendermos o que bebemos.

Os franceses, por exemplo, preferem se concentrar na origem do vinho e por isso não vamos encontrar a palavra Sauvignon Blanc numa garrafa de Sancerre, ou Pinot Noir num vinho da Borgonha, e Merlot num rótulo de Bordeaux.

Claro que temos grandes vinhos feitos de uma só variedade, seja no Vale do Mosela, Alemanha (com a Riesling), seja no norte do Vale do Ródano, França (Syrah), na Borgonha (Chardonnay ou Pinot Noir), em Marlborough, Nova Zelândia (Sauvignon Blanc) ou no Vale de Napa, Califórnia (Cabernet Sauvignon). Mas é bom observar que na maioria dos países do Novo Mundo é permitido aos produtores acrescentar de 15 a 25% de outras variedades ao vinho, sem que isso seja mencionado no rótulo.

Uma Chardonnay pode conter uma pobre Colombard, numa técnica descrita por um vinicultor como "o equivalente a colocar sardinhas no mingau de aveia". Ou seja: uma brecha que possibilita a redução de custos e, algumas vezes, aproximar a bebida do medíocre.

Mas o fato é que os vinhos de corte fazem a imensa maioria das melhores garrafas. As mais famosas regiões vinícolas européias – Rioja, Vale do Duro, sul do Ródano, Chianti, Champagne e Bordeaux, por exemplo – basearam o seu sucesso combinando duas ou mais variedades.

Pense num prato de feijão. Agora, pense numa feijoada, um corte de mais uma dezena de elementos que resultarão num alimento mais complexo, com várias nuances, extremamente mais saboroso e estimulante, mas nunca ofuscando o importante papel do feijão. Com os vinhos, temos, por exemplo, o tinto Châteauneuf-du-Pape, do sul do Ródano, que usa até 13 variedades de uvas, inclusive brancas.

Em Bordeaux, a tradição e a lei permitem até cinco variedades: Cabernet Sauvignon, Merlot e Cabernet Franc, com pequenas quantidades de Petit Verdot e Malbec. E esse costume provavelmente se originou para proteger o vinicultor de acidentes. A Merlot e a Cabernet Sauvignon, por exemplo, têm ciclos de desenvolvimento diferentes. A Merlot amadurece mais cedo, o que a livra dos riscos das chuvas de outono. Já a Cabernet só ficará pronta para a colheita mais tarde, o que a coloca sujeita às chuvas. Jogando com essas diferenças, o produtor sempre estará protegido, garantindo ainda que o resultado final seja melhor do que um vinho feito apenas de uma só variedade (e sujeito a problemas com o clima).

Tomado simplesmente, um vinho de corte é aquele que combina dois ou mais vinhos para criar um novo. E o vinicultor, fora proteger-se contra os azares do clima, como vimos acima, faz isso para melhorar os aromas e a cor da bebida, para ajudar o pH de um vinho, aumentar ou reduzir a acidez, o volume de álcool e os taninos. Ainda, ajuda a ajustar o açúcar; corrigir a presença em demasia do sabor de carvalho.

Ele pode também fazer corte de diferentes variedades, misturar uvas de variados vinhedos, de diversas safras, vinhos com vinificações desiguais ou de barris variados.

Ao realizar essas combinações, o vinicultor está muito mais do que misturando ou adicionando uma quantidade de vinho a outro. Está criando complexidade, uma diversidade de sabores e aromas originais, mais ricos do que os teríamos com o vinho de uma só variedade.

Essa, inclusive, é a grande hora do vinicultor, a sua hora de maestro da melodia resultante dessas combinações. Rodgers e Hart, dois dos maiores compositores populares de todos os tempos, autores de grandes clássicos da música americana (Blue Moon, Bewitched, The Lady is a Tramp etc.) tiveram no cantor e trompetista Chet Baker talvez o maior intérprete de My Funny Valentine – foi sem dúvida o seu mais inspirado vinicultor (já viu que sou fã de carteirinha do trompetista).

A leitora prefere só o baião ou acha melhor o baião de dois (feijão de corda e arroz numa mesma panela, como reza a receita de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira)? Prefere os vinhos combinados, de corte, ou os varietais? Clique aqui para o Bolsa ou para a Soninha no soniamelier@terra.com.br

Da Adega

Os melhores do Wine Brasil Awards 2008. Entre os vencedores a Miolo, Salton, Pizzato e Panizzon receberam medalha Grande Ouro. Casa Valduga, Goes & Venturini, Boscato, Cordelier, Don Abel, Luiz Argenta, entre outros, ficaram o Ouro. Outros 27 rótulos de 14 vinícolas ficaram com Prata. No total, apenas 44 vinhos foram premiados, na rigorosa avaliação de um júri composto por 15 especialistas de diferentes países. Na avaliação, seguiu-se os critérios da Organisation Internationale de la Vigne et du Vin. A lista completa com os vinhos vencedores pode ser conferida no site da revista Vinho Magazine, um dos organizadores do evento.

Medalha de Ouro para Cabernet da Valduga. O Casa Valduga Cabernet Sauvignon Premium 2005 garantiu a única medalha de ouro para o Brasil no VinAgora International Wine Competition 2008, realizado em Budapeste, Hungria. A safra de 2005 é considerada a melhor de todos os tempos no Brasil.

Questões de linguagem

by soniamelier em 20 de agosto de 2008 | 21:00

Rua Mata-Cavalos: Machado de Assis não cansa de citar essa rua, onde nasceu e morou por bom tempo Bentinho, o protagonista de Dom Casmurro. Mas por que Mata-Cavalos?

E por que Bordeaux, Chardonnay, Pinot, Merlot, Sauvignon, Petrus etc? Pois fizemos uma rápida investigação ao redor da etimologia de palavras recorrentes no mundo dos vinhos, sempre com a ajuda do Google, de alguns livros e de uma ótima cronista de vinhos, a americana Jennifer Rosen. Eis aí no que deu:

Como todos os diletantes sabem, o jargão do vinho tem matriz na França. E, nesse país, Bordeaux é rico em ofertas lingüísticas. Veja o seu próprio nome: eau é água; bord é beira, margem. Au bord de l'eau significa "ficar à beira d'água", que, no caso, é sentar-se à beira do estuário do Gironde (que desemboca no Atlântico) e seus tributários, os rios Garonne e Dordogne, que possibilitaram a Bordeaux tornar-se o sucesso que é hoje, com um importante porto comercial para vinhos e outros produtos.

‘O nome de duas das principais uvas de Bordeaux, cabernet sauvignon (para os tintos) e sauvignon blanc (brancos) dividem a mesma raiz: sauvignon vem de sauvage, selvagem.

Entre o Dordogne e o Garonne fica um pedaço de terra chamado, naturalmente, Entre-deux-mers, "entre dois mares".

Ao norte, na margem esquerda do Gironde, temos o Médoc, com apelações muito famosas pelos seus vinhos tintos: Margaux, Saint-Julien, Pauillac, Saint-Estèphe, Listrac e Moulis. Pois Médoc deve seu nome ao latim, Medicullicus, ou "terra dos Medulli", antiga tribo celta que ali habitava. O Médoc é terra dos grandes Châteaux. Na apelação de Pauillac, temos os Châteaux Lafite-Rothschild, Mouton-Rothschild e Latour, entre outros.

Lafite é o nome da família que foi dona dessa propriedade desde a Idade Média. Só em 1868 é que o Barão James de Rothschild adquiriu o château. Lafite vem do gascão, la hite ou "pequena colina". Mouton, propriedade de outro braço da família, significa carneiro, sempre presente nos rótulos de seus vinhos. A propriedade pertencia ao Baronato de Mouton. Latour refere-se à torre (tour) existente na entrada da propriedade.

Na apelação de Saint-Julien, ainda no Médoc, o Château Ducru-Beaucaillou é cortado por um belo riacho. E Beaucaillou é uma homenagem a esse riacho, pois beau caillou significa "belos seixos". Outra propriedade do Médoc, o Château Beychevelle recebeu esse nome em razão dos veleiros navegando pelo Gironde. Todas as vezes que passavam diante da propriedade baixavam suas velas, pois estavam chegando ao porto. O comando "baixar belas!" em francês é Basse Voile!, que com o tempo deu nome ao château: Beychevelle.

Um dos vinhos mais caros e mais reverenciados do mundo, o Petrus, na apelação do Pomerol, pegou o seu nome da palavra grega petros, que significa pedra. O nome foi transliterado para o latim como petrus, que deu origem a Pierre, Peter e Pedro.

O nome de duas das principais uvas de Bordeaux, cabernet sauvignon (para os tintos) e sauvignon blanc (brancos) dividem a mesma raiz: sauvignon vem de sauvage, selvagem. Merle é o nome dado a uma variedade de tordos e, no dialeto de Bordeaux, a um melro preto, o Merlot, outra das grandes uvas da região.

Já na Borgonha, só utilizam a Chardonnay (branca) e a Pinot Noir (tinta). Chardonnay vem do latim cardonnacum ou "lugar cheio de cardos". Cardo (do latim cardu) é aquela planta emblema nacional da Escócia. Já a Pinot Noir, a mais escura das uvas da família Pinot, deve seu nome ao formato de seus cachos: de uma pinha.

Alguns dos famosos vinhedos da Borgonha revelam origens singelas: Chambertin foi cultivado por um camponês chamado Bertin. Aquele era o seu champ, seu campo, espaço de terreno. A região da Campânia, na Itália, tem a mesma raiz, assim como Champagne e a nossa Campanha gaúcha.

Um prestigioso branco da Borgonha, o Chablis Grand Cru Les Grenouilles tem em sua propriedade um grande número de rãs: são as Grenouilles.

Os nomes dos rios Reno (Rhein), na Alemanha, e Ródano (Rhône), na França, possuem, ambos, raízes indo-européias. Mas o primeiro vem da raiz reie (fluir), e o segundo de ret (rodar, mas também pode ser assar, grelhar, tostar). Lá, a região do Côte Rôtie pode significar literalmente "declive tostado", pois é uma rocha fortemente banhada pelo sol.

‘Se houvesse uma vinícola por lá, por certo teríamos o vinho "Mata-Cavalos", nome não muito mais estranho do que Château das Rãs, do Baixa a Vela!, ou do que um vinho feito com a uva do melro preto

Na segunda metade do século XVI, bem antes dos tempos do Bentinho de Machado, quem quisesse tomar a direção de São Cristóvão, tinha que percorrer um caminho que saia dos Arcos da Lapa, contornava o Morro do Desterro (Santa Teresa) e seguir por uma trilha enfrentando perigosos atoleiros e barrancos, que muitas vezes não só impediam como matavam os animais. Esse era o Caminho (depois Estrada, e em seguida Rua) de Mata-Cavalos, hoje Rua do Riachuelo. Se houvesse uma vinícola por lá, por certo teríamos o vinho "Mata-Cavalos", nome não muito mais estranho do que Château das Rãs, do Baixa a Vela!, ou do que um vinho feito com a uva do melro preto.

Peço desculpas às leitoras que enviaram e-mails nas últimas duas semanas. Um piripaque eletrônico ocorreu no meu PC. Segundo os técnicos, pode ter sido uma entorse lombar, um resfriado, uma crise de fígado, um ataque de gota… Nossa, a lista ficou enorme. Enfim, o meu Outlook voltou a funcionar e agora tento colocar a correspondência. Continuem escrevendo aqui para o Bolsa ou para a Soninha.

Da Adega

Que tipo de vinho você é? Lá da Bahia, a leitora Ludmila Aguiar fez o teste (veja aqui) sugerido na coluna Um blend de assuntos. E descobriu que é a sofisticadíssima Pinot Noir. "Sofisticada e mundana, provavelmente você conhece mais sobre vinho do que a maioria dos degustadores. Tem excelente gosto e aborda todos os aspectos da vida com atitude de gourmet. Acredita que as pequenas coisas da vida devem ser valorizadas e apreciadas, desde que com a melhor qualidade possível. Demorar mais tempo em fazer uma refeição ou em dar uma volta pela cidade sempre será um tempo bem gasto. No fundo você é uma charmosa sedutora. Seu estilo em reuniões sociais é refinado – nunca 'festeiro'. Está melhor em companhia de queijos caros e de aromas intensos".

Ludmila, que faz parte da Confraria Amigas do Vinho, seção Salvador, implicou corretamente com a última frase do teste. Em inglês, é: "Your company is enjoyed best with: stinky expensive cheese". Stinky pode ser, literalmente, "fedorento". Mas acho que estavam mesmo é querendo indicar um queijo de aroma intenso, como são normalmente os queijos azuis, os Roquefort, Gorgonzola, Stilton.

Aliás, não concordo com a harmonização sugerida: um vinho como a Pinot Noir, elegante e sutil, seria facilmente sobrepujado por queijos muito intensos e musculosos.

Vinho de James Joyce na praça. Os vinhos suíços estão de volta ao Brasil, agora pelas mãos da importadora e distribuidora Vitis Vinifera, baseada no Rio de Janeiro. Entre eles, a leitora vai encontrar o Fendant du Valais, o branco com uva Chasselas, o preferido de James Joyce, célebre autor de Ulisses, Finnegans Wake (onde o vinho é citado), Retrato de um artista quando jovem, entre outras obras-primas. Compre pelo site da Vitis Vinifera.

Vertical de Haut Brion. A mesma Vitis Vinifera e a Escola Mar de Vinho realizarão no próximo dia 25, das 19h30m às 22h30m, uma vertical daqueles que muitos consideram o maior vinho do mundo: o Château Haut-Brion safras de 1988, 1996, 2001 e de 2002. A apresentação será do professor Marcelo Copello. O evento compreende ainda um jantar assinado pela chef Ciça Roxo. Não perca: as vagas são pouquíssimas. Informações e reservas: 21-2235-7670/2235-3968 e vanessa.miranda@vitisvinifera.com.br

O universo do vinho, sob o olhar feminino. Esse é o nome do novo projeto da Confraria Amigas do Vinho. A cada mês, a Confraria apresentará uma vinícola ou uma importadora. E o primeiro encontro acontecerá já no dia 2 de setembro, quando Bianca Bittencourt apresentará a Casa Valduga, sua história e seus vinhos. O encontro, que inclui degustação de vinhos da Valduga e um bufê de pães variados, queijos e pastas, acontecerá às 19h30m no Porto Bay Hotel (Av. Atlântica, 1500, Copacabana, Rio de Janeiro). Para ingressos fale com a Ana Valéria (21-9968-2454 ou imprensa.amigasdovinho@hotmail.com) ou Kátia Regina (21-9983-8318) ou Maria Lúcia, presidente nacional da Confraria (21-9797-8277 ou amigasdovinho@uol.com.br )

China, uma grande vinícola

by soniamelier em 13 de agosto de 2008 | 21:00

Se houvesse uma olimpíada para vinhos, a China ameaçaria ganhar, em pouco tempo, um punhado de medalhas. Imaginem se apenas uma pequena parcela de sua população, hoje de um bilhão e trezentos e trinta milhões de habitantes, passasse a consumir um litro de vinho por mês. Poderia até faltar vinho em nossas mesas! E a bebida começa a cair no gosto dos chineses…

Há cinco anos, a China mal conhecia vinho feito de uvas: era apenas um "acontecimento marginal", relata a minha guru e sempre citada Jancis Robinson. Mas nesse curto espaço de tempo, o país tornou-se o sexto maior produtor de uvas viníferas, com aspirações grandiosas de se tornar o maior produtor mundial de vinhos. Estima-se que até 2058, a China liderará a produção mundial, "com Cabernets capazes de concorrer com os de Bordeaux". Ela já possui os vinhedos, mas ainda não a técnica.

‘Há dez anos o consumo de vinho cresce no país: 50% na primeira metade dessa década, e estima-se em mais 70% na segunda metade. Claro que produtores, comerciantes e outros luminares do vinho no ocidente começaram a ver o país mais seriamente

No mercado de vinhos finos, a presença chinesa não é nada sutil. Os novos ricaços do país não param de correr atrás dos grands crus franceses. Por conta dessa voragem, os preços dos Romanée-Conti e Lafite, normalmente altíssimos, chegaram à estratosfera.

Jancis Robinson esteve na China em 2002, 2005 e recentemente, em março de 2008. Ficou impressionada com a baixa qualidade dos vinhos e com a grande proporção destes que buscavam lembrar, mesmo longinquamente, os tintos franceses. Em março, a crítica inglesa notou o grande número de chineses com aspirações crescentes pelo estilo de vida ocidental, e como o vinho tornou-se um acessório cada vez mais familiar a esse estilo.

Hoje, Hong Kong já rivaliza fortemente com Londres e Nova York como um importante centro comercial de vinhos. Estima-se que os colecionadores da Hong Kong respondam agora por um quarto dos vinhos vendidos em leilões. A atual empresa líder do mercado de leilões nos Estados Unidos, a Acker Merrall & Condit, realizou o seu primeiro evento em Hong Kong e a resposta foi exuberante: venderam US$ 8,2 milhões.

Há dez anos o consumo de vinho cresce no país: 50% na primeira metade dessa década, e estima-se em mais 70% na segunda metade. Claro que produtores, comerciantes e outros luminares do vinho no ocidente começaram a ver o país mais seriamente. O "imperador" do vinho Robert Parker, o mais famoso crítico do ocidente, acaba de fazer a sua primeira visita ao país, que incluiu um jantar de US$ 2.300 por cabeça na Grande Muralha. O site de Jancis Robinson já está sendo traduzido para o chinês. Contam-se às centenas as visitas de diretores de vinícolas para apresentar seus vinhos. Inclusive, produtores brasileiros ofereceram seus vinhos na International Wine Exposition em Shangai, em março último.

Novos ricos

Recentemente, um milionário chinês, David Li, participou de um badalado leilão em Napa, Califórnia, e adquiriu por meio milhão de dólares seis magnums do Screaming Eagle 1992 (é considerado o melhor Cabernet Sauvignon do país – e um dos melhores do mundo; uma garrafa custa a partir de US$ 1 mil, isso quando puder ser encontrada). David Li declarou que "os vinhos do Vale de Napa são os melhores do mundo".

E muita gente torce para que para que os demais novos ricos chineses imitem David Li. O problema é que eles cobiçam mesmo apenas os grandes vinhos franceses, particularmente os de Bordeaux e Borgonha: são suas pedras de toque, suas referências mais importantes. Já começaram a comprar vinícolas em Bordeaux, como acaba de acontecer com a venda do Château Latour-Laguens (que não tem relação com o famoso Château Latour). O Château Lafite transformou-se numa obsessão para os chineses fãs de vinho. Segundo apurou Jancis Robinson, eles preferem o Lafite a outros de mesmo porte, como o Mouton-Rothschild, Margaux, Latour ou o Haut-Brion, pois seu nome é mais fácil de pronunciar em mandarim do que os de outras marcas francesas. Será?

O caso é que os novos ricos chineses não diferem muito dos nossos: compram mais pelo prestígio do rótulo, bebem marcas famosas, o que está na moda (desde que seja em Paris, Londres ou Nova York).

Para evitar que os chineses limpem as adegas de vinhos finos ocidentais, só torcendo para que a indústria vinícola do país floresça. A China produz vinho desde a dinastia Han (206 a 220 A.C.). A bebida, porém, sempre foi estranha aos paladares chineses, tanto que a palavra mais usada para vinho é CHIEW, que significa genericamente bebida destilada e fermentada.

No fim dos anos 70, após a morte de Mao e a abertura da China para investimentos estrangeiros, um grupo de indústrias de bebidas ocidentais (Rémy Martin, Allied Domecq etc.) estabeleceu parcerias com vinícolas locais, que receberam equipamentos modernos e começaram a produzir vinhos ao nosso estilo, secos. Os vinhos chineses até então pareciam xaroposos e eram muito doces. Mais recentemente, verificou-se um aumento no número de pequenas vinícolas cujo objetivo é produzir vinhos com apelo internacional e, para isso, utilizam enólogos e consultores internacionais. Na província de Shanxi, um desses novos ricos, C. K. Chan, fundou uma vinícola que é réplica de um château francês, o Grace Vineyard (o nome está em inglês em razão da referência encontrada: seria "Vinhedo da Graça"). Produz um vinho com o blend clássico de Bordeaux (Cabernet, Merlot, Cabernet Franc), vendido a US$ 60,00 a garrafa.

‘O chinês vai saber rapidinho o estilo de vinho do ocidental. Vai demorar mais tempo em ajustar suas comidas, normalmente mais doces, mais picantes e ácidas, aos vinhos – que não serão os tintos que tanto produzem

No total, existem cerca de 450 vinícolas no país, da Mongólia, ao norte, até o Mar Amarelo, existe uma enorme faixa de terra compreendendo diferentes topografias, solos, climas e variedades de uvas. O sempre preciso crítico da Slate, Mike Steinberger, observa que não há razão para se pensar que o país não possa produzir vinhos de qualidade; a questão estaria em saber onde e com quais variedades. Mas a confiança é grande.

Bebida estranha

O fato é que para esse país continental e para a maioria dos mais de um bilhão de habitantes o vinho de uvas viníferas ainda é uma bebida estranha. Um experiente vinicultor inglês, Bartholomew Broadbent, sócio de uma vinícola a uns mil quilômetros a leste de Beijing, emprega um neozelandês como enólogo. Segundo ele, o maior desafio é "ensinar aos chineses a fazer vinhos adequados ao paladar ocidental. "Eles nunca provaram da comida ocidental e não existe ainda uma cultura do vinho. "Possuem a terra e o clima para fazerem um grande vinho; agora é só uma questão de treino". Essa vinícola já exporta vinhos para os Estados Unidos: um Cabernet Sauvignon, um Riesling e um Chardonnay, todos em torno dos US$ 13,00. Nenhum desses vinhos receberia uma medalha de ouro (ou 90 pontos de Robert Parker), diz Steinberger. Mas, acrescenta, "como diria Lao-tzu, uma jornada de vinhos de mil dólares começa com um simples gole".

O chinês vai saber rapidinho o estilo de vinho do ocidental. Vai demorar mais tempo em ajustar suas comidas, normalmente mais doces, mais picantes e ácidas, aos vinhos – que não serão os tintos que tanto produzem. Mas os brancos delicados e elegantes: os Rieslings da Alemanha e os Gewürztraminer da Alsácia, por exemplo.

No lugar do Lao-tzu, fico com o nosso grande Haroldo Barbosa, que já sabia há tempos que "lá na China ninguém se chama João, e o china come sentado no chão". É tudo diferente, menos a vontade de ganhar todos os ouros possíveis.

Um blend de assuntos

by soniamelier em 6 de agosto de 2008 | 21:00

"Sonia, venho guardando uns poucos vinhos numa velha geladeira, que deixei na lavanderia aqui de casa só para esse fim. Ouvi falar que isso não é bom, pois as rolhas ressecam. É verdade? Que outro lugar poderia guardar meus vinhos em casa?"

Querida leitora, ligada e numa temperatura constante, a geladeira é o pior lugar possível para guardar vinhos permanentemente. Sim, as rolhas vão ressecar, deixar o ar entrar e o líquido sair. Funciona só se ficarem muito pouco tempo: digamos, uma semana. Além disso, as geladeiras comuns vibram – e os vinhos precisam ficar em paz, quietos, caso contrário, os elementos que o constituem vão se confundir, se desestruturar. Pense num ônibus lotado, andando aos solavancos.

‘O Louis XIII é composto de mais de 1.200 dos melhores conhaques da Remy Martin, envelhecidos entre 40 e cem anos, em barris de carvalho da região de Limousin. Estima-se que cada garrafa teve a influência de pelo menos três gerações de mestres de adega

Os climatizadores são, na verdade, geladeiras que "funcionam mal", desligam-se mais vezes, permitindo um ambiente com umidade controlada, de modo a não ressecar as rolhas (sabemos o que acontece ao deixarmos a porta de um refrigerador mal fechada: em três tempos, tudo lá dentro fica gotejando). Além disso, mal vibram. Na falta de uma adega climatizada, buscaria um lugar escuro, o mais fresco da casa, como aquele cantinho debaixo da escada. Num apartamento sem cantinhos ou escadas, eu evitaria fazer uma adega. Compraria vinhos apenas para o dia-a-dia ou para um jantar especial.

"Qual o preço do conhaque Louis XIII Grand Champagne Très Vielle, da Remy Martin?" (Leitora possui uma garrafa deixada pelo seu pai, ainda no estojo original guardando uma bela garrafa de cristal Baccarat).

Apresar de ter procurado, não encontrei essa preciosidade em lojas brasileiras. Na França, numa loja especializada de Cognac, região onde o Louis XIII foi produzido, custa US$ 2.652,00. Imagine o seu preço ao chegar numa importadora daqui.

Por que tão caro? O Louis XIII é composto de mais de 1.200 dos melhores conhaques da Remy Martin, envelhecidos entre 40 e cem anos, em barris de carvalho da região de Limousin. Estima-se que cada garrafa teve a influência de pelo menos três gerações de mestres de adega (os encarregados pelos blendings) e do trabalho combinado de dez mil pessoas. Cada garrafa é feita à mão e exclusiva. Falam que as impressões de seus sabores permanecem em nossas bocas por uma hora. Seu fosse a leitora, ficaria com o Louis XIII e aproveitaria cada gota dele, brindando sempre a lembrança do pai. Caso resolva vendê-lo por aqui, tentaria o eBay.

Meu marido, ao provar um vinho que ele mesmo comprou, o desqualificou, dizendo que o mesmo estava com a "doença da rolha". Pediu que o jogasse fora. Mas será, Soninha, que esse mesmo vinho não daria para ser utilizado na cozinha? O tal do cheiro ruim não desapareceria na panela?

Amiga, só posso falar da minha experiência, que não foi boa ao tentar fazer o que você pretende. O molho que estava preparando era muito leve e o aroma de mofo, de jornal velho, ainda perdurou. Talvez, com molhos mais fortes esses aromas não fossem notados.

Um vinho com a doença da rolha (ou bouchonée, em francês) fica com aromas e sabores de mofo, para dizer o mínimo. Foi afetado pelo fungo do TCA (2,4,6 tricloroanisol), promovido ora pela exposição do carvalho a pesticidas, ou pelo processo de esterilização de rolhas de cortiças, à base de cloro.

O crítico inglês Oz Clarke descobriu um método para eliminar o TCA. Ele envolve uma agulha de tricô num plástico de cozinha (desses que utilizamos para embrulhar e proteger comidas), introduz esse bastão encapuzado na garrafa e agita bem. Aparentemente, o plástico absorve o TCA. O vinho perde um pouco de sua estrutura, mas pode ser utilizado na cozinha, pelo menos.

Que tipo de vinho é você? Desta vez quem fez a pergunta foi o computador. Respondi a um teste na Internet e descobri que sou um vinho com a uva Chardonnay. Sou uma Chardonnay, amigas!

O teste consta de cinco perguntas muito simples. A primeira foi sobre o tipo de fundo musical que prefiro num bar: eclética, jazz, retro, clássica, exótica? Escolhi jazz.

‘De resto, sou uma feliz Chardonnay, pelo menos até o próximo teste

A segunda, sobre a região de vinhos que escolheria para fazer um passeio. As opções compreendiam Austrália, África do Sul, Chile, França e Itália. Esqueceram do Brasil, Argentina, Uruguai, Estados Unidos, Nova Zelândia. Fiquei com a França.

Eu brindaria à amizade, paz mundial, alegria, vida ou à saúde? Fiquei com a amizade, nessa terceira prova.

E minha atitude quanto aos vinhos? Ela é casual (gosto, mas não faço muita questão); aberta (experimento qualquer coisa); moderna (conheço as novidades e sei o que experimentar em seguida); conhecedora (sei bastante a respeito e não me envergonho de ser um pouquinho esnobe)? Marquei a aberta: para um mundo tão diversificado quanto o do vinho, deixar de experimentar é perder tempo.

A quinta e última pergunta diz respeito a situações que lhe desagradem mais: infantilidades, sentir-se incompreendida, modas ultrapassadas, gente de baixo nível, falta de educação. Fiquei com a incompreensão. Para quem vive tentando se comunicar, a falta de entendimento é um sério problema, certo?

Daí que o resultado deu que sou um vinho como a Chardonnay. Sou: "fresca, espirituosa e clássica – sua personalidade tem muitas facetas. Você pode ser doce e leve. Ou profunda e complexa. Tem sempre algo a oferecer a qualquer pessoa: não espanta que seja tão popular. É acessível e jamais presunçosa, fácil de fazer amigos (e de amar). No fundo, você é modesta, digna de confiança, educada e despretensiosa. Fica melhor em companhia de carnes frias ou de caça".

Faça o teste você também, amiga. De minha parte tenho apenas um reparo: eu também sou chegada e muito a carnes quentes. De resto, sou uma feliz Chardonnay, pelo menos até o próximo teste.

Clique aqui, leitora, e saiba que tipo de vinho você é. E depois conte para o Bolsa ou para a Soninha para contar como se saiu.



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