Jurados de nove países julgarão vinhos nacionais na quinta edição, agora em agosto, do "Wine Brasil Awards 2008", Concurso Nacional de Vinhos Finos. A parte técnica da avaliação é regulada pelo Concours Mondial de Bruxelles, um dos maiores concursos de vinho do mundo, há décadas avaliando vinhos e impondo que as provas sejam feitas às cegas.
Aproveito o evento para voltar a comentar sobre degustações de vinhos feitas dessa maneira, às cegas, privilégio de degustadores muito experimentes. São obrigatórios nas dificílimas provas para Master of Wine e Master Sommelier, por exemplo. Não são para qualquer nariz. O objetivo fundamental é de que o degustador faça um exame da bebida de modo mais isento e objetivo possível, e impedir que seja influenciado por rótulos, e formatos e cores de garrafas.
Em 2005, falei aqui sobre um restaurante parisiense, o "Dans le Noir", dirigido e servido por cegos (perdão, deficientes visuais). O ambiente é um completo breu. Os clientes são levados às mesas por um garçom munido de lanterna (que presta apenas para os clientes). E prova do vinho às cegas, obrigatoriamente. É o restaurante que o escolhe. Pode ser divertido, mas eu teria dificuldades, pois me sentiria no "trem fantasma" de um parquinho de diversões. A cuca não ajudaria. Mas é no teste cego que vamos anular traços de subjetivismo que possam acompanhar os julgamentos. É, como chamei naquele artigo, uma prova de fogo, em que mesmo profissionais experientes cometem enganos, como demonstrou um teste feito pela Universidade da Califórnia, em Davis (cujo forte é a enologia).
Existem dois tipos de testes cegos: o duplo, no qual não sabemos nada sobre o vinho, a não ser o que vêm dentro da taça. Já no teste simples, sabemos pouquíssima coisa: ora a região, a safra ou as cepas. Ou uma mistura de alguns desses dados. O degustador tem uma tarefa parecida com a de Édipo diante da Esfinge: "Decifra-me ou te devoro".
Há alguns anos, o crítico de vinhos Oz Clarke foi levado a experimentar um tinto misterioso. Depois de muito cheirar e provar, o inglês declarou que estava indeciso entre o Paul Jaboulet Hermitage La Chapelle 1982 e o mesmo La Chapelle, mas da safra de 1983. É que, de brincadeira, misturaram em sua taça os dois vinhos. Um triunfo raro: o teste duplo, parece, avalia mais o provador do que o vinho.
Muita gente acha que esse tipo de prova é exclusivo dos vinhos. Nada disso: alimentos e bebidas são submetidos invariavelmente a testes cegos. E na medicina, também, na avaliação de exames, e em várias outras áreas de pesquisa científica.
Esse fundamento científico foi comprovado em passado recente a partir de uma celebre campanha publicitária da Pepsi-Cola (o "Desafio Pepsi", que rodou o mundo a partir de 1975). Nos comerciais da campanha, consumidores eram convidados a experimentar às cegas tanto a Pepsi quanto a Coca-Cola, sem saber qual marca estavam bebendo. Os consumidores invariavelmente preferiam o sabor da Pepsi.
O que os comerciais não diziam é que esse resultado não se refletia no resultado das vendas: a Coca-Cola era campeã absoluta. E, por isso, o Dr. Read Montague, neurocientista do Colégio Baylor de Medicina, no Texas, resolveu apurar as razões desse fato. Refez o desafio à sua maneira. Escaneou a atividade cerebral de voluntários através de um equipamento de imagens por ressonância magnética (MRI).
Na média, entre os consumidores de Pepsi, a resposta do putâmen, região do cérebro relacionada ao prazer e à satisfação, era cinco vezes mais ativa do que entre os consumidores de Coca.
Então, o neurologista repetiu a experiência, desta vez informando aos voluntários o que estavam bebendo. A atividade cerebral ficou alterada, em particular na área do córtex relacionada ao conhecimento. E a maioria disse agora preferir a Coca-Cola.
Na verdade, preferiram a imagem da marca e não exatamente o seu sabor. E as implicações com a degustação de vinhos são claras. Num teste cego, nossas preferências podem ser influenciadas por informações pré-existentes que eventualmente tenhamos sobre o vinho, seu produtor ou a região de origem.
No "Wine Brasil Awards 2008" teremos testes simples. Na prática do Concours Mondial de Bruxelles, o único detalhe revelado costuma ser o da safra. Os critérios dessa organização seguem modelos da OIV (Organização Internacional da Vinha e do Vinho, baseada na França, e da qual o Brasil é membro) e da União Internacional de Enólogos.
Assim, entre os dias 10 e 15 de agosto, em Bento Gonçalves, RS, 15 jurados estarão julgando cerca de 200 vinhos nacionais quanto aos seus aspectos visuais (clareza etc), olfativos (intensidade etc) e gustativos (intensidade, persistência etc). Deverão estar divididos em grupos para vinhos brancos, tintos, rosados, espumantes, secos, doces, fortificados e bebidas destiladas. A avaliação será feita num ambiente que garanta as melhores condições de luminosidade, umidade, temperatura e silêncio. Um vinho será considerado excelente se receber a nota máxima: 100 pontos. E os testes cegos simples me parecem ainda a melhor maneira de avaliar uma grande quantidade de vinhos, como é o caso.
Os testes abertos, quando conhecemos o rótulo, o nome do vinho, seu produtor, origem, entre outras coisas, são também importantes: o vinho é analisado dentro de um contexto, como um crítico analisa um filme sabendo tudo sobre o seu diretor, já tendo visto outros filmes dele. Como crítico, ele deverá manter-se imparcial, isento, objetivo.
O Wine Awards será realizado no Villa Europa Hotel & SPA do Vinho, situado no coração do Vale dos Vinhedos, na Serra Gaúcha. Ele oferecerá ao consumidor o aval de um júri altamente especializado e isento, e certamente ajudará a promover nossos vinhos aqui e no exterior. Estou certa, amiga, que nos sairemos muito bem. Testes cegos? É só esperar para ver.
Reúna amigos e sirva o vinho sem que vejam as garrafas. E conte aqui para o Bolsa ou para a Soninha (no soniamelier@terra.com.br) o que a turma conseguiu "adivinhar". Vai ser divertido.
Da Adega
Uvas e Cosméticos. Como vimos, o "Wine Brasil Awards 2008" será realizado no Villa Europa Hotel & SPA do Vinho. Esse SPA do Vinho justifica-se, pois lá os hóspedes poderão fazer tratamentos com vinhos ou com os produtos da francesa Caudalie, derivados da semente ou das cascas. Já existem linhas inteiras de maquiagem produzidas a partir da semente das uvas. Elas já demonstraram que possuem efeitos antioxidantes benéficos, seja para a redução da pressão arterial, para combater o mal de Alzheimer, o excesso de peso e o colesterol alto, segundo pesquisas recentes realizadas pela Universidade da Califórnia, em Davis. Essas pesquisas constituíram-se no primeiro estudo clínico em humanos para testar os efeitos dos extratos da semente de uva.
Conu Sur premiada. Três dos vinhos da Cono Sur, a 2ª maior vinícola chilena, acabam de ser premiados. O Cono Sur Bicicleta Pinot Noir 2007 ficou como "vinho tinto de melhor relação custo-benefício" pelo guia "The Best Wine of Ireland".
Num dos certames mais importantes da Ásia, o "Korea Wine Challenge", a vinícola ficou com o título de "Melhor Vinho Tinto Chileno", com o seu "Cono Sur 20 Barrels Limited Edition Merlot 2006" (que concorreu com 776 outros vinhos). E o seu "Cono Sur 20 Barrels Limited Edition Sauvignon Blanc 2007" recebeu medalha de ouro.
Os vinhos Cono Sur são distribuídos, com exclusividade no Brasil, pela Wine Premium, no televendas (11) 3040-3434 ou no quiosque da importadora no Shopping Villa Lobos em São Paulo.