» 2008 » junhoSoniaMelier

Até debaixo d’água

by soniamelier em 25 de junho de 2008 | 21:00

Vamos viajar um pouco. A Louis Roederer, uma das mais antigas casas de Champagne, fundada em 1776, decidiu amadurecer o seu espumante mais famoso, o Cristal, debaixo d'água. Vai testar uma nova maneira de amadurecer seus vinhos, depositados agora a 15 metros de profundidade na baía do Mont Saint Michel (Monte de São Miguel), na Normandia, França.

Vão ficar lá por 12 meses, embalados pelo mar da Mancha a uma temperatura constante de 10º C, com pouquíssima ou nenhuma luz e, claro, sem problemas de umidade. Lá embaixo estão caixas da Brut Premier e da Cristal 2002. Em junho de 2009 vão retirar essas garrafas da baía e compará-las com as que são normalmente guardadas em terra firme, na vasta adega de Roederer em Reims (guarda até três milhões de garrafas).

‘Agora mesmo descobriram ânforas de vinho na costa sul do Mediterrâneo: um navio que teria afundado há mais de 2.400 anos carregado com mais de 500 ânforas de vinho

Sobre o Champagne Cristal a leitora já deve ter ouvido falar. Sua garrafa é de cristal, com o fundo chato. Foi criada assim, especialmente para o Czar Alexandre II, da Rússia. O imperador temia atentados contra a sua vida e que as garrafas verdes, normalmente utilizadas, escondessem uma bomba. Daí que Louis Roederer encomendou uma garrafa especial, branca, para que Alexandre pudesse ver nitidamente o seu conteúdo. Ela também não poderia ser côncava na base (um recurso para reforçar a garrafa em razão de grande pressão interna). Tinha então que ser um vidro mais forte, de cristal e ter o fundo plano. E assim nasceu a Cristal, criada exclusivamente para Alexandre II em 1876, e só comercializada em 1945. Foi a primeira cuvée de prestige (o rótulo premium, o de melhor qualidade) criada na França. Seu preço é altíssimo: nos Estados Unidos, uma garrafa de 750 ml custa de US$ 350 para cima. Aqui, na Imigrantes Bebidas, fica por uns R$ 1.600,00.

São preciosidades como essas que serão testadas debaixo d'água. Outros produtores já fizeram esse teste, mas com vinhos parados. Apenas, essa não seria essa a primeira vez que espumantes ficaram amadurecendo debaixo d'água e muito mais do que um ano.

Agora mesmo descobriram ânforas de vinho na costa sul do Mediterrâneo: um navio que teria afundado há mais de 2.400 anos carregado com mais de 500 ânforas de vinho. Arqueólogos de Chipre dizem que ele estaria carregando o renomado vinho tinto de Quíos, talvez o mais caro vinho grego do período clássico e, segundo a mitologia, o primeiro vinho tinto a ser produzido. Esse vinho ainda não foi provado, mas certamente já passou do ponto.

Houve, porém, um primeiro teste, acidental, antes que mergulhassem a Cristal no mar. E parece que os resultados foram excelentes. Continue ligada, pois a nossa viagem continua.

Em 1849, o Niantic, baleeiro adaptado para veleiro de passageiros, chega à enseada de Yerba Buena, na Califórnia. Não consegue aportar, com o cais congestionado e o mar coalhado de barcos – que trouxeram milhares de aventureiros de todas as partes do mundo dispostos a participarem da corrida do ouro, que começara um ano antes.

Yerba Buena ("Erva Boa") era o nome original da cidade de São Francisco, que se tornara americana em 1848. A tripulação do Niantic conseguiu encalhar o navio na praia, abandonando-o em busca dos tesouros em terra firme. O barco, então, foi transformado num cortiço, com varandas, quartos, escadas, uma paliçada em volta. Em seguida, foi convertido em armazém, loja, escritórios e, finalmente, num hotel, o Niantic Hotel, que chegou a ser descrito como o melhor de San Francisco (o Niantic é hoje um marco da cidade: fica na confluência das ruas Clay e Sansome, no Distrito Financeiro).

‘Vinho é isso mesmo, leitora: uma garrafa, uma grande viagem. É prazer até debaixo d'água

No quinto grande incêndio da cidade, ele só não foi totalmente queimado porque a areia socada de água à sua volta o protegeu. O hotel foi demolido em 1872, quando então descobriram o casco do velho baleeiro. E no porão inundado havia 35 cestas cheias de garrafas do champagne Jacquesson, uma casa fundada em 1798 por Madame Memmie Jacquesson. Foi o champanhe servido no casamento de Napoleão com Marie-Louise, da Áustria, e chegou a ser premiado pelo imperador Bonaparte com uma medalha de ouro, em 1810.

As garrafas encontradas no porão do Niantic foram imediatamente consumidas. E quem as consumiu, Dionis Coffin Riggs, bisneta do dono do veleiro, as elogiou bastante. Mas a viagem continua.

Por sua morte, o filho de Madame Jacquesson, Adolphe, a sucedeu. E é ele quem está por trás de importantíssimas descobertas e invenções que fizeram desse estilo de vinho o que ele é hoje.

Por exemplo, videiras plantadas em fileiras; a criação, com a ajuda do químico Jean-Baptiste François, do processo de medir a densidade do açúcar dentro da garrafa, evitando que elas explodissem. Esse método é conhecido como "réduction François". Até que fosse criado, os produtores não conseguiam acertar na dose correta de açúcar que iria promover a segunda fermentação na garrafa. O resultado era a produção de dióxido de carbono (as nossas bolinhas) em demasia, resultando em desastres. Por fim, foi Adolphe quem patenteou o "muselet", aquela tela de arame protetora das rolhas, marca clássica de todos os espumantes até hoje.

A Roederer, com a Cristal, é mais uma casa a testar as possibilidades de armazenar vinhos nas profundidades dos oceanos. Pelo que aconteceu com a Jacquesson, sabemos que pode dar certo. O perigo é algum pirata com pés de pato passar a mão nesse tesouro borbulhante. Mas São Miguel Arcanjo, lá do alto da abadia criada em 708 e hoje um patrimônio da humanidade, acostumado a combater Satã e que ajudou a manter o monte, então fortaleza, inexpugnável aos ingleses durante a guerra dos Cem Anos, saberá defender as preciosidades no fundo de sua baía, assim como São Francisco fez com as garrafas do Jacquesson.

Vinho é isso mesmo, leitora: uma garrafa, uma grande viagem. É prazer até debaixo d'água.

Da Adega

Mulher Melancia. Na matéria passada, O molde perfeito, sobre grandes mulheres da história cujos seios teriam inspirado a criação de taças de champanhe, pergunto que tipo de objeto a "Mulher Melancia" poderia inspirar. E a leitora Rebeca sugeriu: "uma fruteira". Taí, apropriado. Quem tiver outras sugestões é só clicar para o Bolsa ou para a Soninha no soniamelier@terra.com.br

Ouro à venda. Leitora possui preciosidades como magnums do Château Mouton Rotschild 1947, garrafas do Château Latour 1982, do Margaux 82, do Haut-Brion 61, do Cheval Blanc 82, do Léoville Las Cases e do La Mission Haut-Brion. Ela precisa vendê-las, pois vai viajar e não quer danificá-las no transporte. Todas estão muito bem guardadas em adega climatizada e com rótulos em bom estado, segundo a leitora. O transporte adequado para elas sairia muito caro. O jeito, então, será se desfazer delas. O que fazer? Promover um leilão? Alguma leitora interessada? Alguma dica de leiloeiro especializado? Qual a sua sugestão para ajudar a leitora? Olha que ela mora perto de Brasília.

Molde perfeito

by soniamelier em 18 de junho de 2008 | 21:00

Afinal, os seios de Maria Antonieta deram ou não origem à taça de champagne? Falamos da coupe, aquela larga, de pouca profundidade, volta e meia ainda utilizadas.

Numa ótima resenha sobre o livro "Presença do Vinho no Brasil" (sobre o qual já falamos aqui), o jornalista Luiz Carlos Zanoni, do Paraná-Online, menciona uma palestra do grande Carlos Cabral, autor do livro, que teria falado que "o bojo das primeiras taças da bebida foi modelado tomando como medida os seios de Maria Antonieta". Teria fundamento essa afirmação, pois são várias as lendas que cercam a criação dessa taça? Qual a verdadeira?

‘Os deuses gregos estavam tão encantados com Helena, que ordenaram a Paris que tirasse um molde dos seios da rainha em cera. Paris teria feito isso e muito mais. Paris acabou ficando com a rainha inteira. E deu naquela encrenca toda

Na primeira delas, foram os seios de Helena de Tróia que serviram de modelo. O autor romano Plínio teria sido o primeiro a contar essa história: uma taça de bronze teria sido moldada a partir dos seios de Helena. Ou seja: ela teria sido feita há mais de 1300 anos, ao fim da Idade do Bronze. Falam que, na Antiguidade, o original dessa taça era guardado num tempo da ilha de Rhodes. Segundo o autor belga Maurice des Ombiaux (1868-1943), os deuses gregos estavam tão encantados com Helena, que ordenaram a Paris que tirasse um molde dos seios da rainha em cera. Paris teria feito isso e muito mais. Paris acabou ficando com a rainha inteira. E deu naquela encrenca toda.

Hoje, essas taças, mas em vidro, são apresentadas aos turistas que visitam o sítio onde teria existido Tróia, na atual Turquia, num comércio que se repete, por exemplo, no Egito, quando os comerciantes nos oferecem um pedaço da tumba de algum faraó. Acredite se quiser. De qualquer modo, os seios femininos sempre foram particularmente apreciados. Na antiga Grécia, as mulheres andavam com eles à mostra, como comprovam afrescos e vasilhames.

Na Idade Média, Henrique II da França (1519-1559), rei francês, teria ordenado que se fizessem taças a partir dos seios de sua amante, Diane de Poitiers (1499-1566). Seriam seios "semelhantes a maçãs", sempre a fruta do pecado a pontificar.

Só que tanto no tempo de Helena, quanto no de Diana, o vinho espumante ainda não havia sido criado – o que só vai acontecer a partir do século 17. Mas, sem dúvidas, as taças poderiam ter servido para o vinho parado.

Depois, no fim do século 18, a lenda chega à rainha Maria Antonieta (1755-1793), esposa de Luís XVI. E pelo menos aqui temos alguns fundamentos. Por ordem do rei, a fábrica de porcelana de Sèvres teria criado moldes do nobre modelo e produzido quatro taças brancas, cada qual montada sobre uma base composta por três cabeças de cabra. Tudo para adorno e também uso na leiteria da rainha no castelo de Rambouillet, perto de Versalhes. Eram vasilhames comuns na época, derivados de antigas tigelas gregas que lembravam seios femininos (chamavam de mastóide – de mastos, seios em grego).

Mas não há documento que suporte essa teoria. Essas taças, originalmente em porcelana, destinadas ao consumo de leite, continuam a ser feitas até hoje pela fábrica de Sèvres. Veja as taças aqui: são as famosas "jattes tétons", mais ou menos "tigela de mamas". Foram feitas para beber-se leite e não champanhe. O filme de Sofia Coppola deixa bem claro esse lado "rural" da rainha, com farto consumo de leite de cabra na vila campestre existente no "Petit Trianon" e em Rambouillet. No mesmo filme, assistimos ao consumo regular do espumante, mas em coupes de cristal.

As quatro taças originais sobrevivem no Museu Nacional de Cerâmica, em Sèvres, em Paris – e reproduções dos mesmos podem ser encomendadas por interessados em arte, leite ou peitos.

A lenda não se encerra em Maria Antonieta. A rainha tinha na corte francesa uma séria concorrente, a célebre Madame Pompadour (1721-1764), amante do sogro de Antonieta, o rei Luís XV. Ela teria mandado fazer taças modeladas em seus seios para presentear o seu amante. Também não há comprovação. O único e eventual fundamento seria a de ter sido a grande incentivadora da fundação da fábrica de Sèvres.

Outra amante de Luís XV, a Madame du Barry (1743-1793), está também nessa lista de seios famosos originando essa lenda. Contam dela a mesma história de Madame Pompadour. Nossa, Luís XV devia ter uma senhora coleção de taças!

‘Aliás, ele não só modelou os seios, mas toda a Pauline, na glória de seus 25 anos, criando a escultura conhecida como "Vênus Victrix", ou Vênus Vitoriosa

Pauline Bonaparte (1780-1825) é a suspeita seguinte. Irmã mais nova e favorita do imperador Bonaparte, mulher de grande beleza, sempre foi levada da breca, de comportamento considerado "inconveniente", teve seus seios modelados em gesso por Antonio Canova, um celebrado escultor neoclássico italiano. Aliás, ele não só modelou os seios, mas toda a Pauline, na glória de seus 25 anos, criando a escultura conhecida como "Vênus Victrix", ou Vênus Vitoriosa. A peça é hoje uma das maiores atrações da Galeria Borghese, em Roma. Veja aqui.

Porém, mais uma vez, não há provas. O caso é que o escultor tirava moldes de partes dos corpos de seus modelos para realizar o trabalho final. Os moldes dos belíssimos seios de Pauline ainda existem. Mas desconhecem-se as taças.

Falam também que Joséphine de Beauharnais, a primeira esposa de Napoleão, teria mandado modelar seus seios para a criação de coupes. A lenda aqui se baseia apenas no grande consumo do espumante feito pela imperatriz. As contas que chegavam deixavam Napoleão horrorizado. Mas a história se repete: é a mesma que cerca Diana de Poitiers, Pompadour e du Barry.

As referências históricas garantem que a coupe foi criada na Inglaterra, em 1663, especialmente para os espumantes, fato que tira do páreo praticamente todas essas divas. A coupe, a taça rasa, quase um pires, é a pior escolha para um espumante, pois as bolhas se perdem rapidamente e o aroma do vinho não é devidamente apreciado. Uma taça de bojo comprido e estreito, em forma de tulipa, a flûte (ou "flauta"), tomou o seu lugar. Ela garante uma perlage (as borbulhas de gás carbônico) mais longa, mais sabores e aromas por mais tempo.

Ao longo da história, fantasias amorosas quase sempre juntavam o vinho a um fetiche, como as taças. E até sapatos, que eram retirados de jovens e através do qual o champanhe era bebido.

Leitora, para você, que tipo de objeto relacionado a vinhos uma personalidade de momento como a "Mulher Melancia" poderia inspirar? Responda aqui para o Bolsa ou para a Soninha, no soniamelier@terra.com.br

Da Adega

Vinhos da África do Sul. Não perca amanhã a degustação dos vinhos Five Heirs, da África do Sul. A promoção é do Dionísio Clube e a degustação será gratuita, comentada e dirigida pelos sommeliers da Importadora Paralelo 35 Sul. A linha de vinhos Five Heirs é o resultado da união de duas propriedades sul-africanas com 300 anos de tradição: a Lourensford e a Lanzerac, vinícolas fundadas no século 18. Será no Casa Shopping, loja E, bloco D (Av. Ayrton Senna, 2.150, Barra, Rio de Janeiro), Tel.: 21-2431-0592. Dia 20 de junho, às 20 h.

Um ano de Vinhos DOC. O site especializado em enogastronomia completa um ano de vida agora em junho. Motivo para uma grande celebração no Hotel Porto Bay Rio Internacional (Av. Atlântica, 1500, Copacabana, Rio de Janeiro), dia 2 de julho. Compareça: dez renomados importadores farão a degustação das novidades que chegaram ao Brasil e que já estão disponíveis na Vinhos DOC. Degustação naturalmente amparada por um bufê de queijos, pães, patês e frios. Para encerrar, uma apresentação da cantora Denise Krammer. Dia 2, das oito à meia-noite. Clique no site para saber mais.

Iniciação à Enologia. Já nas livrarias o Manual Didático do Vinho: iniciação à enologia, de autoria de Daniel Pinto, Presidente da Sociedade Brasileira dos Amigos do Vinho – SBAV-SP. O livro, editado pela Anhembi-Morumbi, é um guia completíssimo, com 624 páginas, cobrindo desde a escolha da uva, métodos de cultivo, variedade de uvas, vinificação de diferentes tipos de vinhos, etapas da análise sensorial, harmonização com alimentos, chegando até à degustação final da bebida. Daniel Pinto é médico e professor de enologia e gastronomia da Universidade Anhembi-Morumbi, além de membro do Porto Vintage Club e do corpo de degustadores das revistas "Vinho Magazine", "Gula" e "Prazeres da Mesa". Mais informações no site da SBAV-SP ou pelo telefone (11) 3814-7905.

Dionísio, Valentim e Antônio

by soniamelier em 11 de junho de 2008 | 21:00

Uma amiga pediu dicas para o Dia dos Namorados. Naturalmente, relacionadas ao vinho – até porque o seu parceiro atual, segundo ela, é um honesto interessado em saber mais sobre a bebida. Recebo muitos pedidos como esse e costumo responder com indicações de rótulos que possam garantir o sucesso de um encontro no dia de hoje.

Mas minha amiga estava mais interessada em livros. Ela queria algo que pudesse sobreviver a uma data, que pudesse se eternizar. Embora um vinho, dependendo da ocasião, possa ter essa capacidade (e penso também que o amor seja uma símbolo de eternidade), acho que minha amiga queria algo que desse alguma base ao interesse de seu namorado pelos vinhos.

‘O vinho sempre esteve ligado de alguma maneira ao amor, a felicidade, ao prazer, ao convívio prazeroso dos casais

O vinho sempre esteve ligado de alguma maneira ao amor, a felicidade, ao prazer, ao convívio prazeroso dos casais. E há milhares de anos, desde quando Dionísio foi empossado como deus do vinho, da alegria e dos ciclos vitais, as mulheres vêm desempenhando uma parte fundamental nesse convívio. Afinal, nós éramos as únicas a participar dos ritos religiosos que aconteciam, entre dezembro e fevereiro, no monte Parnaso, próximo a Tebas, Grécia. Milhares de mulheres se vestiam como mênades, as sacerdotisas do deus, e dançavam durante dias num frenesi que chegava à histeria coletiva, em torno de um falo gigantesco (komos, talvez a raiz da palavra comédia). Elas procuravam ressucitar Dionísio. Pois no inverno do hemisfério norte, o deus estava simbolicamente morto, desmembrado e esmagado na vindima, as videiras estavam estéreis.

Mas logo, com a chegada a primavera, Dionísio e suas uvas voltariam à vida, tornariam-se férteis. Esses ritos, ou festas, que em Roma eram chamados de Saturnália, estão na origem do Carnaval. Não espanta que o Dia dos Namorados na América e na Europa seja celebrado em fevereiro. Lá chamam o 14 de fevereiro de Dia de São Valentim. Diz a história que um imperador romano, Caldeus II, proibira os casamentos de modo a formar um grande exército, acreditando que jovens solteiros se alistassem com mais facilidade. Contudo, Valentim, um bispo romando, continou a celebrar casamentos. Foi preso e condenado à morte. Enquanto na prisão, jovens jogavam flores e enviavam bilhetes dizendo que ainda acreditavam no amor. Valentim foi decapitado em 14 de fevereiro de 270 d.C.

Outras histórias falam que a data foi associada a romance na Idade Média, possivelmente em razão do início da primavera e da estação de acasalamento dos pássaros. Só no século 18 é que começaram a acontecer a troca de chocolates, jantares à luz de velas etc. que conhecemos hoje.

No Brasil, comemoramos hoje, na véspera do Dia de Santo Antônio, o santo casamenteiro – possivelmente pela importância que dava à união familiar. O hábito de "ficar" ainda não era admitido nas aventuras românticas (mas que era praticado, isso era).

Mostrei para a minha amiga indicações de livros que tinha feito a um leitor da coluna, que também queria aprender mais sobre vinhos. E ela aparentemente gostou.

Indicamos apenas dois livros, sabendo que ficaram de fora centenas de possíveis indicações. Utilizei dois critérios: um deles é dar preferência a textos em português. Outra, a de que o predicado apoiando minhas indicações fosse baseado no fato de que não existe "melhor" ou "pior" no mundo dos vinhos, mas sim "diferenças". No fato de que nos dispomos a comprar uma garrafa de vinho para beber e sonhar e não para investir, colecionar ou porque a revista famosa ou o crítico célebre concederam tantos e tantos pontos de uma escala de gosto absurda. Enfim, livros que expliquem a razão do vinho mais do que "qual o vinho".

O primeiro livro é a maravilhosa e obrigatória "A História do Vinho", do inglês Hugh Johnson (Companhia das Letras, ISBN 85-7164-867-0). Por ele vamos entender o porquê da paixão pelo fermentado de uvas (e não o de maçãs, pêras, batatas, bananas, beterrabas etc.). E a resposta que Johnson nos dá acompanha a própria história da humanidade desde os seus primórdios. Ele se aventura por épocas que quase não deixaram vestígios e nos explica o motivo pelo qual, ao longo de milênios, entre tantos produtos de uso diários, só o vinho adquiriu significado sacramental, poderes terapêuticos. Ou seja, vida própria. Ele foi fonte de conforto e coragem, único remédio, o principal luxo de nossa espécie. Johnson nos ensina o que fez com que, no início da história, "os homens estabelecessem entre os vinhos distinções que não estabeleceram entre nenhum outro tipo de bebida ou de alimento" e por que "o vinho tem uma história inseparável do drama e da política, das religiões e das guerras". Como aponta a apresentação da obra, "A História do Vinho" é também a história do prazer e da arte de viver, "sem a qual nenhuma civilização merece tal nome".

E nesse livro, a leitora vai saber direitinho o papel de Dionísio na história desses prazeres.

O segundo é Tintos e Brancos, de Saul Galvão (Editora Ática, ISBN 85-08-06539-6). Saul é um veterano jornalista (está há décadas no Estadão, onde mantém um blog), crítico de vinhos, autor ("Os prazeres da mesa", "A cozinha e seus vinhos" etc.) e ainda faz palestra e orienta degustações.

Seu livro é uma orientação ao consumidor na apreciação e na compra da bebida. "A intenção ainda é a de prepará-lo para que possa fazer suas próprias escolhas diante do emaranhado de rótulos, denominações e tipos". Ele cobre agilmente a história da bebida, como ela é feita, os tipos de uva, como degustar, as harmonizações, o serviço etc. A maior parte da obra é dedicada às principais regiões vinícolas do mundo, valorizando necessariamente o Brasil (que tem mais páginas do que o Chile). A minha edição apresenta ainda um Guia do Consumidor, com indicações de compra de vinhos nacionais e importados.

Um brasileiro natural de Marechal Cândido de Rondon, um município no oeste paranaense, a 600 km de Curitiba, começou assim, lendo, aprendendo. Dirceu Vianna Júnior está a um passo de se tornar o primeiro brasileiro a conquistar um título exclusivíssimo, que apenas 251 pessoas têm no mundo: o de Master of Wine, igualando-se a uma Jancis Robinson. Será que o namorado de minha amiga vai abandoná-la e tentar ser um Master of Wine?

Como você vai festejar o dia de hoje, leitora? Conte o que acha aqui para o Bolsa ou para a Soninha no soniamelier@terra.com.br

Da Adega

Espumantes. Se você quiser festejar com espumantes, presença clássica nessa data, dê uma olhada nos mais premiados do V Concurso do Espumante Fino Brasileiro, realizado em setembro de 2007, em Garibaldi, RS.

Falando sério

by soniamelier em 4 de junho de 2008 | 21:00

1. Lua Cheia. O consumo de álcool sempre cai durante o período de lua cheia.

2. Lua de Mel. Na antiga Babilônia (a grande cidade-estado entre o Tigre e o Eufrates, próxima da atual Bagdá, fundada mais ou menos no século 18 a.C.), o pai da noiva fornecia uma grande quantidade de vinho de mel (mel fermentado e água) ao seu futuro genro, para que ele pudesse beber à vontade um mês antes do casório. Como utilizavam o calendário baseado nas fases da lua, esse período de vinho de mel grátis era chamado de "mês da lua" ou a hoje conhecida "lua de mel" (que seria problemática se o noivo passasse bebendo antes do casamento).

3. Ilusão. Beber faz cair a temperatura do corpo. Há uma ilusão de que nossa temperatura aumenta. É que o álcool faz dilatar nossas veias capilares, favorecendo a admissão de mais sangue morno.

4. Viagens. Fernão Magalhães (1480-1521), o navegador português que, a serviço da Espanha, realizou a primeira viagem de circunavegação, numa aventura que durou três anos (1519 a 1522), abasteceu sua frota com mais vinho Jerez do que com armas. Jerez, a leitora já sabe, é o vinho fortificado feito em torno da cidade de Jerez, Espanha. Ele seguiu os passos de Cristóvão Colombo, que trouxe na bagagem muito desse vinho tão prezado por Shakespeare (o bardo inglês menciona a bebida nada menos do que 50 vezes em oito de suas peças).

5. Leite. Apenas um copo de leite pode resultar em 0,2 de taxa de álcool no sangue. Em alguns estados norte-americanos, essa pequena quantidade pode levar menores de 21 anos a perder a licença de motorista (fora outras penalidades).

6. Proof (inglês para prova, evidência). Essa palavrinha está em rótulos de muitas bebidas alcoólicas. É uma medida de quanto de etanol existe nelas: corresponde a aproximadamente duas vezes a taxa de álcool por volume. Se numa garrafa de gim, por exemplo, lemos 80 proof, a bebida tem 40% de álcool na garrafa.

A expressão se originou em 1651, quando os pagamentos aos marinheiros ingleses incluíam rações de rum. Para assegurar que a bebida não havia sido batizada com água, faziam uma prova, adicionando pólvora. Se a bebida não inflamasse, é porque tinha sido misturada com água. Já se pegasse fogo, todos ficavam contentes. A Marinha Britânica acabou com essa prática apenas em 1970.

7. Speakeasy. Era um botequim clandestino nos tempos da Lei Seca nos Estados Unidos (1920-1933). A palavra, uma gíria, aparentemente teve origem no fato de que as pessoas sussurravam uma senha, uma palavra código através de uma fenda na porta do boteco para poder entrar. Daí o "fala fácil" ou "fala baixo", numa tentativa de tradução.

8. Whiskey e Whisky. Com o "e", whiskey é o destilado de grãos nos Estados Unidos e Irlanda. A palavra se origina do gaélico "uisge beatha" e quer dizer "água da vida" (que com o tempo foi abreviada e corrompida, resultando no "whiskey"). Já Whisky, sem o "e", é o mesmo destilado de grãos, mas na Escócia e Canadá.

9. O nosso alambique. O corpo humano produz naturalmente o seu próprio suprimento de álcool, de modo contínuo, 24 horas por dia, sete dias por semana. Os níveis normais dessa produção ficam entre 0,01 e 0,03 mg de álcool na corrente sangüínea. Embora produzamos nosso próprio álcool, ainda se desconhecem a razão pela qual algumas pessoas desenvolvem reações alérgicas quando bebem.

10. É proibido proibir. A Lei Seca, a mesma referida no item 7, enriqueceu muita gente. A mais famosa delas, Al Capone, faturava 60 milhões (isso mesmo, 60 milhões) de dólares por ano (sem impostos, claro). Mas nem todos se beneficiavam. No período, em Chicago, uma espécie de central do crime do país (talvez o Rio de Janeiro da época), cerca de 800 gângsters foram mortos em tiroteios (entre eles ou com a polícia) e milhares de pessoas morreram, ficaram cegas ou paralíticas em razão de bebidas contaminadas (feitas em fundos de quintal etc.).

11. O famoso terroir. Vinho bom costuma vir de solos pobres ("quanto pior, melhor", afirma o livro Wine For Dummies, de Ed McCarthy e Mary Ewing-Mulligan).

12. Cwrw. Essa é a palavra para cerveja no País de Gales, Grã-Bretanha. Sua pronúncia aproximada é "cu-ru".

13. As bolhas. Estima-se em 49 bilhões a quantidade de bolhas numa garrafa de Champagne.

14. O mais raro conhaque. E também o mais velho, o mais fino e mais caro. É o L'Esprit de Courvoisier, feito com uma mistura de conhaques destilados desde 1802 (ou seja, desde os tempos de Napoleão Bonaparte) até 1931. Uma dose, 44 ml, custa uns US$ 350,00. A garrafa é feita em delicado cristal Lalique.

15. Os copos de Napoleão. Courvoisier era o conhaque preferido de Napoleão Bonaparte (levou vários barris com ele para o seu exílio em Santa Helena, uma ilha no sul do Atlântico). Mas o imperador só não conseguiu levar o Chambertin, seu vinho mais querido. É um Grand Cru, produzido num dos mais respeitados vinhedos da Borgonha. O imperador o levava em todas as suas campanhas. Em Santa Helena, ele bebia diariamente o lendário Vin de Constantia, um vinho doce feito na África do Sul desde o século 17. Napoleão recebeu, do início de seu exílio, em 1815, até o sua morte em 1821 (supostamente envenenado com arsênio misturado ao vinho), um total de 1.126 litros desse néctar (sem o arsênico, claro).

16. Bem-vinda ao museu. Visite o Museu do Vinho em Paris. Veja o filmete. Ao vivo, ele fica a dois passos da Torre Eiffel, na Rue des Eaux 5, square Charles Dickens – 75016. Lá pelas tantas você vai passar por Napoleão saboreando o seu Chambertin.

17. Publicidade de bebidas. Ela faz aumentar o consumo de álcool, e isso pode levar ao abuso? Não há evidências disso, sejam através de pesquisas científicas ou por experiências práticas. Vários estudos demonstram esse fato: do Departamento de Saúde norte-americano (num relatório ao Congresso), de um trabalho do subcomitê do próprio Congresso, de um estudo feito pela Federal Trade Commission (Comissão Federal de Comércio), de uma pesquisa específica realizada pela Universidade do Texas, de um relatório do Diretor do Instituto Nacional sobre Abuso do Álcool e Alcoolismo.

Na Nova Zelândia, a publicidade de bebidas alcoólicas foi iniciada em 1992. As verbas publicitárias para esse fim vêm aumentando de ano para ano. Mas o consumo de bebidas caiu em todo esse tempo. A única influência sólida a fazer alguma diferença é a demonstrada por um estudo permanente realizado pela Roper Youth Report desde 1993. Por esse estudo, 71% dos jovens consultados identificam seus pais como as maiores influências em suas decisões sobre beber ou não beber. Em todos esses anos, esse estudo verificou que de 2 a 5% dos jovens acreditam que a publicidade os influenciou a beber. O Roper Youth Report é feito anualmente pelo grupo alemão Gfk, uma das maiores companhias de pesquisa de marketing do mundo. Seus trabalhos cobrem mais de 100 países em todo o mundo.

18. Advocaat. É um licor cremoso de origem holandesa, feito de gema de ovos, açúcar e um brandy, um destilado de vinho. Costuma ser 30 proof (um teor alcoólico de 15%, como vimos acima). Há controvérsias quanto à origem do nome ("Advogado"). Uns dizem que a bebida nasceu no Suriname e no nosso Recife, feita pelos invasores holandeses de antão, mas utilizando o abacate, cujo nome natural é Azteca, "ahuacatl", que os espanhóis transliteraram para "avogado" ("advogado" em castelhano). De volta à sua terra, os holandeses não encontraram mais o abacate e substituíram sua cremosidade pelas gemas de ovos. Outros dizem que ganhou esse nome porque tagarelamos demais após bebê-lo. E falar demais seria uma característica de advogados.

E, pronto, não sou advogada, mas falei bastante. Mas falei sério. Caso a amiga queira receber as referências que basearam os itens acima é só clicar aqui para o Bolsa ou para a Soninha no soniamelier@terra.com.br

Da Adega

Dias dos Namorados. A Vinhos Web está oferecendo duas opções para o 12 de junho. A primeira compreende uma garrafa do Adolfo Lona Espumante Demi Sec, uma garrafa do Cave de Amadeu Espumante Moscatel e chocolates de Gramado (o Prawer Nuts e o Prawer Bombons Selecionados). Preço: R$ 120,60.

A segunda soma o Don Laurindo Licoroso (vinho fortificado ao estilo do Porto), o Casa Valduga Naturelle (um tinto leve) e o Murville Moscatel (um frisante). E mais duas caixas de chocolates de gramado (o Prawer Gold Edition e o Prawer Bombons Sortidos). Por R$ 116,00. Você pode comprar online. Veja no site.



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Espaço para as mulheres que apreciam um bom vinho – e para as que querem entender melhor sobre esse universo