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O casamento de Dona Joaninha

by soniamelier em 26 de março de 2008 | 21:00

O título lembra uma história da Carochinha, não é? É que na coluna de hoje temos uma heroína diminuta, metade de um polegar, muito linda, com vestes variadas e vibrantemente coloridas, parece uma fadinha. Ela é muito valente, sua missão é lutar contra seres incrivelmente maus e daninhos. E seu sucesso é tanto que sua aparição é sempre tida como sinal de boa-sorte e de felicidade.

Pois essa história começa com o João Araújo, um leitor lá do Porto, Portugal, que procurava no Google informações sobre as joaninhas, até que encontrou a Soninha. O caso é que ele está tentando ajudar um amigo, também de Portugal, que começa a produzir vinho em cinco hectares na região da Bairrada. Esse amigo, o Luis, vai seguir a produção orgânica, em que a agricultura é desenvolvida sem que se usem pesticidas e herbicidas, pois emprega apenas fertilizantes naturais. E não utiliza energia fóssil, nada de tratores ou qualquer outro tipo de veículo: prefere arados e carroças movidos a mulas. Promove a biodiversidade (em suas terras, os vinhedos estão ao lado de oliveiras etc), busca equilibrar o ecossistema e evita o que pode de sulfitos nos vinhos.

‘A trama da coluna de hoje é parecida com a das histórias da Carochinha, dos Contos de Fada, agentes transformadores da realidade infantil e que se submetem a fórmulas características para começar e acabar: Era uma vez… E viveram felizes para sempre

O Luis, amigo do João, deixa ficar entra as vinhas um tapete verde, de modo a ajudar o solo. Essa área precisa ser revolvida de tempos em tempos. E é justamente nela que uma multidão de joaninhas apareceu: vive por lá, feliz da vida. Fazendo o quê? Ajudando o Luis, pois elas se alimentam de pequenos insetos, piolhos de planta, pulgões, larvas, moscas da fruta – um povo extremamente nocivo às plantas.

O problema do Luis é esse: toda a vez que ele tem de revolver o solo, sem querer elimina muitas joaninhas – coisa que tenta evitar a todo o custo, pois elas não se cansam de ajudá-lo. Sem elas, ele teria de usar herbicidas. Um absurdo! Através do João do Porto, o Luis está atrás de algum produto ou processo que afugente as joaninhas e evite que sejam destruídas quando tem de remexer o solo. Ele, na verdade, tem verdadeiro afeto por elas.

Portanto, a trama da coluna de hoje é parecida com a das histórias da Carochinha, dos Contos de Fada, agentes transformadores da realidade infantil e que se submetem a fórmulas características para começar e acabar: Era uma vez… E viveram felizes para sempre. Segundo um psicólogo que tratou profundamente desse assunto, Sheldon Cashdan, essa fórmula implica em quatro etapas:

Travessia, na qual "nosso herói ou heroína é levada a uma terra diferente, marcada por acontecimentos mágicos e criaturas estranhas". Ai está: nossa joaninha saiu lá da Ásia e foi parar nas vinhas do Luis, na formosa Bairrada, uma terra diferente. E acontecimentos e criaturas estranhas marcam a sua presença lá.

Encontro é a segunda etapa: É quando se registra o encontro com "uma presença diabólica, uma madrasta malévola, um ogro assassino, um feiticeiro ameaçador". Pois a nossa joaninha não se depara com pulgões, lavas, insetos – as madrastas más, os bruxos que vivem querendo destruir a vinha do Luis?

Conquista é a penúltima fase. "O herói ou heroína mergulha numa luta de vida ou de morte com a bruxa, que leva inevitavelmente à morte desta última". É justamente isso que aconteceu e está acontecendo. Nossa valente joaninha luta com contra pulgões, lavas, insetos e os elimina a todos.

A quarta e última parte parece ser a mais problemática. É a da Celebração: "um casamento de gala ou uma reunião de família, em que a vitória sobre a bruxa é enaltecida e todos vivem felizes para sempre".

Acontece que Luis teme eliminar suas fiéis e incansáveis aliadas pela necessidade de tratar o solo. Além de poupá-las, Luis quer casar com Dona Joaninha. Qual a solução, alguma poção mágica para resolver esse problema?

Falam que quem conta um conto sempre aumenta um ponto. E na vida real, podemos ter dois finais. Aumentar dois pontos.

Em 2001, as joaninhas chegaram às vinhas de Ontário, Canadá. Ficaram por lá, fazendo o trabalho delas, lutando contra bruxas e madrastas más e tudo o mais, até que, sem querer, estragaram toda a safra de vinhos de 2001, que chegaram ao mercado em 2003. Os vinhos, em particular os brancos, ficaram com "gosto" de joaninha – intragáveis, segundo os técnicos.

‘Milhares de joaninhas estão lá até hoje e os vinhos da família chegaram a ganhar até 90 pontos dos críticos. São sempre muito bem considerados. E sempre ajudados pelas joaninhas

Como isso pôde acontecer? As joaninhas foram "colhidas" acidentalmente com as uvas e chegaram até aos tanques de fermentação e, por fim, nos vinhos. Os técnicos falam que quando assustadas as joaninhas segregam, para se defender, um líquido potentemente fétido, a pirazina, capaz de dar ao vinho sabores e aromas anormais. Nada disso é prejudicial aos humanos – embora tomar vinho com cheiro de inseto não seja animador. O resultado é que todo o vinho de 2001 foi para o ralo, perdido. Falam que os químicos da Universidade Estadual de Iowa, EUA, estão próximos de achar uma solução para eliminar esses odores. Vamos esperar.

De qualquer modo, esse final seria triste e implacável. Luis teria de eliminar suas joaninhas de alguma maneira.

Mas existe um final do tipo "E foram felizes para sempre…"

Em 1914, Tryfon Lolonis chegou ao Vale Redwood, em Mendocino, Califórnia, deixando para trás a sua Velherna, Grécia. E lá ele começou a plantar suas vinhas, em primeiro lugar para vender uvas a produtores. A família fez isso até os anos 50, quando uma nova geração de Lolonis tomou conta dos vinhedos. E começou a produzir vinhos também, mas dentro de uma ótica orgânica. Uma de suas primeiras providências foi a de soltarem joaninhas nas vinhas, de modo a combater pestes sem o uso de químicas.

Milhares de joaninhas estão lá até hoje e os vinhos da família chegaram a ganhar até 90 pontos dos críticos. São sempre muito bem considerados. E sempre ajudados pelas joaninhas. Sabem quantas joaninhas habitam os vinhedos dessa família? Mais de cinco milhões.

Eu suspeito, amigos João e Luis, que o problema está no método de colheita. No Canadá, utilizaram tratores, máquinas. E as joaninhas foram levadas juntas com os cachos e com eles chegaram aos tanques de fermentação. Problemas da produção em massa. Não devem nem examinar as uvas na mesa da adega. O método orgânico é manual, a produção é pequena e o agricultor tem chance de deixar os cachos livres da nossa heroína. Os Lolonis não usam produto algum. E seu casamento com as joaninhas já fez bodas de ouro. Seus vinhos têm o nome e a ilustração de Dona Joaninha, Ladybug em inglês – sinal de gratidão pelo trabalho dessa nossa heroína. Veja os vinhos dos Lolonis aqui. E aproveite, visite o site deles.

Assim, acho que Dona Joaninha pode e deve casar sem problemas com o Luis. Juntos eles farão grandes vinhos, aumentar a fama de uma importante região, a Bairrada. E serão felizes para sempre.

Se a amiga tiver alguma outra solução para essa história é falar aqui para o Bolsa ou para a Soninha no soniamelier@terra.com.br

Da Adega

II Encontros Gastronômicos. Vão acontecer dia 15 de abril, das 20 à meia-noite, nos jardins da Fundação Eva Klabin. O tema da vez é "Sushi, Sashimi, Caipirinha e Caipisake, aprenda e deguste". Apresentação do bartender Edi Heinz e de Tizuko Shiraiwa, do restaurante Sansushi. Participação especial de Paulo Margoulas, Presidente da Academia Brasileira da Cachaça. Vamos aprender a degustar sushi, sashimi e outros pratos da culinária japonesa. E fazê-los companheiros da caipirinha e caipisake. Edi Heinz nos ensinará como decorar e degustar os drinques. E mais: visita guiada ao museu da Fundação Eva Klabin (um dos mais importantes acervos de arte clássica dos museus brasileiros). Imperdível. Avenida Epitácio Pessoa, 2.480, Lagoa, Rio de Janeiro. Reservas: 21-3209-1602 ou via primepp@terra.com.br Caso chova, o evento será adiado.

Expovinis em novo local. A 12ª edição do maior salão internacional do vinho da América Latina vai acontecer de 28 a 30 de abril agora no Transamérica Expo Center, um dos mais modernos espaços para exposições e eventos do país. Em paralelo à Expovinis serão realizados o Brasil Cachaça e Epicure. Está confirmada a participação de grupos internacionais de produtores, como o Vins de Provence (França), Pro Chile (Chile), Pro Mendoza (Argentina) e representações da França, EUA, Itália e de Portugal. O Transamérica oferece completa infra-estrutura, instalações moderníssimas, sistema de ar condicionado, pontos de água em toda a área e estacionamento interno com 1900 vagas e mais 200 em locais adjacentes. Empresas interessadas devem entrar em contato com a Exponor Brasil, pelo telefone 11-3141-9444 ou pelo site. Imperdoável faltar a esse evento.

Que assim seja

by soniamelier em 19 de março de 2008 | 21:00

A Páscoa é uma das marcas do longo casamento do vinho com a religião. Lembremos de Dionísio, o deus grego do vinho, que para existir precisou nascer duas vezes. Entre os romanos, fez a festa como Baco, mais domesticado. Sim, a Páscoa marca também nascer e renascer, o fim do inverno, uma pausa necessária para descanso e preparação para a chegada da primavera, da vida florescendo novamente.

A Páscoa judaica, o Pessach, celebra há 3.500 anos a libertação dos israelitas da escravidão no Egito. Parte fundamental da comemoração judaica é a reunião das famílias numa ceia onde são consumidas ritualmente quatro taças de vinho. A Páscoa cristã tem origem nessa mesma celebração, pois foi durante uma ceia durante o Pessach que Jesus repartiu o pão e o vinho entre seus discípulos, um ato transformado num sacramento. Ambas as festas podem simbolizar uma travessia da morte para a vida, para um tempo melhor.

‘Marrocos, Argélia e Líbano continuam produzindo bons vinhos, embora a maioria de suas populações vire o rosto para seu consumo. Produzir vinho por lá é aprofundar-se na arte da improvisação

Mas de um mesmo grupo étnico e lingüístico, o semita, temos uma religião que proíbe drasticamente o vinho e qualquer outra bebida alcoólica. Na maior data islâmica, o Ramadã, nono mês do calendário maometano, o Alcorão foi enviado do céu como um guia sagrado para a salvação dos homens. Nesse mês, os muçulmanos jejuam e concentram-se sobre sua fé, refletem sobre seus atos e esperam pela Noite do Destino, durante a qual o futuro de cada um é traçado. Uma interrupção para poder continuar. Novamente, uma travessia.

Os árabes pré-Alcorão bebiam – e bebiam direitinho. "Triste é aquele que nesse mundo vive sóbrio", escreveu no século XII o poeta muçulmano Omar Ibn al-Fari. Com o islamismo, no século VII, a festa acabou. Hoje, na Arábia Saudita, Líbia, Sudão e Irã, beber uma gotinha de álcool resulta em chicotadas e cadeia. No Catar, Afeganistão e Emirados as bebidas são permitidas apenas em poucas casas noturnas e a estrangeiros. Li que no Yemem "happy hour significa mastigar folhas de khat (Catha edulis)". Essa planta, khat, com a catina e a efedrina como princípios ativos, tem efeito estimulante entre a ação da cafeína e a da cocaína.

Marrocos, Argélia e Líbano continuam produzindo bons vinhos, embora a maioria de suas populações vire o rosto para seu consumo. Produzir vinho por lá é aprofundar-se na arte da improvisação. O vinho tem uma história de pelo menos cinco mil anos no Líbano, com demonstraram escavações em Biblos. Na Idade Média, mercadores venezianos exportavam vinhos libaneses para a Europa a partir de Tiro e Saída. Hoje, a França é o grande mercado para os bons vinhos libaneses. Isto é: quando conseguem driblar a guerra, quando soldados de Israel não acampam em seus vinhedos. Ou quando o Hezbolá não troca tiros com facções rivais ou com israelenses, tentando expulsá-los de suas terras. Não é exatamente o melhor terroir para as uvas e seus cultivadores.

O Egito produz quase dois milhões de litros de vinho, tanto quanto a Inglaterra. O problema é que 75% da população são de maometanos. Motoristas de caminhão se recusam a transportar a mercadoria. Funcionários do governo não aparecem para validar as garrafas. A única vantagem lá é a inexistência de concorrência: os vinhos importados recebem uma taxação de até 3.000%.

Quando trata do vinho, o Alcorão procura regular o comportamento social dos homens, buscando em primeiro lugar a moderação. Em seguida, com os abusos, o vinho foi definitivamente proibido, ao lado de todas as bebidas alcoólicas. O vinho é considerado impuro, uma abominação de Satanás, só possível, contudo, como um dos grandes prêmios oferecidos pelo paraíso maometano, onde correm rios fartos de vinhos.

O que me desconcerta é que enquanto o vinho é considerado impuro (naj), uma abominação de Satanás e severamente proibido, duas ervas super intoxicantes, o haxixe e a khat são naj, mas permitidas.

‘Parece-me que todas essas celebrações propõem um tempo para refletirmos, ajustar nossos rumos e procurarmos um meio de nos entender

Esse ano, a celebração do Ramadã cobrirá todo o mês de setembro. O Pessach irá de 20 a 26 de abril. A Páscoa cristã acontece de hoje até domingo.

Não importam as datas, os diferentes profetas, as várias seitas e doutrinas, o nível de sobriedade, a presença ou a ausência do vinho. Parece-me que todas essas celebrações propõem um tempo para refletirmos, ajustar nossos rumos e procurarmos um meio de nos entender. Que assim seja.

Feliz Páscoa, amiga leitora.

Da Adega

Azeites Extra-virgem saborizados. Trufa negra, trufa branca, funghi sechi e alecrim. Azeites Pons são a mais recente novidade para quem quiser oferecer sabores requintados na Páscoa. São espanhóis importados com exclusividade pela Cantu.

A Espanha é o maior produtor mundial de azeite, o único a possuir uma Denominação de Origem e de Qualidade para controlar e garantir a qualidade do produto. Os azeites Pons, por exemplo, são elaborados com as variedades de azeitonas Arbequina e Cronicabra, a primeira com aroma fresco e sabor frutado, a segunda, aromática e um toque picante. Em todos eles, a acidez máxima não ultrapassa os 0,5%.

Sabores disponíveis e recomendações de uso:

Alho: pão torrado, massa, arroz, sopas vegetais e saladas mistas.

Funghi Sechi: molhos, sopas, cremes e todos os tipos de carnes.

Orégano: sopas, molhos, pizzas, saladas de tomate, peixes ao forno e verduras.

Pimenta Negra: marinados, caldos, molhos, carnes, peixes ao molho e frango grelhado.

Trufa Negra: ovos, foie-gras e todos os tipos de carnes, especialmente cordeiro.

Trufa Branca: massas, arroz, pizzas, carnes e creme de verduras.

Manjericão: peixes grelhados, churrasco, omeletes e molhos, como pesto.

Alecrim: arroz, carnes de caça, carne assada, churrasco, peixe grelhado e paella.

É uma oferta e tanto. O azeite é a mais digestiva das gorduras. Tomado antes das refeições, protege o estômago contra úlceras. Ao contrário das gorduras animais saturadas, reduz o mau colesterol (LDL). Como se não bastasse, nutre, protege, suaviza e conserva a juventude da pele do rosto e do corpo. Mais informações pelo telefone 0300.210.1010 ou via site da importadora.

Vinhos kosher no Paraná. A leitora Lourdes está preparando uma ceia pascal e está encontrando dificuldades em encontrar vinho kosher em Florianópolis, Paraná, onde mora. Pede ajuda. Infelizmente, os endereços que encontrei foram todos de São Paulo. É um estado vizinho, mas mesmo assim…

Os endereços estão aí:

Albee Comercial e Importadora. Supre a colônia judaica com produtos kosher, importados, inclusive vinhos. Endereço na internet: http://www.albee.com.br/

Endereço comercial: ALBEETM Comercial e Importadora Ltda. R. Dr. Carvalho de Mendonça, 86 – Campos Elíseos, São Paulo – SP. Tel.: +55 11 3661.3377 | fax: +55 11 3661.3215

Empório Net Drinks – Vinhos kosher como o brasileiro Monte Sinai (R$ 11,50). Rua dos Pinheiros, 861, Pinheiros, 11 3062-5888. ou Rua Baronesa de Itu, 481, Higienópolis, 11 3666-6268/0078. Vendas também por telefone e pelo site www.netdrinks.com.br.

KYLIX -Conta com o kosher Byblos Merlot (R$ 42,00). Avenida Angélica, 681, Higienópolis, 11 3825-4422.

All Kosher. Alameda Barros, 391 lj 12 – Santa Cecília. Tel.: 11 3825-1131. Rotisseria kasher: chalot, guefilte fish, patês, vinhos, carnes, bolos, doces.

Vinhos Guefen. Rua Prates, 785/789, Bom Retiro. Tel.: 11 228-9279. O único vinho kosher atualmente produzido no Brasil é o vinho Guéfen, com a supervisão dos Rabinos M. A. Iliovits, I.Dichi e H. L. Begun.

Mistral Importadora: Tem em estoque um dos melhores vinhos kosher do mundo, o Flor de Primavera Kosher 2003 (Celler de Capçanes), espanhol da região de Monsant, ao preço de R$ 172,13. Veja o site.

Supermercado Pão de Açúcar. Vá para a página principal. Em seguida, clique em "busca", na seção de vinhos e espumantes e escreva "vinho kosher". Encontrei três ofertas: a) o americano branco de mesa "Le Blanc des Blancs Kedem", por R$ 33,79; b) o israelense tinto Suave Fino Sacramental CARMEL, R$ 35,87 e o americano tinto meio seco Cream Red Concord KEDEM, R$ 35,87.

Alguém sabe de algum endereço mais próximo de Florianópolis? Vamos ajudar a Lurdes, por favor.

Agora ou depois?

by soniamelier em 12 de março de 2008 | 21:00

"Como é que um crítico pode saber quando um vinho deve ser bebido? Canso de ler resenhas que falam em "Beba agora" ou "Beba entre tais e tais anos". Não é adivinhar demais, não, Soninha?"

Essas dicas dos críticos certamente intrigam. A consumidora pode pensar que um vinho com o "Beba agora" do crítico teria que ser consumido imediatamente depois de comprado. "Será que eu poderia esperar um pouco mais? Não existem tabelas ou guias indicando a época exata para se beber um determinado vinho?"

Pois é, leitora, parece adivinhação, mas não é. Um crítico de vinhos, um sommelier, enfim, qualquer pessoa experimentada em degustação aprendeu que existem vários fatores capazes de interferir no potencial de envelhecimento (ou amadurecimento) de um vinho. E vai pesar todos esses fatores para estabelecer em que períodos os vinhos que degusta deveriam ser apreciados. Não existem tabelas formais, apenas aquelas que cada crítico estabelece mentalmente a partir de sua experiência.

‘Quanto mais giramos a taça e provarmos começaremos a notar que tais aromas e sabores começam a se apresentar, a se desenvolver

O degustador vai prestar atenção principalmente nos elementos estruturais da bebida, basicamente nos seus taninos e na acidez.

Taninos. Já falamos sobre eles aqui. Eles podem ser macios, aveludados, verdes, amargos, adstringentes, ao ponto de promover a sensação de aperto em toda a nossa boca. Se você tomou ou toma chá já sentiu esse estímulo de enrugamento, de ressecamento na boca. Se você já tomou um tinto jovem, principalmente feito na Europa, também já sentiu essa sensação. Os taninos são um dos fundamentos do vinho, ao lado da acidez, sabor e álcool. Eles fazem parte de um grupo de componentes derivados da madeira e do fruto: se originam das cascas, sementes e talos das uvas. E, se o vinho amadureceu em barris, do carvalho também.

Nos vinhos tintos, os taninos garantem longa vida, funcionam como preservativos da bebida. Devemos lembrar que Mamãe Natureza criou os taninos como uma defesa para frutos como a uva. Que pássaro gostaria de bicar uma coisa horrivelmente amarga? E, olha, não estou falando de um pássaro. Num vinhedo, se derem sopa, eles chegam aos milhares. Espantalhos à parte, a fruta possui a sua 7ª. Cavalaria, comandada pelo general Taninos. Uma uva jovem é verde e amarga. Verde para se camuflar entre suas folhas, ficar invisível, defender-se. Amarga, pois sua missão é fazer com que o fruto seja consumido apenas quando maduro, já mais doce e macio.

Beba depois. Então, se pegamos um vinho tinto, por exemplo, e notamos que esses taninos são o fator dominante – a ponto de impedir que aromas e sabores se apresentem, que sejam notados – tentamos oxigenar o vinho. Vamos fazer girar a taça algumas vezes (ou até mesmo decantar o vinho para aumentar a área de oxigênio). Quanto mais giramos a taça e provarmos começaremos a notar que tais aromas e sabores começam a se apresentar, a se desenvolver.

O crítico então pode concluir que aquele vinho vai melhorar com a oxigenação. Sabemos que ao longo do tempo, sutilmente, uma micro quantidade de oxigênio consegue passar pelas rolhas de cortiça fazendo com que taninos, ácidos e outros componentes da bebida reajam: os taninos ficarão mais macios, as cores mais ricas, aromas e sabores mais variados (ou complexos).

Se, por exemplo, aquele tinto for um Cabernet Sauvignon de um produtor conhecido, o crítico usará a sua experiência para estimar quando aquele vinho estará melhor para ser consumidor.

Beba agora. Num outro exemplo, o nosso crítico está experimentando um tinto da safra de 2002 – logo já com seis anos de idade. Seus taninos não estão mais ressecando na boca (estão macios) e a acidez é baixa (as uvas foram colhidas muito maduras). A conclusão lógica é a de que os tais elementos estruturais do vinho não estão mais lá para promover amadurecimento adicional ao vinho.

Portanto, o vinho está bebível agora. Se ficar mais algum tempo na garrafa poderá perder a sua já pouca acidez e se tornará desinteressante, sem frescor, nem sabor. Se fosse um espumante, um vinho já sem suas bolhas.

‘Em geral, quanto mais caro o vinho, maior as chances de que se beneficie do envelhecimento, de um tempo na adega

Não devemos esquecer que o degustador utiliza como ponto de partida, sempre, a data da safra. Muita gente pensa que a referência é da data em que o vinho foi comprado. Isso, sim, seria adivinhação.

Trocando em miúdos, amiga, não é lá muito diferente de quando examinamos uma fruta na feira avaliando suas cores e aromas, se está verde, "de vez" ou madura, estimando por quanto tempo ainda ela suportará com garbo um espaço na fruteira. Ou, voltando ao tempo dos armazéns, quando nossa mãe pegava apenas um punhado de arroz do saco para avaliar o estado geral dos grãos naquele saco e decidir-se pela compra ou pela quantidade a ser adquirida.

Em geral, quanto mais caro o vinho, maior as chances de que se beneficie do envelhecimento, de um tempo na adega. Os tintos vão se beneficiar mais do que os brancos, assim como os vinhos europeus mais do que os do Novo Mundo.

Não deixe de escrever, amiga. Veja o exemplo da Rachel aí embaixo. Todas vamos aprender um pouco mais com a sua participação. Escreva para o Bolsa ou para a Soninha no soniamelier@terra.com.br

Da Adega

Ainda a Álcoolorexia. A leitora Raquel Buchared escreve para dizer que utilizou essa palavra bem antes de mim. Veja a coluna passada, A desordem da vez.

Já me expliquei com a Rachel que fiz uma tradução mambembe de Drunkorexia e saiu a tal Álcoolorexia. Ela preferiu omitir a letra O de orexia. De qualquer modo, a expressão é efetivamente dela, que a utiliza como título de uma comunidade que criou no Orkut, desde 14 de março de 2007: Álcoolrexia.

Quando criou aquele espaço, o termo buscava satirizar os dias de carnaval em Ubatuba, onde o comum era ela e suas amigas comerem mal e abusarem das bebidas. Aí, a comunidade cresceu e já reúne muitas meninas.

Parece que, lendo a matéria do Bolsa, a Raquel se deu conta de que o assunto não é de brincadeira. É sério, "um problema real", diz ela – que promete parar com a tal brincadeira e mudar os rumos da comunidade que criou. Ela notou que a turma não fazia mais diferença entre o que era brincadeira e doença para valer.

Veja só o meu caso. De repente, me dei conta de que todos os dias, perto da hora do almoço, eu parava tudo o que estava fazendo (melhor dizendo: jogava pro alto) e tomava uma taça ou duas taças de vinho. Quando saía e a hora do almoço se aproximava, voltava logo para casa para tomar o meu vinho. No fim, me dei conta que tinha virado o cachorro do Pavlov, o fisiólogo russo. Salivava quando chegava perto do meio-dia. Fui ao médico. Não tomei remédios nem fui parar num divã. Mas fiz testes de abstinência. Chegava a hora do almoço e apertava o cinto, pois meu avião balançava. No fim, parei de olhar o relógio, não salivo mais e meu avião está onde deveria: no hangar. Voar não é comigo. Mas tomar meu vinho em paz é.

Quem bom que a matéria alertou a Raquel e quem sabe vai poder ajudar a turma que pensa que tudo não passa de uma brincadeira.

A Arca do Vinho. Fátima Randon, madrinha da Confraria Amigas do Vinho, está com um site especializado em jóias, acessórios e complementos – todos relacionados ao vinho. Fátima Randon é profissional do vinho. Descendente de italianos, original de Caxias do Sul, casada com o enólogo Nelson Randon, trabalha com o marido num laboratório prestando assistência enológica às vinícolas da Serra Gaúcha. Já foi presidente da Confraria do Champanhe da Serra Gaúcha por quatro gestões e madrinha de várias associações femininas do vinho.

Premiada várias vezes, Fátima ainda encontrou tempo para abrir a sua Arca do Vinho, uma loja virtual, onde a uva, a videira, a taça e o vinho são presenças obrigatórias. Não deixe de visitá-la.

A desordem da vez

by soniamelier em 5 de março de 2008 | 21:00

Álcoolorexia: não sei se nome vingará. Criei-o ainda há pouco, a partir do inglês drunkorexia, uma novidade também no léxico norte-americano. Ambas são mesma família da anorexia, ausência de apetite, o contrário de orexia, apetite compulsivo.

As duas jogam no mesmo time da ortorexia, bulimia, diabulimia, manorexia. Enfim, das doenças ligadas às desordens alimentares.

‘A surpresa vem da minha ignorância a respeito de tantas doenças ou desordens alimentares. O susto parte do fato de que quase todas elas têm origem em comportamentos tolerados ou glorificados ou reforçados pela sociedade

Drunkorexia – álcoolorexia ou o nome técnico que oficialmente venha a ter -, segundo li em interessante matéria no "New York Times", descreve as pessoas, normalmente mulheres jovens, que compensam a falta de comida por todo um dia com o álcool. Ou quem exagera na comida e na bebida e depois provoca vômito para eliminar os excessos, o que é mais típico da bulimia.

Apesar de evitar comer ou de consumir calorias a todo custo, e por isso evitar o álcool, alguns anoréxicos buscam as bebidas para se acalmarem diante da pressão do apetite ou para aliviar a ansiedade por ter sido indulgente com um bom prato. "Tem também aqueles que consomem álcool como seu único sustento. Ou consomem drogas como cocaína e metanfetamina para suprimir o apetite", diz a matéria.

A reportagem do Times me surpreendeu. E assustou. A surpresa vem da minha ignorância a respeito de tantas doenças ou desordens alimentares. O susto parte do fato de que quase todas elas têm origem em comportamentos tolerados ou glorificados ou reforçados pela sociedade. Esse é o diagnóstico do Dr. Douglas Bunell, diretor de uma clínica especializada em casos relacionados ao abuso e dependência de drogas e desordens alimentares, na Filadélfia. Ele já presidiu a Associação Nacional de Desordens Alimentares.

Comenta o médico que "podemos responsabilizar, em parte, a obsessão com a magreza, mais a aceitação social das bebidas e do uso de drogas, e a percepção de que, entre as celebridades, o normal e até chique é acabar num centro de reabilitação". Segundo ele, "tomar porres é legal, na moda; perder peso e ficar fininha são imperativos culturais para as jovens americanas. A mistura das duas coisas já não surpreendente e hoje atinge proporções epidêmicas".

A reportagem tem importância particular para juntarmos outros fatos que, separadamente, podem nos levar a interpretações unilaterais. Por exemplo, um jornal inglês representante da classe médica está agora em campanha pela redução dos tamanhos das taças de vinho e também por garrafas menores do que as de 750 ml, o padrão. Com tamanhos de frascos menores se beberia também menos, educaríamos melhor os consumidores. A proposta é termos garrafas de 375 ml (a meia-garrafa) ou no máximo, de 500 ml de taças (o limite para duas pessoas). As taças-padrão tinham capacidade para 120 ml. Mas agora sua capacidade dobrou: 240 ml.

Assim posto, o excesso de álcool seria culpa dos tamanhos das garrafas e das taças atuais. Bastaria mudar a sofá de lugar que tudo votaria ao normal. Maneira hipócrita de se tratar qualquer problema. Quem é dependente de bebidas ou drogas não vai se importar com o tamanho de embalagens ou vasilhames. Logo, a reportagem do Time nos ajuda a entender melhor essas desordens.

A matéria revela que, segundo psicólogos, as desordens alimentares, como outras dependências, têm origem freqüentemente na necessidade de entorpecermos problemas emocionais com drogas ou com o ímpeto de beber demais e vomitar – um ziguezague neurótico de crime e castigo. "São desordem muitas vezes causadas por traumas na infância, como abuso sexual, negligência e outras fontes de angústia mental".

A manorexia é a versão masculina a anorexia. Ortorexia é a obsessão por comidas naturais, com muitos vegetais e cereais, nada de carnes, enlatados, conservantes. Mas o exagero leva a problemas. O ortoréxico, por exemplo, não come em casa de amigos ou de parentes, pois desconfiam do que será servido.

‘Já se foi o tempo em que uma Marilyn Monroe era o padrão a ser imitado: a mulher gostosona, confortável. Já se foi o tempo em que as cheinhas eram admiradas, pois refletiam mesa farta, prosperidade

A diabulimia refere-se a diabéticos que se recusam a tomar insulina, pois ela pode engordar.

A bulimia envolve o rápido consumo de grandes quantidades de alimentos seguida por vômito auto-induzido ou o uso de laxativos para livrar-se da comida. Muitos bulímicos bebem para facilitar o vômito.

Já se foi o tempo em que uma Marilyn Monroe era o padrão a ser imitado: a mulher gostosona, confortável. Já se foi o tempo em que as cheinhas eram admiradas, pois refletiam mesa farta, prosperidade e eram até modelos de um Botero, o famoso pintor colombiano. Então, nos anos 60, aconteceu a Twiggy, magérrima, considerada a primeira top model do mundo. Seu nome verdadeiro é Lesley Hornby. Twiggy é um apelido: twig em inglês é graveto, apropriado para uma baixinha de 42 quilos.

As moçoilas de hoje conhecem apenas as substitutas da Twiggy: Paris Hilton, Gisele Bündchen, Adriana Lima, entre outras. Querem também ser belas e famosas. E compulsoriamente magras. Talvez não saibam que podem passar a ser admiradas por especialistas em algumas das desordens alimentares citadas aqui.

Leia toda a matéria do "New York Times" aqui. Perguntas sobre álcool e perda de peso? É só clicar para o Bolsa ou para a Soninha no soniamelier@terra.com.br

Da Adega

Dia Internacional da Mulher. A Confraria Amigas do Vinho convidam para um happy hour com exclusiva exibição de tango, vinhos argentinos e mais um buffet especialíssimo no Porto Bay International Hotel (Av. Atlântica, 1500, Copacabana). Claro, será no dia 8 de março, nesse sábado, das 17 às 20 h.

Convite através do site das Amigas do Vinho ou do telefone: 21- 9797-8277 (falar com a Maria Lúcia).



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Espaço para as mulheres que apreciam um bom vinho – e para as que querem entender melhor sobre esse universo