» 2008 » janeiroSoniaMelier

Cálculo anti-porre

by soniamelier em 30 de janeiro de 2008 | 21:00

O chão parece mover-se sob seus pés e você não se dá conta que está sendo carregado para fora do salão. Nem assim você desiste. Quer que as águas continuem a rolar, "garrafa cheia eu não quero ver sobrar".

O primeiro drinque não satisfez. Logo pediu outro, outro e mais outro. Começou a suar, mesmo sem dar um pulo sequer no baile. Já não conseguia acertar o copo na boca. A vontade de fazer pipi era incontrolável. Não parava com os drinques, um atrás do outro, rapidamente. O chão parecia desfocado. Pudera, você está olhando a partir do fundo do copo! Ah, o assoalho está balançando e você acha que é uma ventania.

É carregado para fora do salão. Toma ar, mas insiste. Volta para o baile e as águas continuam a rolar. Mais um copo, mais outro. Até que repara que a parede defronte está cheia de luz fria, com ventiladores. Você caiu no chão e está vendo o teto.

‘Seu organismo jogou fora uma grande quantidade de vitaminas e nutrientes causando um choque metabólico. Está reagindo, tentando compensar esse problema. É por isso que os sintomas da ressaca quase sempre incluem desorientação e tremedeiras

Quando acorda, não sabe como chegou em casa, nem que horas são. Está nauseado, cansado, boca seca, tonto. E a maior dor de cabeça da sua vida! Uma monumental ressaca acompanhada do inevitável sentimento de culpa. Está envergonhado, mas não se lembra de nada do que aconteceu no baile. Aprontou alguma, com certeza. Falar nisso, cadê a conquista que você fez?

O termo médico para ressaca é veisalgia – do norueguês kveis, "devassidão seguida de desconforto", mais o grego agia, "dor". Incrível como os noruegueses conseguem dizer tanto com uma palavrinha só.

Ela é causada pela bebida, pela combinação de um subproduto tóxico do álcool, o acetaldeído, somado à desidratação e perda das vitaminas A, B (em particular, a B6) e C em razão da ação química do álcool em seu organismo.

Além desses efeitos tóxicos, você está sofrendo da overdose de uma droga sedativa, do excesso de álcool. Seu organismo jogou fora uma grande quantidade de vitaminas e nutrientes causando um choque metabólico. Está reagindo, tentando compensar esse problema. É por isso que os sintomas da ressaca quase sempre incluem desorientação e tremedeiras.

Algumas ressacas são piores que outras, muitas vezes em razão da ação de impurezas nas bebidas que tomou. Sim, foi o álcool etílico (etanol) que o embebedou. Mas não se esqueça do álcool amílico, metílico, propílico e isopropílico: as impurezas, chamadas normalmente de congêneres, difíceis de metabolizar pelo fígado, e mais comuns em bebidas escuras – vinho tinto, conhaque, uísque.

Calcule o estrago

Quanto de álcool você tomou? Um drinque-padrão é aquele que contém 10 gramas de álcool. Isso varia de país para país, ora é de 13,5 gramas (Canadá), ora de 8 (Inglaterra). Mas na maioria, o padrão das 10 gramas é o utilizado para cálculos em que o limite legal de conteúdo de álcool em 100 ml de sangue é de 0,05%.

Para calcular a quantidade de álcool representada em cada drinque que você bebe, em primeiro lugar precisa saber a quantidade de álcool presente na sua bebida (informação presente no rótulo da garrafa ou da lata).

Vamos supor que você bebeu um copo de cerveja, com 5% de álcool. Multiplique por 0,79 (a densidade do álcool) e calcule quantos gramas de álcool você consumiu. Depois divida por 10 para chegar à quantidade de drinques que aquele copo representa. Assim, um copo com 285 ml de uma cerveja com 5% de álcool é igual a 285 X 0,05 X 0,079 = 11,3 gramas de álcool. Ou 1,13 drinques-padrão.

Uma taça de 180 ml de um vinho com 12% de álcool = 180 X 0,12 X 0,79 = 17,06 gramas de álcool. Ou 1,71 drinques-padrão. Uma dose de uísque (30 ml) com 40% de álcool = 30 X 0,4 X 0,79 = 9,5 gramas de álcool ou 0,88 drinques-padrão, abaixo do limite.

A recomendação é a de que se consuma apenas um drinque-padrão por hora. Se a cada hora depois disso você tomar apenas mais um drinque, esse nível deverá ser mantido. O bafômetro não acusará nada de anormal.

Nos intervalos, tome água, muita água, pois o álcool desidrata.

Com 0,05% de conteúdo de álcool no sangue, ainda não se percebe alteração no seu comportamento. Passar desse limite é perigoso.

Com 0,07% começamos a perder o reflexo motor. Com 0,12% ficamos eufóricos, muito sociáveis, desinibidos. O pessoal chama de "fase do macaco". O charme alcoólico de nosso Pierrô conquista a sua Colombina. Com quatro drinques-padrão em menos de uma hora, começamos a entrar na fase seguinte (com 0,25%), a do leão: queremos briga, estamos emocionalmente instáveis, perdemos a noção de julgamento. Percepção, memória e compreensão estão indo por água abaixo. Estamos descoordenados, sonolentos, mal nos equilibramos. Com 0,30% apresentamos distúrbios de visão, não percebermos cores, formas, movimentos e dimensões. O andar é trôpego e a pronúncia é ininteligível. Com 0,40%, perdemos nossas funções motoras, não respondemos mais a estímulos, ficamos inconscientes, nossa temperatura cai e respiramos com dificuldade. É morte por parada respiratória.

Pessoas saudáveis eliminam o álcool de seu sistema numa taxa média de 9,5 ml por hora. Quanto mais água, menos desidratadas ficamos. E, importante, quanto mais comida colocamos para dentro, mais lentamente ocorrerá a absorção do álcool. E se consumirmos muito carboidrato, gorduras e proteínas, melhor ainda. Nessas ocasiões, esqueça a dieta.

Ressaca, um alerta

A ressaca é a maneira que o seu corpo tem para dizer, "por favor, não faça mais isso comigo". Não há cura para ela. Para atenuá-la, comece bebendo muita água. Para lutar contra a desidratação, nosso sistema toma água emprestada de outras partes do corpo, inclusive do cérebro, que, por causa disso, encolhe temporariamente. O álcool também vai nos tomar açúcar, ao ponto de causar uma hipoglicemia. Além de água, tome bebidas como o Gatorade, um suplemento vitamínico para aumentar suas reservas de vitamina B (aliás, evite tomar drinques açucarados, como as caipirinhas: eles vão acelerar a perda de vitamina B e fazer a sua ressaca pior ainda). Lá pelas tantas, coma uma pizza ou uma massa: queijo e carboidratos antes, durante e imediatamente após a festa aumentam o metabolismo, ativam a absorção do álcool e a velocidade com que seu corpo se livra dele.

Mas a boa dica continua sendo forrar o estômago e beber apenas um drinque por hora e muita, muita água nos intervalos. Você vai brincar com todas as suas faculdades funcionando a toda. Inclusive a sexual. Se passar do ponto, nunca mais vai encontrar a sua Colombina, pois álcool em excesso anula qualquer tentativa de sexo por parte dos rapazes. Já conosco, acontece o inverso: é capaz de acordarmos com Pierrô e Arlequim na cama (nesses casos, o melhor é fingirmos perda de memória).

Vamos deixar as águas rolarem, mas não beba até se afogar, como diz a marchinha "Saca-Rolha", do Zé da Zilda e Waldir Machado, um sucesso dos anos 50.

Feliz carnaval, com muita alegria e moderação. Depois contem aqui para o Bolsa ou para a Soninha (soniamelier@terra.com.br) se alguns desses conselhos serviram.

Vinho Au Naturel

by soniamelier em 23 de janeiro de 2008 | 21:00

Alguns wine bars franceses oferecem o que chamam de "vinhos naturais". Conheci apenas dois em Paris, tem alguns anos: Aux Tonneaux des Halles, no centro da cidade, na rue Montorgueil. E La Cremerie (9, rue des Quatre-Vents, na margem esquerda, perto do Boulevard St. Germain), que é também um restaurante e uma loja de vinhos. São lugares maravilhosos, com vinhos idem, para passar um dia inteiro. Os chamados "vinhos naturais" são aqueles produzidos com um mínimo de interferência humana e de artifícios técnicos e químicos. Existem hoje, pelo que apurei no Google, uns 20 desses bares em Paris.

Mas existe mesmo um vinho natural? Por definição, seria um vinho parado cujas qualidades dependeriam principalmente dos atributos da vinha, do solo onde está plantada e de aspectos como clima, temperatura e safra. Seria um vinho que não se submeteria a processos especiais para que se consiga um determinado efeito. Inclusive, sua fermentação correria por conta de fermentos naturais, encontrados nas folhas, no solo, nas árvores, na própria fruta.

‘Se por natural entendermos algo produzido exclusivamente pela natureza, temos de lembrar que a natureza não faz vinho. A natureza faz vinagre

Por processos especiais entenda-se o uso de aditivos, como sulfitos, corantes, fermentos especiais para dar sabor etc. Entenda-se por intervenções a microoxigenação, a osmose inversa, evaporação a vácuo, cone rotativo, filtragem e até o uso de barril de carvalho entre outros.

Por exemplo, a controversa osmose inversa (ou reversa) é utilizada para retirar água do mosto em função de chuvas inesperadas, "aguando" a uva – o que pode levar a um vinho ruim. Ou, em áreas mais quentes, quando o clima é propício para a produção de uvas com mais açúcar mesmo antes do ponto de colheita. Isso vai resultar num vinho com muito álcool. Muita água e muito álcool são situações de desequilíbrio, danosas para o vinho. E para as finanças da vinícola.

Se a osmose reversa pode ser utilizada para resolver esses problemas naturais, pode também ser ferramenta para outras manipulações. No caso do álcool em excesso, no final do processo de produção, uma parte dele volta para o vinho, fazendo-o com que passe dos 15% de volume – e assim recebendo as graças de uma crítica que adora esse tipo de vinho. No caso da água, a mesma coisa: o vinicultor pode fazer de um vinho ralo, uma bebida muito intensa e concentrada – novamente ganhando as graças de influentes críticos.

Agora, se os autores dessas manipulações prometeram nos rótulos vinhos típicos de uma região ou de uma safra, eles estarão mentindo. O vinho terá perdido a sua tipicidade.

Falei acima em vinho parado apenas, porque qualquer espumante já seria um vinho manufaturado, nada "natural", pois foi "enriquecido" com um licor constituído de uma aguardente de vinho, açúcar e um pouco mais de fermento dentro da garrafa, de modo a estabelecer um determinado efeito. É um ponto de vista radical, certo?

Os vinhos orgânicos seriam considerados naturais? A leitora sabe que uma vinícola orgânica ou biodinâmica é aquela cultivada sem o uso de fertilizantes ou adubos químicos, em primeiro lugar. Os vinhos são produzidos sem que se adicionem sulfitos, fermentos, bentonita, claras de ovo (para a clarificação) etc etc.

Os sulfitos (SO2, dióxido de enxofre) são utilizados há milhares de anos para prevenir principalmente contra bactérias e a oxidação do vinho. Durante a fermentação, eles são produzidos naturalmente, assim como também nossos corpos os produzem. No final do processo, no engarrafamento, o produtor acrescenta um pouco mais.

O mais freqüente é que o processo do plantio seja orgânico, mas o vinicultor acaba acrescentando sulfitos para que seu vinho possa chegar às mãos do consumidor livre da oxidação.

Se por natural entendermos algo produzido exclusivamente pela natureza, temos de lembrar que a natureza não faz vinho. A natureza faz vinagre. O processo natural é o suco da uva fermentar, transformar-se em vinho para logo em seguida resultar em vinagre. Isso só não acontecerá pela intervenção mão humana. O vinho não existiria sem essa intervenção.

Arqueólogos descobriram que o vinho já existia entre 10 e 6 mil anos a.C., no último período da Idade da Pedra, o Neolítico, quando o homem começa a descobrir a agricultura, deixa de ser nômade, produz comida e domestica animais, cria potes, vasilhames de barro. Inclusive os apropriados para guardar vinhos.

Em alguns desses vasilhames, com capacidade para cerca de dez litros, Patrick McGovern, do Museu de Arqueologia e Antropologia da Universidade da Pensilvânia e autor de um livro sobre as origens do vinho e da vinicultura, descobriu um líquido amarelado que, analisado, resultou ser a resina da terebintina. Os jarros foram achados numa região montanhosa do Irã, onde vinhas selvagens cresciam lado a lado do terebinto, a árvore da terebintina. Videiras e terebinto produziam seus frutos quase que ao mesmo tempo.

‘O homem das cavernas quis voar também. Para isso fez uma pequena, mas necessária intervenção na bebida. Logo, nem o vinho do Neolítico era completamente "natural"

A resina era adicionada ao vinho durante a fermentação para evitar que virasse vinagre. Próximo aos jarros, descobriram tampas de barro com tamanho igual ao da boca dos vasilhames. Portanto, os jarros eram vedados para melhor conservação do vinho. Sim, vinhos, pois para o arqueólogo e químico todas essas descobertas indicam que o conteúdo desses jarros tenha sido vinho.

Mas como aquele neolítico chegou a descobrir a bebida? Parece que a inspiração veio da observação de pássaros bebendo o suco da uva já fermentado. As uvas caiam no chão, arrebentavam, liberavam o seu suco, fermentavam e, pronto, tínhamos o vinho. Devem ter visto muitos passarinhos saírem voando felizes, fazendo arabescos, mil piruetas de dar inveja a qualquer esquadrilha da fumaça.

Com a descoberta da agricultura e da domesticação de animais, como o boi, essas comunidades pré-históricas passaram a ter um suprimento mais estável de alimentos. Essa inesperada abundância levou-as a criar vasilhames mais duráveis, feitos com materiais flexíveis, moldáveis. E chegaram ao barro, que têm uma estrutura porosa o bastante para que os cientistas pudessem analisar o que elas continham.

Assim, o homem das cavernas quis voar também. Para isso fez uma pequena, mas necessária intervenção na bebida. Logo, nem o vinho do Neolítico era completamente "natural".

Entenda o vinicultor, amiga, como um cozinheiro. Pode ser um simples cozinheiro ou um chef estrelado – mas sempre um cozinheiro, que vai pegar os alimentos e manipulá-los de acordo com seus recursos, talentos e inspiração. O grau de manipulação ou de intervenção é o que faz a diferença.

De um lado você tem o vinicultor que vai utilizar o equivalente a silicone, colágenos, aplicar verdadeiras próteses químicas para transformar o vinho num espécime anabolizado, o qual não se pode distinguir a sua origem e até mesmo a sua safra. Para esse cozinheiro isso não importa, pois ele quer atender às ondas da moda: muito álcool, muita fruta, muita concentração de cor, muito carvalho, entre as virtudes que vão conferir altas notas de críticos famosos e, muito importante, excelentes vendas. São vinhos que passam por ferramentas de todo o tipo muito mais para corrigir a sua falta de expressividade.

Essa ideologia existe também nas grandes vinícolas, que produzem vinhos em grande quantidade, através de processos mecanizados, longe das mãos (e dos lábios) do homem. Elas buscam fazer o mesmo tipo de vinho todos os anos, sem dar bola para safras ou regiões de origem. Utilizam cromatografia, espectrometria e análises de sabor, entre outras coisas, para determinar os sabores de seus vinhos. E não queira imaginar o grau de intervenção. Ressalve-se que, na maioria dos casos, todas essas operações são legais, regulamentadas.

Os vinhos naturais (pelo menos os que experimentei) costumam ser bem equilibrados, tanto em aromas como em sabores, em acidez e nível alcoólico, perfeitos para acompanharem refeições. Mas, sobretudo, são vinhos que expressam a sua região de origem, as condições do seu terroir, da safra, e das uvas que o compõem – tudo isso com um mínimo de intervenção pelo vinicultor. E isso faz uma enorme diferença.

Já pensou, amiga, se todas as pessoas no mundo parecessem iguais, agissem da mesma maneira, adotassem sempre as mesmas roupas, os mesmos maneirismos e falassem invariavelmente as mesmas coisas? O vinho natural é o antípoda disso tudo, uma expressão da sua terra, da sua uva e do seu tempo. Queremos a diversidade, experimentar as diferenças. Pena é que não indiquem isso nos rótulos (como fazem os orgânicos).

Quando estiver em Paris, amiga, não deixe de levar uma lista dos wine bars especializados em vinhos naturais. Se quiser, clique para o Bolsa ou para a Soninha, soniamelier@terra.com.br: temos bons endereços.

Da Adega

Vinhos naturais brasileiros. A Coopernatural (Cooperativa Vida Natural), entre vários produtos orgânicos, tem uma linha de vinhos naturais, orgânicos e certificados. São os vinho da linha Hex Von Wein ("Vinho da Bruxa"), que incluem um Cabernet Sauvignon, um Merlot e dois espumantes feitos pelo método champenoise: um brut e outro demi-sec. A Coopernatural fica no município de Picada Café, perto de Gramado, RS (distante cerca de 80 km de Porto Alegre), e reúne 27 sócios, produtores rurais orgânicos.

O vinhos da vinícola Tormentas, em Encruzilhada do Sul, também são naturais (sem aditivos). São vários rótulos que vêm obtendo elogios de toda a parte do mundo. A produção é pequena – e grande é a qualidade. Vale procurá-los e prová-los. Veja aqui.

Leia sem moderação

by soniamelier em 16 de janeiro de 2008 | 21:00

Uma corte francesa decretou que, a partir de agora, artigos sobre vinhos em jornais devem apresentar as mesmas advertências contidas nos anúncios de bebidas alcoólicas. Quer dizer, qualquer conteúdo jornalístico sobre bebidas alcoólicas, a começar dos vinhos, passa a ser considerado um anúncio pago e deve passar a incluir advertências como "L'abus d'alcool est dangereux pour la santé. Consommer avec modération", que é utilizada normalmente nos rótulos dos vinhos do país. Nada diferente das nossas "Evite o consumo excessivo de álcool", "Beba com moderação" etc.

Algum juiz lá leu a matéria do diário Le Parisien, "O Triunfo da Champagne", sobre o sucesso da bebida nas festas de Natal e imediatamente julgou o texto uma peça publicitária, mesmo que a página do jornal não fosse paga e o texto se identificasse claramente como matéria jornalística.

‘A publicidade de bebidas alcoólicas e cigarros na França é regida pela severa "Lei Evin", desde 1991. Ela proíbe anúncios dirigidos a jovens, publicidade de bebidas em televisão ou cinema e até patrocínios de eventos culturais e esportivos

É óbvio que uma reportagem dessa natureza, como sempre, qualifica e recomenda marcas, fala sobre os produtores e apresenta preços, um serviço para os leitores. Mas o juiz achou que, até pelos seus entretítulos ("Boas e baratas", "Champagne, a incontestável estrela da festa", "Quatro garrafas de sonho"), se identificavam claramente como um anúncio.

Assim, a corte julgou que esse artigo tinha a intenção de "promover vendas de bebidas alcoólicas, exercendo ação psicológica sobre o leitor, incitando-o a comprar álcool". E que "qualquer comunicação a favor de uma bebida alcoólica (tal como o artigo sobre o espumante) constitui uma publicidade e, portanto, sujeita ao código de saúde pública".

O Le Parisien foi obrigado a pagar cinco mil euros à Associação Nacional de Prevenção ao Alcoolismo e à Dependência (ANPAA), mas sob protestos de que o artigo era puramente uma peça editorial.

A decisão é, sem dúvidas, uma escandalosa violação da liberdade de imprensa. Um dos dogmas do jornalismo numa democracia é a intocabilidade dos fatos tais como são registrados ou interpretados, sem interferência de governos ou de quaisquer outros órgãos.

Nosso trabalho como jornalistas não é simplesmente "comunicar". É informar, participar da educação dos leitores e não fazê-los encher a cara.

Parece até que o judiciário francês é uma "Appelation Descontrollée". Em 2003, a corte de Villefranche-sur-Saône quase leva uma revista, a Lyon Mag, à falência, apenas por ter citado o comentário de um eminente crítico, François Mauss, presidente do "Grande Júri Europeu de Vinhos", sobre os vinhos Beaujolais. Mauss afirmou que a região conscientemente comercializava um "vin de merde".

A revista foi condenada a pagar perto de US$ 350 mil aos produtores de Beaujolais. Toda a imprensa do país protestou, houve apelação e só em 2005 a corte voltou atrás e liberou a revista da multa.

A publicidade de bebidas alcoólicas e cigarros na França é regida pela severa "Lei Evin", desde 1991. Ela proíbe anúncios dirigidos a jovens, publicidade de bebidas em televisão ou cinema e até patrocínios de eventos culturais e esportivos. Nos veículos, eventos ou lugares onde a publicidade é autorizada o seu conteúdo é controlado.

E mais, as mensagens e imagens contidas nos anúncios devem se referir estritamente às qualidades dos produtos (como origem, composição, meios de produção, modos de consumo etc.).

Como conseqüência, desde 1991, a linguagem da publicidade perdeu o seu caráter sedutor. Não mais se permite mostrar consumidores ou retratar atmosferas favoráveis ao consumo de bebidas. Por isso, as pessoas foram banidas dos anúncios.

Isso acontece no país que originou o lendário Paradoxo Francês. Em 1991, o famoso programa 60 Minutes, da CBS, levou ao ar uma reportagem mostrando por que os franceses sofrem relativamente pouco com doenças coronarianas, apesar de sua dieta ser extremamente rica em gorduras saturadas. A razão está no consumo regular de vinho, em particular o tinto, cujas vendas cresceram cerca de 40% só nos Estados Unidos, da noite para o dia. Pois a França parece agora preocupada que os leitores passem a achar que os vinhos sejam uma bebida saudável.

O Presidente Nicolas Sarkozy, em sua campanha eleitoral ano passado, prometeu reformar a "Lei Evin". Mas nada fez até agora. Ele que, sobre os vinhos, diz que França deixou de ser competitiva por conta de uma legislação de má qualidade.

Paris Hilton e o Prosecco. E se a moda pega? Uma reportagem sobre o recém-divorciado Sarkozy e o seu anunciado casamento com a modelo e cantora Carla Bruni deveria conter também uma advertência: "O casamento pode ser prejudicial à sua saúde".

Ou sobre as biografias da ex-mulher de Sarkozy, sempre apimentadas com as histórias de seu caso com um publicitário. Como terminaríamos uma matéria a respeito? "Maridos: evitem ser chifrados". Ridículo!

‘Hilton aparece nessa campanha como sempre: com roupas minúsculas e até nua e toda pintada de dourado, lembrando a loura de Goldfinger, um dos filmes de James Bond

As matérias sobre políticos deveriam ser acompanhadas por avisos como: "Atenção, políticos podem causar apoplexia". As placas nas estradas também poderiam avisar: "Muito cuidado: estrada consertada pelo governo".

E se os jornais franceses apenas reproduzissem a Marselhesa, o hino nacional francês: "Aux armes citoyens! Formez vos bataillons! Marchons, marchons, Qu'un sang impur abreuve nos sillons". Seria uma incitação à violência e à ordem pública? Seriam multados também?

As matérias sobre a modelo (e celebridade) Paris Hilton promovendo anúncios de uma empresa de bebidas austríaca, a Rich Prosecco, também mereceriam cuidados. Vamos lembrar que a bisneta do fundador da cadeia de hotéis de mesmo nome conseguiu os seus 15 minutos de celebridade com um filme de TV fazendo sexo com seu namorado. Não processou ninguém. Deu certo e os 15 minutos estão se estendendo. A moça já tem uma bagagem invejável como atriz, cantora e modelo. Conhece bem o métier.

Hilton aparece nessa campanha como sempre: com roupas minúsculas e até nua e toda pintada de dourado, lembrando a loura de Goldfinger, um dos filmes de James Bond. Veja aqui.

Ela é o pulo do gato da empresa austríaca para vender um prosecco (uma uva italiana de origem, responsável por famosos espumantes) em três versões: um com sabor maracujá (Rich Passion), outro de cassis e morango (Rich Royal) e o terceiro de prosecco propriamente dito.

Os anúncios falam de um "drinque perfeito para começar a noite ou para um prazer especial, um prêmio ao final do dia".

Já viram que não se trata de vinho, mas de marketing. Não entendo porque os produtores italianos do prosecco autêntico estejam uma fera. Vociferam contra o produto austríaco.

Acham que ele (vem numa latinha) pode deformar a imagem do espumante original. Penso que eles deveriam parar de protestar e contra-atacar com uma campanha educativa, demonstrando as qualidades do espumante original.

Caso contrário, terão de protestar também contra o Marilyn Merlot, um sucesso de vendas nos Estados Unidos. Ou os vinhos da Madonna, sem falar do rótulo da atriz pornô norte-americana Savanna Samson, o Sogno Uno, italiano legítimo, feito pelo enólogo Roberto Cipresso – e elogiado (o vinho) até pelo imperador dos críticos, Robert Parker. Ninguém ficou desesperado com possíveis danos às imagens dos vinhos norte-americanos ou italianos, para ficar apenas nos exemplos acima.

Mas voltemos ao problema da censura, a sarna que os franceses ameaçam espalhar pela imprensa mundial. E se a moda pega?

As matérias sobre lançamento do Rich Prosecco da Paris Hilton deveriam incluir também uma advertência, como "Melhor beber com camisinha", tal é a folha corrida da modelo?

Amiga, continue lendo as folhas sem moderação. Em caso de dúvidas, clique aqui para o Bolsa ou para a Soninha, no soniamelier@terra.com.br

Da Adega

Casillero del Diablo com tampa de rosca. A conhecida marca segue agora uma tendência renovadora e troca as tampas de cortiça, pelas "screwcaps", de rosca metálica, nos vinhos brancos (Sauvignon Blanc). A nova versão chega ao mercado brasileiro ainda este mês.

A marca, que no Brasil é comercializada pela multinacional Pernod Ricard, está promovendo a substituição da cortiça por tampas de rosca metálica apenas nos seus vinhos brancos. As de cortiça permitem um acesso mínimo de oxigênio que favorecem mais à evolução dos tintos.

Essa característica, contudo, é indesejável para os brancos, afetando em particular os seus aromas. O Casillero del Diablo é um dos carros-chefe da famosa vinícola chilena Concha y Toro e uma lenda, origem do seu nome, alimenta a sua história. Saiba mais aqui.

Mais informações pelo SAC 0800 014 2011 ou pelo site da Pernod Ricard.

Sou insuportavelmente otimista. Não sei como foi possível. Mas ontem bateu um motoqueiro da ECT na minha porta com um elegante embrulho cor-de-rosa. Achar a minha casa, aqui em Secretário, gente, é como conseguir entrar no Uzbequistão e chegar a Samarcanda, a cidade do Tamerlão, por onde esteve Marco Polo. O embrulho continha uma caixa também cor-de-rosa abrigando uma belíssima garrafa de cava rosé e duas belas flutes de cristal. Um gesto gentilíssimo do pessoal do Bolsa, que me classificou como no título acima. Estou insuportavelmente grata. E preocupada com o motoqueiro. Será que conseguiu voltar?

Uma pergunta de peso

by soniamelier em 9 de janeiro de 2008 | 21:00

Pergunta: Sônia, um dos presentes que ganhei no Natal foi um maravilhoso jogo de taças de vinho, todas em cristal. Ouvi dizer que louças de cristal contêm chumbo, um veneno. Devo ou não usar essas taças?

Resposta: O mais seguro seria usar essas taças apenas no período de uma refeição. O cristal vai desprender mínimas partículas de chumbo com praticamente nenhum risco para a nossa saúde. Isso foi demonstrado por uma pesquisa realizada, em 1991, pela Universidade de Colúmbia, Estados Unidos. O governo canadense também fez o mesmo teste e verificou que no espaço de tempo de uma refeição a quantidade de chumbo liberada por uma taça de cristal no vinho está bem abaixo da concentração de chumbo numa bebida permitida pelas leis do Canadá: 200 partes por bilhão.

‘Exposição a níveis altos de chumbo podem causar vômitos, diarréia, convulsões, coma. E até a morte

A legislação brasileira a respeito, através de uma Portaria de março de 1996, da Vigilância Sanitária do Ministério da Saúde, (veja aqui) determina que vasilhames contendo metais pesados como o chumbo podem chegar até uma concentração de 4,0 mg/kg. Mas observa que "o cristal fica permitido para fabricação de artigos de uso doméstico, somente destinados a contatos breves e repetidos com alimentos". As refeições estão entre esses "contatos breves".

Isso porque não devemos colocar nessas taças (ou em qualquer vasilhame de cristal, com um decantador) bebidas ácidas (vinhos brancos, suco de laranja – ou de qualquer fruto cítrico) que tenha ficado nelas por mais de duas horas.

O cristal é um vidro que pode conter até 35% de óxido de chumbo, o que torna o vidro denso, menos quebradiço, translúcido e bem mais atraente, pelo seu intenso brilho. Se friccionarmos o corpo de uma taça de cristal com o dedo, ele vai ressoar como se fosse um sino. A taça de vidro comum não gosta muito de música.

Na União Européia, louças contendo menos de 4% de chumbo são definidas como vidro. A partir de 10% passam à categoria de cristais. Peças com mais 30% de chumbo são as de cristal de alta qualidade – categoria em que provavelmente estão as taças da leitora. Nos Estados Unidos, o rigor é maior: o vidro é considerado "cristal" com apenas 1% de chumbo.

No Brasil, apenas os vidros borossilicatos e sódio-cálcicos são permitidos para fabricação de embalagens e equipamentos para qualquer contato com os alimentos. Os de cristal, só por "breves momentos".

Aqui, até o uso de chumbo em materiais de pesca (em anzóis e chumbadas) está proibido (serão substituídos por materiais como argila, areia e pó de pedra). Tintas à base de chumbo também estão sob controle.

Riscos. Exposição a níveis altos de chumbo podem causar vômitos, diarréia, convulsões, coma. E até a morte. Anemia é um problema comum, perda de apetite, dores abdominais, constipação, fadiga, insônia, irritabilidade, dores de cabeça, problemas nos rins, até danos ao sistema nervoso central.

As crianças são mais suscetíveis à contaminação, pois seus corpos absorvem o chumbo mais facilmente e seus sistemas nervosos, ainda em desenvolvimento, são rápida e permanentemente prejudicados pelos efeitos do metal. A Saúde Pública dos EUA estima que entre 5 e 10% das crianças americanas carregue uma quantidade nociva de chumbo em seu sangue.

Em concentrações maiores, o envenenamento pelo chumbo leva a ataques apoplécticos, coma e morte. Em níveis de baixos a moderados pode causar desvios de atenção, perda de audição, insônia, crescimento retardado, dificuldades de aprendizado, dores de cabeça e de estômago.

O vinho e o chumbo. Era prática comum na Europa "batizar" os vinhos com aditivos de chumbo, de modo a preservá-los e a adoçá-los – isso desde os tempos dos antigos romanos. Eles adoravam temperos doces. O mais popular deles era o defrutum, um xarope feito de suco de uvas: cozinhava-se o mosto em panelas de chumbo. Submetido a mais radical redução, esse xarope era chamado de sapa, que tinha sabor e aromas agradáveis. Pois a sapa era empregada regularmente como aditivo do vinho e também no preparo de vários pratos da cozinha romana.

O chumbo pode causar, entre vários problemas, infertilidade e a uma alta taxa de mortalidade infantil. Daí que muitos autores concluem que a digestão do defrutum e o fato de comer-se e beber-se em utensílios de bronze contendo chumbo foi um fator a contribuir para o declínio do império romano.

‘O hábito de batizar o vinho com essa mistura rica em chumbo foi, sem dúvidas, responsável por um grande número de epidemias e mortes. Mas apenas no século 17 é que essa prática foi reconhecida como originária dos vinhos

O hábito de batizar o vinho com essa mistura rica em chumbo foi, sem dúvidas, responsável por um grande número de epidemias e mortes. Mas apenas no século 17 é que essa prática foi reconhecida como originária dos vinhos. Na época, esse mal era conhecido, entre outros nomes, como a "Cólica de Poitou".

Quem descobriu a origem da doença foi Eberhard Gockel, médico da cidade de Ulm, Alemanha, na época o principal centro de comércio de vinho do país. Uma infestação de cólica na cidade, em 1690, resultou em sérias perdas econômicas para a cidade. E, em razão das descobertas de Gockel, o Duque Eberhard publicou uma lei rigorosamente proibindo a adulteração do vinho com óxido de chumbo. As punições incluíam até a morte.

O nome "Cólica de Poitou" tem origem na região em volta da cidade de Poitou (habitada no tempo dos romanos pela tribo dos Pictones), uma antiga província da França, cuja capital era Poitiers (é atualmente a região de Poitou-Charentes). Poitou tinha triste fama tanto pelos seus vinhos rançosos como pela longa endemia de cólica convulsiva e dolorosa sofrida há tempos pelos seus habitantes. A doença causava danos no sistema nervoso central, levando à paralisia, cegueira e, com freqüência, à morte.

O médico Gockel era, sobretudo, muito astuto. Ele cuidava dos monges de dois mosteiros em Ulm, cujos monges bebiam do mesmo vinho, na mesma quantidade, todos os dias. E caíram doentes ao mesmo tempo, com os sintomas da famosa cólica. Os monges que não bebiam desse vinho não foram afetados. Não foi difícil para o médico descobrir a origem do mal.

O Duque de Ulm merece também nossos aplausos: ele talvez tenha publicado a primeira lei da história em defesa dos consumidores.

Assim, leitora, use muito pouco os seus cristais. Apenas por "breves momentos", durante as refeições. E evite guardar vinhos ou qualquer outra bebida em decantadores de cristal. Mas não jogue fora as suas taças. Elas podem virar lixo e o o seu chumbo contaminar o solo, as plantas e os animais. E, no fim, numa simplória alface, estar de volta à nossa mesa

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Pit stop

by soniamelier em 2 de janeiro de 2008 | 21:00

Acho que vou começar o ano com o pé direito. Fiquei quase duas semanas sem beber, sem colocar nada, nadinha de álcool na boca. Só voltei a beber na antevéspera do Natal. Estava com problemas? A fim de me "livrar das toxinas", de purificar meu corpo? Não, nada que passasse perto do Ganges.

Em primeiro lugar, finalmente, fiz o meu grande exame clínico, que deveria ser anual. Só que estava devendo uns bons três anos ao médico. Marquei para meados de outubro, fiz as malas e passei duas semanas no Rio, em casa de amigas – preocupada com meus cachorros e minhas galinhas em Secretário. Mas fiz todos os exames possíveis.

‘Meu médico concorda que o consumo moderado de vinho é recomendável. Mas pediu-me que considerasse melhor o meu, digamos, estilo de moderação. Também não me pediu para parar com as bebidas

Entrei confiante. Afinal, colocava grande crédito nos vinhos que consumo há anos: meia garrafa diariamente. Esperava que ou o resveratrol ou as procianidinas dos tintos estivessem funcionando como antioxidantes e drenos para minhas artérias. Meu estilo de vida é saudável, acho eu. Não fumo, como frugalmente, muita fruta e vegetais, evito frituras, carne só de vez em quando etc. Minha lida no sítio, correndo atrás de galinhas, limpando o terreno, arrumando a casa, entre outras coisa, contam como exercício físico regular. Não sou nem obesa, nem sedentária.

Bem, os resultados foram um tanto decepcionantes. Minha pressão está supimpa. Mas o colesterol, tanto o bom (LDL) quanto o ruim (HDL) estão altos. Um resultado ao mesmo tempo ruim e bom. Os triglicerídeos (que armazenam gordura) oscilam para cima e para baixo – mas na média estão perigosamente no limite (exatos 150 mg/dl).

E, novidade para mim, o médico, desta vez, pediu um exame adicional. É o que determina uma tal de Proteína C-reativa (PCR). Ela é produzida pelo fígado: aumenta quando temos alguma inflamação causada por doenças, acidentes ou estresse. O médico fala que é o único indicador de inflamação que sozinho prediz o risco de um ataque cardíaco. Não há riscos, mas o médico confessou que gostaria que os marcadores estivessem melhores, mais baixos (mais uma vez, o nível estava no limite: 1.0 mg/L. Abaixo disso, é baixo o risco de desenvolvermos alguma encrenca cardiovascular. Acima disso, bandeira amarela. Se passar de 3.0, o risco é muito grande.

Ele não condenou minha dieta, nem meu estilo de vida. Mas me receitou pílulas de estatina, para colocar os níveis de meu HDL em ordem. Não sei se vou tomá-las. Falam que as estatinas podem causar problemas nos músculos e no fígado. Com a quantidade de vinho que tomo, elas podem até ser fatais. Tenho a meu favor não fumar e um exemplar estilo de vida.

Mas muita coisa não conseguir responder ao médico. Quanto de vinho tenho de consumir para o resveratrol fazer efeito: uma taça, uma garrafa, um galão, uma caixa? Não adianta argumentar com as procianidinas, pois elas são encontradas em maiores quantidades nos tintos com a uva Tannat, da Gasconha, região do sudoeste francês. Teria de me mudar para lá.

E agora temos um estudo ligando colesterol com etanol, o álcool do vinho. O Departamento de Doenças do Fígado da Escola de Medicina da Universidade de Nova York pesquisou o consumo de etanol por ratos. Aparentemente, eles inibem a secreção de um ácido produzido pelo fígado e que, quando chega aos intestinos, funciona como um detergente para ajudar na absorção das gorduras.

Se não formos moderadas no consumo de vinho, estaremos contribuindo para aumentar os níveis de colesterol. Taí o nó da questão. Estou torcendo para que essa pesquisa não dê em nada. Pobre dos ratinhos!

Meu médico concorda que o consumo moderado de vinho é recomendável. Mas pediu-me que considerasse melhor o meu, digamos, estilo de moderação. Também não me pediu para parar com as bebidas. Sugeriu, contudo, a alternativa de uma "descansada". Em primeiro lugar, ele quer ver os índices caírem, em particular o do tal PCR.

Acho que ele também quer saber se sou dependente, seja de vinhos ou de qualquer outra bebida alcoólica. Por quase toda a minha vida adulta venho bebendo diariamente. Moderadamente, afirmo eu!

Portanto, decidi aceitar o desafio. Logo após ter retornado a Secretário, com uma senhora pulga atrás das orelhas, fiquei as duas primeiras semanas de dezembro a seco. Apenas água, água, sucos e sucos, café e chás e mais café e chás.

Não tive problemas, pois me submeto a esse "descanso" há muito tempo (e, se não me engano, já escrevi sobre isso aqui). Não, não sou uma dependente física do álcool. Até agora, estou conseguindo parar sem precisar que me tranquem num quarto.

Claro, que, principalmente nas refeições, sentia a falta da minha taça de vinho. Mas olhava o copo com água com muito carinho e seguia em frente. À noite, a saudade do vinho aumentava. Televisão não é a fogueira da minha caverna, para lembrar o Veríssimo. O escritor disse que a fogueira deve ter sido a TV do homem das cavernas. Ele ficava lá hipnotizado pelo fogo, assim como se faz hoje quando se assiste TV, esperando o sono chegar.

‘Se, num mês, pudermos parar de beber uma semana, ou "descansarmos" um mês inteiro num ano, então podemos estar certas de que temos um relacionamento saudável com o vinho

Bebo vinho por puro prazer. E o prazer, como ensina o filósofo espanhol Juan Antonio Rivera, é um fenômeno cinético, que consiste na viagem da falta de comodidade para a comodidade. Sem dificuldades, encontrei ótimos e cômodos substitutos.

À noite, costumo beliscar uma fruta, tomar umas duas taças de vinho e prosseguir na leitura do livro da vez.

Nas duas semanas de abstenção, à noite, substitui o vinho por chás e a minha leitura foi a de "Milênio", do Manuel Vázquez Montalbán, que criou o detetive Pepe Carvalho.

Pepe me colocou à prova. Ele, além de detetive e gourmet, é um sabido bebedor. Pois, amiga, o detetive espanhol me ajudou muito nessas duas semanas. A nossa imaginação concebeu um paliativo astuto e sutil para resolver o divórcio entre a vida real e os nossos apetites desmedidos: a ficção. Através dela, somos mais, somos outros, sem deixarmos de ser nós mesmas. É uma espécie de droga que consumo sem moderação.

Nada de tremedeiras, alucinações, aranhas gigantes nas minhas costas. Ótimas noites de sono profundo, uma sensação de mais tempo sobrando, pois não tinha que provar desse ou daquele vinho, não tinha que tomar notas etc.

Há muito tempo, li uma entrevista com o mestre Maynard A. Amerine, professor de enologia da Universidade da Califórnia, em Davis. Ele pesquisou aspectos técnicos do cultivo da uva e da produção de vinho. Seu trabalho é considerado peça fundamental pelo sucesso da indústria vitivinícola em todo o mundo. Morreu aos 86 anos, em 1998.

Pois o professor Maynard dizia que se, num mês, pudermos parar de beber uma semana, ou "descansarmos" um mês inteiro num ano, então podemos estar certas de que temos um relacionamento saudável com o vinho.

Se eu bebo regularmente, não custa tomar um ou dois cuidados. Estou consumindo agora de duas a três taças por dia. Sei que não vou sair viva desse mundo (só para lembrar uma música do cantor country Hank Williams: "I'll never get out of this world alive"). Agora, o vinho está entre as coisas que fazem esse mesmo mundo mais palatável para mim.

Se a leitora for uma bebedora regular de vinhos (ou de qualquer outra bebida alcoólica), porque não faz um teste, um pit stop ao contrário: parar para desabastecer? É só uma semana por mês.

Faça isso e em seguida anote as suas reações e conte tudo aqui para o Bolsa ou para a Soninha no soniamelier@terra.com.br. E comece o ano pisando certo.



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