O chão parece mover-se sob seus pés e você não se dá conta que está sendo carregado para fora do salão. Nem assim você desiste. Quer que as águas continuem a rolar, "garrafa cheia eu não quero ver sobrar".
O primeiro drinque não satisfez. Logo pediu outro, outro e mais outro. Começou a suar, mesmo sem dar um pulo sequer no baile. Já não conseguia acertar o copo na boca. A vontade de fazer pipi era incontrolável. Não parava com os drinques, um atrás do outro, rapidamente. O chão parecia desfocado. Pudera, você está olhando a partir do fundo do copo! Ah, o assoalho está balançando e você acha que é uma ventania.
É carregado para fora do salão. Toma ar, mas insiste. Volta para o baile e as águas continuam a rolar. Mais um copo, mais outro. Até que repara que a parede defronte está cheia de luz fria, com ventiladores. Você caiu no chão e está vendo o teto.
Quando acorda, não sabe como chegou em casa, nem que horas são. Está nauseado, cansado, boca seca, tonto. E a maior dor de cabeça da sua vida! Uma monumental ressaca acompanhada do inevitável sentimento de culpa. Está envergonhado, mas não se lembra de nada do que aconteceu no baile. Aprontou alguma, com certeza. Falar nisso, cadê a conquista que você fez?
O termo médico para ressaca é veisalgia – do norueguês kveis, "devassidão seguida de desconforto", mais o grego agia, "dor". Incrível como os noruegueses conseguem dizer tanto com uma palavrinha só.
Ela é causada pela bebida, pela combinação de um subproduto tóxico do álcool, o acetaldeído, somado à desidratação e perda das vitaminas A, B (em particular, a B6) e C em razão da ação química do álcool em seu organismo.
Além desses efeitos tóxicos, você está sofrendo da overdose de uma droga sedativa, do excesso de álcool. Seu organismo jogou fora uma grande quantidade de vitaminas e nutrientes causando um choque metabólico. Está reagindo, tentando compensar esse problema. É por isso que os sintomas da ressaca quase sempre incluem desorientação e tremedeiras.
Algumas ressacas são piores que outras, muitas vezes em razão da ação de impurezas nas bebidas que tomou. Sim, foi o álcool etílico (etanol) que o embebedou. Mas não se esqueça do álcool amílico, metílico, propílico e isopropílico: as impurezas, chamadas normalmente de congêneres, difíceis de metabolizar pelo fígado, e mais comuns em bebidas escuras – vinho tinto, conhaque, uísque.
Calcule o estrago
Quanto de álcool você tomou? Um drinque-padrão é aquele que contém 10 gramas de álcool. Isso varia de país para país, ora é de 13,5 gramas (Canadá), ora de 8 (Inglaterra). Mas na maioria, o padrão das 10 gramas é o utilizado para cálculos em que o limite legal de conteúdo de álcool em 100 ml de sangue é de 0,05%.
Para calcular a quantidade de álcool representada em cada drinque que você bebe, em primeiro lugar precisa saber a quantidade de álcool presente na sua bebida (informação presente no rótulo da garrafa ou da lata).
Vamos supor que você bebeu um copo de cerveja, com 5% de álcool. Multiplique por 0,79 (a densidade do álcool) e calcule quantos gramas de álcool você consumiu. Depois divida por 10 para chegar à quantidade de drinques que aquele copo representa. Assim, um copo com 285 ml de uma cerveja com 5% de álcool é igual a 285 X 0,05 X 0,079 = 11,3 gramas de álcool. Ou 1,13 drinques-padrão.
Uma taça de 180 ml de um vinho com 12% de álcool = 180 X 0,12 X 0,79 = 17,06 gramas de álcool. Ou 1,71 drinques-padrão. Uma dose de uísque (30 ml) com 40% de álcool = 30 X 0,4 X 0,79 = 9,5 gramas de álcool ou 0,88 drinques-padrão, abaixo do limite.
A recomendação é a de que se consuma apenas um drinque-padrão por hora. Se a cada hora depois disso você tomar apenas mais um drinque, esse nível deverá ser mantido. O bafômetro não acusará nada de anormal.
Nos intervalos, tome água, muita água, pois o álcool desidrata.
Com 0,05% de conteúdo de álcool no sangue, ainda não se percebe alteração no seu comportamento. Passar desse limite é perigoso.
Com 0,07% começamos a perder o reflexo motor. Com 0,12% ficamos eufóricos, muito sociáveis, desinibidos. O pessoal chama de "fase do macaco". O charme alcoólico de nosso Pierrô conquista a sua Colombina. Com quatro drinques-padrão em menos de uma hora, começamos a entrar na fase seguinte (com 0,25%), a do leão: queremos briga, estamos emocionalmente instáveis, perdemos a noção de julgamento. Percepção, memória e compreensão estão indo por água abaixo. Estamos descoordenados, sonolentos, mal nos equilibramos. Com 0,30% apresentamos distúrbios de visão, não percebermos cores, formas, movimentos e dimensões. O andar é trôpego e a pronúncia é ininteligível. Com 0,40%, perdemos nossas funções motoras, não respondemos mais a estímulos, ficamos inconscientes, nossa temperatura cai e respiramos com dificuldade. É morte por parada respiratória.
Pessoas saudáveis eliminam o álcool de seu sistema numa taxa média de 9,5 ml por hora. Quanto mais água, menos desidratadas ficamos. E, importante, quanto mais comida colocamos para dentro, mais lentamente ocorrerá a absorção do álcool. E se consumirmos muito carboidrato, gorduras e proteínas, melhor ainda. Nessas ocasiões, esqueça a dieta.
Ressaca, um alerta
A ressaca é a maneira que o seu corpo tem para dizer, "por favor, não faça mais isso comigo". Não há cura para ela. Para atenuá-la, comece bebendo muita água. Para lutar contra a desidratação, nosso sistema toma água emprestada de outras partes do corpo, inclusive do cérebro, que, por causa disso, encolhe temporariamente. O álcool também vai nos tomar açúcar, ao ponto de causar uma hipoglicemia. Além de água, tome bebidas como o Gatorade, um suplemento vitamínico para aumentar suas reservas de vitamina B (aliás, evite tomar drinques açucarados, como as caipirinhas: eles vão acelerar a perda de vitamina B e fazer a sua ressaca pior ainda). Lá pelas tantas, coma uma pizza ou uma massa: queijo e carboidratos antes, durante e imediatamente após a festa aumentam o metabolismo, ativam a absorção do álcool e a velocidade com que seu corpo se livra dele.
Mas a boa dica continua sendo forrar o estômago e beber apenas um drinque por hora e muita, muita água nos intervalos. Você vai brincar com todas as suas faculdades funcionando a toda. Inclusive a sexual. Se passar do ponto, nunca mais vai encontrar a sua Colombina, pois álcool em excesso anula qualquer tentativa de sexo por parte dos rapazes. Já conosco, acontece o inverso: é capaz de acordarmos com Pierrô e Arlequim na cama (nesses casos, o melhor é fingirmos perda de memória).
Vamos deixar as águas rolarem, mas não beba até se afogar, como diz a marchinha "Saca-Rolha", do Zé da Zilda e Waldir Machado, um sucesso dos anos 50.
Feliz carnaval, com muita alegria e moderação. Depois contem aqui para o Bolsa ou para a Soninha (soniamelier@terra.com.br) se alguns desses conselhos serviram.
