» 2007 » novembroSoniaMelier

O que dizem os rótulos

by soniamelier em 28 de novembro de 2007 | 21:00

Viramos a garrafa de vinho "de costas" – e lá está um segundo rótulo. Seu nome técnico é contra-rótulo, que fornece informações adicionais sobre a bebida. A garrafa "de frente" apresenta o nosso conhecido rótulo, o principal meio através do qual o produtor ou engarrafador se comunicam com os consumidores, já que as prateleiras das lojas e dos supermercados não falam.

Os rótulos numa garrafa de vinho formam uma família cuja missão é aliciar e informar o consumidor. Existem desde 1860 com a criação de uma cola forte o bastante para que pudesse se fixar firmemente nas garrafas. Até então, os vinhos eram vendidos sem rótulos. O consumidor transferia, em sua casa, a bebida da garrafa para decantadores, esses sim possuíam rótulos, no formato de etiquetas, muitas vezes de prata, para identificar o vinho.

Essa família é formada, portanto, pelo rótulo, pelo rótulo de gargalo e pelo contra-rótulo. O rótulo de gargalo é utilizado eventualmente: uma etiqueta em volta do gargalo normalmente indicando apenas a safra.

‘Em alguns contra-rótulos impera o humor ou o politicamente correto, incluindo-se conselhos sobre a quantidade adequada da bebida para gestantes: uma a duas unidades de álcool uma ou duas vezes por semana

O rótulo, o painel principal, é o elemento a quem é dada a maior atenção. Algumas vinícolas utilizam grafismos, fotos, desenhos de arte. Apresentam a marca, o nome do vinho e da vinícola, e a variedade ou variedades de uvas utilizadas. Eles são colecionados fervorosamente, seja para recordar vinhos queridos ou momentos marcantes nas vidas dos consumidores. Algumas vinícolas deliberadamente encomendam obras de arte e fazem delas os seus rótulos. É o caso, notório, do Château Mouton Rothschild. Alguns fazem das celebridades os seus motivos. O Marilyn Merlot, com a foto da atriz no rótulo, é sucesso de vendas nos Estados Unidos. Nos últimos anos, os rótulos invadiram os zoológicos e é um tal de gato, cachorro, pingüim, rinoceronte, rã, pato, canguru etc. tentando atrair as nossas simpatias. Transformaram-se até numa categoria à parte nos EUA: são os critters wines, de grande sucesso. (E não me esqueci do galinho preto do Chianti Clássico – mas esse existe antes que as criaturinhas virassem moda). Veja alguns rótulos aqui.

Existe, contudo, uma parte legal a ser cumprida. Aqui, o Inmetro, Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial, obriga, no rótulo principal, a indicação do volume contido na garrafa, expresso em mililitros quando o conteúdo é menor do que um litro. Assim, na maioria das garrafas temos registrado em negrito os 750 ml. O dado referente ao teor alcoólico pode estar no rótulo ou no contra-rótulo. Em algum lugar o produtor tem de especificar percentualmente a quantidade de álcool na bebida. A indicação de 13% de álcool quer dizer que naquela garrafa de 750 ml temos 97,5 ml de álcool etílico.

Ficamos sabendo ainda sobre a classe do vinho: se é fino (utiliza apenas uvas de origem européia, a Vitis vinifera), ou de mesa (uvas americanas ou híbridas), se é leve (teor alcoólico abaixo de 8,6%), licoroso (é o vinho fortificado, como o Porto), composto (adição de extratos aromatizantes naturais); espumante (com informação sobre o método: o Champenoise, utilizado em Champagne, ou Charmat).

Temos também dados sobre a doçura do vinho. Pode ser seco (contendo até 5 gramas de açúcar por litro), demi-sec ou meio seco (de 5,1 até 20 gramas) e suave (acima de 20 gramas). Para os espumantes, temos: o extra-brut (até 6 gramas de açúcar residual por litro), o brut (6,1 a 15 gramas), o seco ou sec (15,1 a 20 g), demi-sec ou meio-seco ou ainda meio-doce (de 20,1 a 60 g) e doce (acima de 60 gramas por litro). A designação Nature, segundo li, está para ser autorizada. Refere-se aos espumantes que não utilizam o "Liqueur d'Expedition" ao final do processo e, por isso, a concentração de açúcar residual é apenas de 1 g/litro.

As informações sobre a cor do vinho já são sabidas. Tinto, rosado ou rosé ou clarete e branco.

A variedade de uva utilizada pode ser informada no rótulo, desde que o vinho contenha no mínimo 75% dessa uva. Em Bordeaux, na França, não vemos o nome da uva no rótulo porque na garrafa temos mais de uma uva: Cabernet, Merlot, Cabernet Franc etc.

O Contra-Rótulo. Ele também contém informações reguladas por lei. E, nos últimos tempos, os produtores vêm criando inovações nesse "quintal" das garrafas. Aqui, por lei, é obrigatória a presença da razão social, do endereço e do CNPJ (Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica) do responsável. O vinho pode ser produzido e engarrafado (o responsável produz e engarrafa o vinho, obviamente) ou padronizado e engarrafado (o responsável compra vinho de terceiros, o padroniza e engarrafa).

A composição também deve ser informada: além da uva, temos os aditivos e o açúcar utilizado para adoçar os vinhos suaves. Os aditivos mais comuns são o INS 220 (o dióxido de enxofre, um conservante e também antioxidante) e o INS 202 (sorbato de potássio, para evitar nova fermentação em vinhos adoçados). O uso e as doses utilizadas são fixados pelo Ministério da Saúde.

O Código de Defesa do Consumidor obriga a que se informe sobre a validade do produto, ao lado da qual se acrescentam as condições de conservação ideais para o vinho que está na garrafa (temperatura etc). Deve-se ainda incluir advertências sobre beber moderadamente e sobre a proibição de venda a menores. Em letras menores temos o número de lote, dado obrigatório: ele permite que o produto seja rastreado no que respeita a processos, matéria-prima e safra. A advertência "Não contém glúten" é obrigatória, mas desnecessária. Não existe essa substância nos vinhos. Glúten é uma proteína só encontrada na semente de muitos cereais, como o trigo.

Temos ainda o dado sobre o responsável técnico pelo produto, embora não seja obrigatório nomear-se o enólogo. O código de barras está lá para facilitar os sistemas de automação comercial, identificando o item no ponto de venda.

Mas são nas informações opcionais que os produtores mais se expandem. Lá estão dados sobre as características do vinho e sugestões quanto às combinações melhores com alimentos, além das temperaturas ideais para servir a bebida. Muitos incluem ainda amplos dados sobre a região de origem, até mesmo mapas. E aqui eles piram na batatinha (em termos de auto-elogio). Falam que o vinho veio de uma região de muito prestígio, que só produzem vinhos de grande qualidade. Suas regiões são sempre um verdadeiro paraíso. E o seu trabalho é simplesmente perfeito.

Os contra-rótulos dos vinhos do Novo Mundo são loquazes, em contraste com aqueles do Velho Mundo. Os contra-rótulos da Borgonha e Bordeaux indicam nada mais do que o nome do produtor e do importador. Mas acho que um pouco mais de informação seria melhor, mesmo com os exageros.

Às vezes, o impulso promocional faz o produtor colocar uma foto de um sommelier ou chef, por exemplo, quando esse endossa o vinho de alguma maneira. Às vezes, chega a dar o seu nome ao vinho. Se existe um vinho com o nome e a foto da Marilyn, por que não? Em alguns contra-rótulos impera o humor ou o politicamente correto, incluindo-se conselhos sobre a quantidade adequada da bebida para gestantes: uma a duas unidades de álcool uma ou duas vezes por semana.

Temos contra-rótulos extremamente informativos. Além do óbvio (safra, appellation, vinícola), além de mapas da região, temos a área do vinhedo, sua geologia, elevação média, número total de videiras, espaço entre elas, videiras por metro quadrado, toneladas de uva por metro quadrado, hectolitros de vinho por hectare de vinhedo, data da safra. E, mais: quanto tempo o vinho ficou em barril e que tipo de barril, se houve ou não fermentação malolática ou se o vinho foi filtrado. Assim são os contra-rótulos da norte-americana Calera, considerada uma das principais produtoras de Pinot Noir do país.

Se a leitora encontrar um rótulo ou contra-rótulo exótico, fora do comum, por favor, fale aqui com o Bolsa ou com a Soninha, no soniamelier@terra.com.br

Da Adega.

Curso para Juiz Avaliador de Vinhos. Sim, agora temos um curso internacional de formação para juízes avaliadores de vinhos – inédito até agora no Brasil. O curso resulta de uma parceria da Escola de Gastronomia da Universidade de Caxias do Sul (UCS) e do Instituto Italiano de Culinária para Estrangeiros (Italian Culinary Institute for Foreigners – ICIF). O programa está sendo apresentado hoje em São Paulo, no restaurante In Cittá Magazzino Gastronômico, pela professora de Gastronomia da UCS, Maria Beatriz Dal Pont, e pelo jornalista e sommelier Roberto Rabachino, presidente da Federazione Italiana de Sommelier. O curso será iniciado em 2008. A Escola de Gastronomia da UCS tem sede em Flores de Cunha, RS. Informe-se aqui.

Dinastia, o melhor tinto. O Dinastia, da vinícola H. Stagnari, empresa familiar baseada na região de La Caballada, Uruguai, foi eleito o Melhor Vinho Tinto, no concurso Vinalies, realizado no Chile. O vinho já tinha se consagrado Campeão de Vinhos Tintos 2007, na "Competição Internacional de Vinhos de Liubliana" (capital da Eslovênia, na Europa Central). A Stagnari, liderada pelo enólogo Hector Stagnari, faz vinhos desde 1925. O Dinastia utiliza a uva Tannat, variedade mais representativa da vitivinicultura uruguaia. Está chegando ao Brasil pela Cantu Importadora. Mais informações pelo telefone 0300-210 1010.

Sementes da Discórdia. É um livro sobre os polêmicos transgênicos, logo de grande importância para toda a sociedade, pois soma ameaças à agricultura, meio ambiente, alimentação, saúde e consumo. Numa resenha feita por um dos autores, Gabriel B. Fernandes, observa-se que a questão dos transgênicos vem sendo apresentada pela mídia de modo simplista, na base do contra ou a favor. E, no fim das contas, com o debate despolitizado, a transgenia acaba sinônimo de biotecnologia. No livro, discute-se principalmente "o problema por ora insolúvel da corrente contaminação de sementes e lavouras de agricultores que não querem plantar transgênicos e o que isso representa para a sustentabilidade do desenvolvimento rural…" Transgênicos, Sementes da Discórdia, Editora Senac, de Antonio Márcio Buainain e José Maria Silveira (Unicamp), Gabriel B. Fernandes (As-PTS) e Ricardo Abramovay (FEA/USP). R$ 35,00.

Os vinhos da Perez Cruz. A importadora e exportadora Wine Company apresentou ontem, 28, os vinhos da chilena Perez Cruz, através de uma degustação comandada pelo enólogo da vinícola, Germán Lyon, no restaurante Terzetto, em Ipanema. A Perez Cruz, fundada em 2002, está localizada na região de Maipo Alto, berço da maioria dos vinhos premium do país. O seu Syrah Limited Edition 2004 foi classificado entre os 100 melhores vinhos de 2006 pela Wine Enthusiast.

Denis Dubourdieu. Ele é um misto de cientista, empresário e produtor de vinhos. Uma das maiores autoridades da França em processos de envelhecimento de vinhos brancos, é professor de Enologia na Universidade de Bordeaux e concentra seus estudos em leveduras, aromas e colóides. Pois não é que deixei de conhecer Dubourdieu em pessoa. Problemas de morar longe e de contar apenas com um jipe decadente.

Pois o francês em participou dia 26, segunda-feira, de um almoço harmonizado com seus famosos vinhos. Além de tudo, um almoço, no Le Pré-Catelan, criado pelo chef Roland Villar. A Denis Dubourdieu Domains produz vinhos em várias regiões: em Sauternes, Graves e nas Premières Côtes de Bordeaux.

Música em sua taça

by soniamelier em 14 de novembro de 2007 | 21:00

Que estilo de música você escuta enquanto degusta o seu vinho? Beethoven ou Chitãozinho e Xororó, Tom Jobim ou Elymar Santos? Cuidado, pois acaba de ser criada mais uma teoria nesse mundico dos vinhos já tão lotado de teorias.

Na verdade, eu deveria hoje fazer referência, mais uma vez, à chegada do Beaujolais Nouveau em todas as lojas do mundo. Dizem que estão lançando uma versão rosé. Pra quê, se o Nouveau já funciona de fato como um rosado?

‘Desconfio que se colocar qualquer clássico para acalmar os meus cachorros e evitar que chacinem minhas galinhas, o esporte preferido deles, não vai adiantar nada. O mais seguro seria colocar um som eletrônico, tipo bate-estaca, bem alto para espantar as penosas para bem longe de feras residentes

Mas optei por falar dessa história sobre música e vinhos, que, juram: é verdade verdadeira.

Um conhecido enólogo e consultor de vinhos da Califórnia, Clark Smith, dono da Vinovation, garante que a música que você está ouvindo influencia o gosto do vinho que você está, ao mesmo tempo, degustando. Não, não se trata de atuar sobre os seus humores, o ambiente que o cerca ou sobre as pessoas em volta de você.

Smith garante que diferentes tipos de música vão fazer o vinho ser mais ou menos saboroso. Uma simples canção que pode elevar o seu Pinot Noir a um grau de suprema excelência. Ou deixar o seu Cabernet Sauvignon num estado execrável.

Smith é preparadíssimo: já passou pelo M.I.T., é enólogo graduado pela famosa Universidade da Califórnia, em Davis, já foi produtor da Vinícola R.H. Phillips (250 mil caixas por ano). Em 92, patenteou um sistema de redução e ajuste de álcool via a tão falada osmose reversa (osmose: um líquido, no caso o vinho, passa através de uma membrana, saindo de uma solução mais concentrada para outra menos concentrada). Ele está no meio da grande controvérsia que cerca vinhos com muito álcool. Entregam para ele um vinho com 12% de álcool e ele devolve a bebida com 15, 16% ou mais, como é a grande moda atual entre produtores interessados em agradar críticos como Robert Parker. Mas pode acontecer o contrário: de um vinho com 17% e ele o reduz para 12%. O freguês escolhe. Ele sabe o que faz. E acredita firmemente que o produto final sairá equilibrado, harmônico etc.

Acredita também, honestamente, que a música pode mudar o sabor dos vinhos. Ele realizou testes, em que um Cabernet de Bordeaux parece ficar melhor ao som do Metallica, famoso grupo norte americano de heavy metal.

Garante que uma determinada polca (tocada por uma banda local) transforma um ordinário Zinfandel branco em algo bem melhor do que a maioria dos seus tintos, mais caros. Na verdade, diz que polca só combina com Zinfandel branco. E com mais nada. Revela que os vinhos tintos, na média, melhoram substancialmente com músicas que ofereçam uma "emoção negativa". Não gostam de música alegre. Os Pinot Noir não gostam de música sensual. Os Cabernets gostam de músicas "zangadas", como as do Metallica. Daí a dificuldade de encontramos uma música que seja boa ao mesmo tempo para a Pinot e para a Cabernet.

Apesar de ser um tecnólogo inveterado, Smith afirma que os vinhos possuem sua própria melodia. É um místico que ainda acredita na antiga idéia grega de separar os pensamentos e atividades entre as lógicas (que seriam originárias de Apolo, segundo ele) e as intuitivas (nascidas de Dionísio). Francamente, não entendi as analogias com os deuses gregos. Até hoje, não conheci um só deles cujo perfil apontasse para um ser lógico, coerente, racional.

A lógica, o bom senso, o caminhar conforme as regras, eram tarefas mais afinadas com os mortais, na maioria das vezes. Também não atino que pudessem ser apresentados como intuitivos: eles eram mais para espertos, estabanados, de caráter suspeitíssimo, mas ao mesmo tempo ingênuos.

O enólogo não sabe ainda explicar a razão pela qual o binômio vinho-música interfere em partes de nosso cérebro. Não consegue ainda explicar como, fisiologicamente, a Cabernet torna-se significativamente melhor com os The Doors (uma banda de rock americana que existiu entre 60 e 70, em que pontificava o lendário Jim Morrison), ou com a abertura da Carmina Burana, do que com Mozart ou os Beach Boys.

Já que "a música é o vinho que enche a taça do silêncio", segundo o guitarrista e compositor Robert Fripp, não é de estranhar que tenhamos agora essa moda de música. O que não é uma exclusividade do Clark Smith.

O produtor Jean-Marie Zerr, da Alsácia, jura que a complexidade aromática de suas uvas, em particular as Gewürztraminer, melhorou substancialmente a partir do momento em que começaram a ouvir Brahms, Schubert, Mozart, Vivaldi, entre outros.

Zerr usa música clássica e um conjunto de sons estranhos, que só as uvas conseguem entender, mas "não adequados aos ouvidos humanos". Seus vizinhos já estão achando que ele é um caso perdido.

De qualquer modo, a hipótese de a música de Bach ou de Tchaikovsky influenciar toda uma vinha está sendo pesquisada seriamente pela Universidade de Florença, Itália, a partir das experiências de um outro vinicultor, o toscano Giancarlo Cignozzi, que produz o famoso Brunello di Montalcino.

Um especialista italiano em neurobiologia vegetal, professor Stefano Mancuso, já começou a reproduzir em laboratório o que realizam esses vinicultores melomaníacos. E ele garante: "Os efeitos da música ou das freqüências sonoras sobre o crescimento das plantas são notáveis".

Não sei, não. Uma amiga querendo se livrar de um namorado, mas temendo ser indelicada, gravou o Soneto da Fidelidade, dito pelo próprio autor, o mestre Vinicius de Moraes. Fez um CD inteiro com o soneto – aquele que termina assim: "Eu possa me dizer do amor (que tive)/Que não seja imortal, posto que é chama/Mas que seja infinito enquanto dure."

O rapaz foi à casa dela, jantou, conversou sobre o tempo, o trabalho, pediu cerveja e mais cerveja e depois um cafezinho. E o CD não parava de tocar, era também infinito. O namorado se fez de surdo ou era bronco mesmo. Sequer emitiu um comentário sobre o fundo musical neuroticamente repetitivo. Não adiantou nada. Foi embora com beijinhos e tudo. Ela optou por mandar uma carta encerrando o namoro. Estão casados desde então.

Desconfio que se colocar qualquer clássico para acalmar os meus cachorros e evitar que chacinem minhas galinhas, o esporte preferido deles, não vai adiantar nada. O mais seguro seria colocar um som eletrônico, tipo bate-estaca, bem alto para espantar as penosas para bem longe de feras residentes.

Também não sei o que faço com os vinhos que consumo habitualmente. Como resolver, por exemplo, a questão do premiado Rio Sol? É um dos vinhos servidos ao Papa Bento XVI quando visitou o país e feito numa vinícola à beira do rio São Francisco, Pernambuco. Devo degustar esse vinho, um Cabernet-Shiraz, ao som de um baião, de um coco, de um afoxé, frevo, jongo, maracatu, ou quem sabe de um xaxado, um batucajé? Um perigo arriscar.

Enfim, amigas, cada enólogo com a sua mania. A leitora tem alguma particular preferência musical quando degusta um vinho? Ou o som que prefere é o do papo entre amigos ao redor da mesa? Conte para nós aqui no Bolsa ou para a Soninha, no soniamelier@terra.com.br

Da Adega

Sabores do Sul da França. Não vamos esquecer que o festival Sabores do Sul da França termina dia 17, depois de amanhã. Ele acontece em 45 restaurantes do Rio, Niterói, Búzios e Petrópolis, onde harmonizarão vinhos do Languedoc-Roussillon com a gastronomia de cada casa. Só tem feras da cozinha francesa no festival: Troisgros, Roland Villard, Olivier Cozan, e muitos cobras nacionais. Saiba mais com a Juliana.

Etchart Cosecha Tardia no Brasil. A Pernod Ricard está lançando no mercado o Etchart Cosecha Tardia ("Colheita Tardia", um vinho doce natural), da Bodegas Etchart, fundada em 1890, uma das mais antigas da Argentina. O vinho já chega premiado (o único colheita tardia, medalha de ouro na feira Vinhos & Bodegas de Buenos Aires. Utiliza as uvas Torrontés, de origem espanhola, parenta da Moscato, é a variedade de uva branca mais utilizada naquele país. Uma preciosidade.

O Etchart Cosecha Tardia vem com um amarelo ouro brilhante, um buquê de flores e frutas intenso e complexo, além de notas de rosas, jasmim, pêssego e frutas cítricas. Você não pode perder. Mais informações no site da Pernod Ricard ou através do SAC: 0800 014 20 11.

Sinta o buquê

by soniamelier em 7 de novembro de 2007 | 21:00

É muito comum encontrarmos nas críticas de vinho uma observação sobre a partir de quando um vinho estará "pronto" para ser bebido. Mas e se víssemos essa questão do nosso ponto de vista? Afinal, quando estaremos no domínio pleno de nosso potencial olfativo para provarmos não só os vinhos, mas as comidas e tudo o que nos der prazer?

Nas resenhas das revistas, os críticos fazem uma estimativa complexa e ousada, para a qual precisam realmente ter muito treino, conhecimento e um senhor nariz, um sentido de olfato privilegiado. Normalmente são avaliações conservadoras. Quando recomendam que um determinado vinho da safra de 2000 deve ser bebido depois de 2010, esperam que em 2011 a bebida tenha atingido aquele ponto em que as imperfeições de sua juventude tenham sido aplacadas e a bebida conquistado todas as suas melhores qualidades.

‘O olfato é, de longe, nosso mais poderoso dos sentidos. Pode discriminar entre dezenas de milhares de diferentes aromas. É capaz de determinar alguns dos componentes de um vinho em níveis iguais a uma única parte por trilhão

E o que acontece com os sentidos de olfato e paladar na medida em que envelhecemos? Já fui curadora de alguns leilões de vinhos de gente que tinha guardado o seu rico acervo para bebê-lo e não esperar vendê-lo por mais dinheiro. Mas aí a idade chegou, e esse povo não conseguia mais distinguir sardinha de bacalhau. Aí, resolviam se desfazer de sua adega. Muitas vezes, os donos dessas garrafas morriam antes de poderem provar seu precioso acervo.

A verdade é que só pensamos no nosso sentido olfativo quando cheiramos alguma coisa particularmente agradável ou desagradável. Nossa habilidade em detectar e reconhecer odores ajuda até mesmo a moldar o nosso mundo mental.

Odores podem nos trazer de volta memórias de lugares e de pessoas, freqüentemente envolvidas com os estados emocionais que associamos com elas. Quando Proust faz o seu personagem provar uma madeleine, ele é transportado para outro tempo e outro lugar. E assim, a partir dos odores desse bolinho, ele construiu uma das maiores obras da literatura universal, Em busca do tempo perdido.

É bem provável que o sentido do olfato tenha sido até mais importante para os nossos ancestrais. Talvez já não seja assim tão vital para nós como ainda é para os animais, que usam seus narizes para caçar (ou para não serem caçados). De qualquer modo, nossa habilidade em distinguir cheiros como os de comida estragada, de vazamentos de gás e de cigarros pode representar até mesmo uma questão de vida ou de morte.

Notamos mais os sentidos de olfato e paladar quando comemos. Os sistemas olfativo e de paladar operam alinhados de modo a nos proporcionar os sabores das comidas e bebidas. Se perdermos o sentido do olfato, logo veremos que também ficamos privadas do nosso paladar, mesmo que nossas papilas gustativas estejam respondendo normalmente. Juntos, olfato e paladar podem fazer do comer e beber um prazer estético.

O olfato é, de longe, nosso mais poderoso dos sentidos. Pode discriminar entre dezenas de milhares de diferentes aromas. É capaz de determinar alguns dos componentes de um vinho em níveis iguais a uma única parte por trilhão. Um exemplo disso é o célebre componente TCA (2,4,6 Trichloroanisole), o responsável principal pela "doença da rolha", sobre a qual vivo falando aqui. Algumas pessoas podem detectar o TCA na razão de uma parte por trilhão – que é igual a um simples segundo em 32 anos! Contudo, comparadas com o meu Labrador, o Ignácio, nossas qualidades olfativas tornam-se realmente patéticas. O Ignácio sabe que estou chegando em casa a uns três quilômetros de distância. Podem acreditar.

Hoje, sabemos mais sobre esse importante sentido, através de muitas pesquisas científicas medindo as muitas e diferentes capacidades olfativas das pessoas, abrindo as portas para novas descobertas. Sabemos mais agora as razões pelas quais as pessoas perdem o seu sentido de olfato e porque isso pode ser a pista para desordens neurológicas.

A causa mais comum da perda permanente deste sentido parece ser uma braba infecção respiratória, causada por vírus, danificando uma camada da célula nervosa na cavidade nasal (o neuroepitelium). Isso é raro em pessoas com menos de 45 anos. Mas na medida em que envelhecem, os homens (mais que as mulheres) apresentam grandes perdas.

Na falta de uma pesquisa brasileira, tenho em mãos uma norte-americana que estima que menos de 2% dos americanos com idade até 65 anos têm alguma perda olfativa significativa. Mas cerca de metade da população do país entre 65 anos e 80 apresentam problemas. Acima de 80 anos, ¾ da população experimenta perdas. Isso explica porque muitos idosos reclamam da falta de tempero de sua comida, que aquela marca de vinho que gostava tanto já não é mais a mesma. Explica porque muitos velhos morrem envenenados por gás em razão de algum vazamento acidental.

As pesquisas sugerem que a perda do olfato, na maioria das vezes, reflete danos cumulativos na membrana olfativa: são vírus, bactérias, toxinas danificando as células nervosas ao longo de nossas vidas. Até que chega um dia e acontece um mais um resfriado, o bastante para produzir uma perda, às vezes permanente, do sentido olfativo. Mas existem outras causas, relativas à idade: o endurecimento do osso etmóide, que forma parte das paredes e do septo nasal, através do qual passam os nervos olfativos.

A segunda causa mais comum de disfunção do olfato são traumas cranianos. De 7 a 15% de pacientes com esse tipo de lesão podem sofrer de perda parcial ou total do olfato. A terceira causa comum são as doenças como as envolvendo pólipos nas mucosas ou desordens como a rinite alérgica. Às vezes, tudo se resolve com terapias que envolvem até cirurgias. Contudo, inflamações crônicas das regiões nasais resultam, inclusive, em perda permanente do nosso sentido olfativo.

Essas desordens podem ser derivadas de outras fontes: radioterapia para câncer, cirrose do fígado, deficiência de tiamina, problemas endocrinológicos (diabetes etc.), epilepsia, doenças nos rins e hemodiálise. A decadência desse sentido ainda alerta para desordens neurológicas ou psiquiátricas, como a esquizofrenia, as doenças de Parkinson e de Alzheimer e depressão.

Em suma, leitora, fique atenta: a partir dos 60, nosso sentido olfativo começa a decair, segundo as pesquisas. Entre 65 e 80 anos, metade da população norte-americana apresenta problemas significativos. Depois dos 80, 60% dessa faixa terá problemas mais sérios. As pesquisas só não falam do nariz do Pinóquio.

Tudo muito natural: na medida em que envelhecemos, vamos perdendo nossas potencialidades. No caso do olfato, vale notar, os homens perdem primeiro do que nós. Sabemos que eles também perdem mais em outras áreas, não é mesmo?

Portanto, leitora, a qualquer sinal de perda de olfato, fale com o seu médico imediatamente. E não faça adegas muito grandes: aproveite todo o seu vinho.

Para saber mais, clique aqui para o Bolsa ou para a Soninha no soniamelier@terra.com.br

Da Adega

II Encontro do Fórum de Eno-Gastronomia. Começa amanhã, dia 9, o II Encontro, com degustações, workshops, exposições, almoços e jantares temáticos, showroom de vinhos nacionais e importados, queijos e outros produtos alimentícios. O evento vai até o dia 11 e será realizado no Porto Bay Hotel Rio Internacional, em Copacabana, Rio (Av. Atlântica, 1500). Haverá debates com Stephanie Creyssels, do Vignerons de La Mediterranée, o maior produtor do Languedoc, França. E também sobre os vinhos orgânicos de Juan Luis Carrau, além de uma conversa sobre Robert Parker, o imperador do vinho. Tudo comandado por Mike Taylor. Não perca. Saiba mais aqui. Faça contatos aqui.



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