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O que houve com o Clarete?

by soniamelier em 27 de julho de 2006 | 21:00

Um fiel leitor, Roldão Simas, nota que se escutava muito falar em vinho clarete. E hoje em dia não mais. O que houve com o clarete? O que é clarete?

Clarete, tal como utilizamos normalmente hoje, é a forma que os ingleses (os americanos, não) geralmente utilizam para descrever os vinhos tintos de Bordeaux. É grafado com o "t" mudo: Claret.

Na França medieval, a maioria dos vinhos tintos resultava de uma breve fermentação, normalmente não mais do que um ou dois dias. Esse curto período de contato do suco com as cascas das uvas produzia um vinho de cor muito pálida, provavelmente muito parecidos com os rosados de hoje. Esses vinhos, exportados de Bordeaux, eram chamados de vinum clarum, ou Clairet - e foi dessa última palavra que derivou o termo inglês Claret.

Outros vinhos, muito mais escuros também eram produzidos, levando o que restou da primeira fermentação para uma nova prensagem. E o vinho que resultava era chamado de vinum rubeum purum, bin vermelh ou pinpin.

Embora a forma clairet fosse largamente utilizada na França medieval, a expressão claret parece não ter sido muito utilizada na Inglaterra até o século XVI. Na segunda metade do século XVII, um novo tipo de vinho, de qualidade muito melhor e de cor mais escura, começou a ser produzida nas regiões de Graves e no Médoc. Mais atenção era dada à seleção das uvas, melhorou-se a técnica de vinificação, utilizaram-se barris de carvalho novos. Então, no começo do século XVIII, os ingleses começaram a chamar esses vinhos de Novos Clarets Franceses e os mais famosos entre eles eram o Haut-Brion, Lafite, Latour e Margaux.

(The Oxford Companion to Wine – segunda edição. Editado por Jancis Robinson, MW).

Clairet – estilo de vinho rosado escuro que é uma especialidade da região de Bordeaux, lembrando os vinhos tintos exportados em grande quantidade para a Inglaterra, na Idade Média. Foi esse Clairet que originalmente inspirou a expressão inglesa Claret.

Como é feito? Uvas tintas são fermentadas em contato com suas cascas por cerca de 24 horas. Retiram-se as cascas e a fermentação continua até secar. O sumo pega muito pouco a cor tinta, ficando mais para o rosado. É, então, engarrafada para ser vendida sob a apelação "Bordeaux Clairet" e deve ser bebida o mais jovem possível. Falam que se originou em Quinsac, nas Premières Côtes de Bordeaux.

Clairette. É um nome muito utilizado para uvas brancas do sul da França. Como, por exemplo, a Clairette Ronde, do Languedoc (que é a uva Ugni Blanc, versão da Trebbiano italiana, que entra na produção do Conhaque e do Armagnac). As Clairettes servem também como sinônimos para a uva Bourboulenc.

Clarete. É também uma expressão espanhola para um vinho de matiz entre o rosé (que os espanhóis chamam literalmente de rosado) e um tinto leve. Relaciona-se etimologicamente (mas não enologicamente) ao Claret inglês e tem origem em claro – que significa isso mesmo, claro.

A palavra foi utilizada nos rótulos de vinhos espanhóis até sua proibição, em razão da entrada da Espanha na União Européia, em 1986. Mas ainda é empregada no país como uma expressão descritiva.

Clarete. Em Portugal é o vinho tinto "pouco colorido". Mas lá temos também o vinho Palhete (ou Palheto), um vinho tinto obtido "da curtimenta parcial de uvas tintas ou da curtimenta conjunta de uvas tintas e brancas, não podendo as uvas brancas ultrapassar 15% do total".
Temos aí, na verdade, um rosé ou rosado. Existe, inclusive, uma designação oficial: Palhete de Ourém, para os vinhos dessa região, em complemento à designação "Vinho Regional Estremadura", com uvas tintas e brancas originais da região de Ourém e lá vinificadas.
É uma bebida de origem medieval, com maiôs de 800 anos de história, finalmente regularizada pelo governo português em 2001. O palhete tem uma cor próxima ao do rubi claro.Clarete. No Brasil, pela Lei nº 10.970, de 12 de novembro de 2004, os vinhos são assim classificados quanto às suas cores: a) tinto; b) rosado, rosé ou clarete; c) branco. Ou seja: clarete e rosado são a mesma coisa. Saiba mais sobre a Lei do Vinho no Brasil aqui. Essa definição se repete nos glossários dos sites da Associação Brasileira de Enologia (veja aqui). E também no da União Brasileira de Vitivinicultura (veja aqui).

‘Podemos ter um clarete doce, meio doce ou seco, quanto ao volume de açúcar. E ele não deixaria de ser clarete

Numa carta a um amigo, o poeta português Antero de Quental (1842-1891) fala ter provado alguns vinhos do Minho enviados por esse amigo. "Como originalidade ponho o clarete acima de tudo… Ao seco acho-o seco demais e, no gênero, prefiro-lhe o bastardo… Em conclusão: como tipo ponho o clarete em 1º lugar e ponho em último o seco", avalia o poeta.

Ou seja, parece que se estabelece aqui uma diferença quanto ao teor de açúcar do vinho, pois entendemos pela carta que o clarete seria mais doce. Isso altera alguma coisa? Acho que não: podemos ter um clarete doce, meio doce ou seco, quanto ao volume de açúcar. E ele não deixaria de ser clarete.

Mas para criar mais confusão, o missivista fala de uma preferência pelo "bastardo". A casta Bastardo é uma das utilizadas na Denominação de Origem Controlada da Beira Interior. É também uma das uvas tintas utilizadas no vinho do Porto (as variedades de destaque lá são: touriga nacional, tinta roriz, tinta barroca, touriga francesa, tinta cão, donzelinho, tinta francisca e mourisco tinto, além da bastardo). Os Portos são, contudo, doces. Fico confusa: o poeta teria bebido um tantinho a mais e ousou comparar vinhos doces com secos, ou simplesmente firmou que prefere os vinhos doces?

Mas esse estilo de clarete doce tem um fundamento.

Tenho aqui o texto de um anúncio de rádio (um spot), dos idos de 1947, na Rádio Tupi, onde o locutor lia o texto ao vivo, direto, durante um programa do lendário Almirante. O programa era patrocinado pelo Vinho Único e os estilos dos vinhos dessa marca eram apresentados: "clarete, grande vinho branco doce, moscatel licoroso, malvasia tipo porto, espumante tinto e licoroso…"

Não dá muito para entender as classificações do anúncio, pois, vejam: temos aí um "malvasia tipo porto". Mas Malvasia (ou Malmsey ou Malvazia) é uma das quatro grandes variedades que fazem o vinho da Madeira. Será que usaram "tipo porto" em substituição a Madeira para facilitar o entendimento do ouvinte? Só que, no Brasil, Madeira e Porto eram igualmente conhecidos, como tudo de gostoso vindo de Portugal para a colônia.

A confusão é maior por existir uma variedade, a Malvasia Fina, conhecida também como Vital, plantada na região do Douro e que contribui como blend para o vinho do Porto branco – mas muita rara no Brasil dos anos 50.E, reparem, quase todos os vinhos são "licorosos". Durante muitos anos, os vinhos rosé, rosados ou claretes (como nas definições portuguesa, espanhola e brasileira) eram doces – uma tradição que vem até de antes do famoso Mateus Rosé, um dos maiores produtos de exportação de Portugal em todos os tempos. O Mateus ajudou a embalar a imagem de doçura dos rosados. Nos Estados Unidos, hoje, os rosés são ainda considerados pela maioria dos consumidores como vinhos doces – graças ao Mateus e também os rosados feitos lá com a uva Zinfandel.

‘Vinhos tintos ficam claros porque seu sumo não ficou muito tempo em contato com as cascas das uvas

Então o clarete seria o quê? Um rosado doce, "licoroso"? Apenas um vinho tinto? Se fosse, porque não chamá-lo apenas de tinto, tal como o anúncio fez com o "tinto espumante licoroso"?

Os rosados contemporâneos são em sua maioria secos, repetem a tradição medieval. Vinhos tintos ficam claros porque seu sumo não ficou muito tempo em contato com as cascas das uvas. Ou, num segundo método: uma mistura de brancos e tintos.

Enfim, hoje a expressão clarete só é utilizada em alguns rótulos portugueses. Mas o seu significado se mantém: é um vinho tinto pálido ou um rosado mais acentuado, chegando ao rubi.

E seu ancestral, claret, continua firme como a denominação até hoje utilizada pelos ingleses para os tintos de Bordeaux. Mas ainda vemos a palavra Claret em alguns rótulos bordaleses – certamente dirigidos especificamente aos consumidores ingleses.

A expressão em nossa língua caiu em desuso quando a Espanha e Portugal ingressaram na União Européia, cujas leis relativas aos vinhos impõem que as cores destes sejam apenas tintas, brancas e rosadas. E o clarete foi aposentado.
O inverno vai chegando ao fim, com as praias cariocas cheias de gente procurando mais calor e mais cor. E com o calor, leitora, não deixe de experimentar mais os roses, rosados ou claretes, tal como a definição da lei brasileira. São excelentes para refrescar.

Dúvidas, perguntas? Escreva para o Bolsa ou para a Soninha no soniamelier@terra.com.br

Vinhos em quadrinhos

by soniamelier em 20 de julho de 2006 | 21:00

No concurso entre sommeliers na França, Joe Satake foi o vencedor, mas recusa o prêmio. Um gênio, ele se recolhe a uma orgulhosa solidão. E pensa: ‘Não há vinho ruim. Quando encontra um vinho é só dar um tempo para ele. As várias jóias de um vinho são como companheiras – ocasionalmente uma doce história, às vezes uma amarga. Vinhos não mentem – os sommeliers conseguem ver a verdade dentro deles. Cada vez é um novo encontro.'

E cada vez é uma nova surpresa. Se as amigas pensam que a última moda em vender vinhos é colocar bichinhos simpáticos nos rótulos, como faz o australiano Yellow Tail (da Casela Wines e seu canguru do rótulo, que por sinal não vejo nada muito amarelo em sua cauda), disparado o importado mais vendido nos Estados Unidos, estão enganadas.

Há cerca de uma década, numa terra muito distante, uma simples história em quadrinhos com milhares de admiradores transformou um vinho da Califórnia, novo naquele pedaço, num senhor sucesso, do dia para a noite. E esses quadrinhos não tinham cangurus, ursinhos, gatos, cachorros, pingüins, galos etc. – os bichinhos que fazem sucesso nos rótulos dos vinhos norte-americanos. Lá, se tem bichinho no rótulo, vende com certeza.

‘E cada vez que os quadrinhos de Satake chegam às bancas, uma multidão de japoneses amantes de vinhos faz filas nas lojas em busca de qualquer garrafa de Calera disponível

Mas a terra distante é o Japão, onde uma história em quadrinhos para adultos, chamada de mangá, editada regularmente num dos mais importantes diários do país, e que tem como personagem principal um sommelier meio fanfarrão chamado Joe Satake.

O vinho que Joe Satake ajudou a transformar num "cult" do dia para a noite foi um Calera Pinot Noir, da Califórnia. E cada vez que os quadrinhos de Satake chegam às bancas, uma multidão de japoneses amantes de vinhos faz filas nas lojas em busca de qualquer garrafa de Calera disponível.

Calera é o nome espanhol para um forno de cal (cal, a substância branca, pulverizada, obtida através da calcinação de rochas calcárias, submetidas a altas temperaturas nesse forno). É também o nome de uma vinícola, a Calera Wine Company. Seu nome é tirado de uma obsessão de seu fundador, Josh Jensen: fazer o melhor vinho baseado em Borgonhas, em particular o famoso Pinot Noir tão procurado por Miles, o personagem principal do filme Sideways. Jensen procurou terras calcárias como as da Borgonha. E as achou no Monte Harlan (no distrito de San Benito, nas Montanhas Gabilan, Califórnia), numa área que tinha sido anteriormente uma pedreira de calcário. Saiba mais sobre a Calera Wine Company aqui.Quando os quadrinhos de Joe Satake apareceram no Japão, o Calera Pinot Noir já estava listado com um dos grandes vinhos da América. Na época que Josh Jensen viajou ao Japão para conduzir degustações de seu Pinot Noir em Tóquio e Osaka, fãs do seu Calera enfrentaram filas para que ele autografasse os rótulos de garrafas vazias do seu vinho. Joe Satake funcionou e continua funcionando.

Veja o Joe Satake aqui, na capa da Sommelier, sempre ao lado de uma garota bonita e sempre segurando uma taça de vinho.

Mangá. É a palavra japonesa para história em quadrinhos. Quanto aos estilos, ele mistura os do oriente e também do ocidente. Tem origem na China, mas foi no Japão que fixou residência. Tomou o seu formato atual logo após a II Guerra. Não é preciso dizer que tem imensa aceitação no Japão, onde explora uma grande variedade de temas, satisfazendo leitores de todas as idades, classes e sexo. As histórias em quadrinho japonesas formam uma indústria que fatura muito mais do que o seu equivalente norte-americano. Vendem milhares de cópias semanalmente e são respeitadas tanto como uma forma de arte quanto como uma forma de literatura popular. Saiba mais sobre o mangá aqui.

‘Um deles era o superstar e caríssimo Romanée-Conti, o orgulho da Borgonha, o mais famoso de todos os vinhos feitos com a Pinot Noir – coisa para colecionadores sabidos e abastados

O Sommelier Satake. O nosso Joe Satake começou a aparecer numa série de mangá chamada Sommelier. Ele é a estrela, um brilhante degustador de vinhos, com um conhecimento enciclopédico dos vinhos de cada região, tanto as obscuras quanto aqueles Grands Crus. Entre as degustações de vinho, Joe ainda resolve crimes complicados e sempre fica com a mocinha (a garota mais bonita do pedaço, naturalmente).

Nessa edição da Sommelier, em parte referida na abertura da coluna, quando Joe Satake ganha o concurso de degustação, ele relembra uma outra prova onde teve de degustar dois vinhos às cegas (ou seja: você desconhece a marca do vinho).

Um deles era o superstar e caríssimo Romanée-Conti, o orgulho da Borgonha, o mais famoso de todos os vinhos feitos com a Pinot Noir – coisa para colecionadores sabidos e abastados (como o Boni, o famoso superexecutivo da Rede Globo). O outro era um vinho da Califórnia, o Calera Pinot Noir, dos vinhedos Jensen.

Um sommelier rival, pra lá de invejoso e cheio de truques, tenta enganar Satake descrevendo os vinhos de modo a concluir que o melhor deles era o Romannée-Conti.
Mas, no último minuto, Satake percebe que só podia haver um vinho similar ao DRC, o Calera, que o nosso herói aponta como o vencedor. Não só ele manteve o seu prestígio como derrotou o seu rival e evitou uma senhora injustiça. E ainda ficou com uma garota de sonhos que estava acompanhando o concurso (não estranhe, essa é uma história em quadrinhos). É dessa maneira que o vinho californiano vai sendo anunciado.Essa historinha apareceu no Sommelier há dez anos. Logo após chegar as bancas, teve o número esgotado e as lojas se entupiram de japoneses fanáticos por vinho atrás de uma garrafa de Calera Pinot Noir. Foi o formidável Joe Satake que lançou a marca.

Hoje, dez anos depois, a caleramania continua não apenas forte, mas crescendo, segundo Josh Jensen. "Vendemos hoje 23% de nossa produção para o Japão, cerca de sete mil caixas por ano".

O produtor americano confessa que não estava preparado para isso. Não esperava que uma simples história em quadrinho tornasse seu vinho tão importante para os consumidores japoneses.

‘Mas, convenhamos, os quadrinhos aqui bem que poderiam ajudar um imenso público a saber mais sobre vinhos. E como beber com moderação

Quer dizer que sempre podemos encontrar maneiras criativas de vender vinho. Nos Estados Unidos, temos a moda dos bichinhos nos rótulos. Lá (e talvez aqui) usar histórias em quadrinhos pode ser um problema, pois crianças e adolescentes podem se influenciar, afinal estamos falando de uma bebida alcoólica. O mangá japonês fala muito bem para audiências adultas.

Os quadrinhos daqui já são utilizados na comunicação didática, mais voltada para o público mirim.

Aqui, o mais comum é pegar uma personalidade e recriá-la em quadrinhos, principalmente para os baixinhos. Foi assim com o Pelé e agora, nos tempos da Copa, com o Ronaldinho Gaúcho (e parece que nos quadrinhos ele se saiu melhor do que em campo).

Mas, convenhamos, os quadrinhos aqui bem que poderiam ajudar um imenso público a saber mais sobre vinhos. E como beber com moderação. O negócio é achar o nosso Joe Satake. Acho que esse herói nasceu da cabeça de seus criadores (Kaitani Shinobu e Hori Kenichi).
E aqui, como seria. Teríamos modelos da vida real?

Amiga leitora: quem você acha seria o perfeito Joe Satake brasileiro? O Renato Machado, o Claude Troisgros, o Dado Dolabella, o Reynaldo Giannechini? Quem mais?

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Asterix, cerveja e vinho

by soniamelier em 13 de julho de 2006 | 21:00

Fora ser o melhor jogador da Copa, Zidani é um senhor osso duro de roer. Deslocou o ombro, que foi recolocado no lugar, e o homem continuou jogando. Olha que isso é dor para Asterix nenhum botar defeito. Em seguida, ele aplica uma bela cabeçada (ou seria marrada?) no esterno do galalau italiano. Já sei: Zidani certamente bebe pelo menos uma caneca de cerveja diariamente, para desespero dos franceses (e alegria dos alemães). E foi com tudo.

Essa pista é dada pelo King's College e o St. Thomas' Hospital, em Londres. Uma pesquisa com grupos de voluntários entre 18 e 50 anos revelou que a cerveja pode ajudar a prevenir a osteoporose. Isso se bebermos uma tulipa por dia. Assim, nossos ossos ficam mais fortes, sólidos, próprios para cabeçadas históricas.

Os pesquisadores fizeram os grupos beberem cervejas de diferentes graus alcoólicos. Verificaram que o álcool delas bloqueava por seis horas os hormônios que resultam em ossos mais fracos, porosos. O professor Jonathan Powell, orientador da pesquisa, observa que "todos sabemos que o cálcio inibe a perda óssea, mas descobrimos agora que o etanol da cerveja tem o mesmo efeito, talvez até melhor". Para mulheres, em particular, essa é uma boa: sofremos mais a osteoporose.

‘As vinícolas fizeram um bom trabalho ligando o consumo do vinho aos alimentos, enquanto as cervejarias perdiam tempo mostrando boazudas, situações de humor na fronteira do grosseiro

Cerveja ganha pontos. No mundo, a InBev, a belga dona da AmBev, entre outras cervejarias, é a líder em volume produzido. Mas é a americana Anheuser-Bush, produtora da Budweiser e da Michelob, com fábricas até na China, quem mais fatura com a bebida. E a Anheuser anda preocupada com a queda nas vendas de cerveja no seu quintal. A participação da bebida no mercado dos Estados Unidos caiu de 61% para 58%, entre 1995 e 2004. E perderam para quem? Para os vinhos e destilados. Os vinhos subiram de 12% para 14% no mesmo período.

A Anheuser-Bush começou a se preocupar – está patrocinando pesquisas e busca agora nichos para melhorar o desempenho de suas cervejas. Ela verifica que as vinícolas fizeram um bom trabalho ligando o consumo do vinho aos alimentos, enquanto as cervejarias perdiam tempo mostrando boazudas, situações de humor na fronteira do grosseiro. Mas agora publicam anúncios vendendo combinações como "Cerveja e Queijos". Lembra os vinhos, né?

E estudos sobre as propriedades da bebida começaram a aparecer – tal como regularmente acontece com os vinhos. Além desse que envolve ossos mais saudáveis, temos outros. Eis alguns deles:

Câncer da próstata. Descobriam que um composto do lúpulo das cervejas, o xanthohumol pode prevenir o câncer da próstata. Mas para que houvesse algum efeito, seriam precisos 17 canecos de cerveja diariamente. Não se morre de câncer, mas de dar muita cabeçada.
Então, os cientistas da Universidade do Oregon, Estados Unidos, conseguiram um extrato do xanthoumol a partir do lúpulo e descobriram que o composto é um senhor antioxidante e pode mesmo prevenir o câncer da próstata em humanos. O composto e o seu extrato produzem também efeitos inibitórios sobre uma proteína (NF-kB), capaz de ativar uma variedade de males, entre eles o do câncer da próstata.

Cientistas alemães já criaram uma cerveja que contem 10 vezes mais xanthohumol que as cervejas tradicionais. A bebida se chama "Xan" e já está à venda – só que 80% mais cara. Dizem que tem bom sabor.Cerveja e velhice. Pesquisadores da Áustria e da República Checa descobriram outros benefícios da bebida para a saúde. Os principais deles são os da cerveja como um antiinflamatório que pode retardar o processo de envelhecimento. Cientistas da Universidade de Medicina de Innsbruck verificaram que o lúpulo afeta a produção de neopterin, um sinal comum de inflamação e também os níveis de um aminoácido associados a esse sintoma.

Como com os vinhos tintos e chás verdes, a cerveja assim reduz a produção do neopterin no organismo, normaliza a ação do aminoácido, que podem estar ligados aos efeitos calmantes da bebida. Pois essa normalização melhora a ação do "hormônio da felicidade", a serotonina.

Boa para o coração. Já na República Checa, os mesmos pesquisadores descobriram também que a cerveja não só retarda os efeitos do envelhecimento como reduz a possibilidade de ataques cardíacos em homens. É que ela aumenta os níveis do HDL, chamado de "colesterol bom".

E faz mais: impede a ação dos perigosos radicais livres em nosso organismo – os mesmos tidos como responsáveis por acelerar a progressão das doenças cardiovasculares e dos males relacionados à idade.

Não custa revelar que o estudo da República Checa (um gigante no consumo per capita de cerveja) foi patrocinado por um grupo de grandes cervejarias do país. Huummmm.

‘O consumo regular de frutas e vegetais ajuda a combater os efeitos cancerígenos da cerveja

Não é só o cigarro. Como tudo, o consumo de cervejas tem o seu porém. Pesquisadores canadenses publicaram um estudo recente relacionando a cerveja ao câncer de pulmão. A incidência seria maior entre consumidores regulares da bebida do que entre não-bebedores. Ironicamente, o mesmo estudo demonstra que o vinho tem um efeito oposto e pode ajudar a proteger contra esse tipo de câncer.

O estudo foi realizado pela Universidade de McGill, em Montreal. Ele só utilizou pacientes de câncer no pulmão que não fumassem, de modo a obter um resultado mais claro.
A pesquisa considerou, por outro lado, o estilo de vida mais comum entre os bebedores de cerveja. E os comparou com os adeptos do vinho. "É cerveja e batata frita contra vinho e salada. O consumo regular de frutas e vegetais ajuda a combater os efeitos cancerígenos da cerveja", observa Andréa Benedetti, autor do estudo.

Quem bebe até seis cervejas (latinhas) por semana aumenta o risco de câncer pulmonar em 20%. Este número passa para 50% se consumir mais de sete cervejas no mesmo período.
Num segundo estudo, a cerveja aparece mais nociva em homens que não consomem frutos e vegetais regularmente. Quem prefere vinho e come frutas e vegetais tem esse risco reduzido: 40% entre os homens e 70% entre as mulheres.

O melhor mesmo é começar a comer mais brócolis.Esfriando a cabeça. De qualquer forma, se eu fosse o Zidani me tornaria adepta de pelo menos uma taça diária de vinho tinto. Ele dormiria melhor, teria o sono dos justos e sua cabeça dura pelo menos esfriaria.

Pois é: um outro time de pesquisadores, desta vez da Universidade de Milão, descobriu que a melatonina contida nas uvas pode ajudar a regular os nossos padrões de sono, conhecido como ritmo circadiano (série de fenômenos que se sucedem numa ordem determinada, segundo o dicionário Aurélio), exatamente como a melatonina produzida pela glândula pineal dos mamíferos.

Com propriedades antioxidantes, a melatonina é secretada durante a noite, de modo natural pela pineal, localizada no cérebro. Ele informa ao nosso corpo quando é hora de dormir.
Pensava-se que esse hormônio era produzido exclusivamente por mamíferos. Contudo, foi descoberta recentemente em plantas.

Os cientistas liderados pelo pesquisador Iriti Marcello encontraram nível altos de melatonina nas uvas Nebbiolo, Merlot, Cabernet Sauvignon, Sangiovese e Croatina. Marcello explica que o conteúdo de melatonina nas uvas foi acentuado quando aplicaram nas plantas uma vacina chamada Benzothiadiazole (BTH; o nome comercial é Bion 50 WG), que aumenta a resistência das plantas às doenças. É pela melatonina, segundo o pesquisador, que se pode explicar a sonolência provocada pelo vinho tinto. O álcool, não?

O melhor mesmo é o Zidane desfrutar sua aposentadoria com uma taça ou outra de vinhos. De preferência à noite. E evitar esbarrar com italianos. Mas, puxa: pela primeira vez vi Asterix perder para os Romanos.

Dúvidas sobre qualidades de cervejas e vinhos é só clicar aqui para o Bolsa ou para a Soninha no soniamelier@terra.com.br

Outros craques

by soniamelier em 6 de julho de 2006 | 21:00

Zidane é o melhor dos franceses? Amigas, não estou entre os 179.900 milhões de técnicos de futebol que o Brasil possui (agora de férias forçadas por pelo menos quatro anos). Sou a minoria da minoria no assunto. Para mim os verdadeiros craques franceses estão atuando em Bordeaux, Borgonha, Champagne, Loire, Vale do Ródano, Alsácia, Beaujolais, Languedoc, Roussillon, Jurançon, Mardiran, Provence. Isso entre os vinhos (devo ter esquecido uma ou outra região), pois temos também geniais craques nos destilados de Cognac e Armagnac.
O Zidane pode até se aposentar, mas Bordeaux, nosso assunto de hoje, dificilmente se cansará de produzir a maioria dos vinhos mais queridos, procurados e caros do mundo.

Bordeaux é um importante porto no rio Garonne, ligado ao estuário do famoso rio Gironde, na costa oeste francesa, bem perto do Atlântico. Porém, mais do que um porto, Bordeaux dá nome às vinícolas do departamento de Gironde, que produz vinhos de alta qualidade: são 100 mil hectares, mil km2 de vinhedos, já pensou? Os 13 mil produtores jogam no mercado anualmente cerca de 660 milhões de garrafas (dependendo, claro, das condições climáticas, da safra). Cerca de 70% dos vinhos produzidos são tintos. Os restantes são brancos, rosados e espumantes (crémants). E destilados divinos são também produzidos, em Cognac e Armagnac.

O poeta latino Decimus Ausonius (c. 310-395 d.C.), nasceu em Burdigala, nome original de Bordeaux. Lá, além de poemas, produzia seus vinhos. Foi o primeiro produtor conhecido da região. O hoje famoso Chateaux Ausone deve seu nome ao poeta. Mas a fama, a proeminência de Bordeaux começa mesmo na Idade Média, quando a irrequieta Eleanor d'Aquitânia se casa com o grosso do Henrique Plantageneta, em 1152. Henrique veio a se tornar rei da Inglaterra e também duque da Normandia. Aí ficou fácil para os bordaleses venderem seus vinhos para a Inglaterra, quase que exclusivamente. Isso era feito a partir do porto de Gasconha (sim, a terra de D'Artagnan – herói do romance Os Três Mosqueteiros, de Alexandre Dumas, pai). Para vocês sacarem a natureza desse intercâmbio: Eleonor foi mãe de Ricardo, o famoso Ricardo Coração de Leão, também rei da Inglaterra, o cruzado que combateu Saladino, mas sem sucesso. Bons negócios continuaram fazendo os vinhateiros de Bordeaux. Nem a Guerra dos 100 anos os interrompeu.

‘Os 13 mil produtores jogam no mercado anualmente cerca de 660 milhões de garrafas

Os vinhos da região não tinham nada com o moderno Bordeaux. Eram fracos, ralos, claros (daí os ingleses o chamarem até hoje de "claret", "claros"), pois não havia nem garrafas, nem rolhas. Tinham que ser consumidos rapidamente, nada de grandes extrações para dar cor e sabor, nada de amadurecimentos longos em barris. Mas a qualidade começa a melhorar a partir do século XVI-XVII.

Onde. Como vimos, estamos falando de uma região no sudoeste francês, perto da costa Atlântica, estendendo-se pelas margens do rio Gironde – que no final divide-se entre os rios Garonne e Dordogne.

Na margem esquerda temos o Médoc, região que compreende as comunas vinícolas de St-Estèphe, Pauillac, St-Julien, Margaux, Pessac-Léognan, Barsac e Sauternes.
Na margem direita estão as áreas de Fronsac, Cânon, Pomerol e St-Emilion. Há uma língua de terra entre os dois rios conhecida como Entre-Deux-Mers.As uvas. Cabernet Sauvignon é a uva tinta dominante. Entretanto, a Merlot é a variedade mais plantada (ocupa 40% da área). Outras variedades produzidas são a Cabernet Franc (também conhecida lá como Bouchet), a terceira em importância, e a Petit Verdot. Outras tintas que hoje têm apenas importância histórica são a Malbec (que faz a fama da vitivinícola argentina) e a Carmenère (idem, no Chile).

Diferentemente de outra região famosa por vinhos de alta qualidade, a Borgonha, os tintos de Bordeaux são feitos principalmente de blends, misturas, de diferentes variedades, sendo a principal delas a Cabernet Sauvignon com a Merlot. Um vinho típico do Médoc tem a seguinte receita: 70% Cabernet Sauvignon, 15% Merlot, 15% Cabernet Franc. Já a receita de St-Emilion e Pomerol, na outra margem, é: 60% Merlot, 30% Cabernet Franc e 10% Cabernet Sauvignon.

‘Os tintos de Bordeaux são feitos principalmente de blends, misturas, de diferentes variedades, sendo a principal delas a Cabernet Sauvignon com a Merlot

A Cabernet Sauvignon, assim, pontifica na margem esquerda e a Merlot é a estrela da margem direita (veja o exemplo do famoso Chateau Petrus, no Pomerol).
As uvas brancas autorizadas na região são a Sauvignon Blanc e a Semillon Blanc – as mais importantes, seguidas da Muscadelle, Ugni Blanc, Colombard e da Merlot Blanc.
A maioria dos brancos são varietais – ou puros Sauvignon ou puros Semillon. Isso para os vinhos secos. Já no caso dos doces, a receita clássica é 80% Semillon e 20% Sauvignon Blanc (que é a receita dos imbatíveis vinhos de Sauternes e Barsac, onde as uvas são afetadas pela botrytis ou "podridão nobre".). Vinhos doces menos potentes, mas ótimos, podem ser encontrados em Ste-Croix-du-Mont, perto da cidade de Langon.As Classificações. Em 1885, Napoleão III, imperador da França, queria os melhores vinhos franceses representados na Exposição Universal de Paris, que estava organizando. E convidou a Câmara de Comércio de Bordeaux para preparar uma exibição. Eles sabiam que era uma tarefa difícil, com encrencas à vista. E jogaram a batata quente para o "Syndicat de Courtiers", uma organização de comerciantes de vinho. Pediram a eles para compilar uma lista "exata e completa de todos os vinhos tintos do Gironde especificando a qual classe pertenciam".

Duas semanas depois, esses comerciantes apareceram com essa lista, hoje famosa. Ela incluía 58 Chateaux: 4 primeiros classificados, 12 segundos, 14 terceiros, 11 quartos e 17 quintos. Curiosamente, todas as seleções vieram do Médoc, da margem direita, com a única exceção de Haut-Brion e dos vinhos doces brancos de Sauternes e Barsac. Claro que houve controvérsias e reação. Desde 1855 ocorreram mudanças nos nomes dos Chateaux, de donos, de vinhedos e da qualidade desses vinhos. Mas a única revisão formal aconteceu em 1973, quando o Barão Philippe de Rothschild conseguiu elevar o seu Mouton à categoria de "Premier Cru Classé".

Abaixo dos Cru Classé, temos os Cru Bourgeois, abaixo dos quais ficam os Bordeaux Supérieur e os simples Bordeaux. Esses vinhos "simples" são sofríveis, vivem mais da fama dos classificados. Assim como muitos jogadores, pelo que ouço.

Safras. Os tintos de Bordeaux são particularmente apreciados por sua longevidade. É preciso um pouco de paciência para apreciá-los devidamente.
Eis aqui safras notáveis que vale a pena considerar.
Para os tintos: 1990, 1995, 1996, 1998, 1999, 2000, 2002, 2003, 2004 e 2005.
Para os brancos: 1990, 1995, 1996, 1997, 1998, 1999, 2000, 2001, 2003, 2005.

Mas tome cuidado com os preços. Os Bordeaux de 2005 podem chegar ao mercado, na Europa, até 30% mais caros do que os da safra de 2004. Portanto, para comprá-lo tenha também paciência. Não vá com sede ao pote, pois sua bolsa ficará vazia – injustamente vazia.

Essa questão de preços para itens de luxo ou famosos é bem parecida com o mercado de craques. Uns tidos como falidos, como o Zidane, estão subindo nas bolsas. Já outros, milionários de carteirinha, estão com suas ações no lixo.



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