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Os rótulos e a moda

by soniamelier em 29 de maio de 2006 | 21:00

Com centenas e centenas de ofertas de garrafas nas prateleiras é mais que natural que o consumidor se confunda. Como escolher, por onde começar? Os produtores, por seu lado, tentam de tudo para tornar seus vinhos memoráveis. Principalmente o que envolve e protege o líquido, a bebida. Criam embalagens diferenciadas (Tetra Pak, alumínio, plástico etc.) e rótulos mais modernos, bem humorados, com temas surpreendentes, fora dos padrões clássicos, bem comportados.

A moda mais recente é o uso de animais: peixes, patos, cachorros, gatos – o que você quiser. O vinho australiano que mais vende nos Estados Unidos, o "Yellow Tail", exibe a cauda de um canguru amarelo no rótulo. Ativistas contra a exploração de animais estão tentando acabar com essa tendência. Acham essa moda pouco ética para com os animais.

Tem vinho com folha de ouro de 24 k na garrafa, o Gold. O champanhe Veuve Clicquot recebeu uma jaqueta de neoprene, nesse fim de ano, para garantir a sua temperatura. A Veuve Clicquot Grande Dame 1996 com uma embalagem desenhada por Emilio Pucci.

Claro que não poderia faltar espaço para as ditas celebridades. Temos aquelas que efetivamente aprofundam-se na ciência do vinho. Podemos listar, entre poucas outras, o diretor Francis Ford Coppola, dono da importante Niebaum-Coppola e agora da histórica e mais importante ainda Inglenook. Seu vinho mais reputado é o Rubicon e o que tem seu nome, mais popular, a linha “Francis Coppola" já andou à venda por aqui.

Com 150 filmes nas costas, o maior ator do cinema francês, Gerard Depardieu tem seu coração batendo pelos vinhos. Possui vinícolas no Loire, na Sicília e está para lançar vinhos de várias regiões: Argentina, Bordeaux, Espanha, Languedoc.

O ator Sam Neill, que brilhou em Piano, Parque Jurássico, Caçada ao Outubro Vermelho, quer mesmo é fazer a sua Two Paddocks vingar. Os dois primeiros filmes ajudaram a alavancar a vinícola, em sua terra natal, Central Otago, na Nova Zelândia. Produz apenas vinhos com a Pinot Noir, exercício dificílimo. Mas seus vinhos só recebem elogios.

Nessa toada, a moda agora é sexo, drogas e… vinhedos. É grande a lista de roqueiros que resolveram não morrer jovens, como Hendrix, Joplin, Morrison, Bolan, Valens e Vicious. Saem as drogas, entram os prestigiosos vinhos.

Veja o caso do veteraníssimo Cliff Richard – que foi o grande sucesso antes dos Beatles. Pois ele está metido com vinhedos e vinho desde 1998. Seu primeiro sucesso mundial foi em 1958. Sua estrela brilha até hoje, quando carrega o título de “Sir”. Em 2002 ele lançou o seu vinho, o Vida Nova – vinho que vem revolucionando a produção do Algarve, em Portugal.
Mick Hucknall, o líder do Simple Red, tem também uma vinícola, na Sicília. O seu tinto “Il Cantante” é um “red” não tão “simple” como poderíamos achar. Com esse vinho ele começa a fazer música também no circuito vinícola.

Mais recentemente, em 2005, entre dezenas de estrelas pop, depois dos excelentes vinhos assinados por Bob Dylan, foi a vez do grande guitarrista Carlos Santana, que empresta o seu nome ao espumante norte-americano Mumm Napa Santanna 1999 DVX (US$ 55 a garrafa).

A sensação latina Luis Miguel tem o seu “Único. Luis Miguel”, produzido no Chile. Não vamos esquecer também da linha de vinhos dos Rolling Stones – de botar a língua pra fora (lembrando a marca do grupo inglês) de tão extensa que é. Veja o “Classic Tongue 2004”.

Não será de estranhar que muito em breve ainda tenhamos um Britney Spears Sauvignon Blanc ou um Mariah Carey Chardonnay, ambos os vinhos “com muito corpo e nenhum sabor”, antecipa um comentário da revista Wine Spectator.

A lista é interminável e compreende músicos de todas as tendências e esportistas de todas as modalidades. Isso só para falar dos vivos.

Do andar de cima, lembramos o Marilyn Velvet Collection, um sucesso de vendas. O Merlot da atriz de “O Pecado Mora ao Lado” antecipou o Velvet Elvis, da mesma Signature Wines, de Napa, no mercado desde novembro de 2005, nos EUA. Elvis Presley é lembrado pela coleção Graceland, com o nome de vários de seus sucessos nos rótulos.

Não vamos nos esquecer do novo "Sinatra Cabernet Frank" (isso mesmo, "Franc" com "k"). Um grande número de consumidores ainda seleciona seu vinho em razão do design, da embalagem. Acha o conteúdo complicado de entender. A maioria não sabe a diferença entre um Sauvignon Blanc e um Pinot Noir.

Um produtor chileno pesquisou o mercado inglês e verificou que metade dos bebedores de vinho prefere rótulos modernos com informações mais básicas e simples sobre o conteúdo da garrafa. Mais da metade se acha enganada ou confundida pelos rótulos. Prefere que sejam chamativos, modernos, fáceis de entender, engraçadinhas, que "pulem sobre o consumidor", nas palavras de um dos entrevistados.

O público, contudo, nem esperou muito tempo. O ano começou com os vinhos da "Material Girl". A diva Madonna, 47, com show novo na praça, apresenta a sua nova encarnação: a série "Confessions", de 4 vinhos, todos com fotos da cantora no rótulo – e todos ligados ao seu novo álbum ("Confessions on a Dance Floor"). Temos Pinot Grigio, Barbera, Cabernet Sauvignon e até um vinho não-alcoólico. Serão sucesso comercial, ninguém duvide. A inovação é que a coleção de vinhos é parte de uma estratégia que vende imagem (da diva), o show, o CD, o DVD – e o que se quiser incluir.

Quanto à qualidade dos vinhos, pode apostar que são no máximo iguais à maioria: frutados etc. e tal. Um espectro de emoções indo de A a B, como diria Dorothy Parker.

Muitos falam que é um risco usar celebridades para vender qualquer coisa. De repente, uma é pega aspirando uma carreirinha de cocaína. E, pronto!

Outros já acham que elas são vitais, grandes facilitadoras das vendas. Se você considerar as capas das nossas revistas femininas, com suas estrelinhas da TV nas capas e também nos seus conteúdos. Se você considerar o número cada vez maior de colunas de fuxicos, quase todos em torno de pré e pós namoros, casamentos ou juntamentos dessas celebridades, então aqui a turma fica mesmo com o segundo time.

Acho tudo muito moderno e engraçadinho. Não custa lembrar, porém, o velho e bom Oscar Wilde: "Só o que é moderno acaba saindo de moda". O que conta, porém, é que o nosso querido vinho continua aquilo tudo que você encontra dentro das garrafas.

Se quiser mais dicas sobre o assunto, clique aqui para o Bolsa ou para o soniamelier@terra.com.br

Nas águas de Maigret

by soniamelier em 10 de maio de 2006 | 21:00

A amiga Roberta Campos Babo andou escrevendo em sua coluna "O que há para ler", na Tribuna da Imprensa, sobre a coleção de novelas do célebre inspetor Jules Maigret, criação do belga Simenon, agora editada pela Nova Fronteira – o que me levou a um dos assuntos de hoje: os hábitos do célebre inspetor com relação às bebidas. No livro mencionado pela Roberta, UM ENGANO DE MAIGRET (o 19º da coleção), revela-se que quando o Maigret inicia uma investigação com Calvados (destilado feito de maçã), por exemplo, era com Calvados que continuava (pg. 166). Assim temos investigações-cerveja, investigações-vinho e até mesmo investigações-uísque (para desespero do inspetor, que aparece em 102 livros de Simenon, o primeiro em 1930 e o último em 1972). Poucos autores escreveram histórias policiais tão bem como o belga. E tão bem sobre as bebidas.

As que aparecem nessas novelas não têm função física, como nas novelas de Dashiel Hammet (com excessos de gim e rye) ou do atualíssimo e ótimo Lawrence Block, cujo herói, o ex-tira Mattew Scudder, só bebe bourbon (para esquecer) e café (talvez para lembrar). Scudder faz o tipo "durão".

As bebidas em Simenon fazem parte da cultura do francês, do cenário onde se incluem dos bistrôs, os cafés e os restaurantes. Não se bebe para ficar tonto ou esquecer ou por vício. As bebidas parecem indicar um sistema social, apontam para grupos, classes, sexos, regras de hospitalidade e de comportamento. Diferente de qualquer outro detetive, Maigret tenta estudar os homens, entender o meio social. Ele pondera sobre suas impressões, não é analítico, mas imaginativo: busca desencavar um sistema de regras. As pistas que levanta raramente estão ligadas ao crime e ao criminoso. Mas se consegue captar a atmosfera, acaba quase sempre diante do culpado.

E nesse processo de observação, quase que antropológico, os hábitos com as bebidas resultam sempre em boas pistas: é o comportamento que mais claramente indica a estrutura social das personagens. O mundo está dividido entre trabalhadores, a pequena burguesia, a alta burguesia e a aristocracia – divisões mais econômicas do que ideológicas.

O que ele bebeu ao longo dessas 70 novelas?

Por ordem de quantidade: cerveja, conhaque (Armagnac, Calvados, Marc, Conhaques de ameixa e de framboesa), café, vinho (na maioria dos casos, vinhos brancos), licores (Chartreuse, Curaçao), Pastis, Martini, Rum, grogue (um destilado com água quente), e uísque. Só bebeu chá quando doente. Madame Maigret, contudo, só bebia chá de ervas. Era um modelo do figurino feminino.

E o que as demais personagens bebiam?

As mulheres praticamente só bebiam chás e água (de Vichy) e Champagne (apenas as ricas), que o inspetor jamais bebeu, assim como gim (só via um raro Martini) e rum (apenas quando misturado no grogue). Seus vinhos de preferência eram o Beaujolais, o Chavignol, o Pouilly-Fuissé, o Pouilly-Fumé, o Saint-Emilion, o Sancerre e o Vouvray. Interessante é que dessa lista apenas o Beaujolais e o Saint-Emilion são tintos.

Nas aventuras de Maigret, anormalidades seriam não beber (álcool) e não fumar. O natural seria fumar (cigarros ou cachimbo, como ele), beber e comer fartamente. Maigret, portanto, suspeitaria de quem faz greve de fome, só bebe água e não fuma. Inclusive, água para ele nunca foi sinônimo de pureza ou de "limpeza" – que só poderiam acontecer debaixo de lei e ordem, comendo e bebendo à farta, dentro do figurino da época.Os vencedores da Expovinis. Eis aqui os melhores vinhos apresentados a mais recente edição (a 10ª) da Expovinis Brasil 2006, realizada no início do mês em São Paulo.

Foram selecionados 54 vinhos, agrupados em estilos: oito rosados, 15 brancos (Sauvignon Blanc, Chardonnays e de outras castas), 11 espumantes (Champagne e outros espumantes) e 20 tintos leves (seis nacionais, sete ao estilo de Bordeaux e sete outros: de Portugal, Espanha e Itália). A seleção é a seguinte:

  • Rosados: Torres Santa Digna Cabernet Sauvignon 2005 (Reloco).
  • Brancos com a Sauvignon Blanc: Hunter's 2004 (Premium).
  • Brancos com a Chardonnay: Trinity Hill 1999 (Premium).
  • Brancos de outras castas: Lodge Hill Jim Barry Riesling 2003 (KMM).
  • Espumantes Cava Brut Nature Juvé y Camps (Península) e Cava Cordoníu Cuvée Raventós (Interfood).
  • Champagnes: Piper-Heidsieck Jean Paul Gaultier Cuvée Special Brut (Interfood).
  • Tintos leves: Quinta de Sauguinhal Óbidos 2000 (Adega Alentejana).
  • Tintos ao estilo Bordeaux: St Hallett Old Block Shiraz 2001 (KMM) e Leo d'Honor Garrafeira Grande Escolha 2001 (Lusitana) – houve, portanto, um empate.
  • Tintos de Portugal, Espanha e Itália: Quinta do Crasto Vinha da Ponte 2003 (Qualimpor).

O objetivo do júri era selecionar os "Dez Mais". Só que houve empate no grupo de vinhos ao estilo de Bordeaux. E então acabamos com 11 belos vinhos.
O júri. Só degustadores experimentados e de nível internacional. Nos dois primeiros dias, seus integrantes percorreram individualmente os estandes da feira e cada um listou os melhores tintos, brancos, espumantes e rosados que degustaram. As listas foram compiladas e anotados os nomes dos vinhos com mais indicações, havendo algumas eliminações. Foram selecionados, como vimos, 54 vinhos. No terceiro dia, os vinhos foram reunidos e degustados rigorosamente às cegas, por todos os jurados, sob o comando de Jorge Lucki. E o resultado é o que temos acima.

O júri foi integrado por: Stephen Brook, editor da revista Decanter; John Hancock, enólogo neozelandês; José Maria Santana, jornalista colaborador da revista Gula; Marcelo Copello, editor da revista Adega e colaborador da Gazeta Mercantil; Manoel Beato, sommelier-chefe do grupo Fasano; Ricardo Farias, presidente da Associação Brasileira de Sommeliers, Rio de Janeiro (ABS-RJ); Daniel Pinto, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Amigos do Vinho, São Paulo (SBAV-SP); Márcio de Oliveira, diretor de degustações da SBAV-MG; José Luiz Pagliari, professor de Enologia no Senac-SP e Sérgio Inglez de Souza, especialista em vinhos brasileiros. A presidência do júri foi do especialista Jorge Lucki, colaborador do jornal Valor Econômico. A coordenação esteve a cargo de José Ivan Santos, consultor do evento.

Se as amigas quiserem saber mais sobre as bebidas que mocinhos e bandidos bebiam nas novelas de Maigret – e se quiser saber sobre as receitas de Madame Maigret (afinal, o casal era feliz, do tipo "feliz para sempre" – e Madame sabia das coisas) – pois é só clicar aqui para o Bolsa ou para a Soninha, no soniamelier@terra.com.br



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