» 2005 » dezembroSoniaMelier

Última chamada

by soniamelier em 29 de dezembro de 2005 | 21:00

“Então beberemos o último drinque/ Que corta o cérebro em fatias/ Onde as respostas não têm significado/ E não há quaisquer perguntas”.

É parte de uma senhora canção, “Last Call” (Última Chamada), criada por um compositor branco que tem nome holandês, parece irlandês, mas você jura que é um negro cantando: Dave Van Ronk, o mentor de Bob Dylan, uma lenda, reinventor do blues, nome de rua em Nova York.

Aproveito-me dela, agora que fechamos nosso boteco. O momento é de grandes festas e incessantes brindes. Você está preparado para eles?
Que tipo de bebedor você é? Responda, por favor, ao questionário abaixo:

1. Álcool é:
a) aquele cheiro ruim que parece acetona;
b) o suave final de um tinto de categoria;
c) meu melhor amigo, mentor e facilitador, tudo numa coisa só.

2. Uma noite perfeita é:
a) praticar ioga, uma salada leve e oito horas de sono;
b) um jantar com amigos, em casa, e algumas garrafas de vinho;
c) alguns martinis, uma besteirinha leve para acompanhar o vinho, um digestivo depois e uns drinques ao chegar em casa.

3. Uma taça de vinho rosé bem geladinha, num dia de verão:
a) deve ser sempre diluída com gelo, tomada entre copos de água;
b) só perde para o Prozac como pacificador do espírito;
c) parece água tônica. Alguém aí tem uma vodca?

4. Minha fantasia para o feriado é:
a) meditação num retiro, onde carne, açúcar, álcool e conversas estão proibidos;
b) uma amostra da hospitalidade mundial;
c) sol, mar e drinques sem limite.

5. Num jantar com despesas pagas pela empresa com um Bordeaux caríssimo na mesa:
a) tampo a taça com as mãos e peço água com gás, por favor;
b) saboreio o néctar encantada e registro o acontecimento em meu diário;
c) garçom, minha taça esvaziou.

6. Na manhã do dia seguinte você resolve:
a) correr no parque depois de um café da manhã bem leve;
b) um café da manhã reforçado lendo os jornais do dia;
c) com um bom Bloody Mary.

7) Segunda à noite você só me acha:
a) na mercearia se faltar leite de soja em casa;
b) tomando uma taça de vinho com colegas, depois do trabalho estafante;
c) no meu bar preferido.

8) Para dormir, o meu ritual é:
a) um banho bem relaxante;
b) acabando com o restinho de um bom tinto enquanto vê um bom e velho filme no DVD;
c) não me lembro.

Como acha que se saiu? Como pensa que vai chegar a 2006?

Se a maioria de suas respostas recaiu em (a), você é claramente um virtuoso, com suas dietas rigorosas e modos zen de viver a vida. Mas um copo de vez em quando não vai te matar.

Se você é da turma do (b), está entre a cruz e a caldeirinha. Fique nessa linha e procure não escorregar para o (a), nem para o (c).

“Então tivemos outra noite/De poesia e poses/E cada um sabe que estará sozinho/Quando o boteco sagrado fechar”.
Essa quadra é perfeita para a turma do grupo (c). Se a maioria de suas respostas recai nesse grupo, fique certa: seu caminho é para uma clínica de reabilitação ou para o AA.

A letra completa do Last Call está no excelente “Quando nosso boteco fecha as portas”, de Lawrence Block (Cia. das Letras). Leia sem moderação. Já beber, o melhor é ficar na turma do (b).

Agradeço às amigas e amigos por prestigiarem esse espaço e espero encontrá-los ótimos e otimistas em 2006.

Feliz Ano Novo!

Mais perguntas é só clicar para o Bolsa ou para a Soninha, no soniamelier@terra.com.br

Destaques 2005

by soniamelier em 22 de dezembro de 2005 | 21:00

Começamos a fazer a faxina final aqui em nosso boteco. E do pó que começa a levantar retiro aquelas notas que, no mundo dos vinhos, mais se destacaram em 2005 – pelo menos para mim. Como a poeira que se espalha desordenada pelo salão, essas notas vão sendo recolhidas não em ordem de importância, mas ao sabor de minha memória.

Em 2005, dois filmes sobre vinhos conseguiram projeção e sucesso internacional: o documentário Mondovino e o longa Sideways. O primeiro é até agora motivo de polêmicas por onde quer que seja exibido. É que ele envolve tópicos como globalização e homogeneização da bebida, encerra temas como o das grandes corporações contra os produtores artesanais.

São assuntos que não parei de comentar aqui. A fita mostra personagens extraordinariamente influentes nesse mundo, como o grande mestre da crítica, o americano Robert Parker Jr., o enólogo e consultor francês Michel Rolland, que atende mais de 200 vinícolas em todo o mundo (inclusive a Miolo, no Brasil). São figuras com a capacidade de levar o mercado a consumir um tipo “industrial” de vinho, quer dizer: aquele que mais facilmente será vendido.

Com Sideways o vinho conseguiu pela primeira vez um Oscar (o de melhor roteiro adaptado), para Alexander Payne, também diretor do filme. Conta a história de Miles (Paul Giamatti) e seu amigo, numa viagem pelos vinhedos da Califórnia. Miles busca obsessivamente pela perfeita garrafa de Pinot Noir. O filme colocou o vinho no centro do palco e conseguiu até aumentar as vendas da Pinot Noir nos Estados Unidos. Nossa coluna foi das primeiras a comentar e divulgar o filme, que agora faz carreira em DVD.

Ainda motivo de muito debate, temos o caso envolvendo os vinhos muito alcoólicos, de agrado de uma parte influente da crítica. Esses vinhos mais parecem um vinho do Porto, impossíveis de fazer companhia a uma comida.

É a questão do “hang time” (mais ou menos “tempo de espera”), termo utilizado genericamente para descrever o amadurecimento das uvas na vinha. Como regra prática, quanto mais tempo as uvas são deixadas na vinha ao final da estação, mais açúcares e mais sabores desenvolverão.

Só que, ao deixar passar muito esse tempo, avançar do ponto ideal, o equilíbrio entre os ácidos e açúcares do vinho fica alterado, o que resulta também em problemas na cor e no sabor da bebida. O produtor é obrigado a utilizar de uma série de “truques” para fazer com que o vinho volte à “normalidade”, a ter algum tipo de equilíbrio.

Essa é uma prática que extenua as vinhas, podendo torná-las imprestáveis em pouco tempo. Robert Parker, a revista Wine Spectator e Michel Rolland (personagens de Mondovino) estão entre os grandes adeptos desses vinhos, que alguns chamam de “espessos” (tem eufemismo para tudo). Parker acha até que quem não gosta de vinhos assim é “mulherzinha”. Conseguiu uma sólida oposição para essa moda. Parece que, para 2005, o pêndulo começará a parar num ponto de melhor equilíbrio, com vinhos retornando ao nível ideal de volume alcoólico.

Claro que a varietal do ano foi a Pinot Noir. Ela é uma das mais famosas varietais, a que faz a glória dos tintos da Borgonha. É complicada de ser transplantada para outros climas e solos que não os da Borgonha. Sua casca é muito fina: em climas mais úmidos facilmente fica sujeita a pragas. Análises de DNA feitas lá por volta de 2001 demonstraram que tem parentesco com a Chardonnay, a Gamay e a Melon (ou Melon de Bourgogne), a uva branca do Muscadet.

Nos últimos anos, clones da Pinot Noir na Nova Zelândia e nos Estados Unidos vem resultando em vinhos cada vez mais elogiados.

É uma uva muito sensível e nem sempre é possível encontrar vinhos que correspondam plenamente às suas qualidades. Miles, em Sideways, busca uma garrafa de Pinot Noir como um cavaleiro da Távola Redonda procura o Santo Graal. O filme ajudou muito a divulgar a uva, pelo menos nos Estados Unidos.

Se as vendas da Pinot Noir aumentaram, os vinhos que mais sucesso fizeram no verão do hemisfério norte foram os rosés. São aqueles vinhos cuja cor, rosada, fica entre a dos tintos e a dos brancos. Podem ser produzidos de duas maneiras: o suco macerado das uvas tintas fica pouco tempo em contato com suas cascas, de modo a não carregar na cor mais escura dos tintos. O segundo processo é mais simples: misturando um tanto de vinho tinto com outro tanto de vinho branco.

Os rosés são muito comuns e mais desejados no hemisfério norte do que entre nós. Na França, em particular no Vale do Ródano e no Sul, os rosés disputam lugar com os brancos. São eles os mais famosos e melhores vinhos da Provence.

Pois eles voltaram à moda no verão europeu. E já encontramos alguns exemplares à venda por aqui. São vinhos fascinantes, muito refrescantes – que deveriam fazer moda por aqui também para aplacar com qualidade e charme nossos calores e sedes.

O ano manteve nuvens negras sobre os franceses. Suas vendas domésticas caíram, suas exportações desapontaram, os preços das uvas e dos vinhos despencaram, enfurecendo agricultores e produtores, com mais motins e os quebra-quebras usais. Os franceses culpam a “globalização do gosto”. Já foram ultrapassados pelos australianos nas vendas para seus grandes mercados: Inglaterra e Estados Unidos. São subsidiados pelo governo e precisam aprender algumas das estratégias do Novo Mundo.

O mundo dos vinhos continuou atraindo celebridades. Ainda há pouco, o mais recente álbum da Madonna, Confessions on a Dance Floor, inspirou uma nova linha de vinhos. Os vinhos, da empresa Celebrity Cellars (como não poderia deixar de ser), terão o nome e a arte do álbum no rótulo, produção limitada, especial para colecionadores. Vão se apresentar com as uvas Barbera, Cabernet Sauvignon e Pinot Grigio. Os fãs abstêmios terão uma versão não alcoólica da bebida. Os produtores prometem um vinho “tão complexo e sofisticado com a própria artista”. Se você quiser pagar para ver, vai pagar caro, amiga.

Como o mundo dos vinhos há séculos significa prestígio (daí a notória associação de celebridades com a bebida), os exageros não poderiam deixar de acontecer, mas num nível que ultrapassa a noção de blasfêmia.
Uma produtora da Califórnia, a atriz Dawn Westlake, conseguiu legalizar para produção o rótulo do vinho “Jesus Juice” (“Suco de Jesus”). Apresenta uma foto de um cidadão, com o jeito e as marcas de Michael Jackson. Só que a figura aparece crucificada. Passaram dos limites. Tire a prova aqui.

Mas o destaque de 2005, para mim, foi justamente o conflito de culturas: Velho Mundo versus Novo, conglomerados contra artesanais. Nessa área domina a americana Constellation Brands, a maior produtora de vinhos do mundo. Vende 75 milhões de caixas anualmente. Faturou perto de US$ 5 bilhões em 2004. É quem dita a moda no mercado de volume. Sua receita de sucesso é o portfólio de vinhos populares do Novo Mundo. Nenhum sinal de Bordeaux ou Borgonha. Dá para entender a crise francesa e a polêmica de Mondovino. Esse embate vai continuar em 2006. Um ótimo Natal para todos.

Mais perguntas é só clicar para o Bolsa ou para a Soninha, no soniamelier@terra.com.br

A cada minuto…

by soniamelier em 8 de dezembro de 2005 | 21:00

Os japoneses lançam em abril de 2006 o “Saquê Espacial”. Produtores da cidade de Kochi pagaram US$ 1 milhão para que 10 frascos com fermento do saquê ficassem uma temporada na Estação Espacial Internacional. Na volta do espaço, recentemente, preparam a bebida com o saquê das estrelas. As vendas vão melhorar? Sem dúvidas. Mas a bebida vai ganhar alguma qualidade? Claro que não.

Greg Olsen, multimilionário americano, fundador de várias empresas de sucesso e dono da vinícola La Vinette, na África do Sul, é grande admirador da Pinotage, um destaque de uva tinta bastante popular naquele país. Pois ele pagou a bagatela de 20 milhões de dólares para ser o terceiro turista espacial do mundo. Em fins de novembro, partiu numa Soyuz em direção à mesma Estação Espacial Internacional. Na sua bagagem, mudas da Pinotage para plantar na estação. Ele ficou apenas oito dias no espaço e quando retornou não sabia se as mudas vingariam. Até agora não se sabe definitivamente se a experiência deu certo. O mais provável é que não. Ninguém vai falar de pronto que o homem deu com os burros n’água.

Afinal, colocou 20 milhões de dólares na aventura. E, se desse certo, haveria alguma melhora para a Pinotage aqui na terra? Também, não. Agora, que essas estrepolias espaciais farão os japoneses faturar muito e, talvez, em futuro próximo, o mesmo aconteça com o americano e sua Pinotage, isso não tenham dúvidas. Afinal, quem não vai querer gastar muito para provar um pouco de poeira cósmica?

“Um idiota e seu dinheiro logo, logo se separam”, conforme um horticultor inglês do século 16, Thomas Tusser. E isso pode ser provado aqui mesmo na terra, com uma série de produtos que prometem promover milagres nos nossos vinhos de cada dia. Todos eles falando de fluidos condutores (no caso, vinho), campos magnéticos, forças misteriosas da natureza, partilha de átomos etc.

Com a ajuda do crítico Robin Garr, descobrimos na internet que a nota criada pelo horticultor é muito pertinente, pelo menos na área dos vinhos, se considerarmos produtos cuja função é “melhorar” a bebida.

Todos prometem uma Ferrari a partir de um Gordini. Tudo isso graças a processos secretos, que misturam íons, elétrons, moléculas e vai por ai.

The Wine Clip ou “A Braçadeira do Vinho”: ela é presa no gargalho da garrafa. Tem seis magnetos cujo campo de força atua sobre o vinho que sai da garrafa e quase provoca uma fissão atômica, partindo as moléculas da bebida e assim “reduzindo as impurezas e os taninos, tornando o vinho mais macio e livre das moléculas maiores”.

Os fabricantes da “braçadeira” até citam testemunhos de gente como a crítica Leslie Sbracco (autora de “Vinho para Mulheres”), de Mary Ewing Mulligan, Master of Wine, e de Andy Blue (crítico de vinhos). Todos acharam o produtor eficiente.

A braçadeira é vendida por US$ 35,00.

Wine Cellar Express, “Adega Expressa”: milagrosamente “amadurece perfeitamente o seu vinho em apenas 30 minutos”. Tem a forma de uma bolacha, de um apoio de pratos devidamente magnetizado. Você apóia a garrafa nele e em meia hora um vinho ordinário se transforma num Romanée-Conti. “Você não tem que esperar vários anos para saborear um vinho equilibrado”. A Wine Cellar Express é a “adega do futuro… a máquina do tempo do vinho”.

O fabricante afirma que essa descoberta é a única devidamente patenteada. Por US$ 45,00.

The Perfect Sommelier: “O Sommelier Perfeito” é muito parecido com o “Wine Cellar Express”. “Um produto cientificamente provado… que melhora qualquer vinho em menos de 30 minutos”. Nesse, você substitui a rolha do vinho pela tampa especial do produto: em 30 minutos, o “forte campo magnético da tampa fará com que todos os vinhos fiquem como se estivem guardados em adegas por anos… e eles ficarão menos agressivos”. Custo: entre US$ 50,00 e US$ 60,00, dependendo o material utilizado na tampa.

The Wine Enhancer, mais ou menos “O Intensificador de Vinho”: um grande e pesado disco de epóxi nele inseridos cristais coloridos e uma espiral de cobre. “Amacia taninos e areja vinhos jovens, além de eliminar dores de cabeça provocadas pelos tintos”. Esse equipamento se aproveita da “energia natural” de 11 gemas semipreciosas e de minerais cuidadosamente selecionados. Pelo preço de US$ 149,00 o disco coleta, amplifica e transmite essas forças para o vinho.

Robin Garr e um grupo de provadores profissionais testaram cada um desses aparelhos. Conclusão: o que era ordinário, ordinário ficou. O que era razoável continuou razoável e o que era bom, permaneceu bom. Os produtos não melhoraram nada. Mas também não pioraram.

Ou seja: não adianta testemunhos. “Se um milhão de pessoas acredita numa idiotice, ela continua sendo uma idiotice” (Anatole France). As amigas sabem bem disso, muito bem. Basta acompanhar as eleições, por exemplo: nossas histórias de ídolos caídos são muitas e dolorosas.

Na história da humanidade, sempre deparamos com poções milagrosas, óleos de cobra e que tais fazendo a fortuna de charlatães.

A frase “Nasce um idiota a cada minuto” continua, portanto, atualíssima. Seu autor, o empresário americano, P.T. Barnum (1810-1891), fundador do famoso circo Ringling Brothers, onde exibia figuras excêntricas, aberrações, como o seu “Pequeno Polegar”, na verdade um menino que parou de crescer. Faturou horrores.

Amigas, quando encontrarem um produto similar, por favor, desconfiem. E não deixem de me avisar – seja através do Bolsa ou do soniamelier@terra.com.br



perfil

Espaço para as mulheres que apreciam um bom vinho – e para as que querem entender melhor sobre esse universo