Começamos a fazer a faxina final aqui em nosso boteco. E do pó que começa a levantar retiro aquelas notas que, no mundo dos vinhos, mais se destacaram em 2005 – pelo menos para mim. Como a poeira que se espalha desordenada pelo salão, essas notas vão sendo recolhidas não em ordem de importância, mas ao sabor de minha memória.
Em 2005, dois filmes sobre vinhos conseguiram projeção e sucesso internacional: o documentário Mondovino e o longa Sideways. O primeiro é até agora motivo de polêmicas por onde quer que seja exibido. É que ele envolve tópicos como globalização e homogeneização da bebida, encerra temas como o das grandes corporações contra os produtores artesanais.
São assuntos que não parei de comentar aqui. A fita mostra personagens extraordinariamente influentes nesse mundo, como o grande mestre da crítica, o americano Robert Parker Jr., o enólogo e consultor francês Michel Rolland, que atende mais de 200 vinícolas em todo o mundo (inclusive a Miolo, no Brasil). São figuras com a capacidade de levar o mercado a consumir um tipo “industrial” de vinho, quer dizer: aquele que mais facilmente será vendido.
Com Sideways o vinho conseguiu pela primeira vez um Oscar (o de melhor roteiro adaptado), para Alexander Payne, também diretor do filme. Conta a história de Miles (Paul Giamatti) e seu amigo, numa viagem pelos vinhedos da Califórnia. Miles busca obsessivamente pela perfeita garrafa de Pinot Noir. O filme colocou o vinho no centro do palco e conseguiu até aumentar as vendas da Pinot Noir nos Estados Unidos. Nossa coluna foi das primeiras a comentar e divulgar o filme, que agora faz carreira em DVD.
Ainda motivo de muito debate, temos o caso envolvendo os vinhos muito alcoólicos, de agrado de uma parte influente da crítica. Esses vinhos mais parecem um vinho do Porto, impossíveis de fazer companhia a uma comida.
É a questão do “hang time” (mais ou menos “tempo de espera”), termo utilizado genericamente para descrever o amadurecimento das uvas na vinha. Como regra prática, quanto mais tempo as uvas são deixadas na vinha ao final da estação, mais açúcares e mais sabores desenvolverão.
Só que, ao deixar passar muito esse tempo, avançar do ponto ideal, o equilíbrio entre os ácidos e açúcares do vinho fica alterado, o que resulta também em problemas na cor e no sabor da bebida. O produtor é obrigado a utilizar de uma série de “truques” para fazer com que o vinho volte à “normalidade”, a ter algum tipo de equilíbrio.
Essa é uma prática que extenua as vinhas, podendo torná-las imprestáveis em pouco tempo. Robert Parker, a revista Wine Spectator e Michel Rolland (personagens de Mondovino) estão entre os grandes adeptos desses vinhos, que alguns chamam de “espessos” (tem eufemismo para tudo). Parker acha até que quem não gosta de vinhos assim é “mulherzinha”. Conseguiu uma sólida oposição para essa moda. Parece que, para 2005, o pêndulo começará a parar num ponto de melhor equilíbrio, com vinhos retornando ao nível ideal de volume alcoólico.
Claro que a varietal do ano foi a Pinot Noir. Ela é uma das mais famosas varietais, a que faz a glória dos tintos da Borgonha. É complicada de ser transplantada para outros climas e solos que não os da Borgonha. Sua casca é muito fina: em climas mais úmidos facilmente fica sujeita a pragas. Análises de DNA feitas lá por volta de 2001 demonstraram que tem parentesco com a Chardonnay, a Gamay e a Melon (ou Melon de Bourgogne), a uva branca do Muscadet.
Nos últimos anos, clones da Pinot Noir na Nova Zelândia e nos Estados Unidos vem resultando em vinhos cada vez mais elogiados.
É uma uva muito sensível e nem sempre é possível encontrar vinhos que correspondam plenamente às suas qualidades. Miles, em Sideways, busca uma garrafa de Pinot Noir como um cavaleiro da Távola Redonda procura o Santo Graal. O filme ajudou muito a divulgar a uva, pelo menos nos Estados Unidos.
Se as vendas da Pinot Noir aumentaram, os vinhos que mais sucesso fizeram no verão do hemisfério norte foram os rosés. São aqueles vinhos cuja cor, rosada, fica entre a dos tintos e a dos brancos. Podem ser produzidos de duas maneiras: o suco macerado das uvas tintas fica pouco tempo em contato com suas cascas, de modo a não carregar na cor mais escura dos tintos. O segundo processo é mais simples: misturando um tanto de vinho tinto com outro tanto de vinho branco.
Os rosés são muito comuns e mais desejados no hemisfério norte do que entre nós. Na França, em particular no Vale do Ródano e no Sul, os rosés disputam lugar com os brancos. São eles os mais famosos e melhores vinhos da Provence.
Pois eles voltaram à moda no verão europeu. E já encontramos alguns exemplares à venda por aqui. São vinhos fascinantes, muito refrescantes – que deveriam fazer moda por aqui também para aplacar com qualidade e charme nossos calores e sedes.
O ano manteve nuvens negras sobre os franceses. Suas vendas domésticas caíram, suas exportações desapontaram, os preços das uvas e dos vinhos despencaram, enfurecendo agricultores e produtores, com mais motins e os quebra-quebras usais. Os franceses culpam a “globalização do gosto”. Já foram ultrapassados pelos australianos nas vendas para seus grandes mercados: Inglaterra e Estados Unidos. São subsidiados pelo governo e precisam aprender algumas das estratégias do Novo Mundo.
O mundo dos vinhos continuou atraindo celebridades. Ainda há pouco, o mais recente álbum da Madonna, Confessions on a Dance Floor, inspirou uma nova linha de vinhos. Os vinhos, da empresa Celebrity Cellars (como não poderia deixar de ser), terão o nome e a arte do álbum no rótulo, produção limitada, especial para colecionadores. Vão se apresentar com as uvas Barbera, Cabernet Sauvignon e Pinot Grigio. Os fãs abstêmios terão uma versão não alcoólica da bebida. Os produtores prometem um vinho “tão complexo e sofisticado com a própria artista”. Se você quiser pagar para ver, vai pagar caro, amiga.
Como o mundo dos vinhos há séculos significa prestígio (daí a notória associação de celebridades com a bebida), os exageros não poderiam deixar de acontecer, mas num nível que ultrapassa a noção de blasfêmia.
Uma produtora da Califórnia, a atriz Dawn Westlake, conseguiu legalizar para produção o rótulo do vinho “Jesus Juice” (“Suco de Jesus”). Apresenta uma foto de um cidadão, com o jeito e as marcas de Michael Jackson. Só que a figura aparece crucificada. Passaram dos limites. Tire a prova aqui.
Mas o destaque de 2005, para mim, foi justamente o conflito de culturas: Velho Mundo versus Novo, conglomerados contra artesanais. Nessa área domina a americana Constellation Brands, a maior produtora de vinhos do mundo. Vende 75 milhões de caixas anualmente. Faturou perto de US$ 5 bilhões em 2004. É quem dita a moda no mercado de volume. Sua receita de sucesso é o portfólio de vinhos populares do Novo Mundo. Nenhum sinal de Bordeaux ou Borgonha. Dá para entender a crise francesa e a polêmica de Mondovino. Esse embate vai continuar em 2006. Um ótimo Natal para todos.
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