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Removendo rótulos

by soniamelier em 24 de fevereiro de 2005 | 21:00

A leitora Fernanda Vianna, que faz treinamento e consultoria gastronômica em São Paulo, tentou retirar rótulos de vinho com papel contact e não conseguiu. Pede dicas. Eis, abaixo, os métodos que conheço e o sucesso que tenho tido com eles:

Molhar o rótulo. Você pode encher uma pia e deixar lá a garrafa por um tempo. Pode fazer isso também num balde para não ocupar a pia. Pode utilizar também uma garrafa pet de dois litros, de refrigerantes (devidamente vazia, claro). Corte a extremidade da pet, de modo a facilitar a passagem da garrafa de vinho. Encher a pet com água quente e introduzir nela a garrafa de vinho, também cheia de água quente. O procedimento é o mesmo caso utilize o balde. A garrafa de vinho cheia d’água impede que ela fique boiando, seja na pia ou em qualquer recipiente, muitas vezes com o rótulo voltado para a superfície.

Deixe ficar uma noite. De tempos em tempos, tente retirar o rótulo, puxando-o delicadamente por uma de suas extremidades. Mas não precisa acordar de madrugada para fazer isso. Durma um bom sono e, após aquele café da manhã, faça as suas tentativas. Cuidado para que a sogra ou a diarista não joguem a garrafa no lixo.

Usar uma lâmina. É utilizado principalmente quando o rótulo desejado tem muito dourado ou prateado, papel envernizado e utiliza cola sintética. O papel sob a camada de ouro ou de prata normalmente não fica úmido. O rótulo poderá ficar opaco, sem brilho, sem cor, nessas áreas, se molhado. E normalmente será rasgado nesses pontos (já que a cola ali ficará mais resistente). O procedimento é o seguinte:

a) Encher a garrafa com água quente e esperar uns 10 minutos.

b) Em seguida, esvazie-a e coloque apenas um copo de água fervente. Ponha a garrafa com o rótulo voltado para baixo (com sua face voltada para a superfície onde repousa a garrafa), de modo que o calor se concentre apenas na área ocupado pelo rótulo.

c) Deixe ficar uns cinco minutos.

d) Em seguida, com uma lâmina (gilete, navalha, canivete bem afiado), comece a remover o rótulo. Cuidado para não se queimar. Muita gente usa luvas de cozinha para proteção.

A maioria dos rótulos pode ser retirada a quente ou a seco. Mas alguns deles, como os do famoso Château d’Yquem, considerado o melhor dos vinhos doces, de Sauternes, França, tem ouro no rótulo, o que facilmente tornam as letras quebradiças, ao ser retirado. O rótulo é produzido assim, deliberadamente, para dificultar falsificações (o pessoal retira o rótulo de uma garrafa com o vinho verdadeiro e o coloca noutra com vinho de qualidade inferior).

Papel Contact. A Fernanda empregou papel contact e não deu certo. Nunca utilizei esse método. Sei de pessoas que importam papéis contact especiais, como o Wine Appeal ou Label-OFF dos Estados Unidos. São plásticos transparentes com um adesivo potente numa de suas faces. A face com o adesivo é colocada sobre o rótulo. Com a base de uma colher, esfregam e esfregam e esfregam o adesivo, que é em seguida retirado. Muita gente só o retira depois de alguns dias. E dizem que dá certo. O problema é que são produtos que precisamos importar e devem custar caro. Já li que, quando conseguem retirar o rótulo, partes de cor, texto e desenhos ficam no adesivo. Trabalho perdido.

Variações. Também se utiliza o frio em vez do calor. Colocam a garrafa cheia dágua num balde com gelo e deixam. É uma operação que tenta reproduzir o que normalmente acontece com os rótulos de champanhe ou de vinho branco em restaurantes. Geralmente, quando estão servindo a terceira taça, o rótulo já está “dependurado” na garrafa ou boiando no balde com gelo.

Molham também o rótulo e o colocam no freezer para que congele. Uma vez congelado, é retirado, esperando que volte à temperatura ambiente. Em seguida, tentar descolá-lo com as mãos, unhas ou lâmina. A garrafa deverá estar vazia, claro, para não estourar dentro da geladeira.

O problema em qualquer método que utilize água é a possibilidade de enfraquecer o rótulo, que pode rasgar facilmente.

Alternativas quentes. As mais comuns variações utilizando o calor são:

a) Colocar água numa chaleira até que comece a despejar vapor. Colocar o rótulo diretamente em contato com o vapor e esperar que a cola amoleça.
Uma opção é utilizar um secador, no calor máximo, sobre o rótulo. Já tentei esse método e não deu certo: o calor do secador não é potente o bastante.

b) Tem gente que coloca a garrafa no forno lá pelos 150º C. O rótulo deve ficar voltado para cima. Costuma amaciar a cola dos rótulos, principalmente se forem de vinhos do Novo Mundo (qualquer país ou região que não seja a Europa), que geralmente utilizam adesivos sintéticos.

c) Também se usa o método de molhar o rótulo, mas adicionando-se detergente de cozinha no balde ou na garrafa pet.

O rótulo seco. O objetivo é certamente retirar o rótulo intacto. Desse modo, devemos apenas encher a garrafa com água fervente e esperar que a cola derreta. Se der certo e não for necessário o uso de lâminas, o rótulo sairá seco, sem rasuras ou perda de cor, perfeito para entrar no seu álbum.

Caso o rótulo retirado ainda contenha cola, o recurso é colocar um pouco de farinha no verso e esperar que seque.

Se estiver molhado ou úmido, guarde-o entre duas toalhas secas.
Uma vez seco e sem vestígios de cola, guarde-o entre as páginas de um livro bem volumoso, para que volte ao seu formato original, liso.

O método que melhor tem funcionado comigo é o que utiliza água quente (no balde ou na garrafa pet). Uma vez removido o rótulo é que emprego o secador de cabelo.

Teste o contra-rótulo. Existem basicamente dois tipos de cola para os rótulos. Os adesivos (como os dos selos), geralmente utilizados pelos vinhos do Novo Mundo. Ou a simples cola comum, normalmente encontrada nos rótulos de vinhos do Velho Mundo.

A dica aqui é você testar primeiramente o contra-rótulo – aquele rótulo menor que fica na outra face da garrafa, normalmente com informações sobre o fabricante, o importador, endereços etc. Se o teste der certo com ele, dará com o rótulo principal.

Se o rótulo for do tipo adesivo, encha a garrafa com água fervente e deixe ficar por um tempo. Aí, teste o contra-rótulo com uma lâmina. Deverá sair com facilidade.

Se o rótulo utilizar cola comum, como os do Velho Mundo, encha a garrafa com água fervendo e a coloque num balde com água também fervente e espere. Use o mesmo processo de empregar uma gilete para verificar se o rótulo está fácil de ser retirado.

Caso você ache que vai ter problemas, desista. Use uma câmera digital e registre o rótulo. Assim, não vai danificá-lo e ainda ter um registro dele, que você pode imprimir em papel de qualidade e guardar no seu álbum.
Amigas sempre me enviam relatos dos métodos que utilizam para retirar rótulos e o que conseguiram com eles. O que posso dizer é que quase todos que mencionei acima dão certo com parte dessas amigas ou se revelam um desastre com outra metade.

Espero que a Fernanda Vianna dê sorte com a maioria deles. Se as amigas conhecem outros métodos ou têm comentários sobre as opções acima, por favor, cliquem para o Bolsa de Mulher ou falem com a Soninha, agora no soniamelier@terra.com.br

Dom Quixote e Sideways

by soniamelier em 17 de fevereiro de 2005 | 21:00

Degustar e beber vinho são coisas bem diferentes. No filme Sideways, as duas ações ficam bem claras. Você vê Miles (Paul Giamatti), o personagem principal, e seu amigo Jack (Thomas Haden Church) beberem vinho sem parar. Estão atrás de sabor e de inebriar-se, embora Miles tenha grande interesse por vinhos e coloque a máscara do entendido.

Mas também pode assistir a uma degustação do mesmo Miles com Maya (Virginia Madsen), que é a verdadeira especialista no assunto, no filme, ela trabalha numa vinícola e, nas suas folgas, estuda viticultura.

Degustar um vinho é examinar sua qualidade, caráter ou identidade. Combina experiência, conhecimento e o uso de três sentidos: visão, olfato e paladar. Tudo para analisar as impressões sensoriais estimuladas pelo vinho. É preciso muitos anos de prática para reconhecer certos vinhos e suas regiões de origem, saber se estão mais ou menos equilibrados, quais suas falhas e seus pontos altos.

É um ofício muito antigo. Existem provas dessa atividade na antiga Grécia, em razão da organização do comércio do vinho, que deve ter criado uma classe de mercadores especializados em identificar e classificar os vinhos, suas qualidades, suas propriedades. Existia até uma palavra para o provador de vinho e seu ofício: oinogeustes. O verbo significando “degustar vinho” existe desde o século IV AC.

Para também celebrarmos os 400 anos do Don Quixote de la Mancha, de Cervantes, lembramos de uma história contada por Sancho Pança, que propalava grande conhecimento sobre vinhos, possuidor de enorme e natural instinto em julgar a bebida.

“Deixe-me apenas sentir o aroma de um vinho que vou certamente dizer de que país veio, sua espécie, seu sabor, sua qualidade, que alterações sofrerá com o tempo e tudo o mais a respeito de um vinho”, vangloriava-se ele.

Sancho explica que seu dom tinha origem em dois parentes por parte de seu pai. Seriam os melhores degustadores de La Mancha. Uma vez, numa certa vila, ofereceram aos dois uma prova de vinho retirado de um mesmo barril. Um deles chegou a colocar a ponta da língua na bebida. O outro apenas cheirou a taça.

O primeiro disse que o vinho tinha um sabor de ferro. O segundo afirmou que o vinho tinha um forte sabor de couro. Mas o dono do barril jurou que o barril estava limpo: nada tinha sido adicionado ao vinho. Não havia razão para sabores de ferro ou couro na bebida.

O tempo passou, o vinho foi consumido até que o barril ficou vazio. Foi então que acharam lá no fundo uma pequena chave amarrada a uma tira de couro. Tinha caído lá por acidente.

Sem esnobismos, Maya conduz uma degustação, acompanhada pelo pretensioso Miles. Você pode até repetir as ações de Maya e iniciar um aprendizado pela mímica. É de certo modo o que faz a maioria dos que dizem que entendem de vinho: dão uma olhada na taça, desajeitadamente a giram, praticamente enfiam o nariz na taça e aspiram aromas. E no final provam o vinho.

Mas o melhor mesmo é tomar algumas providências antes. Por exemplo, manter um diário sobre os vários vinhos que você prova. Não só vai se lembrar o que bebeu como poder comparar notas sobre os demais vinhos consumidos. Poderá também voltar a provar vinhos que você gostou e recusar os que não tolerou. Vai aos poucos aprendendo o jargão dos críticos para descrever os vinhos presentes nesse diário. Na internet você encontra vários. Eis aqui um bem completo, do site português e-Mercatura.net. Muita gente coleciona rótulos e os organiza para melhor lembrar dos vinhos que tomou.

Suas taças devem sempre estar perfeitamente secas, muito bem limpas e não serem lavadas com detergentes, que podem emprestar aromas e sabores indesejáveis ao vinho. O lugar onde você vai degustar também deve ser neutro: nada de gente perfumada, de fumantes, de velas acesas. Não esqueça de usar tolhas brancas na mesa. O fundo branco da toalha evitará deformações de cor na bebida, facilitando o exame dela na taça. Não coma antes da degustação, pois os sabores da comida podem afetar a experiência da degustação. Comece a degustação sempre com os vinhos brancos, depois os rosados e por último os tintos.

O processo é o seguinte, em resumo:

1) Encha 1/3 da taça do vinho que escolher.

2) Segure a taça pela haste num ângulo de 45 graus e examine o vinho contra a luz. Preste atenção na cor e na claridade. Vinhos brancos jovens apresentam uma cor de palha ou um tom esverdeado. Na medida em que envelhecem, ficam dourados e até mesmo marrons. Já os tintos começam com um vermelho bem escuro e na medida em que amadurecem tomam a cor de um vermelho-tijolo até marrom, mais leve. O vinho deve estar bem claro, luminoso, sem apresentar algum tipo de opacidade, névoa, alguma coisa que o turve. Só pelo o exame da cor, você poderá comentar sobre a idade do vinho e algumas de suas falhas.

3) Agora, gire a taça. Observe o corpo do vinho. Verifique as “pernas”: aquelas lágrimas que lentamente correm da borda da taça até a superfície do vinho, após os movimentos que você fez. Elas podem indicar se o vinho é muito encorpado (“corpo” é o peso do vinho na boca, resultante da presença do álcool e de todas as substâncias nele desenvolvidas), ou tem alto teor alcoólico ou um maior nível de doçura. Ao girar o vinho os aromas serão mais facilmente liberados.

4) Agora, faça como a Maya: enfie o nariz na taça e aspire fortemente. O aroma de um vinho é chamado de “nariz”. Verifique em que condição a bebida está: suave (equilibrado de corpo e de sabor, com finesse, um vinho com textura fina e redonda, de consistência fácil), rançoso ou terroso (com aroma ou sabor de terra, do solo de onde veio a uva), sua intensidade (a profundidade de aromas e sabores; a complexidade na composição da bebida e a impressão e duração dessas sensações na sua boca) e o caráter (conjunto de qualidades que dão personalidade própria ao vinho e permitem distingui-lo de outros: ele tem mais frutos ou mais flores – ou até mesmo um tanto de couro, como na história do Sancho Pança). Passe o tempo que quiser descobrindo tudo que os aromas de um vinho vão oferecer-lhe. Lembre-se que nosso nariz é tremendamente mais sensível que nossa boca, que nosso paladar. Só ele pode determinar as sutilezas desses aromas. Numa degustação com Miles, Maya deixa Miles meio sem graça ao descobrir que no vinho que provavam o álcool era mais dominante que as frutas. Uma falha importante.

5) Agora só falta provar o vinho: vamos descobrir o “paladar” do vinho, a sensação que ele produz ao ser degustado e bebido. Quando o vinho entra na boca, o degustador deve saboreá-lo com a língua, esmagando-o contra o palato e as gengivas. Assim, percebem-se melhor as características estruturais do vinho (corpo, álcool, tanino), o acetinado e a textura da matéria, assim como os seus aromas que vão alcançando o nariz por via retronasal. Não fique envergonhada em repetir a manobra de um gargarejo, fazendo com que a bebida envolva completamente as suas papilas gustativas. Verifique a acidez, a doçura, o corpo, a presença de frutas e de álcool.

6) O degustador profissional vai cuspir o que está na boca numa escarradeira. Afinal, ele vai ter que provar dezenas de vinhos numa só sessão de degustação. Não pode ficar embriagado.

Tirando algumas frescuras que sempre existiram, desde o tempo dos gregos (como direção do vento, menstruação de Hera, mau humor de Zeus etc.), a degustação sempre considerou os passos acima. De substancial nada mudou.

Mas estamos aqui tentando repetir Miles e Maya e homenageando Sancho Pança, meio que degustando, bebericando, jogando conversa fora, contando lorotas e namorando. Eu não degustaria e beberia. Não cuspiria nadinha de nada.

Leia ou releia do Dom Quixote, veja Sideways e comece já o seu aprendizado caseiro de degustação.

Na dúvida, clique para o Bolsa de Mulher ou para a Soninha no soniamelier@terra.com.br

Sideways

by soniamelier em 10 de fevereiro de 2005 | 21:00

“Sideways – Entre Umas e Outras”, agora em cartaz nos cinemas, conta a história de dois velhos amigos numa viagem pela Califórnia. A dupla resvala das estradas principais e cai por atalhos, caminhos laterais (sideways), para explorar com bom humor os acidentes do amor, da amizade, da solidão, dos sonhos e da permanente guerra entre a Pinot Noir e a Merlot.

Pois esse filme, com uma história bem simples e de produção barata para os padrões de Hollywood (US$ 18 milhões), adaptada de um livro de Rex Pickett, transformou-se num sucesso da crítica internacional. Foi escolhido como o melhor filme de 2004 pela Associação de Críticos de Cinema de Los Angeles, ficando ainda com os prêmios de melhor diretor (Alexander Payne), melhor ator e atriz coadjuvantes (Thomas Haden Church e Virginia Madsen) e melhor roteiro (Alexander Payne e Jim Taylor).

Já ganhou dois Globos de Outro (de melhor filme – comédia e melhor roteiro), fora indicações para melhor diretor, melhor ator de comédia/musical, melhor ator coadjuvante, melhor atriz coadjuvante e melhor trilha sonora. Recebeu também uma indicação ao BAFTA (British Academy of Film and Television Arts) de melhor roteiro adaptado. Teve ainda seis indicações ao Independent Spirit Awards (melhor filme, melhor diretor, melhor ator, melhor ator coadjuvante, melhor atriz coadjuvante e melhor roteiro). E acaba de receber cinco indicações ao Oscar: melhor filme, melhor diretor, melhor ator coadjuvante, melhor atriz coadjuvante e melhor roteiro adaptado.

O filme recebeu a extraordinária cotação 94 no Metacritic , um site que reúne opiniões e notas dos mais respeitáveis críticos e publicações.

Miles (Paul Giamatti), um divorciado que ainda não se recuperou da perda da mulher, é um escritor não editado com uma fixação em vinho. Resolve dar de presente a um velho amigo de colégio, Jack (Thomas Haden Church) uma viagem de “despedida de solteiro” pelos vinhedos da Costa Central, na Califórnia, uma semana antes do casamento do amigo, um ator desempregado. É uma dupla estranha. Jack é mulherengo, extrovertido. Miles é depressivo, o eterno preocupado, fala mais do que cumpre. Jack busca o último gosto da liberdade, enquanto Miles apenas tenta não ficar ainda mais pra baixo. Jack nada sabe de vinhos, não se importa em beber um Merlot barato. Miles parece ter algum conhecimento e busca o perfeito Pinot Noir, uma procura temperamental. Não espera para abandonar (aos berros) um lugar onde tenha alguém bebendo Merlot. Tudo pose, máscara de conhecimento e esnobismo. Toda a figuração que Miles faz para degustar um vinho (girar a taça, examiná-lo visualmente, enfiar o nariz na taça para sentir seus aromas e finalmente prová-lo) fica sem sentido quando bebe um Cheval Blanc 1961 (preço entre 1.200 e 1.800 dólares, a garrafa) numa reles lanchonete. E num copo de plástico. Pode não ter sentido, mas a cena transpira humanidade.

Uma das locações do filme, a Vinícola Sanford, virou atração turística, com os visitantes querendo provar das garrafas que o esnobe Miles experimentou. Na verdade, todas as 18 locações, incluindo vinícolas, restaurantes etc. viraram pontos turísticos.

O filme, inclusive, está influenciando fortemente a escolha de vinhos nos Estados Unidos, com as garrafas de Pinot Noir (a preferida de Miles) disparando nas vendas. Até um leilão com os principais vinhos experimentados ou mencionados pelos protagonistas do filme está sendo realizado pelo site winebid.com. A lista em leilão oferece vinhos da área de Santa Bárbara, Califórnia, além de Cabernets Sauvignons e Super Toscanos clássicos, bem como lendários Bordeaux e Borgonhas. Estão lá o Cheval Blanc 1961, o Sassicaia 1988, o Opus One 1995, entre outros.

Não se trata de uma novidade. O americano está pagando, e caro, para ter impressões turísticas, momentâneas, de lugares concretos. É o que o escritor Tom Wolfe (“Fogueira das Vaidades”) chama de “economia psicológica”. A Disney é o exemplo mais corriqueiro.

O pessoal vai visitar a vinícola Niebaum-Coppola, do diretor Francis Ford Coppola, buscando mais lembranças do “Poderoso Chefão” e do “Drácula”, do que dos vinhos que ele produz. De qualquer modo, a Niebaum foi reconstruída pelo cineasta como um ambiente turístico. Você vai lá – e também em outras vinícolas da Califórnia – e sai com uma camiseta do “Apocalyse Now” em vez de uma garrafa de vinho.

Só que Sideways, pelo que já se sabe, está levando o público a experimentar efetivamente os vinhos. A venda de vinhos com a Pinot Noir aumentou 22% desde o lançamento do filme nos Estados Unidos. O filme parece mais sobre enofilia do que vinho propriamente. Mas a bebida é mais do que um pano de fundo, figura pelo menos como um dos seus principais personagens. Ele talvez não pretenda ensinar sobre o vinho, mas coloca a bebida, um pouco de sua história e cultura (em particular, vícios, cacoetes, o comportamento de seus aficionados) no centro do palco. E isso o torna único na filmografia (a que conheço, pelo menos).

A fixação do personagem principal, Miles (Paul Giamatti) pela Pinot Noir é uma bela sacada, de quem conhece o assunto. O filme se utiliza da delicada, complexa e temperamental uva como uma metáfora para a condição humana. Miles fica bêbado e zangado com facilidade, rouba mil dólares de sua mãe, se autoflagela pela perda de sua esposa e rapidamente entra em depressão. São pequenos defeitos, que também encontramos na uva, de difícil manejo. Por sua vez, Miles tem uma grande sensibilidade e demonstra que é capaz de amar de verdade. A sua Pinot Noir não é diferente. A busca de Miles se encerra quando conhece Maya, uma garçonete, e não quando descobre a perfeita Pinot Noir.

Miles é um anti-herói, um novelista frustrado, na crise da meia-idade. O diretor Alexander Payne fez de uma simples história sobre a amizade entre dois homens uma dissertação sobre a nossa capacidade de errar e amar.
Payne passou muito tempo visitando vinícolas, vinhedos, adegas e a conviver com produtores e vinhateiros para selecionar locações e entender melhor do mundo dos vinhos. Sempre gostou da bebida. Mas até conseguir filmar era “um prisioneiro de lojas e revistas sobre vinhos”, revela.

Vamos então acompanhar a dupla e saber um pouco mais sobre as garrafas provadas pelos dois personagens. Acho que Sideways vai conseguir fazer com que ele deixe o papel decorativo numa mesa para o centro das atenções de uma história que só vem merecendo honrarias pela crítica especializada.

O cinema bem que estava devendo isso a esse personagem. Mas foi preciso esperar muitos anos para que existisse um conhecimento global do vinho, que se encontrasse um diretor de cinema com bastante amor e conhecimento da matéria e um público devidamente interessado na bebida e em sua cultura.

O documentário “Mondovino”, de John Rossiter, também lançado ano passado, quando fez furor em Cannes, e que começou agora a fazer carreira na Europa também está dando o que falar – muito mais entre profissionais do vinho. Rossiter toca nesse ponto nevrálgico da globalização do vinho, falando e apresentando aqueles que estão tentando transformar a bebida numa Coca-Cola, numa commodity sem qualquer registro das suas origens e das culturas envolvidas em sua produção.

Já “Vineyards of Death” (Vinhedos da Morte) conta uma história de mistério: um corpo é descoberto nos vinhedos do Lago Sêneca, no Estado de Nova York. Será filmado a partir de julho na vinícola Glenora Wine Cellars, famosa na região.

O vinho pode esperar muito mais do cinema, pois o conhecimento e gosto por ele só fazem aumentar. Agora mesmo leio que os norte-americanos serão os maiores consumidores de vinho lá por volta de 2008, deixando a Itália e a França respectivamente em segundo e terceiro lugares. Sim, vão passar até a França. Essa nota foi retirada de um relatório apresentado na Vinexpo, uma importante feira de vinho realizada em Bordeaux, coração de uma das mais importantes regiões vinícolas do mundo.

Talvez os franceses estejam pagando o preço por não terem mais Miles e Jacks entre seus consumidores – que gostam de seus vinhos, mas sem complicações e sem perder de vista que têm de resolver outros probleminhas. Vinho é uma bebida deliciosa, que também é cultura, história e geografia, mas não está acima dos nossos problemas do dia-a-dia. Continua sendo suco de uva fermentado.

Vamos ver o filme e saber como Miles e Jack acabam por resolver suas charadas. Acho que Sideways vai informar muito sobre o vinho e seu mundo e, sobretudo, sobre o ser humano. Tomara que faça uma boa carreira também no Brasil. A cerimônia do Oscar será transmitida dia 27 de fevereiro.

Não perca esse filme. E envie seus comentários aqui para o Bolsa de Mulher ou para a Soninha no soniamelier@terra.com.br

O que é vintage

by soniamelier em 3 de fevereiro de 2005 | 21:00

* Quem pode, pode. O bilionário Donald Trump, que estrela “O Aprendiz”, reality show de grande sucesso na TV americana e também na sua versão brasileira, representada pelo Roberto Justus, casou, dia 22 de janeiro, pela terceira vez. E, claro, em grande estilo. A esposa da vez é a ex-modelo Melania Knauss. O champanhe servido foi nada menos que Cristal 1983, vinda diretamente das adegas da Louis Roederer. A garrafa (as magnuns) custa 550 dólares. Para acompanhar a salada de camarão ao vapor, um senhor Borgonha, o branco Chassagne-Montrachet Marquis de Laguiche 2002, lançamento recente, 97 pontos da Wine Spectator e que custa 365 dólares a garrafa. Já o rosbife de filé mignon teve ao lado um Château Lynch-Bages 1999 (87 pontos da WS), mais ou menos 65 dólares a garrafa, bem mais em conta. O vestido da noiva foi um presente da casa Dior, as entradas foram oferecidas pelo chef Jean-Georges Vongerichteno, cujo restaurante fica no Trump International Hotel, em Nova York. Parece que para os vinhos, o bilionário teve que botar a mão no bolso (dele mesmo). Donald Trump está tentando registrar a frase “Você Está Despedido”, bordão tornado famoso no “Aprendiz” para despachar candidatos. Já o utilizou antes para duas de suas ex-esposas. Para isso, também teve que botar a mão no bolso. Uma ex-esposa do Trump pode ser vintage?

* Saiba antes o que ele bebe. Você acha que o gosto do seu namorado ou da sua namorada por bebida é indicativo do estilo deles de viver? Acha que a preferência deles pelas bebidas é forte indício de suas personalidades?

O maior site de encontros online dos Estados Unidos, o Match.com, realizou uma pesquisa para saber as atitudes, percepções e preferências de solteiras e solteiros do país com relação a vinho e romance. Os resultados desse levantamento foram apresentados num festival promovido pelo Escritório do Vinho Australiano, em Nova York, esta semana.

Mais de 2.400 solteiros e solteiras de todo o país foram entrevistados, 62% deles acreditam que conseguem uma dica do estilo de vida do par que escolheram pelo tipo de bebida que escolherem. E 52% acham que a escolha ou preferência por uma bebida é um indicativo da sua personalidade.

No primeiro encontro ao vivo, a maioria dos solteiros entrevistados escolhe o vinho sobre qualquer outra bebida, de modo a refletir a sua personalidade ou estilo de vida. O vinho vem em primeiríssimo lugar, mais do que cerveja, coquetéis, água mineral e refrigerantes.

Mais do que sete entre dez pesquisados (72%) concordam que saber sobre vinhos torna mais atraente um membro do sexo oposto.
Eis em resumo como os entrevistados percebem seus parceiros e os vinhos que escolhem:

* Pedir um vinho australiano significa que o parceiro é uma pessoa aventurosa (62%) e divertida (32%).

* Quem escolhe um vinho francês é vista como pretensiosa (76%) e carente de atenção, “muito dispendiosa” (65%).

* Os que gostam de vinhos italianos são sexy (40%) e têm estilo (37%).
Os respondentes revelaram que estariam mais interessados em escolher uma pessoa que preferisse vinhos australianos (53%) do que vodka russa (18%) ou uma cerveja belga (15%) ou um vinho do Porto (14%).

A maioria (83%) concorda que uma taça de vinho pode fazer de um encontro um momento ainda mais romântico.

E pedir uma taça de vinho numa dessas ocasiões especiais não precisa ser igual a gastar muito dinheiro: 59% das mulheres e 47% dos homens não se mostraram dispostos a gastar mais do que 25 dólares por uma garrafa nos seus primeiros encontros.

No geral, parece que os homens têm mais conhecimento sobre vinhos do que as mulheres. Pesquisinha danada essa, não? Seus resultados estão entupidos de clichês. E nota uma suspeita simpatia pelos vinhos australianos. Poderiam tentar novamente. Falta só esfregar as garrafas para ver se sai algum gênio. Essa pesquisa e também a moda de marcar encontros via internet não tem nada de vintage.

* Vinho e moda. A colunista de vinhos norte-americana Leslie Sbracco, autora do “Wine for Women: A Guide to Buying, Pairing and Sharing” (“Vinho para Mulheres: Um Guia para Comprar, Harmonizar e Partilhar”), livro lançado em 2003, não aceita muito bem as analogias e terminologias criadas principalmente pelos homens. Acha que as mulheres entenderão melhor os vinhos se comparados à moda e à culinária, por exemplo.

Para ela, a sensibilíssima uva Pinot Noir, estrela dos tintos da Borgonha e da maioria dos grandes Champagnes e uma das principais personagens de “Sideways”, filme de grande sucesso, indicadíssimo para o Oscar, pois para ela essa uva é “luxuriante, toda cetim e seda”. A Sauvignon Blanc é “uma fresca e alvíssima camisa branca”.

Os produtores de vinho da Califórnia dão muita atenção ao que Sbracco fala e escreve, pois as mulheres norte-americanas são responsáveis por 80% dos dólares gastos em compras. E a jornalista tem grande audiência junto ao público feminino.

Sbracco acha que homens e mulheres têm diferentes pontos de vista com relação ao vinho. “Os homens falam de preços, cotações. Mulheres preocupam-se mais com estilos de vida, sabor e aromas e não com notas. Ficam mais na área do prazer que a bebida pode oferecer”, diz a autora.
“Quando falo que um vinho feito com a uva Zinfandel está mais para “a calça de couro”, tenho certeza que as mulheres, envolvidas com moda, entenderam direitinho que tipo de vinho é esse”.

O que Sbracco pretende é tornar os textos e as palestras sobre vinho mais interessantes, mais intrigantes, mais divertidas. Ela está mais do que certa. Às vezes acho que os comentários sobre vinhos, feitos por homens, lembram as mesas redondas de futebol, onde meninas não entram. Por outro lado, com o novo jargão da Leslie Sbracco, a dificuldade pula para o lado dos homens. Continua tudo na mesma. Não vejo nada de vintage na criação da colunista.

* Vintage. Por falar em moda e em vintage, vale a pena ler o Sérgio Rodrigues em sua imperdível coluna “A Palavra é…”, publicada no site no mínimo :

Vintage

20.01.2005 | Eis uma palavra da moda nos dois sentidos: está na moda e pertence ao vocabulário da moda, aquele falado por gente ligada ao mundo dito fashion. Como se trata de uma subcultura em que, mais do que na sociedade em geral, ser não-jovem é considerado de profundo mau gosto, a palavra vintage, importada do inglês, cumpre a difícil missão de significar algo que consegue ser ao mesmo tempo antigo e, acredite se quiser, maravilhoso.

O sentido original de vintage é safra, o ano em que foi colhida a uva de determinado vinho. No fim das contas a palavra é herdeira do latim vindemia (colheita), que deu ainda, em português, “vindima”. Mas o uso operou uma extensão no sentido de vintage: além do ano de fabricação de algo, sua própria antiguidade.

Funciona assim: um Fusquinha 67 é um carro velho, mas um Cadillac do mesmo ano é um carro vintage.

Bom carnaval para as amigas. Quem tiver perguntas é só clicar para o Bolsa ou para a Sonia Melier, que está inaugurando o seu blog (http://soniamelier.blogspot.com/) e tem endereço novo: soniamelier@terra.com.br .



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