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O vinho e seus padroeiros

by soniamelier em 27 de janeiro de 2005 | 21:00

Foi o Roldão Simas, um leitor de Brasília, quem me alertou sobre São Vicente: seria ele o legítimo patrono dos vinhateiros? Sua data foi comemorada agora, dia 22, no hemisfério norte. Mas um amigo de Roldão, um francês que trabalha com vinhos, lembra que na França os viticultores adotam vários padroeiros. Mais de um santo é sempre melhor.

Numa consulta ao Índice de Santos Padroeiros, temos, por exemplo, para os vinhos: Santo Amando (584-679), com trabalho de evangelização pela França e Alemanha, em particular nas áreas de produção de cerveja e vinhos. Em seguida, encontramos Goar de Aquitânia (519-575), um padre eremita operando no Reno. Carlos Magno o homenageou construindo uma igreja no local de sua ermida, perto da cidade de Saint Guvet.

Descobrimos um Lourenço ou Lorenzo, um espanhol que pregou em Roma, onde foi perseguido. Era guardião dos tesouros da igreja, cujo esconderijo se recusou a revelar. Foi executado – literalmente assado numa grelha. Por isso, talvez, seja o protetor dos cozinheiros, restauradores e também, não sei a razão, dos viticultores. Uma macabra tentativa de harmonização?

O patrono seguinte é Martinho de Tours (316-397), húngaro criado na Itália, foi oficial do exército romano na Gália (França). Converteu-se ao cristianismo, tornou-se um eremita, fez intenso trabalho de evangelização, acabou aclamado bispo de Tours em 372, mas preferiu a solidão de um mosteiro. Foi feito santo e protege contra a pobreza e o alcoolismo e incongruentemente vinicultores e viticultores.

Na letra M temos ainda Morand, monge de Cluny. Dizem que passava toda a Quaresma comendo apenas uvas, daí talvez tenha conquistado as simpatias dos vinhateiros. Urbano, bispo de Langres em 374, foi perseguido, mas achou refúgio num vinhedo. Por essa razão, ganhou a afeição do povo que trabalhava com uvas e vinhos.

Walter de Pontnoise ou Walter Gautier (nasceu no século 11, na França) era professor de filosofia e retórica, mas juntou-se aos beneditinos para fugir das tentações do mundo. Feito abade, brigou com a casa real e o clero franceses em nome dos bons costumes. Preso e torturado várias vezes, morreu em sossego em sua capela, em 1099. Protegia os prisioneiros e, estranhamente, os vinicultores.

De todos esses patronos, apenas Amando, Morand e Urbano tiveram alguma ligação com os vinhateiros. O nosso São Vicente, nascido em Saragossa, era diácono. Perseguido e torturado por ordem do imperador Diocleciano, suportou tudo com um estranho sorriso e morreu. Não há registro de suas ligações com vinicultores.

São Vicente é padroeiro de Lisboa, Valência, Saragossa, Chalone, Saone, Berna, Magdaburg, Milão e muitas e muitas outras cidades e vidas. Cenas de sua vida podem ser vistas em painéis de vidro de numerosas igrejas, em particular nas catedrais de Chartres e Bourges e na sua própria Igreja de São Vicente, em Rouen, França.

A dica do francês Christian Couèsmes, amigo do Roldão, refere-se ao nome do santo, Vincent em francês. A glória póstuma de São Vicente residiria simplesmente no fato da primeira sílaba de seu nome formar a palavra VIN, vinho em francês. Um santo com o nome do produto é mais facilmente venerado.

Para juntar a fome com a vontade de comer, a data de 22 de janeiro também ajuda, pois marca o início da poda nos vinhedos europeus e a volta dos vinhateiros para mais um ano de muito trabalho. Dos vinhateiros e também dos colunistas de vinho. Assim, com todo respeito aos outros santos, fico mesmo é com São Vicente, mas sempre torcendo para que acabemos 2005 com um sorriso nada estranho nos lábios.

Se as amigas souberem de algum outro padroeiro dos vinhos é só clicar aqui para o Bolsa ou para a Soninha, no soniamelier@adegaebar.com.br .

Tendências 2005

by soniamelier em 20 de janeiro de 2005 | 21:00

O mercado de bebidas finas para 2005 reflete, claro, o que aconteceu em 2004. Vamos ver então o que houve de mais marcante ano passado e pode desdobrar-se para o ano que começa:

1) Grandes engolem pequenos. É o caso recente da Constellation Brands Inc., antiga Canandiagua Brands, que, através de aquisições, é hoje a maior produtora de vinhos do cindo (66 milhões de caixas em 2003). Ela acaba de arrematar a célebre Mondavi, que deu fama aos vinhos da Califórnia. Caiu como um castelo de areia. A Diageo, a maior produtora de bebidas do mundo, dominando o segmento de destilados, dona do Johnnie Walker, J&B, Bailey’s, entre muitas marcas famosas, é também dona de vinícolas. Pois acaba de comprar o grupo Chalone, importante na Califórnia. Com essa compra, vai incorporar 13 novas propriedades vinícolas ao seu portfólio.

Alguém já ouviu falar da vinícola Mission Bell, pertencente ao grupo Constellation? Pois vende 15 milhões de caixas por ano de vinhos baratos, sob nomes como Almaden, Cribari, Inglenook, Taylor e Paul Masson. Eram nomes de pequenas vinícolas hoje transformados apenas em marcas. Constellation e Diageo representam negócios de grande volume, de vendas para supermercados. O mais importante aqui é preço, gerência de marketing. O acordo entre a brasileira AmBev e a belga Interbrew que resultou na Interbrew, o maior produtor do mundo de cervejas, também pode ser considerado. O novo grupo continua a fazer compras de cervejarias menores, em todo o mundo. Essa tendência vem se mantendo discretamente ao longo dos anos. As vinícolas independentes operam com pequeníssimas margens e qualquer praga ou alteração climática pode levar um agricultor à falência – ou ao colo de uma gigantesca corporação. Como profetizam que a economia mundial em 2005 vai ser novamente caracterizada pelas fusões, não podemos esperar nada diferente no mundo das bebidas. Quem é pequeno acaba. Quem é grande fica maior. Uma história conhecidíssima, onde o que importa é a quantidade e o preço e, em níveis menores, a qualidade.

2) Tampas de rosca. Já são comuns nos vinhos australianos, neozelandeses e americanos. As vinícolas que mudaram para essas tampas alegam grandes prejuízos com as rolhas de cortiça, em razão do fungo “TCA”, a doença da rolha, que deixa no vinho um cheiro insuportável. As perdas são muito grandes. Quando partem para as tampas metálicas precisam investir em novos equipamentos para engarrafamento, inclusive novas garrafas. Não é barato. Mas, no médio prazo, em termos de custos (de uma tampa metálica versus a rolha tradicional) é barato, sim. A nova fase dessa tendência é engarrafar vinhos mais finos, mais caros, com a nova tampa. Falam que elas podem provocar um problema técnico, de “redução”, ou seja: presença de gás sulfídrico e, assim, um aroma de ovo podre na bebida. O problema, ao que parece, é mais político. Talvez seja esclarecido em 2005. O consumidor, na média, continua achando que as tampas metálicas caracterizam vinhos vagabundos, vermutes baratos. A rolha continua como vedação favorita dos consumidores de vinho. Embora já exista até, em alguns restaurantes americanos, australianos e neozelandeses, uma etiqueta para abrir garrafas com tampas de rosca, não há dúvidas que o verdadeiro teatro ainda está no abrir um vinho com uma tampa de cortiça.

Parece que a indústria de rolhas de cortiça está reagindo, melhorando a sua qualidade. Técnicas como as da remoção do TCA por radiação gama vêm sendo utilizadas, por exemplo. A chamada “doença da rolha” faz com que o vinho fique com aroma de roupas úmidas guardadas em plástico. É um fungo chamado TCA (2,4,6-Tricoloroanisole) que contamina as rolhas, alimentos, pesticidas e produtos de limpeza. Pode contaminar também as rolhas sintéticas e as tampas de rosca. Portanto, amigas, não importa que tipo de tampa as garrafas utilizem, insistam em experimentar o vinho antes de aceitar a garrafa como boa.

O fato é que hoje já oferecem vinho em garrafas de plástico, em latinhas de alumínio (como as cervejas) e mesmo em Tetra Paks. Essas últimas vêm fazendo grande sucesso e são uma invenção australiana. São apresentadas normalmente em caixas de três litros, possuem internamente um revestimento de plástico que garante a boa vedação do vinho (que pode permanecer fresco por semanas) e cada vez mais oferecem varietais de melhor qualidade. É uma boa maneira de democratizar o vinho. Infelizmente, ainda não são vistas por nossas bandas. Essas novas embalagens, a maioria originária do Novo Mundo (que é tudo, menos a Europa), são mais indicadas para vinhos jovens, a serem bebidos logo.

3) Vinhos Importados. Acho que a bola da vez é mesmo a Argentina. E com todos os méritos. Ótimos vinhos chegando com preços competitivos. Vamos ter mais Torrontés, Trapiche, Catena e outros bons rótulos, normalmente com a excelente Malbec, misturada a uma ou mais variedades. Além dos argentinos, os portugueses, espanhóis e sul-africanos chegam com bons vinhos e bons preços.

Isto é: bons preços, apesar do euro lá nas alturas e do dólar mais fraco. Para nós tudo isso ainda é muito caro. Um problema e mais uma excelente oportunidade para a nossa indústria vinícola – cada vez mais presente nas prateleiras e com produtos de ótima qualidade. Ainda estranho muito os preços de alguns vinhos nacionais. Devemos debitar isso aos impostos, apenas? Ou a alguma cegueira mercadológica dos nossos produtores? Acho que fico com o primeiro caso. Ninguém é louco de deixar seus vinhos mofando nas prateleiras, mais caros que um bom argentino.

Nessa toada, caso haja mesmo uma decisão da Suprema Corte americana em permitir que as vinícolas de 20 dos estados norte-americanos possam vender a quem quer que more fora de seus limites. Essas vinícolas só podem vender para atacadistas de seus estados, que controlam a venda não apenas de vinhos, mas de cerveja e destilados – num reflexo de uma legislação ainda dos tempos da Lei Seca.

Parece que a Suprema Corte dará uma decisão favorável à venda interestadual (e, portanto, facilitando o comércio através da internet), mas apenas lá para junho. Acontecendo isso, as pequenas vinícolas vão respirar melhor (veja a primeira nota), vender mais e a preços mais flexíveis. O americano vai beber mais seu próprio vinho, importar menos (pois, como o dólar baixo, os vinhos de fora se tornam caros demais) e exportar mais.
Como é um dos maiores importadores de vinho do mundo, os mercadores do outro lado da cerca (europeus, australianos, neozelandeses, argentinos, chilenos etc.) botarão suas barbas e molho, ficarão menos gulosos. Poderemos ter mais vinhos americanos por aqui competindo com os demais importados. Mais uma oportunidade para nossos vinhos brilharem.

4) Menos carvalho. O consumidor americano e europeu vem cada vez mais preferindo vinhos brancos que não tenham passado pelo carvalho. A bola da vez está com o estilo de brancos da Nova Zelândia, África do Sul e partes da Europa que não usa a fermentação em barril de carvalho. São os brancos do Veneto e do Friuli, na Itália, os do Vale do Loire, na França, os Sauvignon Blanc da Califórnia. São vinhos que vão melhor com comida e melhor ainda para beber solito. Isso deverá também aumentar o interesse do consumidor por vinhos brancos.

5) Mais informação. O consumidor vai cada vez mais consultar a internet na busca de informação e educação pelos vinhos e outras bebidas finas. Vai também entrar em clubes de degustação, onde poderá aprender mais e até comprar mais barato. Essa tendência é muito forte lá fora e aqui vem crescendo a cada dia.

6) Mais Rosados. 2004 foi o ano da redescoberta do Rosé, desta vez secos, com a musculatura de um tinto e o frescor de um branco. Embarque também nessa onda.

7) A queda da Bastilha. A França continua mal das pernas: suas exportações voltaram a cair – e dramaticamente – em 2004. O presidente da INAO (Institut National des Appellations d’Origine) promete reformar completamente o sistema de apelações introduzindo a controversa categoria AOC d’Excellence. Vamos ver se ele consegue fazer isso, sem que o vinho francês perca sua qualidade e fama. E sem que o rebelde produtor francês corte sua cabeça.

8) Mais blends. No Novo Mundo começa a aparecer mais vinhos misturados, tal como fazem franceses, italianos, portugueses, espanhóis etc. É aquele vinho que mistura uma Cabernet Sauvignon com uma Merlot e mais uma pitada de Cabernet Franc. Ou um australiano com o Shiraz e Cabernet Sauvignon. Vamos saudar essa tendência.

9) Vinho e saúde. Agora mesmo lemos que o vinho tinto pode reduzir o risco de câncer na próstata. Não é novidade. Mas as evidências dessa qualidade no tinto é que se acumularam. Pesquisa recente conduzida pelo Centro de Pesquisa de Câncer Fred Hutchinson, em Seattle, Estados Unidos, é que chegou a esses resultados: “a cada taça adicional de vinho tinto consumido por semana, resultou numa queda estaticamente significativa de 6%, no risco relativo de câncer da próstata”, relatam os médicos de Seattle. O vinho tinto contém substâncias, como os flavonóides, que podem alterar o crescimento das células do tumor, dizem os cientistas.

10) Álcool e saúde. Se o vinho tinto tem elementos poderosos que podem ajudar em vários problemas de saúde, as bebidas alcoólicas em geral ficarão cada vez mais vigiadas, pois os excessos estão acontecendo em proporções assustadoras, em particular junto a grupos mais jovens. Os estragos são enormes. Os governos estão atentos, preocupados e tentando várias saídas. A mais comum é ir em cima dos produtores, nem sempre responsáveis pelo porre geral.

Assim, além das tendências hedonísticas, em 2005 ficarei particularmente atenta a esses estragos e às maneiras de controlá-los. As amigas podem desde já me ajudar contando casos de exageros e métodos de controle ou cura. É só clicar para o Bolsa ou para a Soninha no soniamelier@adegaebar.com.br

Falei mais sobre o mercado de vinhos. Espere nas colunas seguintes para sabermos quais sobre as tendências das cervejas, destilados, refrigerantes e até da água mineral.

Nas alturas

by soniamelier em 13 de janeiro de 2005 | 21:00

Duas amigas acabam de voltar de umas férias na Europa. Uma semaninha apenas, cobrindo o Natal e o Ano Novo. Reclamaram dos preços, claro, e de mais duas coisas, ambas relativas às bebidas. A primeira, sobre os vinhos servidos a bordo dos aviões. A segunda sobre o mesmo assunto de todos os anos: ressaca, que ainda estavam curtindo. Pudera – mesmo na volta continuaram bebendo. Afinal, pagaram a passagem e querem tudo o que têm direito. A cabeça e o fígado que agüentem. E meus ouvidos também.

Vinho nas alturas. O curioso é que foram servidas de marcas velhas conhecidas suas em solo firme. Mas que lá em cima, a dez mil pés, o sabor era não apenas diferente, mas pior. Como ando de férias das bebidas, achei que pelo menos poderia falar sobre os efeitos do álcool lá em cima, a bordo dos aviões. Pelas minhas contas, temos vinhos a bordo de aviões desde 1914, quando a primeira taça de champanhe foi servida a um passageiro num zepelim. A cabine não era pressurizada e provavelmente o passageiro cuspiu fora o espumante ou reclamou do comissário de bordo.

São 90 anos de vinhos a bordo, 90 anos de problemas, já que a altitude afeta nossas papilas gustativas. O gerente de produção e operações da Inflight Catering Association, que regula os serviços de comida e bebida a bordo dos aviões na Inglaterra, professor Peter Jones (professor porque dá aulas na Universidade de Surrey), afirma que a altitude afeta nossas papilas gustativas. ‘Num avião acontecem duas coisas”, explica o professor. “Umidade baixa, que prejudica nossa habilidade de perceber aromas; e a baixa pressão, que dificulta a operação de nossas papilas gustativas”.

Se tivermos nosso olfato prejudicado, não conseguimos “sentir” devidamente o que comemos e bebemos. E se, além do olfato, temos as papilas gustativas fechadas, o problema fica ainda maior. Nossas papilas se retraem naquele ambiente de baixa pressão e umidade, fazendo com que a comida pareça praticamente insossa.

O professor Jones explica que esse problema consuma ser resolvido oferecendo-se uma comida mais temperada, mais picante, razão pela qual pratos asiáticos vem sendo servidos mais freqüentemente a bordo.
Só que o vinho não pode ser temperado. O que fazer?

As companhias aéreas estão gastando uma nota preta para resolver esse problema. E estão contratando grandes degustadores, sommeliers e até masters of wine para ajudá-los e escolher os vinhos de bordo.

Vejam só: a Singapura Airlines construiu uma cabine para simular a temperatura, umidade e pressão sob as condições de vôo. Provadores testam sucessivamente os pratos servidos a bordo, bem como os vinhos.

A British Airways tem nada menos do que a Master of Wine Jancis Robinson, que escolhe os vinhos com o gerente de bebidas da empresa, Peter Nixson.
Nixson era comissário de cabine nos idos de 1970 e 80 e o que se via eram apenas vinhos de Bordeaux, Borgonha e Madeira – e só. “Hoje, compramos vinhos de praticamente todas os países produtores do mundo”.

Nixson revela que os vinhos que funcionam bem no solo funcionam igualmente bem nas alturas. “Desde que não sejam muito ácidos ou tenham muito taninos – características que vão se acentuar pela desidratação”. Além disso, que comida serviriam com vinhos sempre muito ácidos e com muitos taninos?

O que deve ter acontecido? Serviram um vinho muito ácido ou muito tânico? Improvável. Acho que as minhas vizinhas já chegaram com um baita Jingle Bells soando em suas cabeças, no mais puro estilo de apertar ao máximo a pasta de dentes e aproveitar tudo o que podiam nessa semaninha na Europa. Beberam além da conta e assim sentaram em suas cabines já meio desidratadas. E naturalmente com uma grande sede.

Só que, bebendo ou não, ficamos desidratadas lá em cima, amigas. E na medida em que bebemos além da conta, a desidratação aumenta. Para a ressaca é um pulo só. A bordo, só a sua cabeça e o avião é que pularão. Uma lástima!

Ressacas. Continuamos nas alturas, mas das nossas cabeças. Ressacas são problemas muito sérios. Calculam que elas custam aos Estados Unidos a bagatela de 148 bilhões de dólares, a cada ano, pela perda de produtividade, a maior parte causada pelas ressacas do “dia seguinte”.

Os remédios são muitos, a maior parte mais para o folclore do que para a ciência. Se não é possível neutralizar os efeitos da bebida, não é possível também minimizar o que acontece no dia seguinte.

Tem gente que tenta de tudo, até shiatsu para tirar o jingle e o bell da cabeça. Não adianta. Acordam no dia seguinte tentando “equilibrar” o álcool na corrente sangüínea, tomando champanhe, cerveja ou uma talagada de uísque. Só piora!

O que os médicos dizem que é o álcool é um desidratante. Por isso, urinamos além da conta quando bebemos. Desidrata em particular o nosso cérebro, que começa a perder suas funções. O cérebro reage, tenta recuperar suas habilidades. E reage brusca e brutalmente: daí os sintomas de dor de cabeça e ansiedade. Pudera, o sistema de irrigação em nosso cérebro está seco, retorcido.

A água continua sendo o remédio universal para quem bebe. Mesmo que seja apenas um drinque. A regra é essa mesmo: para cada drinque, um copo d’água. Cada drinque deve ser bebido em intervalos de uma hora. Com isso, estamos combatendo a desidratação. Pode não resultar em cura, mas que os efeitos de uma senhora ressaca vão ser minimizados, ah, isso vão mesmo.

Você pode optar por um Bloody Mary, desde que não tenha a vodka. O suco de tomate ajuda na ressaca. Água de coco também é eficaz, bem como essas bebidas esportivas, como o Gatorade. Todas essas bebidas apresentam elementos como o potássio e o magnésio, que depuram o álcool.

Aspirinas são mais eficientes se tomadas antes de você capotar na cama (se possível; às vezes, você capota num degrau de escada ou no sofá de um desconhecido). Se você for alérgico à aspirina, nem tente o Tylenol ou drogas dessa família, que causam danos muito sérios ao fígado quando misturadas ao álcool.

Assim, as duas vizinhas e eu nos servimos de suco de frutas – e elas ficaram sabendo que estou fazendo umas semaninhas de abstenção do álcool – o que serviu para aumentar a dor de cabeça das meninas, sem falar de seus complexos de culpa.

Abstinência. Sobre a coluna passada, onde falo sobre as razões do meu fígado e sua dona estarem de férias temporárias das bebidas, recomendo que as amigas saibam mais sobre doenças e tratamentos ligados ao querido órgão no www.hepato.com, do Grupo Otimismo de Apoio a Portadores de Hepatite C, uma ONG liderada pelo incansável Carlos Varaldo, antigo portador, hoje curado e que tomou como missão de vida apontar os caminhos da cura e da convivência com a doença.

Além do site, tente o endereço hepato@hepato.com ou o telefone (21) 9973-6832.

Mais informações é só clicar aqui para o Bolsa ou para a Soninha no soniamelier@adegaebar.com.br

Abstinência. Sim, abstinência!

by soniamelier em 6 de janeiro de 2005 | 21:00

Coisa de louco, uma coluna sobre bebidas tocar nesse assunto tenebroso: abstinência! Depois de um período prolongado de festas, com Natal e Ano Novo te levando para o lado direito do “J” (o “jota” é uma curva que reflete as qualidades da moderação e do destempero alcoólico; explico mais logo adiante), exagerando nos fermentados e destilados, não dando tempo do seu fígado regenerar-se, o melhor mesmo é dar um tempo, parar algumas semanas. Você consegue? Eu acho que ainda consigo. Além disso, escrevo sobre bebidas, principalmente as alcoólicas. É uma tremenda responsabilidade. Começo o ano, então, pedindo calma e atenção.

O fígado é o órgão mais sensível aos excessos alcoólicos. Nesse sentido, é como aquele pássaro que usavam ou ainda usam em minas, para detectar a presença de gases. Ele vai “apitar” quando as coisas estiverem perigosas: quando o álcool começar a ameaçar a nossa saúde. Meu fígado já apitou algumas vezes. O melhor remédio que tomei foi dar uma parada, uma desintoxicada e voltar a comportar-me com moderação.

Um excesso aqui, outro ali, podem irritar o fígado. Mas ele possui uma tremenda capacidade de regeneração e rapidamente se cura. Se você continuar se excedendo ao longo dos anos o provável é danificá-lo nessa ordem de gravidade: inflamação (hepatite alcoólica), gerando fibroses (cicatrizes, áreas endurecidas que dificultam a passagem do sangue), esteatoses (acúmulo de gordura causado pela ingestão de álcool ou por outros fatores), cirrose moderada, cirrose descompensada, já progredindo para problemas de câncer e afetando vários outros órgãos, entre eles o cérebro, o coração, o esôfago, os rins, o pâncreas, intestinos etc.

O grau de dano é em geral proporcional à quantidade de álcool ingerido e cada pessoa apresenta diferentes suscetibilidades. As mulheres, por exemplo, são mais sensíveis que os homens, tolerando apenas metade do álcool consumido pelos seus parceiros, em média.

Má alimentação também aumenta o esforço do órgão, que não apenas tenta sobreviver ante a agressão do álcool em excesso e, agora, também pela alimentação pobre. E sabemos que álcool em excesso costuma andar de braços dados com pouca e pobre nutrição.

A cirrose alcoólica é causa comum de invalidez e morte entre os alcoólicos, respondendo pela maior parte das fatalidades na parte direita da curva do “jota”, que agora explico melhor.

Desenhe um “J” num papel quadriculado, como se fosse um gráfico. No eixo vertical, o da esquerda, temos a “taxa de mortalidade”, ou de risco de vida. No eixo horizontal, registramos a quantidade de drinques bebidos diariamente.

Do lado esquerdo, desenhamos a perna menor do “jota”. Digamos que ela comece no número dez (apenas para você visualizar) e termina em zero, na base do eixo horizontal: é claramente uma curva decrescente, essa do lado esquerdo. Mas a do lado direito, vai do zero ao número 70. Ela sobe vertical e vertiginosamente.

O que significa essa curva, esse “jota”? Ele é o resultado gráfico de várias pesquisas sérias e ilustra que quem bebe álcool de leve a moderadamente (lado esquerdo da curva) vive mais. Quem não bebe, está em perigo, maior inclusive de quem bebe moderadamente (ou seja, o abstêmio se situa no que seria o número zero no eixo horizontal, relativo à quantidade de álcool consumido; veja como a perna esquerda do “jota” está lá no número 10, sinalizando risco de vida).

Quem passa da base horizontal e continua a beber pesadamente, aumentando o número de drinques, entra numa faixa de mortalidade bastante perigosa – mesmo sem precisar beber demais: o risco aumenta exponencialmente. Pode adquirir uma cirrose e desenvolver um hepatoma, um câncer no fígado, geralmente fatal.

Além de causar danos ao fígado pelo consumo em excesso, o álcool pode inibir o fígado de regenerar-se, de curar-se, de qualquer outra doença, seja uma hepatite por vírus, toxinas, overdose de medicamentos (acetaminofen), hemocromatose (excesso de ferro).

Um estudo feito na Unidade de Doenças do Fígado, da Universidade de Manitoba, Canadá, revelou algumas surpresas. Os médicos deram aos seus ratos de laboratório quantidades pequenas, moderadas e grandes de álcool e, também água filtrada. Fizeram isso por 30 dias, antes de remover uma porção dos fígados dos ratos.

A regeneração do órgão foi então medida. Os ratos que consumiram grandes quantidades apresentavam-se incapazes de regenerar, curar, seus fígados. Os que consumiram moderadamente estavam a caminho da incapacidade. Os que beberam levemente, contudo, apresentavam-se com sua capacidade regenerativa aumentada, melhor do que aqueles que só beberam água filtrada.

Os mecanismos da melhor capacidade de cura entre os ratos que beberam levemente ainda não são conhecidos. Mas estima-se que haja algum efeito favorável sobre membranas das células hepáticas e inibição dos elementos que interferem na regeneração. Devemos levar em conta que se trata de uma experiência em ratos e não em humanos. Portanto, se temos algum problema hepático o melhor é partir para a abstinência, antes de assumirmos as boas notícias da curva em “jota”.

Uma vez, li numa revista que um americano, abstêmio, teve problemas com a polícia por encontrar-se em estado de intoxicação alcoólica. Como poderia, sendo abstêmio? Bem, ele só conseguiu sair do apuro quando foi demonstrado que o álcool foi produzido no seu trato gastrintestinal. Pode parecer absurdo, mas os pesquisadores da Universidade John Hopkins, em Baltimore, descobriram que os fígados muito gordurosos, comuns em obesos, podem ser conseqüência do álcool gerado em seus próprios intestinos.

Já fizeram estudos em camundongos obesos e magros. Os gordões, apesar de completamente abstêmios, apresentavam três vezes mais a quantidade de álcool dos magros. A concentração máxima ocorria pela manhã. Estima-se que microorganismos existentes normalmente nos intestinos produzem esse álcool, que flui, através da corrente sangüínea, para o fígado. A obesidade parece tornar mais lento o trabalho dos intestinos e com isso favorece a proliferação de bactérias, com o resultante aumento da produção de álcool e de outros fatores nocivos. A ocorrência de fígados anormais (gordurosos) em camundongos obesos é bem parecida à que ocorre em humanos. Então, qual a quantidade de álcool a ser consumida? A prudência indica que nenhuma. Zero.

Amigas, o fígado é o maior e o principal órgão de nosso organismo. O que comemos, bebemos, respiramos ou colocamos sobre a pele é metabolizado por ele. Ele executa os mecanismos químicos necessários ao organismo, formando, desenvolvendo e renovando estruturas celulares e produz a energia necessária às manifestações interiores e exteriores da vida, bem como às reações bioquímicas. Isso é que é metabolizar, segundo o Aurélio, e é apenas tudo isso que esse nosso operário padrão faz.

E o que estamos fazendo por ele? Nada. Ou, melhor, os dados indicam que estamos jogando contra. As doenças do fígado já afetam entre 20 e 40% da população mundial – cerca de dois bilhões de pessoas. Quatrocentos milhões estão infectados com a hepatite B, 200 milhões com a hepatite C e entre 1,2 e 2,5 bilhões com uma nova doença que se alastra terrivelmente: a NASH, sigla para Non Alcoholic Steato Hepatitis. É uma inflamação do fígado causada pela acumulação de gordura no órgão, mas sem relação com o depósito de gordura devido a outras causas de hepatites, como vimos anteriormente.

Há uma relação com pessoas obesas – mas essa obesidade pode estar sendo gerada não por excesso de comida, mas por ingerir frutas e legumes, enlatados e mesmo bebidas que tenham passado por estabilizantes, espessantes, corantes, agrotóxicos, fertilizantes, conservantes, sabores artificiais. Tudo isso tem de ser metabolizado pelo fígado. E ele pode agora estar dando o troco com o temível NASH. O IBGE pode até achar que metade da população brasileira está saudavelmente gorda. Vai ver, está mesmo é contaminada, doente.

Pois, amigas, chega dessa conversa. Parece que estamos num consultório ou num filme “noir”, enquanto o que faço é apenas reler algumas pesquisas consideradas sérias sobre o assunto e pedir a reflexão das amigas.
Vou mesmo dar umas boas férias para esse grande operário. Merece um senhor descanso. Está bem que uma quantidade moderada de álcool seja até recomendada. Mas por duas semanas, pelo menos, meu fígado vai descansar.

Ano Novo, novas resoluções. E só vou tomar sucos e água (a filtrada). Uma vizinha aqui lembra que vinho é 80% água. Nessa conversa eu não caio. Uma taça de vinho tem tanto álcool quanto um copo de cerveja ou uma dose de uísque. Férias são férias. Não preciso me turbinar para ficar “alegre”. E meu fígado bem que merece.

Se quiser receitas de drinques deliciosos sem sequer uma gotinha de álcool é só clicar aqui para o Bolsa de Mulher ou para a Soninha, no soniamelier@adegaebar.com.br.



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