Coisa de louco, uma coluna sobre bebidas tocar nesse assunto tenebroso: abstinência! Depois de um período prolongado de festas, com Natal e Ano Novo te levando para o lado direito do “J” (o “jota” é uma curva que reflete as qualidades da moderação e do destempero alcoólico; explico mais logo adiante), exagerando nos fermentados e destilados, não dando tempo do seu fígado regenerar-se, o melhor mesmo é dar um tempo, parar algumas semanas. Você consegue? Eu acho que ainda consigo. Além disso, escrevo sobre bebidas, principalmente as alcoólicas. É uma tremenda responsabilidade. Começo o ano, então, pedindo calma e atenção.
O fígado é o órgão mais sensível aos excessos alcoólicos. Nesse sentido, é como aquele pássaro que usavam ou ainda usam em minas, para detectar a presença de gases. Ele vai “apitar” quando as coisas estiverem perigosas: quando o álcool começar a ameaçar a nossa saúde. Meu fígado já apitou algumas vezes. O melhor remédio que tomei foi dar uma parada, uma desintoxicada e voltar a comportar-me com moderação.
Um excesso aqui, outro ali, podem irritar o fígado. Mas ele possui uma tremenda capacidade de regeneração e rapidamente se cura. Se você continuar se excedendo ao longo dos anos o provável é danificá-lo nessa ordem de gravidade: inflamação (hepatite alcoólica), gerando fibroses (cicatrizes, áreas endurecidas que dificultam a passagem do sangue), esteatoses (acúmulo de gordura causado pela ingestão de álcool ou por outros fatores), cirrose moderada, cirrose descompensada, já progredindo para problemas de câncer e afetando vários outros órgãos, entre eles o cérebro, o coração, o esôfago, os rins, o pâncreas, intestinos etc.
O grau de dano é em geral proporcional à quantidade de álcool ingerido e cada pessoa apresenta diferentes suscetibilidades. As mulheres, por exemplo, são mais sensíveis que os homens, tolerando apenas metade do álcool consumido pelos seus parceiros, em média.
Má alimentação também aumenta o esforço do órgão, que não apenas tenta sobreviver ante a agressão do álcool em excesso e, agora, também pela alimentação pobre. E sabemos que álcool em excesso costuma andar de braços dados com pouca e pobre nutrição.
A cirrose alcoólica é causa comum de invalidez e morte entre os alcoólicos, respondendo pela maior parte das fatalidades na parte direita da curva do “jota”, que agora explico melhor.
Desenhe um “J” num papel quadriculado, como se fosse um gráfico. No eixo vertical, o da esquerda, temos a “taxa de mortalidade”, ou de risco de vida. No eixo horizontal, registramos a quantidade de drinques bebidos diariamente.
Do lado esquerdo, desenhamos a perna menor do “jota”. Digamos que ela comece no número dez (apenas para você visualizar) e termina em zero, na base do eixo horizontal: é claramente uma curva decrescente, essa do lado esquerdo. Mas a do lado direito, vai do zero ao número 70. Ela sobe vertical e vertiginosamente.
O que significa essa curva, esse “jota”? Ele é o resultado gráfico de várias pesquisas sérias e ilustra que quem bebe álcool de leve a moderadamente (lado esquerdo da curva) vive mais. Quem não bebe, está em perigo, maior inclusive de quem bebe moderadamente (ou seja, o abstêmio se situa no que seria o número zero no eixo horizontal, relativo à quantidade de álcool consumido; veja como a perna esquerda do “jota” está lá no número 10, sinalizando risco de vida).
Quem passa da base horizontal e continua a beber pesadamente, aumentando o número de drinques, entra numa faixa de mortalidade bastante perigosa – mesmo sem precisar beber demais: o risco aumenta exponencialmente. Pode adquirir uma cirrose e desenvolver um hepatoma, um câncer no fígado, geralmente fatal.
Além de causar danos ao fígado pelo consumo em excesso, o álcool pode inibir o fígado de regenerar-se, de curar-se, de qualquer outra doença, seja uma hepatite por vírus, toxinas, overdose de medicamentos (acetaminofen), hemocromatose (excesso de ferro).
Um estudo feito na Unidade de Doenças do Fígado, da Universidade de Manitoba, Canadá, revelou algumas surpresas. Os médicos deram aos seus ratos de laboratório quantidades pequenas, moderadas e grandes de álcool e, também água filtrada. Fizeram isso por 30 dias, antes de remover uma porção dos fígados dos ratos.
A regeneração do órgão foi então medida. Os ratos que consumiram grandes quantidades apresentavam-se incapazes de regenerar, curar, seus fígados. Os que consumiram moderadamente estavam a caminho da incapacidade. Os que beberam levemente, contudo, apresentavam-se com sua capacidade regenerativa aumentada, melhor do que aqueles que só beberam água filtrada.
Os mecanismos da melhor capacidade de cura entre os ratos que beberam levemente ainda não são conhecidos. Mas estima-se que haja algum efeito favorável sobre membranas das células hepáticas e inibição dos elementos que interferem na regeneração. Devemos levar em conta que se trata de uma experiência em ratos e não em humanos. Portanto, se temos algum problema hepático o melhor é partir para a abstinência, antes de assumirmos as boas notícias da curva em “jota”.
Uma vez, li numa revista que um americano, abstêmio, teve problemas com a polícia por encontrar-se em estado de intoxicação alcoólica. Como poderia, sendo abstêmio? Bem, ele só conseguiu sair do apuro quando foi demonstrado que o álcool foi produzido no seu trato gastrintestinal. Pode parecer absurdo, mas os pesquisadores da Universidade John Hopkins, em Baltimore, descobriram que os fígados muito gordurosos, comuns em obesos, podem ser conseqüência do álcool gerado em seus próprios intestinos.
Já fizeram estudos em camundongos obesos e magros. Os gordões, apesar de completamente abstêmios, apresentavam três vezes mais a quantidade de álcool dos magros. A concentração máxima ocorria pela manhã. Estima-se que microorganismos existentes normalmente nos intestinos produzem esse álcool, que flui, através da corrente sangüínea, para o fígado. A obesidade parece tornar mais lento o trabalho dos intestinos e com isso favorece a proliferação de bactérias, com o resultante aumento da produção de álcool e de outros fatores nocivos. A ocorrência de fígados anormais (gordurosos) em camundongos obesos é bem parecida à que ocorre em humanos. Então, qual a quantidade de álcool a ser consumida? A prudência indica que nenhuma. Zero.
Amigas, o fígado é o maior e o principal órgão de nosso organismo. O que comemos, bebemos, respiramos ou colocamos sobre a pele é metabolizado por ele. Ele executa os mecanismos químicos necessários ao organismo, formando, desenvolvendo e renovando estruturas celulares e produz a energia necessária às manifestações interiores e exteriores da vida, bem como às reações bioquímicas. Isso é que é metabolizar, segundo o Aurélio, e é apenas tudo isso que esse nosso operário padrão faz.
E o que estamos fazendo por ele? Nada. Ou, melhor, os dados indicam que estamos jogando contra. As doenças do fígado já afetam entre 20 e 40% da população mundial – cerca de dois bilhões de pessoas. Quatrocentos milhões estão infectados com a hepatite B, 200 milhões com a hepatite C e entre 1,2 e 2,5 bilhões com uma nova doença que se alastra terrivelmente: a NASH, sigla para Non Alcoholic Steato Hepatitis. É uma inflamação do fígado causada pela acumulação de gordura no órgão, mas sem relação com o depósito de gordura devido a outras causas de hepatites, como vimos anteriormente.
Há uma relação com pessoas obesas – mas essa obesidade pode estar sendo gerada não por excesso de comida, mas por ingerir frutas e legumes, enlatados e mesmo bebidas que tenham passado por estabilizantes, espessantes, corantes, agrotóxicos, fertilizantes, conservantes, sabores artificiais. Tudo isso tem de ser metabolizado pelo fígado. E ele pode agora estar dando o troco com o temível NASH. O IBGE pode até achar que metade da população brasileira está saudavelmente gorda. Vai ver, está mesmo é contaminada, doente.
Pois, amigas, chega dessa conversa. Parece que estamos num consultório ou num filme “noir”, enquanto o que faço é apenas reler algumas pesquisas consideradas sérias sobre o assunto e pedir a reflexão das amigas.
Vou mesmo dar umas boas férias para esse grande operário. Merece um senhor descanso. Está bem que uma quantidade moderada de álcool seja até recomendada. Mas por duas semanas, pelo menos, meu fígado vai descansar.
Ano Novo, novas resoluções. E só vou tomar sucos e água (a filtrada). Uma vizinha aqui lembra que vinho é 80% água. Nessa conversa eu não caio. Uma taça de vinho tem tanto álcool quanto um copo de cerveja ou uma dose de uísque. Férias são férias. Não preciso me turbinar para ficar “alegre”. E meu fígado bem que merece.
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