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Vai de Malbec?

by soniamelier em 23 de setembro de 2004 | 21:00

Uma vizinha me procurou para saber se eu tinha Malbec. Como, Malbec, que Malbec? O que a vizinha queria com essa uva? Mas a vizinha nem sabia que era uma uva. Achava mesmo é que era um vinho a toda hora oferecido na novela “Senhora do Destino”, na Globo. Comecei a ficar atenta e a vizinha estava certa: a Malbec é importantíssimo personagem do restaurante chique da novela. Um restaurante de cozinha francesa, mas cujo “vinho” principal é argentino. Basta um casal sentar que o maître oferece logo um “Malbec”. Não bastando isso, a fama da uva já chegou à clientela. Grupos chegam e perguntam logo pela “nova safra do Malbec”. Ninguém, aparentemente, quer saber de comer. Saem de casa, enfrentam tiroteios só para beber a Malbec. Para o roteirista essa é a vida real.

Como a amiga sabe, os restaurantes costumam deixar sobre a mesa uma carta de vinhos e o maître ou o sommelier vem em nosso socorro quando escolhemos o prato. É a ocasião do restaurante, principalmente quando “fino”, “chique” ou “francês”, mostrar ao que veio. Cabe ao profissional especializado recomendar que vinhos combinarão melhor com os pratos escolhidos. Não, nessa novela. O “vinho” Malbec é remédio para qualquer ocasião. E a minha vizinha tem razão em ficar confusa. Na sua cabeça hoje tem um vinho, o tal Malbec, que serve para carne, peixe, dia, noite, quente, frio, para barões e bicheiros. Uma espécie de pomada milagrosa da vinicultura, uma descoberta fenomenal do roteirista da novela. Dizem que o autor, o Aguinaldo Silva, é pessoa requintada, que gosta de bons vinhos, sabe cozinhar bem. Ele poderia encontrar um tempinho e dar um jeito no que se passa no restaurante.

A Malbec

A Riesling é a grande uva branca da Alemanha, rivalizada apenas pela Chardonnay, a varietal querida da Borgonha. A tinta Cabernet Sauvignon é a estrela de Bordeaux, e a Pinot Noir garante brilho na Borgonha e em Champagne, a Zinfandel é o orgulho da Califórnia, a Tannat é outra imigrante que se deu bem no Uruguai. Pois a Malbec está colocando a Argentina nos lugares mais nobres da vinicultura mundial.

Agora em outubro, a revista americana “Food & Wine” publicará um artigo do mais influente crítico de vinhos do mundo, Robert Parker Jr. É uma matéria que já vem sendo badalada, pois o americano faz 12 predições para o futuro do vinho. Como será esse mundo nos próximos dez anos?

Uma dessas predições é justamente sobre a uva Malbec. Diz ele: “A uva Malbec, que já faz as glórias dos vinhos argentinos, atingirá reconhecimento mundial em 2015. A varietal de origem francesa, que não deu certo nos solos de Bordeaux, atingirá o máximo de qualidade nos vinhedos de grande altitude de Mendoza e terá lugar garantido no panteão das uvas nobres”.

Não foi uma predição surpreendente, pois a Malbec vem cada vez mais garantindo e sempre com grande qualidade a presença do vinho argentino nos principais mercados mundiais. Não surpreende, portanto, que tenha conseguido um papel de destaque no chique restaurante francês de “Senhora do Destino” e que venha intrigando minhas vizinhas aqui em Secretário, Petrópolis.

As origens de Malbec são também francesas. Há cem anos, tinha um papel coadjuvante em Bordeaux, sendo utilizada em misturas com a Cabernet Sauvignon. Era plantada não apenas em Bordeaux. Não havia canto na França que não tivesse um vinhedo com essa uva, que, coitada, chegou a ter mais de 400 nomes diferentes. Os mais conhecidos hoje são Côt e Auxerrois. Mas sofria com pragas e entrou em declínio. Hoje, a única região francesa que ainda a utiliza é a de Cahors, no sudoeste do país, mas não dá um bom vinho.

Esse patinho feio emigra então para a Argentina em meados do século 19. E lá é que encontrou a sua verdadeira casa, nos Andes, na região de Mendoza, em vinhedos situados a mais de mil metros acima do nível do mar. Ar puro, grande exposição do ao sol, ótima fotossíntese, dias quentes, noites frias – tudo isso fez da Malbec uma uva capaz de reter grande acidez e ótima quantidade de açúcar, num equilíbrio perfeito, resultando em vinhos ricos e com grande sabor, famosos por acompanhar bem pratos de carne, os famosos assados argentinos. Mas que podem ser macios o suficiente para pizzas vermelhas, cheias de tomates. Ideal para o gaúcho dos pampas e para o portenho de origem italiana. O argentino imediatamente nacionalizou a Malbec.

É certo que se trata de uma manobra de merchandising. Nos capítulos que eu assisti ou que me foram fofocados pelas vizinhas, ninguém viu ou ouviu falar de um vinho ou um rótulo em particular. Apenas um vinho com a uva Malbec é oferecido. Propositadamente, o rótulo fica coberto pela mão de algum ator, ou torna-se indistinguível pela distância na telinha. Vai ver, algum órgão de divulgação do vinho argentino está bancando a presença da uva naquele restaurante. Você divulga a uva e acaba conhecendo os vinhos argentinos, seria essa a idéia.

Falo argentino, mas poderia ser chileno, já que existem vinhos chilenos com a uva Malbec, só que sem o peso e a riqueza dos que saem dos vinhedos de Mendoza. Pelo que se vê, é o único vinho na casa. É um erro grosseiro. Qualquer restaurante tido como “chique” tem uma adega farta o bastante para acompanhar os pratos que oferece no seu cardápio. A estratégia é sempre a da diversidade: estilos diferentes que possam acompanhar das entradas, aos pratos quentes e às sobremesas.

O Pirilampo, um dos mais simpáticos restaurantes da Serra, no Vale das Videiras, tem um filé de inspiração portenha que oferece com um rótulo argentino, claro que com a uva Malbec: é o Gran Leblon Malbec 2000. Fernanda, a chef, sabe o que faz. O vinho está lá praticamente para acompanhar esse prato, um dos mais pedidos da casa.

Mas no restaurante da novela, o Malbec serve para acompanhar qualquer prato e, mais, para domar a rudeza de um ex-bicheiro, que faz papel de bicheiro mesmo, mas que quer se tornar um ex-bicheiro, o que entende como pessoa melhor educada, elegante e que, por isso, usa gravata borboleta. Coisas de novela. Pois o Malbec o tem alegrado.

No restaurante, fora servir um mesmo vinho para qualquer prato, a sala de reuniões, o consultório sentimental, esconderijo, confessionário – tudo é na adega. Ora, adega não é a casa da sogra. É lugar para o vinho ficar em repouso, na temperatura certa, no escuro, sem vibrações. O roteirista é mais da turma da caipirinha, mesmo. Com pequenas penadas, tudo isso poderia ser ajustado. O telespectador aprenderia mais sobre os vinhos feitos com a Malbec, sua origem, como o que combinam melhor, etc. e sobre o papel correto das adegas. E, mais, as vizinhas deixariam de bater na minha porta.

Por outro lado, fico pensando se o merchandising fosse para promover as qualidades medicinais do vinho tinto, por exemplo. O maître questionaria os clientes sobre problemas coronarianos, de câncer na próstata, hipertensão, infecções pulmonares – a lista é muito grande, cardápio de um filme de horror e não de um calmo e elegante jantar.

Enfim, aproveite e passe numa loja e compre um rótulo argentino com a uva Malbec. Ou visite o Pirilampo (Estrada Almirante Paulo Meira, 8.601, Vale das Videiras, tel.: 24-2225-3303), o restaurante é ótimo e o passeio lindo.

Se quiser mais dicas é só clicar para o Bolsa de Mulher ou fazer contato com a Soninha (soniamelier@adegaebar.com.br).



Últimos comentários (3)

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