Brigitte Bardot fez 70 anos, mas disse que preferia continuar nos 30. Compreensível. Os vinhos franceses de Bordeaux têm séculos de idade e continuam pensando que são rapazes. Esquecem que o tempo passa e novos costumes se instalam. Os comerciantes de Bordeaux estão tentando desesperadamente vender seus vinhos tintos de 2001 e 2002. E mesmo a bons preços não estão tendo muito sucesso. Os vinhos de Bordeaux já não ocupam os primeiros lugares de venda na Inglaterra, um mercado que sempre os prestigiaram. Os 10 primeiros lugares são hoje ocupados por vinhos do Novo Mundo, da Austrália, em particular. Há uma crise em curso. Uma crise envolvendo o vinho tinto em todo o mundo e que afeta imediatamente a região de Bordeaux. Além de comercial, é uma crise de costumes, de gostos, de cultura e que envolve vinho e comida.
A grande Jancis Robinson, Master of Wine, crítica de vinhos e autora de livros fundamentais como “The Oxford Companion to Wine”, minha referência constante, escreveu agorinha um artigo em seu site sobre a Revolução do Vinho Tinto: sem comida. É matéria que ajuda a elucidar essa crise – e a revelar um novo modismo já está instalado no mundo dos vinhos.
Bordeaux faz um estilo de vinho que é mais bem apreciado com comida. Os franceses consideram o vinho como parte exclusiva da sala de jantar. Não há possibilidade do francês pensar em vinho sem a comida: é integrante incondicional da gastronomia do país. Seus grandes chefs são treinados para pensar em pratos ao mesmo tempo em que decidem que vinhos os farão companhia.
Já os novos ricos da China, tomam um Petrus, um Margaux como aperitivo – apenas porque são vinhos caros, famosos e eles são justamente isso: novos ricos, com dinheiro de sobra para bebê-los até com guaraná. Esses vinhos, com muito tanino, pouco álcool e açúcar, só são mais bem degustados com comida.
Jancis Robinson repara que “a razão pela qual bebemos vinho hoje está mudando tão rapidamente que o próprio vinho está tendo dificuldade em acompanhar essas mudanças. E diferentes culturas têm idéias bem diferentes quanto à função do vinho”.
O francês, por exemplo, jamais pensaria num vinho parado como um aperitivo, tal como faz o novo rico chinês. Tomaria um licor ou uma taça de champanhe no início ou no fim de uma refeição. Na cultura francesa, lembra a inglesa, o vinho é algo para ser saboreado com comida.“No outro extremo da escala evolucionária, em termos de vinho, temos a Índia”, diz Jancis Robinson. A Índia começa agora a produzir seus próprios vinho e a tomar um gostinho pela bebida. Mas os poucos críticos especializados de lá estão tendo dificuldades em demonstrar as virtudes do vinho. O consumidor médio acha que o uísque faz efeito mais rapidamente que o vinho. Lá, como na Escócia, primeiro você bebe e depois come – isso se estiver sóbrio o bastante.
Mas, lembra Jancis, “a maioria das culturas enófilas fica entre esses dois extremos”. Entre os hábitos dos franceses e dos indianos.
Em regiões do mundo onde o consumo de vinho vem crescendo rapidamente, como a própria Inglaterra e partes da Ásia, “o vinho não é mais visto como uma bebida para acompanhar comida, necessariamente”.
Vinhos de todos os estilos, em particular uma substancial quantidade de tintos, estão sendo bebidos como aperitivo, uma aceitável alternativa para uma cerveja, para um gim-tônica, um rum com Coca-Cola ou para os Martinis. “O que o consumidor está procurando é um vinho que seja feito para não acompanhar comidas”, diz Jancis. E isso já representa uma senhora revolução nos hábitos relacionados ao vinho. É claro que essa tendência tem enormes implicações com os vinhos que estão ou passarão a estar na moda, particularmente entre os tintos.
Os tintos de hoje, particularmente (mas não exclusivamente) os do Novo Mundo, são feitos um tantinho mais doces, mais leves – e é isso que vem fazendo deles uma bebida fácil para tomar desacompanhada, como um drinque. Os vinhos com muitos taninos, supersecos, como os de Bordeaux e mesmo os tintos de regiões tradicionais da Itália, como o Piemonte e Toscana, com os seus Chianti e Barolo, vêm encontrando cada vez mais dificuldades em serem comercializados.
Pelo mesmo motivo, lembra a crítica inglesa, é que os vinhos do sul da Itália, com mais álcool e menos taninos, estão na moda, sendo cada vez mais procurados. Vinhos como o aveludado Negroamaro ou o Rosso di Salento, “que descem mais suavemente”.
A palavra “suave” tornou-se uma espécie de eufemismo para doce e macio ou com poucos taninos. “E são os tintos ‘suaves’ os candidatos óbvios para vinhos sem comida, para serem bebidos nos bares, ligeiramente refrescados”. Parte dessa revolução é devida também ao tipo de comida que está sendo oferecida hoje nos restaurantes. “Os finos Bordeaux podem combinar maravilhosamente bem com as cozinhas clássicas francesa e inglesa, mas passam ao largo do tipo de pratos adocicados e picantes cada vez mais populares em todo o mundo”, revela Jancis Robinson.
Temos hoje a presença cada vez mais marcante de pratos com molhos asiáticos – apimentados, com leite de coco, curry (caril) etc. E não precisa ser adivinho para saber que os vinhos mais apropriados para esse estilo são os tintos mais suaves, um tanto mais doces.
A crítica inglesa acredita que os vinhos espanhóis, ricos, frutados, deverão ser os grandes beneficiários dessa nova tendência. “A influência dos vinhos do Novo Mundo junto às vinícolas européias continuarão a reforçar a tendência por estilos de vinhos com mais frutas”, diz Jancis. E a apelar para a maioria dos consumidores que querem fazer do vinho apenas um drinque para tomar sem comida.
Jancis Robinson admite, por outro lado, que como para cada ação existe uma reação, é possível que uma proporção dos bebedores de vinho voltem a procurar vinhos feitos especialmente para acompanhar comidas. “Enquanto isso, se eu fosse produtora de vinho, não apostaria nisso”.
Acho que essa tendência já está instalada por aqui. Cada vez mais bares e restaurantes oferecem taças de vinho, como um aperitivo. O que é preciso é que os bares, em particular, passem a oferecer o vinho como um drinque isolado. Hoje, por aqui, só contamos mesmo é que os destilados e com as cervejas.
O que acha a leitora dessa revolução. O vinho por aqui vai também passar a ser bebido como um drinque? Como a leitora prefere o seu vinho? Com comida ou apenas como um aperitivo? Escreva para o Bolsa de Mulher ou aqui para a Sonia (soniamelier@adegaebar.com.br).
