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Mitológico e divino

by soniamelier em 15 de julho de 2004 | 21:00

O Henrique, de Belo Horizonte, quer saber qual o vinho mais caro do mundo. E a Jacqueline, minha vizinha aqui de Secretário, pergunta porque os padres, na missa, misturam água ao vinho, procedimento que ela considera inaceitável, segura que é das práticas agnósticas, pelo menos as relativas aos vinhos. O vinho mais caro do mundo não podia ser bebido. Um dos leilões de vinho realizados por James Christie, na sua loja de Londres, inaugurada em 1766, só rendeu uns míseros 324 dólares conseguidos com umas poucas garrafas de vinho pertencentes ao acervo de uma personalidade mundial recentemente falecida. Em sua maioria eram vinhos de Bordeaux e ainda os queridos fortificados de Jerez.

Se James Christie soubesse não teria vendido sequer uma garrafa.
É que, duzentos anos mais tarde, em 1985, já com a fama da casa Christie assegurada, seus herdeiros conseguiriam por uma, apenas uma daquelas garrafas, a fantástica soma de 160 mil dólares. Era de um vinho de Bordeaux, um Château Lafite de 1787. Segundo o livro de recordes da Guinness, essa continua sendo a garrafa de vinho mais cara do mundo.
Mas não em razão do vinho. Pela sua antiguidade, já teria valido um bom preço no leilão. O que mudou o jogo foram as iniciais “Th.J.” gravadas na garrafa. Sim, seu dono, a citada personalidade falecida, dona do acervo, era nada mais, nada menos do que Thomas Jefferson, o homem que rascunhou a Declaração de Independência dos Estados Unidos, embaixador na França pelo novo país, enófilo e viticultor, colecionador voraz de vinhos e terceiro presidente da América por dois mandatos.

Claro que ninguém pensou em beber esse vinho. Seu valor repousava na sua antiguidade e, primordialmente, naquelas iniciais. Como vinho, deveria ser um senhor vinagre. Nenhum vinho resiste a 200 anos numa garrafa. Mesmo os melhores Bordeaux não conseguem durar mais do que 50 anos em garrafa mantendo suas qualidades.

Thomas Jefferson, como embaixador, gastou o máximo de tempo que podia, visitando vinícolas em Bordeaux e na Borgonha comprando vinhos para a sua própria coleção ou para seus amigos na América. Seu nome está ligado, ainda, a duas outras garrafas leiloadas por preços altíssimos: uma de Jerez (ou Sherry, como dizem os ingleses), de 1775, ao preço de US$ 43.500,00. E uma de um Château d’Yquem, aquele vinho doce natural da região de Sauternes, em Bordeaux.

É um Château d’Yquem de 1787, vendido por US$ 56.588,00 – a mais cara garrafa de vinho branco já vendida até hoje. O estadista sabia o que comprar. Conhecia o assunto. O Château Lafite foi evidentemente comprado como uma relíquia, não como vinho. Seu comprador foi o fundador da revista Forbes, Christopher Forbes. A garrafa encontra-se atualmente na coleção da empresa.

O vinho mais caro do mundo que ainda podia ser bebido

É um branco, um Montrachet 1978, da Domaine de la Romanée-Conti, vendido em Nova York, pelo leiloeiro Sotheby’s em 2001. Um lote de sete garrafas saiu por 167 mil e quinhentos dólares. Ou seja, US$ 23.929,00 por garrafa. Um fato extraordinário para um vinho branco, só possível de explicar pela disputa, no leilão, por dois concorrentes que se recusavam a parar e elevaram a ofertas à estratosfera.

A garrafa mais cara do mundo que nunca foi vendida

Em 1989, William Sokolin, um negociante de vinhos de Nova York, possuía uma garrafa de um Château Margaux do ano de 1787. Essa garrafa também levava as iniciais de Thomas Jefferson. Sokolin pedia meio milhão de dólares pela garrafa, mas nenhum comprador se apresentava. Ninguém entendia a razão desse preço, bem mais alto que a garrafa do Lafite citada acima. Especula-se que o queria mesmo era publicidade.

Até que um dia ele levou a garrafa para uma degustação de Château Margaux, seguida de jantar no famoso restaurante Four Seasons, em Nova York. Ao final do jantar, quando se preparava para sair, um garçom carregando uma bandeja de café esbarrou na garrafa, que se espatifou no chão.

Sokolin perdeu tudo? Matou o garçom? Nada disso: ele tinha segurado a garrafa em 225 mil dólares, que recebeu pontualmente. E, pronto, eis aí a garrafa mais cara do mundo, de um vinho jamais vendido ou provado. Ninguém sabe o que aconteceu ao garçom.

A razão da água no vinho

Misturar água ao vinho era prática comum entre os judeus e os povos do Mediterrâneo. Acredita-se que Jesus temperou o vinho com água na última ceia – é o que ensina o padre Edward MacNamara, professor da Universidade do Vaticano.

Embora a água não seja essencial para validar o sacramento, a igreja católica prega que essa prática deve ser mantida. O Conselho de Trento (reunido de 1545 a 1563 para resolver várias disputas internas na igreja, em particular sobre as chamadas heresias) determinou, inclusive, que quem negasse a necessidade de misturar água e vinho nesse sacramento deveria ser excomungado.

A água, no rito, representa a igreja, os seus representantes, os seus seguidores. O vinho representa Cristo. Os dois devem estar sempre misturados. É por isso que nos Provérbios (9:5) ordena-se que: “Beba o vinho que misturei para você”. O povo, os fiéis são representados pela água. O sangue de Cristo pelo vinho. Através da mistura da água com o vinho num cálice, as pessoas se unem a Cristo.

Continuem enviando suas perguntas. Ou aqui para o Bolsa de Mulher ou para Soninha, no soniamelier@adegaebar.com.br



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