» 2004 » fevereiroSoniaMelier

Sai desse pega, moleque

by soniamelier em 26 de fevereiro de 2004 | 21:00

As melhores coisas desse carnaval, para mim, foram dois comerciais de TV e o samba da Mocidade. O primeiro, de um partido político, lembrando que quem bebe não deve dirigir. Em vez de falar de seu programa que, como de hábito, deve ser absolutamente igual ao de todos os outros partidos, prestou um serviço a quem confunde cair na folia com encher a cara e dirigir. Um serviço desses pode salvar a vida de muita gente. Torço para que outros partidos adotem essa linha.

O segundo comercial é o que me causou mais impacto. É a Ivete Sangalo, no embalo da chamada “música baiana”, lembrando que, se você bebeu demais, passou da conta, passe também pegue um táxi, “saia na Unidos da Bandeira 2″. O impacto vem da iniciativa de quem assina o comercial, o maior produtor de bebidas do continente, a AmBev. Não me lembro de iniciativa igual, até hoje, entre produtores de bebidas brasileiros.

A Ivete Sangalo apela para uma faixa de público que vem, no mundo inteiro, promovendo estragos imensos às vidas do próximo e às suas próprias em razão do consumo de álcool. Fala para um público que, com certeza, vai dos 15 aos 25 anos, cobrindo a faixa crítica dos menores de idade. Essa campanha teve ainda versões especiais para a mídia impressa.

A cana está cada vez mais dura para os produtores de bebidas alcoólicas. Em todo o mundo pipocam ações contra a publicidade que apela direta ou indiretamente para menores.

Semana passada uma família da Califórnia iniciou ação contra a Anheuser-Busch e a Miller Brewing, poderosos fabricantes de cerveja, nos Estados Unidos. Uma mulher de 20 anos foi morta num acidente de carro envolvendo um menor de idade que dirigia bêbado.

A ação fala claramente que: a) essas empresas deliberadamente buscam menores de idade em suas campanhas publicitárias; b) propositadamente desenvolvem produtos destinados a esconder a diferença entre uma bebida alcoólica e um refrigerante; c) de desenvolver promoções que apelam preferencialmente para menores.

O que vocês me dizem de promoções que prometem porta-CDs, mochilas e outros itens que atraem exclusivamente jovens? E os shows musicais que sempre acabam com uma intervenção tardia das autoridades, na descoberta de que havia menores no recinto bebendo álcool livremente? O que comentar de campanhas onde aparecem “galeras redondas” e “galeras quadradas”, ambas compostas de jovens imberbes. Podem até estar sendo interpretados por atores com mais de 25 anos, como manda a nova lei. Mas sua aparência implica em muito mais juventude do que a registrada nas certidões. E quem diz que essa juventude “mais jovem” não atrai os mais jovens ainda, os menores?

Como garantir que nos novos quiosques de cerveja abertos em shoppings os menores de idade não entrem? Quem pode jurar que nos caminhões promocionais (que vi em Itaipava recentemente), verdadeiras cervejarias móveis, não sirvam a menores? Afinal, em todos esses contextos, de vendas (nos shoppings), de publicidade (nos comerciais de TV) e de promoção (nos caminhões), quem aparece bebendo e servindo (sim, os atendentes, os promotores) são igualmente jovens. É tudo da “tchurma”.

A situação daqui só difere da estabelecida na Califórnia pela ação legal contra os fabricantes de cerveja. Lá, na Corte Superior do Município de Los Angeles, os advogados da família da mulher morta, estão dizendo que a Miller e a Anheuser-Busch estão claramente violando a lei local “ao promover e facilitar o consumo de álcool por menores de idade em total desrespeito pela vida humana”. Até agora os representantes das duas cervejarias não foram encontrados para comentar a ação. O que já é uma desculpa chavão de quem está correndo do pau.

A AmBev antecipou-se, olhou o problema de frente e colocou a Ivete Sangalo no ar apresentando a melhor opção para quem abusou da bebida: não dirigir. A mesma empresa tem uma campanha, anterior, orientando o varejista a solicitar a identidade dos consumidores nos pontos de venda. Corretíssimo. O caldo pode engrossar por aqui e não custa ficar atenta.
Em novembro do ano passado, um cirurgião plástico do estado de Washington, Ayman Hakki, entrou com uma ação contra a Diageo, Coors, Heineken, Brown-Forman, Bacardi, Kobrand, Mike’s Hard Lemonade e o grupo The Beer Institue, todos entre os maiores fabricantes de bebidas alcoólicas do mundo.

A ação pede a devolução de “lucros ilegais” que essas empresas teriam conseguido ao comercializar e anunciar bebidas alcoólicas para menores de idade.

O que esse médico está fazendo é, como cidadão responsável, tomar uma atitude contra o cenário de violência promovido pelo consumo de álcool em seu país, segundo ele causado pela permissividade comercial e publicitária.
Nos Estados Unidos, mais da metade de todas as bebidas alcoólicas é consumida por menores e também por adultos “bebedores excessivos” (aqueles que bebem de dois a mais drinques por dia). Segundo o estudo da Centro Nacional sobre Abuso e Vício, da Universidade de Colúmbia, que analisou levantamentos cobrindo pouco mais de 217 mil pessoas, de 12 anos para cima, mais da metade do grupo entre 12 e 20 anos e 52% de adultos de 21 anos e mais consome bebidas alcoólicas, na base de 4,21 bilhões de drinques por mês. O menores bebem 20% desse total mensalmente. Os adultos um pouco mais: 30,4%. Na América, os consumidores gastaram em 1999 U$ 116,2 bilhões em bebidas alcoólicas, com os menores respondendo por 22,5 bilhões de dólares e os adultos por 34,4 bilhões. Juntos entornaram 50,1% do total de bebidas alcoólicas consumidas em 99 e 48,9% do total gasto com álcool.

Não conheço os índices brasileiros. Do jeito que vai o andor, devem ser familiares aos dos Estados Unidos. Não passa semana sem que a mídia deixe de exibir acidentes de carros, boa parte deles fatais, quase sempre promovidos pelo excesso de álcool e com assustadora freqüência envolvendo menores. Já é tradição o noticiário, no pós-carnaval, de índices de acidentes nas estradas (quase sempre envolvendo motoristas alcoolizados). Esse ano serão maiores ou menores do que os do carnaval passado?

Alguém tinha que fazer alguma coisa e o médico americano fez. Os limites da publicidade são hoje um tema que preocupa muita gente, em muitos países. Na França já existem movimentos antipublicidade denunciando desde poluição visual, mentiras e abusos. Estão pichando cartazes no metrô parisiense, entre outras ações.

Sei que é difícil, tecnicamente, fixar meios de comunicação (rádio, TV, cinema, jornais, revistas, cartazes de rua, Internet) e de promoção que garantam a exclusão dos menores de idade. Se não é impossível, é improvável que se consiga.

O valor dos dois comerciais acima é que eles optaram pelo ataque. Escolheram falar do problema diretamente. Em particular, louvo o da AmBev, que usou inclusive dos mesmos apelos que utiliza em muitas de suas campanhas: a música jovem e a celebridade. Nada de muito novo ou criativo. Os anunciantes, entre eles os grandes fabricantes de cerveja, apelam fartamente para celebridades. Os pesquisadores e planejadores das agências não têm muitas alternativas, pois têm nas mãos dados concretos que apontam para elas como atalho fácil e rápido para convencer o consumidor de uma idéia ou de um produto. O próprio governo segue essa toada, pois entregou a área cultural do país a uma celebridade. Para eles, o consumidor é um clone da Darlene (Deborah Secco), da novela que justamente trata dessa síndrome, “Celebridade”. Como a leitora vê, o acidente cultural acontece muito antes do acidente na estrada.

Mas que todos os fabricantes prestem mais atenção aos temas e protagonistas de sua comunicação. E onde veiculam seus anúncios e para quem oferecem seus shows e eventos. E busquem sempre alertar para os perigos do álcool em excesso. A galerinha pode deixar de ser consumidora por morte prematura. Antecipar-se ao problema e utilizar os mesmos instrumentos no meio em que pode estar uma parte do problema é melhor do que ter de engolir leis geralmente descabidas e inúteis, aquelas que os políticos resolvem criar depois que as portas foram arrombadas.
A melhor solução continua sendo a do samba da Mocidade Independente de Padre Miguel, a terceira melhor coisa que vi nesse carnaval: “Se tomo um pileque/Dou a vez na direção…Sai desse pega, moleque/ Pisa no breque”.

Semana que vem continuamos nosso papo sobre as nossas mais queridas e verdadeiras celebridades: os vinhos. Qualquer dúvida não precisa nem pegar um carro: é só clicar para o Bolsa ou para a Soninha no www.adegaebar.com.br.

Baco: o quê e quem

by soniamelier em 19 de fevereiro de 2004 | 21:00

Baco é o nome de uma uva branca, cruzamento da Müller-Thurgau com uma uva híbrida saída da Sylvaner com a Riesling. É uma das mais importantes uvas alemãs, com alto teor de açúcar, importante para misturar com a Müller-Thurgau, amenizando-lhe a acidez. Pode ser plantada em áreas onde a Riesling, a grande uva branca alemã, mal consegue amadurecer. É também a quarta variedade de uva mais plantada na Inglaterra.

O deus do vinho, de gregos e romanos, a quem os gregos chamavam de Dionísio e também de Bacchos, nome preferido pelos latinos, sempre foi dado a cruzamentos, a variar espécies, quase sempre ilicitamente. Essa uva é uma clara homenagem ao importante deus do vinho, o mesmo que está na origem do teatro e de todos os carnavais.

Baco (ou Dionísio) era um deus bastante complexo, mais antigo que os deuses do Olimpo, tal como apresentados por Homero. Os deuses de Homero têm origem na Idade do Bronze, representam uma elite que controla e maneja armas letais na época: espadas, facas, lanças, elmos, armaduras, escudos. Já Dionísio existia desde a Idade da Pedra, onde um pedaço de madeira ou uma pedra mais pontuda estavam ao alcance de todos. Suas centenas de lendas quase sempre giram em torno da fertilidade, do nascer, morrer e renascer.

Até porque, no fundo, as pessoas estavam representando a agricultura, com seus ciclos de nascimento, crescimento, colheita, morte e renascimento. O deus encarnava suas vidas tal como a natureza se apresentava. Suas festas eram realizadas entre o inverno e a primavera no hemisfério norte, entre a morte e o renascer das videiras.

Seu culto como deus do vinho foi oficializado no século VI aC. Em 530 aC o ditador de Atenas, Pisistrato autorizou seus ritos e procissões na cidade.
Leio a respeito dessas procissões e não consigo afastar as descrições de qualquer desfile de escola de samba. A imagem de Baco (Dionísio) era transportada em embarcações com rodas (carrum navalis – uma provável origem da palavra carnaval), puxadas pelo seu séqüito, formado por seres mágicos das florestas, como sátiros e mênades, homens e mulheres, todos nus, todos a se tocar, exaltados. O desfile, que começava no mar, com Dionísio chegando a Atenas, terminava no templo de Lenaion onde o deus se casava com toda a cidade. É o que os estudiosos chamam de hierogamia, quando um rei (ou um sacerdote) possui uma sacerdotisa num templo, de modo a promover a fecundidade dos cidadãos e da terra, como uma mágica ou sacramento. Multipliquemos esse casal de sacerdotes por cem e, pronto, temos um retrato aproximado do final do desfile.

O vinho, para o povo da época, significava paz, união, concórdia, êxtase, entusiasmo sexual, exaltação mística, alívio para os doentes, alegria para os tristes e deserdados, esquecimento dos problemas. O vinho e seu representante, Baco.

Essa dupla tinha igualmente o seu valor em ouro. O vinho podia ser cultivado com facilidade; sua cultura não carecia de irrigação; era (e é) comercializado em qualquer tempo. Na guerra e na paz, na saúde e na doença. Não há ocasião em que o vinho seja dispensado. Cultivar e produzir vinho era grana certa.

Era o deus mais atraente, acessível e popular. O povo o tinha dentro de si, podia bebê-lo. Com ele era proibido proibir. As Bachanalia chegaram a ser consideradas um perigo para o estado e não apenas pelas bebedeiras sem controle e pela licenciosidade sexual. A turma podia virar a mesa do poder estabelecido.

As bacanais romanas foram proibidas pelo senado romano em 186 a.C. As acusações contra os praticantes lembram as feitas mais tarde contra os cristãos. Com a palavra o historiador Tito Lívio (via Hugh Johnson em sua “História do Vinho”): “Não existia apenas uma forma de vício, a promiscuidade de homens e mulheres livres, mas testemunhas perjuras, falsos sigilos e testamentos e assassinatos de parentes…”.

Baco, contudo, não desapareceu tão facilmente assim. Seu culto continuou a crescer, mesmo que em segredo. O culto de Orfeu, o orfismo, onde Baco assumia o poder de conceder a vida após a morte, conseguiu grande penetração popular. A tal ponto que Júlio César revogou a proibição das bacanais. Ele era agora querido também dos ricos e poderosos.

É evidente a influência desse culto no cristianismo. Quanto das festas populares devemos a ele? Quanto do carnaval devemos a ele? O jornalista e escritor Roberto Pompeu de Toledo, no seu monumental e imperdível “A Capital da Solidão” (Ed. Objetiva, 2003), uma história de São Paulo, das origens até 1900, fala que na São Paulo de inícios do século XIX o povo gostava mesmo era de procissão. Isso mesmo: ricos, pobres, homens, mulheres, brancos e negros transformavam as procissões em ocasiões de “distensão – e de farra”. Revela o autor que “as procissões seriam, de certa forma, precursoras das escolas de samba, e davam vazão a aspectos menos pios da religiosidade, nesse e em outros períodos”.

Mas Baco chega aos nossos tempos muito mais ligado ao vinho e aos prazeres que ele proporciona. Agora mesmo, dia 20 próximo, começa em Vancouver, Canadá, um importante festival de vinhos e comidas. Seu nome: 14th Annual Pacific Northwest Bacchanalian Wine & Food Festival.

Não é demais pedir, porém, sem qualquer resvalo moralista, que um pouco de moderação seja bem-vinda nos próximos dias. Pule muito e beba apenas o suficiente e deixe um restinho, apenas um tantinho pro santo (ou para Baco, como quiser). Não esqueça de beber muita água, pois o calor é atroz. E, leitora, divirta-se. Se estiver pela Serra me procure. É só clicar para a Soninha no www.adegaebar.com.br.

Ahhh…

by soniamelier em 12 de fevereiro de 2004 | 21:00

Você abre um vinho e ahhhh… aquele aroma, aquela promessa de prazeres. Vimos, semana passada, o conjunto de fatores que a leitora deve prestar mais atenção num vinho: seja no nariz, na boca ou na sua textura.

Você exclama e pode, se quiser, tomar logo o vinho. A leitora, contudo, sabe que vinho não é cachaça barata, não é refrigerante. Beber um vinho compreende muito mais do que isso.

Beber um vinho compreende cheirá-lo, vê-lo, senti-lo, prová-lo.
Como provar. Coloque o vinho na taça (apenas um terço dela), olhe, admire-o, analise seus matizes. Gire a taça, faça o líquido rodar dentro dela para cheirá-lo e cheirá-lo mais uma, duas, três vezes. Depois, prove-o. Deixe o vinho percorrer a sua boca. E finalmente engula-o.

Só o fato de olhá-lo vai contar sobre o vinho uma multidão de coisas – pelo menos um milhão de vezes mais do que olhar uma xícara de café ou um copo de vodka. Em primeiro lugar, você tem de ter uma taça completamente transparente. Tem de conseguir olhar através dela, sem impedimentos. Ver através do vinho, todas as suas tonalidades de cores. Para facilitar, coloque atrás da taça um guardanapo imaculadamente branco ou uma folha de papel contra uma boa luz, facilitando o contraste. Você faz isso no restaurante, ou na mesa de sua sala. Não precisa estar num laboratório para descobrir um monte de coisas.

Sobre cor. Sim, a primeira coisa que você vai descobrir é o óbvio: se o vinho é branco, tinto ou rosé. Mas, no caso dos tintos, por exemplo, você vai notar que um Pinot Noir tem um tom de vermelho muito mais suave do que um Shiraz, por exemplo, sempre mais escuro. Quanto mais provar e variar de vinho, mais vai aprender.

Sobre idade: Os vinhos brancos mais velhos tornam-se mais escuros, seu amarelado (ou esverdeado) torna-se mais profundo do que o de uma laranja já passando do ponto.

Um tinto jovem pode ter aquele vermelho da camisa do Flamengo quando jovem. Ou pode ficar um tanto enferrujado, o vermelho tendendo a marrom quando mais velho. Os tintos, quanto mais velhos, vão clareando – ao contrário dos brancos, que vão escurecendo.

Já deu uma boa olhada na superfície do vinho; reparou naquele aro em volta da taça? Quanto mais velho o vinho, maior a diferença de cor da borda com a do centro do vinho. A cor da borda é sempre mais densa, mais escura do que a do centro. Viu, quando você vê uma pessoa olhando para a taça não é para procurar uma mosca dentro do vinho.

Verifique a clareza do vinho. Ele está um tanto turvo, como numa pequena serração na estrada, onde você vê muito pouco o que está a frente? Então, aconteceu alguma coisa estranha no seu processo de vinificação. Os vinhos devem apresentar-se claros; você deve ver o outro lado da taça sem problemas.

Pelo olhar, ainda, você pode deduzir a quantidade de álcool do vinho. Gire a taça. Você notará “lágrimas” correndo pelas bordas internas. Quanto mais densas, mais viscosas, mais lentamente correrão pelas bordas: esse vinho tem mais álcool do que aqueles em que essas “lágrimas” (ou “dedos” , como chamam alguns) correm mais rapidamente, parecendo frágeis, sem substância.

Agora, gire a taça novamente, uma, duas, três vezes. Cuidado para não derramar. Aqui, o objetivo é liberar o máximo de aromas do vinho. Os elementos que promovem os aromas ficam na superfície do vinho. Quando você agita a taça, facilita um contato maior do vinho com o ar. Sentirá mais aromas; os componentes do sabor vão se liberar e fazer-se presentes. Não pense que quem fica girando a taça no salão é um bobalhão.

É por isso que se deve encher apenas um terço da taça, para que não espirre vinho pra tudo quanto é lado. Para evitar problemas, gire a taça utilizando a mesa como base. É mais seguro. Gire algumas vezes e cheire. Repita a ação. Cheire e tente adivinhar quanto de aromas está percebendo. Eles podem se alterar desde a primeira girada.

Você já sabe que o principal componente do sabor é o aroma. Portanto, dê longas e boas cheiradas na taça: uma, duas ou três vezes. O que você está sentindo, quais aromas percebeu?

Quando você se acostumar a esse processo, vai descobrir que certos aromas sinalizam mais para determinados tipos de vinhos. Aromas de cereja vão revelar-se um Pinot Noir. Aromas de frutas tropicais, carregando um pouco no pêssego, correlacionam-se com um Chardonnay. Aromas que se originam diretamente de frutas são chamados de “primários”. Algumas versões desses aromas podem até informar de que região o vinho e suas uvas são, pois elas crescem em diferentes áreas e podem ter aromas diversos.

Você pode até descobrir características “secundárias” nesses aromas, quando descobre algumas das técnicas de produção: quando o vinho teve uma fermentação malolática (um travo de leite no sabor) ou um gostinho de madeira (quando amadureceu em barril de carvalho).

Chegou a hora. Bem, você já tem uma idéia do que está bebendo. Sabe um pouco da cor dos vinhos, talvez possa dar um palpite em sua idade, potência alcoólica e até mesmo na variedade das uvas. Então, chegou a hora de beber seu vinho.

Tome um gole – não muito pequeno nem muito grande. Faça o vinho girar em sua boca, como num bochecho. Não, não se incomode se parecer deselegante; afinal, o vinho e o prazer são apenas seus, de mais ninguém.

Abra um pouquinho a boca e sugue um tanto de ar, como se estivesse aspirando. Isso só vai arejar mais o vinho e avivar seus componentes de sabor dentro de sua boca. O lucro é só seu.

Na boca o vinho vai somar tudo o que você viu e cheirou. Mas na boca, propriamente, você possui apenas quatro sensações: o doce, o ácido, o amargo e o salgado.

São suas pupilas gustativas com base nas narinas que abrirão para você a canastra de aromas e, portanto, de sabores. A maioria dos vinho tem algum tipo de sabor – seja ele ou não agradável. Mas um sabor, de qualquer modo. Um bom vinho apresenta sabores certos sempre harmoniosamente. Quantos são esses sabores e como eles combinam é o que chamamos de complexidade do vinho. Ninguém quer um sabor mais dominante que outro num vinho. Ninguém quer que esses sabores desapareçam rapidamente de nossa boca. Quanto mais longamente eles permanecerem, melhor o vinho.

Agora, a questão da textura, da densidade. Cada vinho provoca um tipo de sensação na boca. Experimente só um copo d´água e um milk-shake: a textura dos dois é diferente, certo? No vinho é a mesma coisa. Um vinho “cremoso” aponta para fermentação malolática (uma segunda fermentação, que transforma o ácido acético e ácido málico). O calor que sentimos revela a quantidade de álcool na bebida. Algumas vezes, sentimos nossa boca enrugar: é que o vinho tem muito tanino; é normalmente um tinto, que retirou esse elemento, um poderoso antioxidante, das cascas das suas uvas ou do carvalho dos barris onde amadureceu.

Pronto, pode provar seu vinho. Mas, antes, verifique se não se banhou com um perfume muito forte (ou mesmo com qualquer perfume). Por favor, não confunda seu nariz. Concentre-se apenas nos aromas do vinho. Muita gente não admite tomar vinho ao lado de pessoas muito perfumadas. Ou mesmo apenas perfumadas.

Escovou os dentes minutos antes de provar o vinho? Errado! O creme dental vai estragar a festa.

A melhor hora de provar um vinho, profissionalmente falando, é na parte da manhã, quando nossos sentidos gustativos e olfativos estão mais alertas do que nunca. Isso explica a razão das degustações profissionais acontecerem sempre nessa faixa horária.

Mas isso não impede que nós, amadoras do vinho, possamos prová-lo a qualquer hora. Basta tomar pequeníssimos cuidados como vimos acima. Vamos continuar nesse papo de provar e descobrir essa grande bebida.

Qualquer dúvida é só clicar para o Bolsa ou para a Soninha no www.adegaebar.com.br. Enquanto isso abra um vinho e ahhh…

O que procurar num vinho

by soniamelier em 5 de fevereiro de 2004 | 21:00

Leitora começa a interessar-se por vinho e pergunta que aspecto da bebida deve prestar mais atenção, conhecer mais. O melhor, leitora, é examinarmos as partes componentes do vinho, pois essa bebida depende, mais do que qualquer outra bebida, de um conjunto de fatores. Todo vinho tem personalidade, estilo e uma função. Seus aromas, textura, sabores e cores é que devem em conjunto chamar a nossa atenção. Como nossos corpos, alguns vinhos são perfeitamente equilibrados; uns são mais altos, outros mais baixos – mas ainda assim equilibrados. E tem aqueles que apenas destacam uma qualidade em detrimento das demais.

No nariz. Cerca de 80% de nossas papilas gustativas localizam-se no nariz. Logo, podemos perceber o sabor de um vinho muito antes de prová-lo. É por isso que os apreciadores dão boas cheiradas no copo antes de bebê-lo. Os aromas de um vinho podem ser de flores ou de frutas, de vegetais ou de nozes, de animais, de minerais, de algo defumado. Enfim, de uma infindável combinação de toda a sorte de coisas. “Nariz” é, inclusive, o termo técnico que descreve os aromas dos vinhos. Como é o vinho tal no nariz, por exemplo.

Na boca. Todos os vinhos têm começo, meio e fim. Quanto melhor o vinho, cada uma dessas partes será mais notada, mais longamente sentida em seu nariz e em sua boca. Não tenha dúvidas que a variedade de sabores e texturas desse vinho será gloriosamente percebida por você.

Bem na ponta de sua língua você perceberá o doce e os sabores de frutas. Seu prazer começa, portanto, logo que o vinho chega à sua boca. Quando ele passa sobre a superfície da língua e chega na metade de sua boca (palato médio) é possível perceber sua textura: o quanto vinho é denso, espesso, ou fino. Vai notar a existência ou não de uma certa acidez, um ligeiro amargor para equilibrar com os sabores de frutos.

Por fim, você engole o vinho. E mesmo assim ele deixará resíduos de sabores, que se prolongam pela base e laterais da língua e ainda pela sua garganta, numa comichão agradável, uma nota final de acidez muito importante, pois refresca suas papilas gustativas, limpa o seu paladar e apaga de sua memória todos os sabores percebidos até então, preparando-a para renovados prazeres a partir do próximo gole.

Bem, se tudo isso acima acontece sem que uma qualidade ou característica (acidez, doce, fruta, amargor) for mais dominante, o vinho está equilibrado, harmonioso.

Um vinho excepcionalmente bom, excelente, expandirá, desenvolverá seus sabores, textura e aromas enquanto estiver sendo bebido. Tudo isso pode acontecer no espaço de tempo de um gole: do momento em que chega à ponta de sua língua até ser engolido finalmente.

Os melhores vinhos podem mudar com muita rapidez, no espaço de tempo de um simples gole. Ou apresentar todas as suas nuances de sabor e aromas mais sutilmente. Se muita coisa acontece num vinho o tempo todo, se você percebe sempre várias camadas de fruta, de doces e ácidos, esse vinho é chamado de “complexo”.

Mas nem todos os vinhos de grande qualidade precisam ser assim, esse calidoscópio de aromas e sabores. Muitos deles apresentam destacam apenas uma dessas qualidades, precisamente aquela para a qual foi feito. Os dois estilos são igualmente importantes.

Estilo. O estilo de um vinho relaciona-se muito de perto com equilíbrio e proporção. Todos os frutos, inclusive as uvas, precisam de um tanto de acidez de modo a controlar a doçura. Caso contrário, a fruta se tornaria enjoativa.

Experimente só uma maçã muito verde. Tal como a uva no início do seu amadurecimento, essa maçã estaria ácida demais, sem ainda a doçura natural do fruto. Depois de um determinado tempo, a nossa maçã atingirá sua maturidade, estará pronta para comer com seu suco bem fresco e doce, com aquela pontinha de acidez. Se colhida muito tarde, essa mesma maçã perderá sua acidez, ficará flácida, apresentando uma débil doçura.

Nos climas quentes as uvas podem ficar maduras demais e, como qualquer outro fruto, tornarem-se também doces demais, resultando em vinhos que pecam pela pouca acidez, um tédio para serem bebidos.

Já num clima mais frio, é comum que os vinhos não tenham a doçura e o sabor do fruto necessários, sendo dominados por uma acidez de enrugar a boca. No clima temperado, nem quente nem frio, a uva acha com facilidade seu ponto de equilíbrio entre os extremos de acidez e doçura do fruto, encontrando o ponto exato entre prazer e dor.

Equilíbrio: acidez e textura. A acidez também contribui para uma sensação de densidade na boca.  Essa textura varia entre a impressão de um líquido aguado ou até mesmo a de um xarope, com densidades lembrando longinquamente leite, manteiga, creme, óleos e substâncias mais gordurosas. Assim como doçura demais enjoa, muitas dessas texturas precisam ser controladas, normalmente por doses de acidez que darão a elas um formato mais agradável.

O crítico Paul White ensina que é como achar o ponto exato entre azeite e vinagre numa salada, ou de sal nas batatas fritas ou de mostarda num hambúrguer.

O melhor de tudo isso é que não existem respostas definitivas, do tipo isso é mais certo ou mais errado do que aquilo e aquilo outro. Na maioria das vezes, é o nosso gosto pessoal ou uma determinada situação que decidirão sobre o melhor estilo de vinho.

Mas temos ainda a questão da função, mencionada lá em cima. Que vinho escolher se quisermos bebê-lo sozinhos? E se quisermos que acompanhe comida? Para ser bebido sozinho, sem acompanhamentos, um vinho precisa ter todos os seus elementos muito bem equilibrados. Um vinho para acompanhar um jantar deve ser mais ácido e ter menos sabores, de modo a não brigar com a comida e ainda assim marcar bem a sua presença.

A leitora poderia simplesmente colocar o vinho na taça e bebê-lo. Mas beber um vinho é mais do que isso. É cheirá-lo, admirar sua cor, senti-lo na boca e finalmente prová-lo. Quando você vai a um shopping não pára na primeira loja e faz suas compras. Você sabe que quer um sapato, então sai de loja em loja até encontrar o modelo desejado.

Mais ou menos a mesma coisa acontece quando degustamos um vinho. Precisamos conhecer seus aromas, sabores e seu corpo – até que, de repente, elegemos um dessas qualidades. Ou, melhor ainda, achamos que tudo está perfeita e genialmente equilibrado.

Ora buscamos o equilíbrio, ora um tantinho a mais de acidez, ora uma porção extra de doçura (os Portos e os vinhos doces naturais estão aí mesmo para isso). O vinho, diferente da maioria das bebidas, é uma arca de ofertas, uma arca sem fundo. Tem aromas, sabores e cores para nos surpreender a cada gole. Não busque um elemento ou outro, leitora.

Surpreenda-se. Semana que vem vamos falar de como degustar um vinho. Qualquer dúvida é só clicar para o Bolsa ou para a Soninha no www.adegaebar.com.br.



perfil

Espaço para as mulheres que apreciam um bom vinho – e para as que querem entender melhor sobre esse universo