As melhores coisas desse carnaval, para mim, foram dois comerciais de TV e o samba da Mocidade. O primeiro, de um partido político, lembrando que quem bebe não deve dirigir. Em vez de falar de seu programa que, como de hábito, deve ser absolutamente igual ao de todos os outros partidos, prestou um serviço a quem confunde cair na folia com encher a cara e dirigir. Um serviço desses pode salvar a vida de muita gente. Torço para que outros partidos adotem essa linha.
O segundo comercial é o que me causou mais impacto. É a Ivete Sangalo, no embalo da chamada “música baiana”, lembrando que, se você bebeu demais, passou da conta, passe também pegue um táxi, “saia na Unidos da Bandeira 2″. O impacto vem da iniciativa de quem assina o comercial, o maior produtor de bebidas do continente, a AmBev. Não me lembro de iniciativa igual, até hoje, entre produtores de bebidas brasileiros.
A Ivete Sangalo apela para uma faixa de público que vem, no mundo inteiro, promovendo estragos imensos às vidas do próximo e às suas próprias em razão do consumo de álcool. Fala para um público que, com certeza, vai dos 15 aos 25 anos, cobrindo a faixa crítica dos menores de idade. Essa campanha teve ainda versões especiais para a mídia impressa.
A cana está cada vez mais dura para os produtores de bebidas alcoólicas. Em todo o mundo pipocam ações contra a publicidade que apela direta ou indiretamente para menores.
Semana passada uma família da Califórnia iniciou ação contra a Anheuser-Busch e a Miller Brewing, poderosos fabricantes de cerveja, nos Estados Unidos. Uma mulher de 20 anos foi morta num acidente de carro envolvendo um menor de idade que dirigia bêbado.
A ação fala claramente que: a) essas empresas deliberadamente buscam menores de idade em suas campanhas publicitárias; b) propositadamente desenvolvem produtos destinados a esconder a diferença entre uma bebida alcoólica e um refrigerante; c) de desenvolver promoções que apelam preferencialmente para menores.
O que vocês me dizem de promoções que prometem porta-CDs, mochilas e outros itens que atraem exclusivamente jovens? E os shows musicais que sempre acabam com uma intervenção tardia das autoridades, na descoberta de que havia menores no recinto bebendo álcool livremente? O que comentar de campanhas onde aparecem “galeras redondas” e “galeras quadradas”, ambas compostas de jovens imberbes. Podem até estar sendo interpretados por atores com mais de 25 anos, como manda a nova lei. Mas sua aparência implica em muito mais juventude do que a registrada nas certidões. E quem diz que essa juventude “mais jovem” não atrai os mais jovens ainda, os menores?
Como garantir que nos novos quiosques de cerveja abertos em shoppings os menores de idade não entrem? Quem pode jurar que nos caminhões promocionais (que vi em Itaipava recentemente), verdadeiras cervejarias móveis, não sirvam a menores? Afinal, em todos esses contextos, de vendas (nos shoppings), de publicidade (nos comerciais de TV) e de promoção (nos caminhões), quem aparece bebendo e servindo (sim, os atendentes, os promotores) são igualmente jovens. É tudo da “tchurma”.
A situação daqui só difere da estabelecida na Califórnia pela ação legal contra os fabricantes de cerveja. Lá, na Corte Superior do Município de Los Angeles, os advogados da família da mulher morta, estão dizendo que a Miller e a Anheuser-Busch estão claramente violando a lei local “ao promover e facilitar o consumo de álcool por menores de idade em total desrespeito pela vida humana”. Até agora os representantes das duas cervejarias não foram encontrados para comentar a ação. O que já é uma desculpa chavão de quem está correndo do pau.
A AmBev antecipou-se, olhou o problema de frente e colocou a Ivete Sangalo no ar apresentando a melhor opção para quem abusou da bebida: não dirigir. A mesma empresa tem uma campanha, anterior, orientando o varejista a solicitar a identidade dos consumidores nos pontos de venda. Corretíssimo. O caldo pode engrossar por aqui e não custa ficar atenta.
Em novembro do ano passado, um cirurgião plástico do estado de Washington, Ayman Hakki, entrou com uma ação contra a Diageo, Coors, Heineken, Brown-Forman, Bacardi, Kobrand, Mike’s Hard Lemonade e o grupo The Beer Institue, todos entre os maiores fabricantes de bebidas alcoólicas do mundo.
A ação pede a devolução de “lucros ilegais” que essas empresas teriam conseguido ao comercializar e anunciar bebidas alcoólicas para menores de idade.
O que esse médico está fazendo é, como cidadão responsável, tomar uma atitude contra o cenário de violência promovido pelo consumo de álcool em seu país, segundo ele causado pela permissividade comercial e publicitária.
Nos Estados Unidos, mais da metade de todas as bebidas alcoólicas é consumida por menores e também por adultos “bebedores excessivos” (aqueles que bebem de dois a mais drinques por dia). Segundo o estudo da Centro Nacional sobre Abuso e Vício, da Universidade de Colúmbia, que analisou levantamentos cobrindo pouco mais de 217 mil pessoas, de 12 anos para cima, mais da metade do grupo entre 12 e 20 anos e 52% de adultos de 21 anos e mais consome bebidas alcoólicas, na base de 4,21 bilhões de drinques por mês. O menores bebem 20% desse total mensalmente. Os adultos um pouco mais: 30,4%. Na América, os consumidores gastaram em 1999 U$ 116,2 bilhões em bebidas alcoólicas, com os menores respondendo por 22,5 bilhões de dólares e os adultos por 34,4 bilhões. Juntos entornaram 50,1% do total de bebidas alcoólicas consumidas em 99 e 48,9% do total gasto com álcool.
Não conheço os índices brasileiros. Do jeito que vai o andor, devem ser familiares aos dos Estados Unidos. Não passa semana sem que a mídia deixe de exibir acidentes de carros, boa parte deles fatais, quase sempre promovidos pelo excesso de álcool e com assustadora freqüência envolvendo menores. Já é tradição o noticiário, no pós-carnaval, de índices de acidentes nas estradas (quase sempre envolvendo motoristas alcoolizados). Esse ano serão maiores ou menores do que os do carnaval passado?
Alguém tinha que fazer alguma coisa e o médico americano fez. Os limites da publicidade são hoje um tema que preocupa muita gente, em muitos países. Na França já existem movimentos antipublicidade denunciando desde poluição visual, mentiras e abusos. Estão pichando cartazes no metrô parisiense, entre outras ações.
Sei que é difícil, tecnicamente, fixar meios de comunicação (rádio, TV, cinema, jornais, revistas, cartazes de rua, Internet) e de promoção que garantam a exclusão dos menores de idade. Se não é impossível, é improvável que se consiga.
O valor dos dois comerciais acima é que eles optaram pelo ataque. Escolheram falar do problema diretamente. Em particular, louvo o da AmBev, que usou inclusive dos mesmos apelos que utiliza em muitas de suas campanhas: a música jovem e a celebridade. Nada de muito novo ou criativo. Os anunciantes, entre eles os grandes fabricantes de cerveja, apelam fartamente para celebridades. Os pesquisadores e planejadores das agências não têm muitas alternativas, pois têm nas mãos dados concretos que apontam para elas como atalho fácil e rápido para convencer o consumidor de uma idéia ou de um produto. O próprio governo segue essa toada, pois entregou a área cultural do país a uma celebridade. Para eles, o consumidor é um clone da Darlene (Deborah Secco), da novela que justamente trata dessa síndrome, “Celebridade”. Como a leitora vê, o acidente cultural acontece muito antes do acidente na estrada.
Mas que todos os fabricantes prestem mais atenção aos temas e protagonistas de sua comunicação. E onde veiculam seus anúncios e para quem oferecem seus shows e eventos. E busquem sempre alertar para os perigos do álcool em excesso. A galerinha pode deixar de ser consumidora por morte prematura. Antecipar-se ao problema e utilizar os mesmos instrumentos no meio em que pode estar uma parte do problema é melhor do que ter de engolir leis geralmente descabidas e inúteis, aquelas que os políticos resolvem criar depois que as portas foram arrombadas.
A melhor solução continua sendo a do samba da Mocidade Independente de Padre Miguel, a terceira melhor coisa que vi nesse carnaval: “Se tomo um pileque/Dou a vez na direção…Sai desse pega, moleque/ Pisa no breque”.
Semana que vem continuamos nosso papo sobre as nossas mais queridas e verdadeiras celebridades: os vinhos. Qualquer dúvida não precisa nem pegar um carro: é só clicar para o Bolsa ou para a Soninha no www.adegaebar.com.br.
