» 2003 » dezembroSoniaMelier

O Martini e a lavanda

by soniamelier em 25 de dezembro de 2003 | 21:00

Você simplesmente lavou as mãos na bela taça de Martini que colocaram à sua frente. Confundiu-a com a lavanda, aterrorizando muita gente, pois não havia peixes na mesa. Aliás, a comida nem fora servida.

Era o seu quinto Martini em menos de duas horas. Segundo os departamentos de Saúde e de Agricultura dos Estados Unidos, um drinque padrão de bebida alcoólica equivale a 23 colheres das de sopa de cerveja ou 340 mililitros, praticamente uma latinha, que contém 350 ml. É igual a uma taça de vinho (com 9,6 colheres das de sopa de vinho). E a três colheres (de sopa) de um destilado com 40% de álcool por volume.

Saber a quantidade de álcool de uma bebida é fácil. Basta multiplicar a quantidade de colheres do drinque pela taxa de álcool. Numa taça de um vinho com 13% de álcool por garrafa de 750 ml, contendo 9,6 colheres da bebida, você vai beber o equivalente a praticamente uma colher de sopa de álcool puro (etanol).

Uma dose padrão de vodka, de gim, de rum, tequila ou uísque soma 17 mililitros de álcool, o que é igual a pouco mais de uma colher das de sopa por dose.

Não importa como são bebidos: se misturados a refrigerantes, como Rum & Coca-Cola, se com suco de tomate, num Bloody Mary, se com tônica, num gim & tônica e se com muito gelo, como é comum servir-se o uísque no Brasil – uma dose será sempre igual a uma colher de sopa de álcool, um tantinho a mais ou a menos. Muita gente ainda pensa que passou mal ou apagou porque misturou bebidas. Lorota pura. O que aconteceu foi que se bebeu demais.

Aliás, uma taça de vinho, uma tulipa de cerveja ou uma dose de uísque vão conter praticamente a mesma quantidade de álcool: aquela colher de sopa de etanol.

Em todo o mundo, esse é o período em que se vende mais bebidas. É a temporada das festinhas, seja entre amigos, com os colegas de trabalho, seja nos encontros familiares do Natal e do Reveillon, valendo ainda as esticadas para festas coletivas, como ver os fogos na praia, por exemplo.

Fora outras motivações, o combustível permanente desses festejos está mesmo em garrafas de vinho, cerveja e de destilados. Nas bebidas.

O problema é saber parar. Ou, simplesmente, saber beber. Tarefa nem sempre fácil, pois no geral a regra é quanto mais, melhor (tudo, não apenas as bebidas).

Sem se dar conta que lavou as mãos no Martini, você continua a pedir mais drinques. Consegue isso aos berros, embora jure que está cochichando no ouvido do garçom. Você já passou da fase do falador, do grande extrovertido, e está agora em plena regressão, parecendo uma criança de quatro anos.

É quando começa a sua Via Sacra. Sai cambaleando para o banheiro e vomita na pia, sim, na pia de uma casa cujos donos você nem lembra mais quem são.

O que acontece em seguida é apagar num carro azul que você tinha certeza que era o seu, prateado, não sem, antes, fazer pipi num canto mais escuro da varanda onde todos estão dançando, mas você acha que ninguém a vê. Triste, não é não?

A história pára por aqui? Quem dera! E o dia seguinte, a ressaca? E a angústia suprema de não se lembrar de nada, aquele forte e infinito sentimento de culpa?

A ressaca é, na verdade, um dramático aviso do seu cérebro para seu corpo de que você conseguiu promover um senhor estrago em si mesma e precisa dar um tempo. É uma limpeza de tudo o que você colocou pra dentro na noite anterior. Reflete as toxinas que o álcool deixou em seu corpo, exacerbadas pela interrupção do sono.

Quando você vai dormir, depois de beber até cair, seu corpo metaboliza o álcool. Quando esse processo termina, você normalmente acorda no meio da noite e vai ser muito difícil dormir novamente.

O pior de tudo é que o álcool vai secá-lo. Você fica desidratada completamente, o que significa dores no corpo e aquela inesquecível dor de cabeça. Não é pra menos: as artérias em seu cérebro estão completamente ressecadas. E ressecadas apertam sua massa cinzenta (ou o que sobrou dela).

Para prevenir uma ressaca as recomendações padrões são:

Antes de começar a beber, coma algo bem gorduroso, qualquer coisa de substância e muita fibra. Isso ajuda a tornar a absorção do álcool mais lenta. De qualquer modo, não beba de estômago vazio. Evite as pílulas contra ressaca, que vão tentar também, mas quimicamente, retardar a taxa de absorção de álcool.

Beba devagar. Combata a desidratação bebendo água nos intervalos dos drinques. Ou alterne: um gole do Martini, com um gole maior ainda de água. Beba mais água ainda antes de dormir e assim que acordar.

Cuidado com espumantes (champanhes etc.) e drinques carbonatados: as bolinhas vão acelerar a absorção do álcool no sistema sangüíneo.
Observe a quantidade de drinques que você está tomando. Respeite as recomendações das autoridades médicas. O máximo de drinques para um homem é quatro; para mulheres é três. Se você alternar esses drinques com copos d’água vai conseguir participar da festa inteiraça por um período de 6 horas, pelo menos.

Caso se sinta nauseada, não resista. Vá ao banheiro e vomite. Mas não na pia, por favor. Ao vomitar você está retirando álcool do seu sistema. É uma senhora ajuda. Compense bebendo mais água.

Saiba quais os seus limites e os efeitos dos diferentes tipos de álcool. Tente beber aquilo que você possa ver através, como vodka e gim. As bebidas mais escuras, como o vinho tinto, do Porto, conhaque ou uísque, possuem ingredientes conhecidos como “congêneres”, dificílimas do fígado processar. Vão tornar mais dolorosa a sua ressaca.

Na manhã seguinte, beba água, muita água. Nada de café, pois ele só faz contribuir para a desidratação.

Não tome aspirinas ou comprimidos à base acetaminofen (Tylenol). A primeira, misturada com o álcool, pode irritar o seu estômago. A segunda pode ser tóxica para o seu fígado, principalmente se combinada com o álcool. E, claro, se você estiver fazendo algum tratamento, estiver tomando algum remédio, não consuma álcool.

De modo algum dirija após ter bebido. Pelo menos metade dos acidentes fatais no trânsito envolve abuso de álcool pelos motoristas. Chame um táxi, ou pegue carona com alguém que não tenha bebido.

Não beba também se estiver grávida ou amamentando.

É bom não esquecer, amigas, que o álcool em excesso torna nosso cérebro mais vulnerável a substâncias tóxicas, a maioria das quais são radicais livres que podem matar nossas células.

O etanol pode ainda acentuar os danos causados pelo chumbo e alumínio no cérebro. E, mais: pode liberar hormônios do estresse das glândulas produtoras de adrenalina. Esses hormônios danificam nossa memória e longevidade.

Posso garantir que se as amigas seguirem essas recomendações vão poder participar de todas as festas desse fim de ano – e dos próximos – livres, leves e soltas. O nome do jogo é moderação.

Se quiserem saber mais sobre ressacas, por favor, cliquem aqui para o Bolsa ou para a Soninha (soniamelier@adegaebar.com.br). Que as festinhas lhe sejam leves e muito, muito felizes!

Vinhos da ceia

by soniamelier em 18 de dezembro de 2003 | 21:00

Parece fácil. Amigas, vizinhas aqui desta minha quitanda em Secretário, na Serra, chegam para pedir dicas de vinhos para suas ceias de Natal e de Ano Novo. Elas estão pensando em carne de boi, de cordeiro, de vitela, com preparos os mais variados; assados, grelhados, no alho, na cebola, ao fungo, com mostarda etc. Estão acrescentando uma pasta com tomate ou à marinara, ao pesto, à basilicata, ao alho & óleo, com queijo parmesão etc. Ou, numa variação das carnes vermelhas, preferem galinha, peru, porco – ora assados, ora grelhados, com uma rica possibilidade de sucos. Tem também a turma que prefere peixes e frutos do mar, um exercício mais complicado, pois, aqui, dependem apenas de dois fornecedores: um, numa Fiat, próximo ao Museu Imperial. Outro, num trailer, na praça de Correias. São ótimos. Pode encomendar que Netuno manda. Resta saber o que fazer com os peixes.

Este é o cenário. Parece fácil, não é?

Mas, amigas, há quanto tempo não lêem um crítico de vinho falar com que combina melhor o vinho comentado? Há quanto tempo não lêem um crítico de gastronomia comentar a carta de vinhos de um restaurante? Puxa, não quero promover dores de cabeça. Falo apenas por mim: não consigo ver isso há séculos em nossa imprensa especializada. Combinar comidas e vinhos é capítulo obrigatório em qualquer curso de vinhos. Mas, no dia-a-dia, na imprensa, vinhos e comidas parecem seguir por estradas paralelas, raramente se encontrando.

Veja bem. Tem chef famoso oferecendo ravióli de coco com molho de soja. Ou sanduíche de sorvete de queijo parmesão. Que vinhos combinam com isso? O divórcio entre comidas e vinhos está para ser consumado a qualquer minuto, pelo que vejo por ai. De qualquer modo, vou tentar esboçar algumas dicas para que minhas vizinhas – e talvez algumas leitoras – não fiquem a ver navios seja nas refeições do Natal ou do Ano Novo.

Mas vamos nos organizar. Apresento as entradas em primeiro lugar. As receitas possíveis (ou mais óbvias) em seguida. E os vinhos que poderiam melhor combinar com o prato. Claro que não menciono marcas, mas os estilos de vinhos que poderiam combinar mais adequadamente com o prato. Ora a combinação é feita por afinidade: um prato mais picante com um vinho de igual qualidade. Ou buscou-se um complemento: um prato picante com um vinho refrescante.

Assim combinadas, vamos aos pratos. A amiga escolheu o quê?

Carne Vermelha (boi, cordeiro, vitela). Assada, grelhada ou ao suco: Cabernet Sauvignon, como primeira escolha; Merlot, como segunda ou um Chianti ou um italiano com a uva Sangiovese dominante. Se o tempero dominante for alho, opte por um Zinfandel tinto em primeiro lugar (naturalmente, busque um rótulo norte-americano); ou um Shiraz/Syrah (australiano ou francês) como terceira escolha, um Merlot. Se as carnes forem aceboladas, prefiro um Cabernet Sauvignon como melhor escolha; um Zinfandel como segunda melhor e um Merlot na falta dos dois primeiros.
O molho de mostarda é sempre apreciado, mas pede vinhos com forte presença, como o Cabernet Sauvignon preferencialmente. Ou o Zinfandel e o Shiraz com segundas escolhas. Se fizer essas carnes com molho de ervas, o Merlot seria, para mim, a primeira escolha, seguida, do Shiraz (ou Syrah) e do Zinfandel.

Pastas. À marinara ou ao molho de tomate eu escolho um Chianti ou outro bom italiano com destaque na uva Sangiovese. Um Merlot pode ser uma ótima segunda escolha. Se o molho da massa for de pesto ou carregado no manjericão, o Merlot já fica em primeiro lugar. E, num segundo, um ótimo branco, como o Chardonnay. A pasta com orégano pede mais um Chianti. Ou um Merlot e, por último, um Chardonnay. Carregada no alho, a massa pede mais um Merlot ou, numa segunda escolha, um Pinot Noir. Agressão se resolve com diplomacia, certo?

Pasta na manteiga com queijo parmesão: novamente o Merlot é nossa primeira escolha. Em seguida um Chardonnay. Mas até que um Riesling seco, bem aromático poderia acompanhar bem, numa terceira opção. No molho branco, minha escolha recairia num Pinot Noir ou, em segundo lugar, num Chardonnay.

Aves, Peru, Porco. Se essas carnes forem assadas ou grelhadas prefiro-as com um branco Sauvignon Blanc. Ou opcionalmente um Merlot. Carregadas no alho, o melhor é contrabalançar com um Chardonnay ou com um Merlot ou Riesling, nessa ordem. É comum prepararmos as carnes brancas, nessa época, com molhos adocicados. Coloca-se guaraná, vinho Marsala etc. Nesse caso, minha escolha é por um Pinot Noir, Merlot ou Chardonnay, nessa ordem. Carnes brancas preparadas com ervas combinam melhor com Chardonnay, Pinot Noir ou Merlot.

Peixes e Frutos do Mar. Grelhadas, com peixes mais gordurosos, sempre combino com Pinot Noir. Ou com a Chardonnay ou Merlot. Se os peixes forem mais leves, minhas escolhas ficariam em primeiro lugar com a Chardonnay e com a Sauvignon Blanc. Peixes e frutos do mar com ervas vão muito bem com a Sauvignon Blanc e a Chardonnay. Se o molho for amanteigado, não hesite: Chardonnay em primeiríssimo lugar. Como opção, para equilibrar, um vinho com a Sauvignon Blanc.

Com o tempero mais apimentado, mais quente, a Chardonnay continua como primeira escolha, seguida da Pinot Noir e da Riesling.

Já com limão, a Sauvignon Blanc, pela sua acidez, seria a melhor escolha. A Chardonnay viria em seguida. Com alho, volto ao Chardonnay e ao Sauvignon Blanc. Agora, o que combina melhor ravióli de coco com molho de soja eu ainda não sei. Talvez eu tomasse uns cinco Martinis (de gim mesmo, o original) e fosse em frente.

Se as amigas quiserem mais dicas, por favor, cliquem aqui para o Bolsa ou para a Soninha (soniamelier@adegaebar.com.br). Mas não me perguntem que vinhos combinam com sanduíche de sorvete de queijo parmesão Feliz Ceia. Feliz Natal.

Minha lista

by soniamelier em 11 de dezembro de 2003 | 21:00

Fiz uma lista de presentes que gostaria de receber e também de dar, todos fortemente relacionados aos vinhos, como seria de esperar. Quem sabe vocês não aproveitam algumas dessas dicas em suas listas?

Aqui e acolá cito alguns endereços das lojas que podem oferecer esses presentes, aquelas que tenho certeza podem oferecer os artigos que menciono. Alguns itens ficam mais fáceis de comprar pela Internet ou por alguém que os tragam de fora. Fica até mais em conta, já que o dólar está passando pela sua mais baixa cotação no exterior.

São presentes que se podem beber diretamente ou que nos ajudarão a beber mais confortável e elegantemente os nossos queridos vinhos. Vamos lá.

1. Vinhos Brasileiros. Começo pela melhor dica, talvez – tanto pela sua qualidade, quanto pelo seu preço e oportunidade. A mais respeitada crítica de vinhos do mundo, a Master of Wine Jancis Robinson, passou por São Paulo em fins de novembro para duas apresentações e algumas degustações. E conheceu a Coleção Regionais, da Casa Vinícola De Lantier, recentemente lançada aqui. Ela elogiou em particular o Baron de Lantier Cabernet Sauvignon 2002. “É diferente do resto do mundo…”, disse.

Essa coleção é vendida em kits de três garrafas: Cabernet Sauvignon 2002 – Planalto/Ametista; Cabernet Sauvignon 2002 – Garibaldi, e Cabernet Franc 2002 – Pinheiro Machado. A grande inovação é que podemos experimentar como a mesma uva, Cabernet Sauvignon, se apresenta tendo como origem a região de Garibaldi e do Planalto.

O kit com as três garrafas custa R$ 60,00. Pode ser encontrado na EBD, Rio de Janeiro (21-26734100), na Casa Fasano, São Paulo (11-3083-3509), no Império das Bebidas, Belo Horizonte (31-3422-1133), na In Vino Veritas, Curitiba (41-338-7519) e na Banca 38, Mercado Municipal, Porto Alegre (51-3228-3488). Vai ser difícil encontrar melhor barganha do que esta.

Jancis Robinson considerou o estilo de vinho brasileiro mais leve, equilibrado, com maior acidez, ideal para acompanhar nossos pratos. Destacou entre outros nacionais o Marson Gran Reserva 99, o Salton Talento 2002, o Miolo Castas Portuguesas 2002, o Tannat da Perini, os espumantes Marson Brut 2002 e o Valduga Gran Reserva Extra Brut 1999. Todos mereceram elogios da famosa degustadora. Ela mostrou-se igualmente surpresa com o Terranova Shiraz, um tinto do Vale do São Francisco, um vinho feito em plena região tropical.

Todos esse merecem nossa atenção. Todos podem resolver agora nossas compras de Natal. Acho melhor começar sua busca desde já. Um elogio de Jancis Robinson costuma fazer com que os vinhos sumam rápido das prateleiras (e que seus preços subam com igual rapidez).

2. Taça Preta. É o presente do momento. Só que talvez você tenha que encomendá-la. A austríaca Riedel, a mais refinada fabricante de taças de vinho do mundo, todas em cristal finíssimo, acaba de lançar uma taça opaca, completamente preta. Especial para degustação cega de vinhos. Quem vai provar não sabe se o vinho que está lá dentro é branco, rosé ou tinto. Típico presente para brincar e confundir sadicamente seu namorado metido a entender tudo de vinhos. Vai no mínimo impressioná-lo por demonstrar que você está por dentro da última palavra em badalhocas para vinhos (a revista Forbes considerou essa taça um presente de “virar a cabeça”). Só que o preço é salgado. Lá fora custa cerca de US$ 70 – apenas uma taça para vinho tinto, estilo Chianti. A representante da Riedel no Brasil é a Expand Importadora. Tem lojas em Ipanema (21-2123-7900), Barra da Tijuca (21-2493-6161) e Centro (21-2532-7332), no Rio. Em São Paulo, consulte logo a matriz, na Raposo Tavares: 11- 4613-3333. Ou via expand@expand.com.br

3. Taças de Vinho. Gostaria de ser sempre presenteada com taças de vinhos. Quanto mais, melhor. Não adianta você tomar cuidado que vivem quebrando. Ou vivem faltando: tem sempre uma ou duas pessoas a mais na sua festa para as quais ficaram faltando taças adequadas. Quando falo adequadas falo de taças de cristal, de preferência as Riedel (a marca que está lançando a taça preta acima). O problema, mais uma vez, são os preços. Uma única taça Riedel da linha Sommelier para vinho tinto está custando na Expand R$ 143,00. Podemos encontrar, contudo, taças equivalentes, de outras marcas, como a Spiegelau, em várias outras lojas (como as que vou citar no item abaixo). Os preços podem ficar mais em conta. Além das taças tradicionais de tintos e brancos, pense também em alternativas como taças especiais para vinho do Porto, para Jerez ou para Champanhe.

4. Saca-rolhas de alavanca. É o Leverpull, aquele que parece com um coelhinho. Uma alavanca, num fácil movimento para baixo e para cima e rápida e facilmente a rolha é retirada. Parece mágica. Vem já com um corta-cápsulas. É o mais incrementado e eficiente instrumento para retirar uma rolha, sem esforços. Só que os preços e modelos variam muito. E os preços também. Quase toda a boa loja de vinhos tem esse acessório. Tente, entre outras, a Lidador (21- 24318103), a Garrafeira no Rio (21-2512-3336 e agarrafeira@bridge.com.br) ou a Mistral Importadora em São Paulo (11-3372-3400 e info@mistral.com.br).

5. Mundo do Vinho. É um jogo, da família do Monopólio. Chama “World of Wine” e contém centenas de perguntas sobre os vinhos do mundo. É perfeito tanto para quem está querendo aprender como também para gente já mais experimentada em vinhos. O problema não é nem o preço. Custa em torno de US$ 47,00 (R$ 138). Mas você só vai encontrá-lo em Londres, na Harrods, a mais famosa loja de departamentos do mundo, acho eu. Vale tentar ver se tem alguém conhecido passando pela capital inglesa e que possa trazer o joguinho para você. É o tipo de presente que se pensa mil vezes antes de dar para alguém ou em deixá-lo mesmo em casa. De qualquer modo o telefone da Harrods é 44 (0) 870 241 4040 (a ligação vai custar mais que o jogo). Ou tente o site, por onde você pode comprar online: http://www.harrods.com/homepage/default.asp

6. Climatizadores. Não consigo recomendar nada melhor para guardar vinhos do que climatizadores – aqueles refrigeradores especiais para vinhos, mantendo temperaturas de 10 a 16º C constantes e umidade fixa em 70%. Para o nosso clima nada melhor.

Você pode escolher entre as importadas ou as nacionais. Por exemplo: na Mistral você encontra climatizadores Electrolux, produzidos na Europa, em várias capacidades (desde 50 até 200 garrafas). Os preços variam de acordo com a capacidade, tipo de acabamento (madeira e vidro) e inclusão de prateleiras móveis. O de menor capacidade (50 garrafas, sem prateleiras), com acabamento em madeira, custa US$ 1.800,00.

Mas existem também excelentes alternativas nacionais, com as da Adega Métier. Os preços são também nacionais. O modelo para 50 garrafas custa R$ 2.270,00. Seus climatizadores são apresentados com variada capacidade e acabamento, de 30 a 300 garrafas, com preços entre R$ 1.800 e R$ 7.500,00.

Não existe diferença de qualidade. Afinal, o Brasil exporta geladeiras para o resto do mundo.

A Métier Refrigeração fica em Poços de Caldas, Minas Gerais: Rua José Ramos, 119, Vila Nova, 37701-104, Poços de Caldas. Telefones: (35) 3714 – 1335 e (35) 9977 – 2872. Procure o Maurício ou o Thiago Teixeira.

Outra opção é você tentar climatizadores em lojas que os comercializam há mais tempo e sempre possuem um ou outro de segunda mão. Os preços sempre ficam mais em conta. A pessoa começa por um de pequena capacidade e invariavelmente sente que deve passar para outro maior. Vai na loja, dá o anterior como entrada e leva o novo. Isso acontece, por exemplo, no Club du Taste-Vin, que oferece modelos franceses da Eurocave. Os telefones são (11) 257-6941, (21) 240-0350 ou (61) 346-0384.
Você também pode encontrar opções em outras lojas, como a Art des Caves (11-677 7167), Cave Metalfrio, exclusiva da Suxxar (11-3032-0188) e Mistral, com os seus Breezaire, em oito tamanhos (11-3285-1422).

A coluna está saindo ainda em tempo para as compras. As amigas vão perdoar alucinações como o joguinho Mundo dos Vinhos e brincadeiras como a da Taça Preta. Mas todas as dicas são possíveis e acho que serão úteis e deixarão boas lembranças. Se quiserem mais sugestões é só fazer contato, ou pelo Bolsa ou para o meu endereço (soniamelier@adegaebar.com.br). Feliz Natal.

Vocês decidem

by soniamelier em 4 de dezembro de 2003 | 21:00

Meninas, ajudem-me. Vou contar quatro pequenas histórias, todas verdadeiras e atualíssimas. Todas elas estão relacionadas com o mundo das bebidas. Todas elas têm enredos, produtos e personagens diferentes, umas das outras. Mas acho que elas têm um ponto em comum. E é sobre esse pontinho que gostaria que dessem uma mãozinha à Soninha, de modo a que ela não faça julgamentos precipitados e, portanto, injustos.

O Gatuno Cavalheiro. Nossa primeira história, que acaba de acontecer em Paris, é a que serve de modelo para todas as demais. Serve de modelo porque tem princípio, meio e fim. Falta um final às outras, como vocês verão. E é sobre esse final que gostaria que enviassem comentários. Pois o nosso “Gatuno Cavalheiro”, um francês de 47 anos, competente e respeitável antiquário durante o dia. Como antiquário, conhecia muita gente de vida confortável, de bom gosto, amantes de vinhos finos e raros, com adegas primorosas.

Adegas que visitava na calada da noite e das quais só retirava os vinhos mais caros, os melhores, apenas os grand cru, os premier cru classe. O negócio dele era qualidade, exclusivamente. Nada de sair com uma sacola cheia de garrafas pelas madrugadas parisienses. De dia, vendia os vinhos renomados que raptara, como o Château Petrus e o Château d´Yquem, em poucas horas e a preços salgados, mais ainda assim convidativos para amantes de vinhos finos mais ingênuos.

A polícia já conhecia o nosso cavalheiro gatuno de outras façanhas. O homem já era conhecido pelo roubo de porcelanas, pinturas e objetos de bronze – mais uma vez, itens caros, que só um profissional competente poderia detectar e avaliar com o devido valor. Na madrugada de 24 de novembro, sem saber que a polícia estava de olho, nosso gatuno entrou e saiu de nada menos que sete adegas alheias, sempre com garrafas valiosas. Foi preso e acusado de roubo com agravantes. Ele tinha um estoque com garrafas de safras bem antigas (e, portanto, raras e caríssimas), com a de 1926.

Pronto, nada de tiros, tudo dentro da civilidade. O gatuno e a polícia fizeram o que devia ser feito.

A multiplicação do malte. A segunda história vem da Escócia e ainda está acontecendo. Falta justamente um julgamento. A Diageo é a maior comerciante de bebidas do mundo. A empresa é dona de marcas como a Smirnoff, Johnnie Walker, Guinness, J&B, Captain Morgan (rum), Jose Cuervo (tequila), Baileys (licor), Tanqueray (gim). E de produtores e comerciantes de vinhos: Vinícolas Beaulieu e Sterling, Barton & Guestier, Blossom Hill, Piat d’Or e Moêt & Chandon. Detem 40% do negócio de bebidas finas do mundo. É dona também do Cardhu, um single malt whiskey, um escocês reputado no segmento do malte puro. Justamente a pureza e a qualidade de seu malte deram justificada fama ao Cardhu, que vende particularmente bem Espanha, tão bem que a Diageo resolveu aumentar sua produção. Só que a destilaria não tem produção de malte de qualidade para atender a demanda. Afinal, ela só faz o Cardhu e preocupa-se com qualidade, mais do que com quantidade.

A Diageo então resolveu batizar a marca com cinco outros maltes, tal e qual fazem os blend whiskeys – que utilizam dezenas de maltes de várias origens, em boa parte das vezes sem que se importem muito com a qualidade. É exatamente o equivalente a adicionar vinhos de outras vinícolas ao Château Lafite. A Diageo é americana, com a cultura do país: para ela essa é uma prática absolutamente “normal”. O negócio é faturar, é vender. Ela não escondeu esse “batismo” de ninguém. Chegou até a anunciá-lo. Porém, não alterou o rótulo do Cardhu, argumentando que os demais maltes utilizados são também puros. Quem compra pensa que se trata do velho Cardhu, feito de um único malte.

Só que para as autoridades européias esse batizado é pecado. A Comissão Européia já está investigando a operação da Diageo. A Associação do Uísque Escocês vai se reunir para debater essa crise. Sim, crise, pois a atitude da Diageo pode danificar a imagem de todos os maltes puros da Escócia (fora o fato de que já está lesando o consumidor do Cardhu).
Meninas, como vocês comparam as duas operações: a do Gatuno Cavalheiro e a da Diageo?

O tempero que faltava. Produtores de vinho da África do Sul estão sendo acusados de batizar seus Sauvignon Blanc com flavorizantes sintéticos. De repente, uma série de brancos com a uva Sauvignon Blanc, de regiões quentes do país, apareceu com aromas de groselha, abacaxi, melão – vinhos bem suntuosos, mais comuns nas regiões mais frias. Mudou o verão? A denúncia veio do mais importante crítico de vinho sul-africano, Michel Fridjhon. “Alguns dos mais conhecidos fornecedores vendem abertamente variedades de flavorizantes sintéticos de modo a melhorar os aromas dos Cabernet, dos Chardonnay ou dos Sauvignon Blanc”, afirma. O crítico pede a intervenção do South African Wine and Spirit Board (departamento governamental fiscalizador dos vinhos e destilados do país). Mas sabe que esse tipo de fraude será difícil de detectar. “É como determinar se uma pessoa usa ou não esteróides”, explica.

Confirmada a denúncia, estará em jogo toda a reputação dos vinhos sul-africanos. Os justos vão pagar pelos pecadores. A adição de flavorizantes químicos aos vinhos é ilegal na Europa, na Califórnia, Austrália e na própria África do Sul. O governo local já está investigando. O país pode perder imediatamente o mercado de sete milhões de caixas anuais que duramente conquistou na Inglaterra, seu principal comprador.

Meninas, quantos pontos dariam para o Gatuno e para os produtores dos Sauvignon Blanc sul-africanos?

O Champagne da Califórnia. Por anos e anos os americanos vêm utilizando nomes como Champagne, Chianti, Porto, Madeira, Sherry, Chablis em suas bebidas. Só que é tudo produzido na Califórnia. Eles se aproveitam da fama dessas regiões para comercializar melhor suas bebidas. Garfam uma propriedade cultural, além de comercial, pois esses nomes refletem o costume de séculos dos produtores europeus de destacarem as regiões que dão origem a esses vinhos. Chianti só existe na região de Chianti, na Toscana, Itália. Na Califórnia pode existir um vinho feito com uvas italianas clonadas para fazer um vinho ao feitio do Chianti. Essa vai ser uma briga daquelas, pois a União Européia está inclinada a não mais negociar vinhos com os Estados Unidos se essa prática continuar. Os Estados Unidos, por sua vez, podem até parar de importar vinhos da Europa. É briga de gente grande.

Ou seria de gatuno grande?

As amigas poderiam enviar palpites sobre a moral dessas quatro historietas. Qual é o meu ponto exatamente?

Olha, eu acho que deveriam soltar o Gatuno Cavalheiro. Já que o dono da Diageo está no bem-bom, os produtores de Sauvignon Blanc adulterado não estão nem aí para o problema; já que os produtores americanos usam e abusam de propriedades alheias, então não entendo o nosso parisiense de bom gosto estar no xilindró.

É o que eu acho, mas não tenho lá muita certeza. Afinal, não sou dada a julgamentos. Mas percebo que está faltando um Salomão para dizer com quem fica o bebê em todas essas histórias. Ajudem-me. Enviem seus julgamentos aqui para o Bolsa ou para a Soninha (soniamelier@adegaebar.com.br).



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