“Existem vinhos para gays?”, pergunta uma leitora. Não sei se entendi bem. Seria o mesmo que perguntar sobre a existência de cervejas especiais para pedófilos, limonadas restritas a moças virgens, guaranás exclusivos para serial killers ou vinhos privativos de balzacas como a Soninha? Acho que a pergunta pode ser respondida em dois tempos.
Sim, existem. A Rainbow Ridge Winery, na Califórnia, é talvez a primeira vinícola do mundo a classificar-se como “uma companhia gay”. Logo, o vinho que produz seria eminentemente para gays? Sua logomarca é um cacho de uvas nas cores do arco-íris. E o arco-íris (rainbow, também nome da empresa) é o símbolo oficial do movimento gay, pelo menos na Califórnia.
Seus fundadores, Dennis Costa e Tom Beatty, sócios no negócio e na vida, mal lançaram o seu primeiro vinho, o Alicante Bouschet e já ganharam prêmios em concursos e conseguiram excelente pontuação na prestigiosa revista “The Wine Enthusiast”: 91 pontos numa escala de 100. Coisa séria.
Só que o vinho que fazem, como o tinto varietal Alicante Bouschet, é para heteros, homos, lésbicas e desinteressados (uma categoria que cresce assustadoramente). É um vinho de grande qualidade, feito a partir de uma uva, que lhe dá o nome, considerada rústica e muito pouco utilizada. Dennis e Tom conseguiram lançar uma novidade – e com qualidade e bom preço.
A Rainbow Ridge contribui para o Centro de Gays e Lésbicas de Nevada e para um projeto de combate a AIDS em Los Angeles. Seus donos são gays, a empresa é gay, o slogan de sua publicidade é “Come Home To Family” (“Venha para a Família”), para a comunidade gay, portanto. Apenas isso. O vinho é para todo o mundo.
Mas fomos encontrar em Roma o que está sendo considerado o primeiro vinho na história dedicado aos gays. O editor italiano Roberto Massari manda produzir vinhos especiais para uma série que intitulou de “Vini da Leggere” (“Vinhos para Ler”).Isso mesmo, os livros são os rótulos e contra-rótulos dos seus vinhos. Um livro de duas páginas. A série, que já conta com 11 “vinhos literários”, entre eles um rosé dedicado à revolucionária marxista e feminista Rosa Luxemburg. É o Rosé Luxemburg, um Montepulciano d´Abruzzo 2001. E um branco também da região de Abruzzo, o Barricadero Blanco, em homenagem a Che Guevara.
Massari decidiu ano passado lançar um livro (na Itália seus vinhos são legalmente considerados livros) em homenagem ao primeiro ativista gay da história, o advogado e escritor alemão Karl Heinrich Ulrichs (1825-1895). Karl publicamente assumiu sua condição de homossexual e precisava ser muito macho para fazer isso naquela época e naquele país, reduto de prussianos com aquele jeito meinkampf de ser). E publicou livros defendendo direitos de gays, lésbicas e das mulheres, que não tinham também quaisquer direitos. Como, advogado Karl amparou homossexuais acusados de “má conduta pública”, essas coisas. O alemão agitou tanto que acabou preso e depois perseguido em seu país. Buscou refúgio na Itália, onde morreu na cidade de L´Aquila, na região de Abruzzo.
Massari deu ao vinho-livro o nome de Rosso Gayardo (“Tinto Gayardo”), um vinho denso e forte, com 13,5% de álcool, feito com uvas Nebbiolo, da região do Piemonte. É um senhor vinho, uma homenagem a qualquer amante da bebida de bom gosto, não importando sua preferência sexual.
O nome resulta de um jogo de palavras. Em Roma, quando você quer dizer que alguém é forte, valente e que não tem medo de nada, você diz “gagliardo”. Com o sotaque romano, “gagliardo” soa como “Gayardo”. Vale o jogo de palavras e a ironia envolvida. Massari só encomendou 300 garrafas desse vinho. Para 2004 pretende aumentar a produção.
Não, não existem. Como vê leitora, não existe propriamente um vinho, a bebida, feita para um grupo específico do gênero humano. Não há um vinho para pretos, por exemplo. Contudo, até na África do Sul temos hoje vinícolas de propriedade de pretos e pretos fazendo vinho, como quaisquer brancos, pardos, amarelos etc. E vinhos para quaisquer etnias, credos e opções sexuais.
E se existissem essas marcas? É um assunto para os doutores em marketing, mas pessoalmente acho que esses vinhos teriam muitas dificuldades em ter sucesso comercial.
No Brasil, estima-se que gays e lésbicas somem 10% da população. Nos Estados Unidos, somam cerca de 19 milhões de pessoas com um poder de compra de 800 bilhões de dólares.
A maioria dos consumidores gays norte-americanos, por exemplo, tem pouquíssimos ou nenhum dependente e uma renda pessoal alta por quase toda a sua vida. Como resultado de poucos comprometimentos familiares, essa comunidade tem mais tempo para socializar e mais dinheiro para gastar.
85% dos gays e lésbicas adultos afirmam que precisam achar maneira s de reduzir o stress. Entre heterossexuais adultos esse índice é de 78%. São, assim, alvo prioritário para fabricantes de bebidas e mensagens que destaquem prazer e tranqülidade associados a beber socialmente.
No primeiro mundo, 62% dos gays e lésbicas possuem um computador e 52% deles assinam serviços online. 65% dos que usam a Internet, navegam mais de uma vez por dia. E 71% compram produtos ou serviços pela rede.
Lá, 39% dos gays freqüentam regularmente concertos de música clássica, cinco vezes mais do que a população em geral (8%). É uma comunidade que vai ao cinema duas vezes mais do que o restante da população. Gays e lésbicas respondem fortemente a marcas e a campanhas de publicidade que refletem seu estilo de vida e valores. Mas reagem negativamente a representações estereotipadas.
E talvez aqui, leitora, esteja o X do problema. Um vinho feito em homenagem a um ativista gay, o primeiro da história; um vinho feito por uma companhia declaradamente gay, a primeira do mundo – tudo bem, são maneiras de bom gosto de acessar a comunidade. Até porque ela é informada o bastante para, em primeiro lugar, experimentar os vinhos. Se forem bons, mesmo, ficará freguesa.
Mas vai virar o rosto para caçoadas, piadinhas de mau gosto: por exemplo, um vinho rosé com a cesta da Carmem Miranda no rótulo. O rosé, normalmente um ótimo vinho, teria de ser soberbo para ser consumido.
Bem, cansei minha beleza! Se as leitoras quiserem saber mais sobre o mercado gay, hetero, jovem, maduro, velho etc. é só pedir aqui para o Bolsa ou para a Soninha no www.adegaebar.com.br
Aproveitem porque estou com a pesquisa do Datamonitor, a New Direction in Drinks 2000-2005. Ela mostra tudo o que se bebe, como se bebe, quem bebe, onde e porque bebe. Foi de onde retirei os dados estatísticos dessa coluna.
