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Divirta-se com os vinhos

by soniamelier em 27 de julho de 2003 | 21:00

Pode ter certeza que o mundo dos vinhos é muito divertido, mesmo que você nem goste das uvas fermentadas. Veja só:

Bundas de fora

O pessoal da cidadezinha de Krov (2.500 habitantes), na região do rio Mosela, Alemanha, está fulo da vida com seus vereadores. É que, para homenagear o vinho mais popular do local, o “Krover Nacktarsch”, deram ao seu novo centro comunitário o nome de “Nacktarschhalle”, que literalmente quer dizer “Centro da Bunda de Fora” (ou “bunda nua”, “bunda pelada”). Já com o vinho (que se chama, claro, “Bunda Pelada de Krov”) ninguém implica. Consumir Bunda de Fora em casa, à luz de velas, ao lado de uma lareira pode. Mas, em público, no Centro Comunitário, não pode.

Até o prefeito da cidade, Sr. Elmar Trossen, está furioso com o novo nome. “Já pensou ser convidado para um casamento ou para um concerto de música clássica no Centro de Bunda de Fora?” Acho que se fosse aqui, os convidados compareceriam em massa – provavelmente a caráter.

O vinho de Hitler

O italiano Alessandro Lunardelli e seu filho Andrea são produtores de vinho lá em Pasian di Prato, no norte da Itália. Estão ficando famosos não pela qualidade de seus vinhos, mas pelos temas dos rótulos que escolheram para eles.

Agora mesmo lançaram um vinho com o rótulo “Hitler”: tem a foto do chefe nazista com o braço direito estendido na tristemente célebre saudação nazista, e o lema “Ein Volk, ein Reich, ein Fuehrer” – Um Povo, Um Império, Um Líder. Uma garrafa de seu ordinário vinho custa quase 10 dólares. Custa também muita vergonha para a Itália e problemas para quem compra. Se você é polonês e teve o mau gosto de comprar uma garrafa dessas terá problemas para atravessar a fronteira para seu país. Vai ser preso como agitador nazista.

O próprio Alessandro já foi preso e processado por isso. Começou sua “carreira” lançando um vinho dedicado a Mussolini, com a foto do “Duce” no rótulo. Acabaram, ele e o filho, na cadeia. Só não foram condenados porque as autoridades não ficaram convencidas de que estavam genuinamente promovendo o fascismo.

Mas continuaram a lançar vinhos seguindo a trilha dos, digamos, “campeões mundiais de tiranias”: foram rótulos com o general Rommel, com o vice de Hitler, Hermann Goering e com Stalin. Quanto a esse não houve muita celeuma, apesar de ter assassinado 15 milhões de pessoas. Vocês sabem como a esquerda é sempre imparcial, até porque gostaram da continuação da série: com Marx, Lênin e Guevara.

A coleção dos vinhos de Lunardelli tem hoje 50 rótulos. O próximo lançamento será o do vinho “Tito”, com a foto do ditador da antiga Iugoslávia, para gáudio dos que participam ou participaram das carnificinas nos Bálcãs.

Uma colher de chá: os Lunardelli oferecem para os jovens um rótulo com Bob Marley. Mas será que eles gostam de vinho? Os Lunardelli eu tenho certeza que não.

Vinho em Quadrinhos

Já Keith Rutz é outra e completamente diferente história. Ela é dona e produtora da Rutz Cellars, lá no Vale do Russian River, na Califórnia. Produz vinhos ao estilo clássico e não pára de receber prêmios e louvações. Seus Pinot Noir e Chardonnay são constantes exemplos de êxitos transformados em medalhas de ouro e notas altas, altíssimas.
Rutz é também uma senhora marqueteira. Olhem só que idéia genial. Acaba de lançar o que, temos certeza, vai transformar-se numa série para colecionadores. É a sua “Vintage Comic Series Wines”. O rótulo é como se fosse uma história em quadrinho (um “comic”, com eles dizem por lá).

Mostra um casal (o desenho lembra o de Terry e os Piratas do meu tempo – perfeito): ele fala e lá vem a bolha de diálogo (“Minha vida tá complicada demais… Preciso voltar às minhas raízes”). Ela, loiríssima, linda e charmosa, pensa (aquele balão com bolinhas, continuando a fala do parceiro): “…e eu preciso voltar para o meu Rutz 2001 Merlot da Costa Norte!”.

Pois ela começou essa série com um sério Merlot. Estou doida para experimentar. A produtora faz até mais, uma criativa brincadeirinha. Você acessa o site dela (http://www.rutzcellars.com/) e cria rótulos exclusivos. Os balões estão livres, em branco, sem texto: você é quem os cria. Inventa uma fala para você, outra para ele. Pronto, a Rutz Cellars manda o novo rótulo para você azarar seu parceiro.

Rutz fala de afeto e calorosas parcerias; nada de braços estendidos em saudações bandidas. Ah, o vinho é pra lá de bom! Vale buscar os da nova série. Além da alegria, temos o prazer. É assim que se faz.

Alta costura para garrafas

Não é que uma modista de San Francisco, EUA, criou uns vestidinhos para garrafas de vinhos? A designer é a Christine Foley (http://www.christinefoleysf.com/), que já desfruta de bom prestígio no meio.

Pois a Christine acaba de lançar uma coleção de “cheongsam”, aqueles trajes femininos chineses, em sede pura, com gola alta, saia justa cortada lateralmente. Só que têm o tamanho de uma garrafa de vinho. E servem justamente para cobri-la. A utilidade? Bem, você pode utilizar o vestidinho num teste cego: toma-se o vinho sem ver a garrafa, só o cheongsam. Ou pode presentear amigos e amigas amantes do vinho. Vão adorar. O problema é o preço: 36 dólares cada um.

Como disse, o mundo dos vinhos pode ser muito divertido. Acho que é mais fácil recebermos um sorriso quando sorrimos para alguém, como diz o ditado. No caso, vamos sorrir juntos.

E se você encontrou alguma nota divertida sobre vinhos ou quaisquer outras bebidas, mande-a para o Bolsa de Mulher ou para a coluna da Soninha (adegaebar@adegaebar.com.br). Vamos continuar nos informando e nos divertindo.

Amantes do vinho

by soniamelier em 17 de julho de 2003 | 21:00

A leitora Maria Lúcia Rodrigues pede-me informações sobre confrarias reunindo mulheres amantes de vinhos – apenas mulheres. Respondi que só conheço uma: a Associação das Mulheres Amigas do Vinho (AMAVI), com sede em Garibaldi, Rio Grande do Sul, a hospitaleira cidade da Serra Gaúcha, conhecida como a capital do champanhe. A primeira reunião da AMAVI aconteceu em março e, fazendo blague, seu tema foi pau puro: a influência da madeira na qualidade dos vinhos brancos.

De resto, enviei para a Maria Lúcia, que já freqüenta a ABS-Rio, um sem número de endereços, nenhum especificamente para mulheres, exceto o de Garibaldi. Agora, se ela morasse nos Estados Unidos certamente poderia freqüentar o site Wine Lover´s Match, dedicado a promover o encontro de pessoas solteiras que amem os vinhos. Não é bem o que a Maria Lúcia quer encontrar – uma exclusivista associação de mulheres amantes do vinho. Mulheres que possam encontrar-se de verdade e não virtualmente, online.

O Wine Lover´s Match garante que o seu serviço é fazer pessoas amarradas em vinhos e também livres e desimpedidas encontrarem-se através da Internet. Mas certamente não é só isso que o site faz. Você não paga nada para registrar-se. Porém, tem de informar que tipo de pessoa você gostaria de conhecer. Primeiramente, você revela seu sexo (o site não pede preferência sexual). Depois, pergunta se está procurando ela ou ele e em que faixa de idade. Além disso, precisa informar o seu CEP.

Aí, vem o golpe de misericórdia: o site pergunta se gostaria que a pessoa procurada estivesse a quantos quilômetros da sua residência (ou local de trabalho). E, mais, se gostaria de receber listas de pessoas (com ou sem fotos) e em que faixas de idade para o site procurar (se eu estivesse por lá, colocaria homem, entre 11 e 15 anos – só para testar os alarmes contra pedofilia e outras preferências, fora bebida alcoólica para menores). Logo, de virtual o encontro logo, logo passaria a ser em carne e osso.

Bacana, não é? Eu, calejada solteirona, escondida em Secretário, estou tendo uma crise de solidão, vou ao site, busco um “amante do vinho” que more, digamos, no Rio. Não, não vou querer marcar encontros com vizinhos. O site me manda uma lista com alguns nomes e fotos. Tenho certeza que as fotos virão todas maquiadas, maceteadas. O que é branco-azedo vira corado de sol; aquela papada, o pescoço enrugado, os bolsões abaixo das pálpebras e a brilhante careca devidamente escaneadas, disfarçadas pelo computador. O João vira Hugh Grant – que vai quebrar a cara comigo, pois não sou nenhuma Julia Roberts. Claro que não mando fotos, apenas um perfil um tantinho exagerado de meus combalidos dotes.

Daí que marcamos um encontro em Itaipava num ponto bastante movimentado. Digo que estou com uma jaqueta de couro e jeans (99% das mulheres estarão do mesmo jeito) e fico esperando. Lá pelas tantas, aparece um senhor – sim, um senhor! – tateando pela área, olhando ávida e ansiosamente qualquer mulher como se fosse a sua Julieta.

Meu perdido Romeu só não olha pra mim. Tem na mão uma sacola e nessa sacola está, acertou, uma garrafa de vinho. Os homens são, definitivamente, o alvo mais fácil que conheço. É ele, o tal: é um verdadeiro Quasímodo, não o grande poeta italiano, mas um clone do próprio corcunda de Notre Dame. Viro as costas e sumo, pois também não sou nenhuma Esmeralda (a heroína do Quasímodo, no livro de Victor Hugo). João vai ficar só e com a garrafa na mão, prestes a entregar-se ao prazer solitário… de beber sozinho o seu vinho. Há desencontros ou bolos piores do que esse, tenho certeza.

Mas vamos devagar. O site não é leviano como pode parecer. Ele promove igualmente o conhecimento sobre vinhos – e até que bem direitinho. Você encontra informações básicas sobre vinhos e uvas, sobre o jargão utilizado nesse nosso mundinho, sobre como combinar comidas e vinhos, como provar vinhos, sobre acessórios. Oferece artigos retirados das mais respeitáveis revistas especializadas. Apresenta listas de vinhedos e de eventos, de clubes e associações de vinhos por todo o país, além de um noticiário sempre renovado sobre a bebida, seus produtores e consumidores.

Consultei o site recentemente e a lista dos vinhos preferidos pelos sócios e sócias (pelo menos até julho) incluía: o Barolo Aldo Conterno, o Syrah Babcock, o Chateauneuf du Pape, o Domaine Carnerous Brut e o Merlot Echo Domani. Nada de especial, portanto. Os sócios estão provando vinhos de preços módicos. Não dá para assustar.

O Wine Lover´s Match oferece também, democraticamente, o endereço de sites de compra de vinhos online. Vale a pena vocês anotarem: Wine.com, Wine Enthusiast, NextWine.com, NapaCabs.com, Wine Globe, K&L Wines e Zachys Wine.

Abre para o leitor os sites de ajuda, referência ou conhecimento sobre vinhos (Wine Spectator, Wine Enthusiast, Wine Advocate, Wine & Spirits, International Wine Cellar) e de busca e informações sobre vinhos e seus preços, como o Wines.com, o Wine-Searcher.com e o Wine Access. Afinal, o site não está lá só para sacanagem, embora fotos como essa ai ao lado possam fazer você imaginar coisas. Cada um administra sua imaginação como quiser.

Ele ensina, de modo discreto, mas acredito que eficientemente, o básico do que devemos aprender sobre vinhos – mesmo que seja apenas para conhecer o tal João. “Uma rosa com qualquer outro nome ainda cheiraria como uma rosa” escreveu Shakespeare, no Romeu e Julieta.

Talvez seja o caso desse site. O nome e a aparência podem indicar uma coisa, mas na verdade estão tentando efetivamente fazer com que saibamos mais sobre o vinho e, de passagem, possamos dividir nosso conhecimento com outras pessoas (de preferência livres e desimpedidas).

Lembra até aquele filme com Tom Hanks e a Meg Ryan (“Sintonia do Amor”, de 1993). Ele mora em Seattle (Oiapoque) e ela em Nova York (Chuí). Mas o filho dele consegue promover o encontro dos dois no terraço do Empire State Building. É refilmagem do clássico de 57, “Tarde demais para esquecer”, com Cary Grant e Deborah Kerr. O site, no caso, estaria fazendo o papel do filhote do Tom Hanks.

O que você acha? Seria sócia desse site ou passaria ao largo? Ele pode promover fraternidade e afeto através do nosso amor pelo vinho? Acharia uma discriminação só considerar pessoas solteiras? Consideraria um preconceito a promoção de encontro apenas de pessoas de sexos opostos?

Sua resposta será valiosa, pois o Bolsa de Mulher ou a coluna da sua Soninha podem estar pensando num serviço como o do Wine Lover´s Match, onde todos nos encontraremos com carinho e com afeto pelas rotas dos vinhos.

Responda já aqui para o Bolsa ou para a coluna da Soninha (adegaebar@adegaebar.com.br).

Uma proposta irrecusável

by soniamelier em 9 de julho de 2003 | 21:00

As amigas com certeza já esbarraram com um festival, uma degustação ou um lançamento de vinho. E um leilão? Ah, isso não acontece sempre. E quando se trata de um leilão com rótulos só possíveis em mercados do primeiro mundo ou com raridades, ao lado de bons vinhos nacionais, de acessórios como antigos provadores de prata, aquecedores de taça de conhaque, taças de cristal da Bavária, acendedores de charuto de 1900 – aha, isso não acontece sempre. É o tipo de acontecimento onde só temos a ganhar (inclusive culturalmente). E eles não são lá muito comuns.

Pois, amigas, está na hora de pegar um casaquinho e dar um pulo em Itaipava, pois esse leilão será realizado agorinha mesmo, neste sábado. Se a Serra já é ótima no inverno, que lembra aconchego, carinho, lareira, pratos fumegantes e vinhos, esse leilão botará lenha na fogueira. O responsável é o Miguel Salles, empresário, dono do Garage Salles, um espaço muito amplo e extremamente charmoso onde exibe e vende antigüidades e objetos de arte.

Um dos últimos cavalheiros do Rio, culto, pra lá de bem informado e, sobretudo, de bom gosto, Miguel Salles oferece também um wine bar, novidade por aqui. O seu acervo de vinhos vem crescendo em variedade e qualidade e ainda admite bons maltes e aquela branquinha exclusiva, a deliciosa “Lote 11″, de 25 anos, que ele mesmo engarrafa, a partir de alambiques próprios em Minas. O seu bar tem até água mineral iodada, novidade trazida de Minas. Com ela, você toma um legítimo café à italiana, ou limpa boca e paladar para apreciar seu vinho sem pechas.

Pois não é que neste sábado, 12, o Miguel vai leiloar dezenas de lotes de vinhos de rótulos dos mais requisitados, dos mais exaltados – algo que não me lembro de ter assistido faz tempo no Rio? Pelo menos não com essa quantidade e, sobretudo, com essa qualidade.

Vamos ter em cena muitas celebridades: o Château Margaux 1982 (98 pontos da Wine Spectator, 94 do mestre Robert Parker, 5 estrelas do scholar do vinho Michael Broadbend), o Lafite Rotschild, o Latour, o Cheval Blanc, o Clos de Vougeot, o Corton Charlemagne, o Pichon Lalande… Vão bater o martelo para um dos mais refinados exemplos de “vinho de garagem”, o Château Le Pin 1985 – o elegante, denso e procuradíssimo Merlot do Pomerol, 98 pontos da WS. E mais: um dos melhores exemplos da uva Shiraz até hoje, o já lendário Penfolds Grange 1990 (vinho do ano pela WS), que sozinho pode falar pela qualidade dos vinhos australianos: é o ponto máximo dela.

A glória espanhola, o Vega Sicília 1965 (essa garrafa você não encontra no Wine-Searcher ou em qualquer outro lugar) também vai estar lá, ao lado do Cheval Blanc, do Merlot do Francis Ford Coppola, dono de uma das vinícolas de maior sucesso da Califórnia e que, entre uma taça e outra, é também autor da série “O Poderoso Chefão” e ganhador do Oscar com “Apocalypse Now”. Mas a América não fica apenas no premiado diretor. Quem levará os Opus One 92, obra-prima produzida pelo Robert Mondavi e pelo Rotschild?

Além disso, teremos ainda Barolos, do Gaja, o premiado produtor do Piemonte. E um time forte de chilenos, como o Los Vascos, do Barão de Rothschild, Fincas argentinos, Riojas, e o melhor dos nacionais – imbatíveis no item custo-benefício.

Dicas

A primeira dica para você não entrar no escuro nesse e em qualquer outro leilão é ler cuidadosamente o catálogo. Leva menos de um minuto para cada lote ser vendido – daí você precisar saber de antemão quais os vinhos que mais lhe interessam.

Visite já o site do leiloeiro Fernando Braga (http://www.fernandobraga.lel.br/), que conduzirá o espetáculo.

Pelo catálogo do leiloeiro, saberemos mais sobre os vinhos, destilados, charutos e acessórios em oferta, além dos preços iniciais de todos os lotes.
Faça suas anotações e reflita bastante. Num leilão freqüentemente somos levadas a comprar por impulso – o que quase sempre significa torrar dinheiro. Certifique-se quanto de impulso sua bolsa resiste.

Só tolos, penso eu, fazem lances apenas por divertimento. Certifique-se daquilo que deseja comprar.

Pergunte bastante sobre a origem dos vinhos, onde e como são guardados.

Investigue os preços: às vezes o preço final de um vinho, num leilão, sai mais caro do que numa loja (embora seja mais fácil encontrar o túmulo da Cleópatra do que lojas estocadas com o Penfolds Grange).

Preste atenção: o leiloeiro só pode garantir a origem e os cuidados com os vinhos (se ficaram em adegas climatizadas etc.), mas ele não pode afirmar que o vinhos, em particular os mais antigos, estejam ainda bebíveis. Ele não pode garantir também que você gostará do vinho. Nos dois casos, nenhum leiloeiro aceitará devolução da bebida.

Não perca. Será nesse sábado, 12 de julho, a partir das 19h. Faça sua reserva pelo (24) 2222-03774. O antiquário fica na União Indústria, 14.999, logo depois do Boliche.

Se não puder, o Miguel vai ficar com lotes não vendidos em exposição no Garage Salles por algum tempo. E aí você faz o seu leilão particular.

De qualquer modo, esse leilão é a verdadeira proposta irrecusável, como diria Dom Corleone, o Chefão do Coppola.

Acessórios e nem tanto

by soniamelier em 6 de julho de 2003 | 21:00

Em um determinado momento da vida, a Soninha aqui teve uma lojinha de vinhos. O principal era, claro, vender e assessorar sobre vinhos. Como parte do negócio, tínhamos um canto dedicado aos acessórios: taças, abridores, decantadores, adegas climatizadas, sistemas de vedação etc.

O prestígio do vinho (e com ele o consumo) só faz aumentar no Brasil (como em todo o mundo). É natural que, além do vinho, todos os cacarecos que acompanham esse formidável hábito ganhem destaque nas prateleiras. Ora para uso do próprio consumidor, ora como presentes.

Mas quais acessórios são mesmo fundamentais, quais os que são meros brinquedinhos e os que realmente funcionam? O que ficou dessa minha experiência?

Acessórios obrigatórios

Taças e saca-rolhas – são itens que não podem faltar.

Saca-rolhas – Bem, sem eles você não consegue tomar seu vinho. É o principal acessório.

O tipo mais simples e mais comum é, ao mesmo tempo, o mais barato e o que melhor funciona. Ele tem apenas o cabo e a hélice. Se essa hélice, rosca ou espiral tem no mínimo 5,7 cm, você está diante de um saca-rolha dos mais confiáveis.

Na verdade, esses mais simples existem desde o século 18. Você faz tudo: torce a rosca ou hélice, penetra a rolha e a puxa para fora. Todos os demais modelos são variações no cabo e na rosca, feitas para facilitar essas manobras.

Mas escolha um no qual a hélice não seja muito grossa e que tenha um sulco em toda o seu comprimento. O fato de não ser muito grossa evita que a cortiça seja remoída e danificada: a rolha pode até se partir e a encrenca está feita. A rolha toda ou pedaços dela caem na garrafa… Enfim, você já sabe o final dessa história. Já com a hélice mais fina, com sulco, e com os 5,7 cm de comprimento no mínimo, a rolha é penetrada mais fácil e completamente. O sulco faz aumentar a aderência da rolha à hélice e com isso ser retirada com maior segurança e facilidade.

Aqueles modelos com duas “asas” ou alavancas, de origem italiana, até que vendem bem. Mas em outras lojas. Na minha eles nunca entraram. Essas asas servem de alavanca e você retira a rolha com esforço bem menor. Mas a maioria deles tem uma rosca muito grossa e curta. Dificilmente você vai conseguir tirar a rolha de um Bordeaux ou de um Porto sem danos (para o vinho, a rolha e você).

Mas, por favor: antes de usar o saca-rolha (qualquer um), retire antes o alumínio que protege o gargalo e a rolha da garrafa. Depois de retirada a rolha, limpe o gargalo, inclusive o interior de suas bordas com um pano bem limpo e seco.

Para mim, o melhor saca-rolha é aquele utilizado pela maioria dos garçons e sommeliers nos restaurantes e bares. Seu apelido é justamente “O Amigo do Garçom”. É formado por três peças (todas embutidas no seu cabo): a hélice, um pequeno canivete e uma alavanca.

Com o canivete cortamos e retiramos o alumínio. A alavanca é apoiada na borda do gargalo e, com a hélice já metade na cortiça, facilita a retirada da rolha: basta pressionar ligeiramente o cabo para baixo. Esse modelo funciona muito bem. Com ele, você só precisa cuidar para que a alavanca não quebre ou lasque a borda da garrafa.

Existe um tipo de saca-rolhas cujo nome em inglês é “Ah-So” – não lembro bem, mas sua tradução seria algo como “Ah, é isso?”, “Ora vejam”, no sentido de simplicidade, facilidade.  É o único que tem pinças em lugar da rosca. Um cabo de onde saem duas pinças. Uma mais comprida que a outra.

Retira-se o alumínio protetor e coloca-se primeiramente a pinça mais longa entre a rolha e a parte interior do gargalo. Com um movimento cuidadoso de vai-e-vem, essa perna maior vai penetrando na lateral da rolha. A perna menor deve ser colocada quando a maior já estiver quase um terço dentro da garrafa.

Você continua fazendo o movimento de balanço e empurrando a pinça para dentro da garrafa. Enquanto faz esse vai-e-vem, vá girando a pinça para a direita ou esquerda, até que as duas pernas estejam totalmente dentro da garrafa e segurando toda a rolha. Continue girando e puxando a pinça para cima, até que a rolha seja retirada completamente.

É um instrumento usado principalmente em vinhos muito velhos, com rolhas já quase se desfazendo. Indispensável para quem é colecionador ou que tenha uma adega com vinhos muito maduros.

Mais recentemente tivemos o lançamento de um modelo que tem o perfil de um coelho (uma das marcas tem até esse nome, Rabbit). É o Screwpull, um trambolinho que você ajusta no gargalo (depois de retirado o alumínio) e com um simples movimento de baixar e suspender a sua alavanca, pronto: a rolha já saiu. A rosca é fina, tem sulco e bem comprida. O movimento da alavanca é firme, mas suave (diferente do modelo mais antigo, o italiano, com duas alavancas). Tudo muito fácil, tudo muito rápido. E tudo muito, mas muito caro.

Taças – Como já falamos, para beber vinho você pode usar qualquer coisa que não vaze: um copo de vidro de requeijão, por exemplo. Mas o melhor mesmo é você usar taças apropriadas.

Elas podem ser de vidro ou de cristal (vai depender do seu bolso). Só não podem ter relevos, desenhos ou cor. Você tem de ver o vinho claramente. É um dos prazeres dessa querida bebida.

As taças de vinho devem ser mais estreitas nas bordas e mais gordas no seu centro. Os seus aromas, assim, ficarão mais concentrados e você os perceberá mais facilmente. Suas hastes devem ser compridas e bem fixas à base e corpo da taça. O objetivo é você não segurar a taça e, assim, alterar a temperatura do vinho.

Tente ter jogos para vinhos tintos e brancos: as pequenas alterações de formato e volume em cada um fazem, sim, diferença. O mais prático é você ter um jogo de taças para tintos e brancos de Bordeaux, que praticamente são universais.

Os secundários

Os decantadores só são importantes se bebemos vinhos mais velhos com freqüência, pois eles acumulam sedimentos na garrafa. Se você bebe vinhos mais jovens a maior parte do tempo, nem se importe com esse acessório.

Procure por aqueles com o fundo bem largo e a boca bem estreita, quase que imitando o formato de um funil. O vinho deve ser colocado com muito cuidado, muito devagar. Muita gente coloca uma vela acesa sob o gargalo de modo a iluminá-lo e evitar derramar sedimentos. Mas não precisa usar uma vela; uma lanterna é até melhor, pois não é tão quente.

Acessórios de conservação

O que fazer com o vinho que sobrou? Você quer guardá-lo devidamente protegido do oxigênio, senão a bebida vira vinagre, certo?

Existem pequenas bombas para retirar o oxigênio. Você bombeia (como quem enche um pneu de bicicleta), coloca uma tampa de borracha (que acompanha essas bombas). É melhor do que nada. Essas bombas existem nas boas lojas de vinho ou de presentes.

Mais difícil e caro de encontrar são os sprays de nitrogênio. Você coloca nitrogênio (um gás neutro), que ocupará o lugar do oxigênio. Nos restaurantes mais finos ou mais preocupados com vinho, existem equipamentos para permanentemente “nitrogenar” os vinhos abertos, para serviço em taça. São caríssimos, difíceis de encontrar. São mais apropriados para uso em casas de grande movimento.

O melhor mesmo para guardar resto de vinho é você guardar as meias garrafas vazias (e suas respectivas rolhas). Lave-as bem.

O vinho que sobrou na garrafa normal (de 750 ml), você coloca na meia garrafa (375 ml) e arrolha manualmente. Mesmo que sobre um pouco, a quantidade de oxigênio será menor aqui do que na garrafa menor. Dá para esperar por um, dois até três dias sem danos ao vinho, se guardado na horizontal em local com temperatura adequada.

Faltou falar das geladeiras climatizadas. Para quem tem uma adega de 50 garrafas ou mais, um senhor acessório. O problema ainda é o preço. Já temos marcas brasileiras de boa qualidade e de vários tamanhos.

Acessório dispensável mesmo, pra lá de brega, é aquela horrenda cestinha para a garrafa. Alguns restaurantes ainda insistem em usá-la. Tenho arrepios quando peço vinho e lá vem o pobre do garçom com o trambolho (ora de palhinha decorado com um pano de prato, ora uma armação complexa de metal). Outro item que não entrava em minha loja.

Se você souber da tradução correta do Ah-So, ou se quiser endereços de lojas com bons acessórios para vinho, por favor clique aqui para o Bolsa ou para a coluna da Soninha (adegaebar@adegaebar.com.br).



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