» 2003 » junhoSoniaMelier

Cultivando maus hábitos

by soniamelier em 26 de junho de 2003 | 21:00

Algumas companheiras leram a matéria “Dietas: o vinho fica ou sai?”, publicada há duas semanas, e acho que não se convenceram de que o vinho não engorda. O argumento delas até que faz sentido e, como vamos ver, é um tanto generalizado.

Dizem elas que, se consideramos apenas o vinho, tudo bem. Se ele não contém gordura, não engorda. Mas acontece que no nosso cotidiano tomamos café, pela manhã, comemos ovos e bife no almoço, gastamos mais horas no trabalho do que fazendo exercícios e terminamos o dia tomando um ou dois drinques. Acham que esse último ato de nosso dia-a-dia é o problema, a gota que faltava para nossos maus hábitos. Elas estão vivendo aquele inferno das dietas, contando calorias, vigiando o peso, lembrando dos conselhos, infinitamente repetidos pelo médico a respeito do nosso colesterol e peso. Não é nada fácil.

Kristen Fletcher assinou um artigo na revista Forbes a respeito de bons e maus hábitos de saúde e pergunta se, para melhorar nossa saúde, precisamos viver só de alface e grãos de trigo. A verdade vai até espantar essas minhas leitoras: alguns desses “maus hábitos” (ou indulgências, como prefere Kristen), como álcool, comidas gordurosas e cafeína, podem até prolongar suas vidas. Surpresas?

Aquele café pela manhã, mais um ou dois cafezinhos no trabalho não só melhoram nossa concentração como ajudam a prevenir a formação de pedras nos rins e reduzir o risco de câncer no cólon. Uma das bíblias dos médicos norte-americanos, “The Journal of the American Medical Association”, publicou em 2000 um estudo afirmando que quem toma café tem menos chances de desenvolver o mal de Parkinson. Agora, como lembramos no nosso artigo, mencionado acima: o segredo de tudo é a moderação. Café demais pode resultar em problemas de sono e deixar-nos agitados, nervosos.

As surpresas não param por aí. Há gorduras e há gorduras. E nem todas são más. O professor de medicina e nutrição da John Hopkins Bloomberg School of Public Health, Dr. Lawrence Cheskin, não tem dúvidas de que algumas gorduras atuam para nos proteger. São elas que no final das contas vão nos dar a sensação de saciedade. Sem elas, não pararíamos de comer. Um outro estudo, da Universidade de Harvard, de 2001, descobriu que acrescentando gordura a dietas de baixa caloria ajuda na perda de peso. A Associação Americana do Coração até recomenda que cerca de 30% de nossas calorias venham de alimentos gordurosos. Temos ou não temos espaço para esses tais “maus hábitos”?

O segredo é limitarmos as gorduras saturadas que consumimos através de laticínios, carnes mais gordurosas e biscoitos, doces e petiscos em geral. Devemos consumir mais as gorduras não saturadas, aquelas encontradas no azeite, peixes e nozes, castanhas etc.

Por fim, voltamos às bebidas. Vou repetir o que a imprensa mundial vem divulgando desde 1980 (e que não canso de publicar nesse espaço). Ao bebermos moderadamente vamos reduzir os níveis de colesterol, as chances de tumores cancerosos do cólon, o risco de doenças cardiovasculares. Vamos aumentar as defesas contra a senilidade e o mal de Alzheimer. Tudo isso está mais do que demonstrado por numerosas pesquisas, realizadas pelos mais renomados centros médicos e científicos do mundo.

Agora mesmo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos publicou um estudo demonstrando que a diabete do tipo 2, uma doença que toda a mulher após a menopausa corre o risco de adquirir, pode ser reduzida através do consumo moderado de álcool.

São as tais duas taças diárias de vinho, que, além de todas as alegrias de sabor e aroma que oferecem, melhoram a concentração de insulina e de triglicerídeos do nosso corpo. Ele responderá melhor ao hormônio que ajuda as células a usar glicose para nos fornecer energia.

Os que bebem moderadamente (ou seja: essas mesmas duas taças de vinho) tem de 30 a 35% menos chance de um ataque cardíaco do que os abstêmios. Isso mesmo: não beber nada, nadinha, pode resultar em encrencas.

Agora mesmo, pesquisadores da Escola de Saúde Pública da Universidade de Tulane descobriram que se consumirmos bebidas alcoólicas, sempre com moderação, reduziremos o perigo de um ataque cardíaco em 30%. Mas o nosso citado Kristen lembra bem que se bebermos demais o risco não será ainda mais reduzido. Insistimos: moderação é o nome do jogo.

Nem todas as gorduras foram criadas iguais. São diferentes da humanidade. Se consumirmos as não saturadas reduziremos os níveis de colesterol e o risco de doenças cardíacas. O mesmo acontece com as bebidas alcoólicas, como vimos. Se abusarmos não só correremos riscos de acidentes como vamos danificar nossos fígados e corações (isso sem contar com o papel de palhaço nas festinhas).

A saída para essas “indulgências” não está apenas nos exercícios. Se o nosso objetivo é conseguir melhorar a saúde e finalmente colocar aquela saia comprada ano passado, devemos desistir de praticar esportes com o objetivo de correr a próxima maratona. Isso é coisa de profissionais.
Algumas atividades físicas, feitas com regularidade, já é o bastante. Basta você dar uma caminhada, usar mais a escada do seu prédio e passar longe da loja de doces.

É o tipo de atividade que, não apenas nos ajuda a perder calorias, ganhar mais fôlego etc., como a também a administrar as tensões. Até mesmo elas podem ajudar nosso corpo e cabeça a preparar-se para os desafios do cotidiano. As tensões só são negativas quando constantes e não episódicas. Portanto, não vamos nos estressar sobre o estresse diário. Vamos tocar nossas vidas praticando alguns maus hábitos, sem esquecer da nossa esperada happy hour.

Se quiser saber mais sobre álcool (sobretudo vinho) e saúde clique aqui para o Bolsa ou para a coluna da Soninha (adegaebar@adegaebar.com.br).

Afinal, o que é qualidade?

by soniamelier em 19 de junho de 2003 | 21:00

Aquelas prateleiras lotadas de garrafas de vinho, a escala de preços partindo dos R$ 6 e chegando a R$ 400 (e até mais). Tintos, brancos, rosados, espumantes; nacionais, chilenos, argentinos, australianos, franceses, italianos: um atlas de prazeres, uma aula de geografia. Cada rótulo mais intrigante, mais charmoso que outro. E você sem saber o que comprar, o que fazer com a questão da qualidade. Quanto mais caro, melhor? Como reconhecer qualidade num vinho?

Um professor de enologia da Califórnia, Maynard Amerine, diz que “A qualidade do vinho é fácil de reconhecer, mas difícil de definir”. O critério mais geral e mais fácil é pelo sabor: um vinho tem tanta qualidade quanto o sabor que oferece. Dito assim, parece fácil. Mas o melhor é você comparar um vinho novo com aquele que já conhece e gosta. Só que os dois deverão ter o mesmo estilo. Exemplo: serão vinhos parados (ou seja, não serão espumantes) e tintos. Ou poderão, ambos, ser brancos e espumantes etc.

Não estamos complicando nada: você tem de comparar objetos iguais. Numa corrida, não vão colocar um carro de Fórmula 1 disputando com um Fusca; ou um cavalo árabe correndo ao lado de um elefante. Cavalos você compara com cavalos. Tintos com tintos, brancos com brancos, espumantes com espumantes. Em qualquer caso, o valor do sabor é sempre o mais importante.

Você prova um vinho: ele tem sabor, algum sabor? Se tem, ele já passou no primeiro teste. Agora, o sabor pode ser desagradável. O vinho está com algum problema, algum defeito. Muitas vezes, apresenta o que chamam de “doença da rolha”, que provoca um tipo de mofo, danificando o vinho. Pode não ter sido bem vedado, o ar entrou e o avinagrou: impossível bebê-lo.

A qualidade de um vinho, porém, não se relaciona com eventuais defeitos e sim com a presença ou não de sabor. Esse vinho é muito “aguado”, o sabor daquele outro é “muito fraco”, “muito chato” etc. São queixas comuns que recaem coincidentemente sobre os vinhos mais simples (que são também os mais baratos).

O vinho tem sabor: já passou no primeiro teste. A segunda prova de qualidade é a intensidade desse sabor. Quanto mais intenso ele for, mais representativo da variedade da uva ou das uvas dos quais foi feito. Em suma: esse intenso sabor indica que o vinho foi feito de uvas de grande ou de maior qualidade. De um modo geral, os preços dos vinhos são proporcionais à intensidade do seu sabor.

Lembra o crítico australiano Andrew Corrigan que não devemos esquecer que os diversos tipos de uvas oferecem vários níveis de intensidade de sabor. “A uva Riesling é sempre delicada; a Chardonnay é tipicamente intensa, a Sauvignon Blanc apresenta um aroma muito acentuado, mas sabor delicado. A Cabernet e a Shiraz são ricas e tânicas se comparadas com a leve e elegante Pinot Noir. Por isso, não é justo compararmos, digamos, a Riesling com a Chardonnay em termos de intensidade de sabor”.

O que ele quer dizer é que o sabor mais pungente da Chardonnay comparado com o da Riesling não resultará necessariamente num vinho melhor da primeira. Os estilos são diferentes: pense novamente na comparação do cavalo árabe com o elefante.

Um almoço leve num dia quente, quando temos frutos do mar na mesa, aquela garrafa de Riesling deixou saudades. Já no jantar, com pratos mais ricos, a Chardonnay foi excelente companhia. Sua preferência pessoal não tem nada com a qualidade dos vinhos servidos. Quem gosta de brancos secos pode não gostar de brancos aromáticos, mas deve respeitar os atributos de ambos.

Em seguida, temos mais um item nessa escala de sabor: é o que os técnicos chamam de “concentração do fruto” ou “riqueza do meio-palato”. Nada mais é do que o sabor do vinho percebido no meio da língua. A fonte dessa riqueza de sabor é a qualidade da uva – o que explica a expressão “concentração do fruto”.

Outro degrau na qualificação do vinho é o retrogosto – um jargão técnico que traduz o sabor que ainda fica na boca após um gole do nosso vinho. Nos vinhos mais baratos ele desaparece rapidamente ou sequer vai existir. Nos vinhos de qualidade esse sabor ainda permanece na boca, às vezes por 30 segundos.

O frescor do vinho é também um atributo de sua qualidade. Mesmo em vinhos mais velhos podemos encontrar o elemento de frescor. A acidez está lá bem presente tornando o vinho refrescante e jovem, mesmo que já esteja avançado na idade.

A sutileza ou complexidade de sabores é item da maior importância em nossa escala de qualidade. À medida em que você vai degustando o vinho, vários sabores diferentes vão sendo percebidos. Nos vinhos que chamamos de “chatos” vamos ter sempre o mesmo e aborrecido sabor, do primeiro ao último gole. Você certamente não vai se aventurar a uma segunda taça de um vinho “chato”. Mas sem dúvida vai querer descobrir toda a série de diferentes e sutis sabores que um vinho de qualidade tem a oferecer.

O equilíbrio do vinho é o seu atributo final. Todos os componentes do vinho devem estar sempre em harmonia. Não há nenhum elemento dominante. O frescor (ou acidez) deve empatar com o álcool ou com a doçura do vinho. Quanto mais rico for o sabor no meio-palato, maior o nível de acidez do vinho. Nos tintos, busca-se o equilíbrio dos ácidos com o álcool e com os taninos. Aqui você deve esperar a atuação de um afinadíssimo coral e não de uma exibição de solos.

Então, você está novamente diante das prateleiras do mesmo supermercado. Que vinho escolher? Ele deve ter sabor agradável, pelo menos. Quanto ao sabor, você vai querer um vinho com intensidade, com concentração de sabor e que este fique em sua boca por algum tempo. Vai buscar frescor, sutileza, complexidade, duração e equilíbrio.

Mas, amiga, jamais “entorne” um vinho. Ele foi feito para ser degustado, bebido lentamente, gole após gole. Foi feito para ser descoberto aos poucos. É uma aventura, uma novela: você está terminantemente proibida de, antes de começar a ler, ir avidamente para a última página saber o final da história. Vai perder todo o romance. E nunca, nunquinha mesmo, vai sequer entender ou saber da história toda, quanto mais do seu final.

Não deixe de comparar os vinhos que provar. Só assim você ficará melhor equipada para buscar e exigir qualidade. Compare os vinhos que tomar, faça suas anotações: teremos imenso prazer em publicá-las e comentá-las aqui na coluna da Soninha  (adegaebar@adegaebar.com.br).

Dietas: o vinho fica ou sai?

by soniamelier em 15 de junho de 2003 | 21:00

Continuamos preocupadas com nossa forma e fazendo muita ginástica para perder barriguinhas e pneuzinhos. Não é apenas uma questão de ficar bem na foto. Mas de saúde. O mundo, em particular aquele pedaço mais afortunado, está ficando (cada vez mais) obeso, dos Estados Unidos à Austrália. Na América, por exemplo, pela primeira vez em sua história a maioria dos adultos foi considerada obesa.

É um problemaço de tal dimensão que a Organização Mundial de Saúde alerta: a obesidade é o maior (e ainda não reconhecido) problema de saúde do mundo. Diante disso, o vinho sai ou permanece na sua dieta? Será mesmo que tudo que é bom na vida é ilegal, imoral ou engorda (segundo uma das leis de Murphy)?

Vinho contém álcool, que é considerado engordativo e por isso colocado hoje na mesma categoria dos alimentos gordurosos, do açúcar e dos refrigerantes, pelos histéricos das dietas. Alguns especialistas dizem que o excesso de álcool reduz a capacidade do nosso corpo queimar calorias. O mundo tem especialistas em excesso oferecendo mais problemas que soluções – o que poderia ser outra das leis de Murphy. Essa do excesso de álcool é até divertida, pois tudo consumido em demasia faz mal. Até hóstia.

Agora, duas ou três taças de vinho por dia vão fazer diferença? Vão engordar? Estamos aqui no limite da moderação.

Não, não vão engordar, diz a diretora do Instituto Australiano de Pesquisas sobre o Vinho, Creina Stockley. A técnica fala que há duas escolas de pensamento a respeito do vinho como possuidor de um impacto calorífico de importância. O vinho é resultado de uma conversão: quando o fermento consome todo o açúcar contido nas uvas e o transforma em álcool. Certo, todo o vinho, mesmo o mais seco, contém alguma quantidade de açúcar – estimada em sete calorias por grama. É para esse dado que apontam aqueles que acham que o vinho engorda. Olham para uma taça padrão de vinho, que contém 10 gramas de álcool, ou 70 calorias, e vêem um obeso em formação.

Creina Stockey recebe tantas ligações sobre vinho e dieta que pesquisou e preparou um documento a respeito. Por ele aprendemos que bebidas alcoólicas como o vinho podem contribuir com até 6% do total de energia alimentar na dieta de bebedores moderados. “Quer dizer: 94% das calorias são derivadas de outras fontes”, diz a pesquisadora. E, o que é mais importante, vinho não contém gordura. Assim, uma taça de vinho pode até conter a mesma quantidade de calorias que uma barra da chocolate – só que essa mesma barra pode ter até 20 gramas de gordura.
Na sua tese sobre obesidade, o médico John Dixon, do Departamento Cirúrgico da Universidade de Monash, também na Austrália, dirigiu sua atenção para obesos que instalaram um “laço” no estômago, de modo a diminuir o seu volume e, como resultado, oferecer uma sensação de saciedade com menos comida.

Revela ele que aqueles pacientes que consumiam mais de 100 gramas de álcool por semana, especialmente vinho, perderam mais peso (50,4% de excesso de peso no final do primeiro ano após a operação) do que os que não bebiam ou bebiam pouco. “Esses resultados demonstraram que o consumo moderado de álcool, especialmente de vinho, está associado a uma baixa incidência da diabete do tipo 2, a uma melhor sensibilidade à insulina e a risco menor de problemas cardiovasculares”.

Se é assim com os obesos, deve ser melhor para todas nós, pois não? Vamos ver o que vale tomar meia garrafa de vinho:

Meia garrafa de vinho (375 ml) = 280 calorias e nenhuma gordura;
Uma barra de Chokito (60 g) = 275 calorias e 10 gramas de gordura;
Um sundae de morango num McDonald’s da vida = 280 calorias e 7 gramas de gordura.
Uma fatia de torta de maçã no mesmo McDonald’s (100 g) = 285 calorias e 13 gramas de gordura.
Agora, uma garrafa de vinho (750 ml) tem 560 calorias e continua sem gordura.
Mas um Big Mac tem 566 calorias e 26 gramas de gordura.

Vale lembrar que a medida padrão para um drinque é o de uma taça ou copo contendo 100 ml de bebida. O recomendado pela maioria dos centros médicos e pesquisadores é de dois drinques para mulheres e quatro para homens. Eu deixo pela média e tomo três (metade de uma garrafa de vinho de 750 ml).

Como a quantidade de álcool varia de acordo com os estilos de vinho, controle suas calorias na tabela abaixo (mas só as calorias, pois não teremos gorduras).

Champanhe (taça de 150 ml) = 125 calorias;
Vinho tinto (150 ml) = 120 calorias;
Vinho branco (uvas como a Riesling ou a Chardonnay) = 127 calorias;
Vinho doce natural (como o francês Sauternes – 150 ml) = 135 calorias;
Vinho do Porto (55 ml) = 86 calorias;
Sherry/Xerez seco (55 ml) = 72 calorias

Pois é essa escola que preferimos e adotamos. Já pensou suportar uma dieta e exercícios quase que permanentemente sem podermos relaxar provando o nosso saboroso e saudável vinho?

Essa matéria, claro, dependeu de consultas: ao “The Australian Calorie Counter” (da Penguin Books, 2001); ao “Pocket and Fat Counter”, do Allan Borushek (Family Health Publications, 2003). E a uma matéria com a Creina Stockley, do Australian Research Institute, publicada na Internet pela The Age Company Ltd.

Agora, vamos continuar nossas dietas com mais uma taça de vinho. Mas, em caso de dúvidas, é só clicar aqui para o Bolsa ou para a Soninha no adegaebar@adegaebar.com.br



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