Lembram da Jacqueline, minha vizinha, dona de um senhor ranário aqui em Secretário? Pois ela continua às voltas com o gim, em particular em como fazer martínis. Fez duas perguntinhas:
a) Leu em algum lugar que o nome Martíni vem de um barman americano chamado Martinez. Verdade ou mentira?
b) Ouviu falar que o Martíni que James Bond bebe é o “Vesper”: é nome de uma marca, de uma receita ou o quê? Ela nunca ouviu James Bond pedir um Vesper e sim um Martíni, (devidamente “sacudido”, nunca “mexido”).
Acho que já falara sobre isso aqui. Martinez é o nome de um drinque criado por um barman chamado Jerry Thomas. Seu drinque era uma mistura na qual pontificava licor de cereja, o que me parece intragável e tão próximo do nosso Martíni quanto Plutão da Terra.
Um respeitado estudioso, John Doxat, autor do muito consultado “Drinks and Drinking”, conta uma história sobre um barman do Hotel Knickerbocker, de Manhattan. Seu nome: Martini di Arma di Taggia. Pois seu Martini teria criado um drinque especialmente para um cliente seu muito caro (porque muito rico), John D. Rockefeller, em 1910. O lendário barão do petróleo pedia sempre uma mistura de gim com vermute francês (e pedia dessa maneira: “Gin-and-French”).
Martini, então, criou um drinque que misturava gim e vermute extra-seco em doses iguais e um pouco de angustura. Essa é uma das lendas sobre a origem do nome e do drinque.
Existem outras. Muitas fontes insistem que o nome vem de um alemão, compositor de óperas, Johan Paul Aegius Schwartzendorf (1741-1816). A certa altura de sua vida, mandou-se para Paris e mudou seu nome para Jean-Paul Aegide Martini, talvez porque os músicos italianos fizessem grande sucesso na capital francesa – tal como os baianos, a partir dos anos 70, nas dunas de Ipanema e em todo o sul maravilha.
Vocês conhecem alguma composição desse alemão-que-virou-franco-italiano? Pois eu também não. Só que, a história continua, ele, entre um sustenido e outro, criou um drinque que misturava “Genebra” (o gim belga, o original – aliás, o único existente na época), vinho branco e canela. Não deixa de ser uma maneira de compor óperas.
Acho, Jacqueline, que você deve adotar a lenda que lhe parecer mais simpática: essa do compositor alemão me parece encantadora, por exemplo.
Vesper & Bond
Agora, quanto ao James Bond e a Vesper. Em Casino Royale, a primeira novela de Ian Fleming, o criador do 007, a heroína chama-se Vesper Lynd. E o drinque não é nada parecido com o que o cinema tornou popular. Sua receita: seis colheres de sopa (89 ml) de gim inglês (um Bombay Sapphire, como gosta a Jacqueline); uma colher das de sopa (30 ml) de vodka russa (uma Stolichnaya, por exemplo); meia colher (de sopa) de “Kina Lillet”, um ótimo aperitivo francês.
Fleming orientava que essa mistura fosse levada para uma coqueteleira com muito gelo para ser “sacudida”, naturalmente, embora a tradição reze que o bom Martíni seja “mexido” no copo (seja por um daqueles palitos de metal ou de plástico utilizados pelos barmen, seja pelo cabo de uma colher ou por uma faca).
Essa mistura, então, é servida numa taça de champanhe (daquelas que os barmen chamam de “globet”: são altas, mas gordotas no meio e abertas nas extremidades, como um trompete). Novamente contra a maré das tradicionais taças de Martíni, cujo formato lembra um cone de cabeça pra baixo. A guarnição é sempre uma farta casca de limão.
Quanto ao licor, o Lillet é, como dissemos, um aperitivo francês, uma mistura de vinho, licores, frutas e ervas. Tem origem na cidade de Podensac, Bordeaux e é feito desde o início do século 19. É envelhecido em carvalho por 12 meses e só utiliza grandes vinhos de Bordeaux. Existe em duas versões: o branco e o tinto.
Na versão do Ian Fleming/James Bond, temos o Kina Lillet, o branco, cuja cor, na verdade, é dourada. Deve sempre ser servido gelado. Infelizmente, é muito difícil encontrá-lo nas lojas daqui.
No cinema, James Bond pede invariavelmente uma vodka Martíni, devidamente “sacudida” – o que acabou por popularizar essa versão de vodka. Fleming seguramente não estava a serviço de sua majestade britânica quando criou esse drinque. Um pecado substituir o gim pela vodka.
Infalível
Dizem que as últimas palavras de Humphrey Bogart (aquele machão, o Rick, de Casablanca) foram: “Nunca deveria ter trocado o uísque por martínis”. É um drinque infalível. Luis Buñuel tem uma receita que é quase clássica e seguramente infalível:
1 – Gele as taças, o gim e a coqueteleira um dia antes de preparar o drinque;
2 – Encha a coqueteleira de gelo e coloque poucas gotas do vermute Noilly Prat e uma colher de chá de angustura;
3 – Sacuda e deixe escorrer, de modo a que fiquem na coqueteleira restos do vermute e da angustura que ainda cobrem o gelo;
4 – Acrescente gim – qualquer marca inglesa (Buñuel recomendava o Bombay ou o Tanquerey);
5 – Sacuda e sirva. Sirva com azeitonas (uma das guarnições mais famosas, adotadas pelo genial cineasta por ser ele espanhol, talvez);
6 – Beba cuidadosa e vagarosamente.
Outra grande figura e estupendo bebedor, Winston Churchill manda fazer seu Martíni com seis colheres de gim inglês e uma casquinha de limão. Nada de vermute. Mexer (e não sacudir) numa coqueteleira com gelo até que a mistura fique bem gelada. Servir numa taça e guarnecer com a casca de limão. Simples, superseco e seguramente infalível.
Se vocês pensam que a Jacqueline não está com nada e gostariam de saber sobre outros drinques, por favor cliquem aqui para o Bolsa de Mulher ou para a Soninha no adegaebar@adegaebar.com.br