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Um drinque infalível

by soniamelier em 18 de maio de 2003 | 21:00

Lembram da Jacqueline, minha vizinha, dona de um senhor ranário aqui em Secretário? Pois ela continua às voltas com o gim, em particular em como fazer martínis. Fez duas perguntinhas:

a) Leu em algum lugar que o nome Martíni vem de um barman americano chamado Martinez. Verdade ou mentira?

b) Ouviu falar que o Martíni que James Bond bebe é o “Vesper”: é nome de uma marca, de uma receita ou o quê? Ela nunca ouviu James Bond pedir um Vesper e sim um Martíni, (devidamente “sacudido”, nunca “mexido”).

Acho que já falara sobre isso aqui. Martinez é o nome de um drinque criado por um barman chamado Jerry Thomas. Seu drinque era uma mistura na qual pontificava licor de cereja, o que me parece intragável e tão próximo do nosso Martíni quanto Plutão da Terra.

Um respeitado estudioso, John Doxat, autor do muito consultado “Drinks and Drinking”, conta uma história sobre um barman do Hotel Knickerbocker, de Manhattan. Seu nome: Martini di Arma di Taggia. Pois seu Martini teria criado um drinque especialmente para um cliente seu muito caro (porque muito rico), John D. Rockefeller, em 1910. O lendário barão do petróleo pedia sempre uma mistura de gim com vermute francês (e pedia dessa maneira: “Gin-and-French”).

Martini, então, criou um drinque que misturava gim e vermute extra-seco em doses iguais e um pouco de angustura. Essa é uma das lendas sobre a origem do nome e do drinque.

Existem outras. Muitas fontes insistem que o nome vem de um alemão, compositor de óperas, Johan Paul Aegius Schwartzendorf (1741-1816). A certa altura de sua vida, mandou-se para Paris e mudou seu nome para Jean-Paul Aegide Martini, talvez porque os músicos italianos fizessem grande sucesso na capital francesa – tal como os baianos, a partir dos anos 70, nas dunas de Ipanema e em todo o sul maravilha.

Vocês conhecem alguma composição desse alemão-que-virou-franco-italiano? Pois eu também não. Só que, a história continua, ele, entre um sustenido e outro, criou um drinque que misturava “Genebra” (o gim belga, o original – aliás, o único existente na época), vinho branco e canela. Não deixa de ser uma maneira de compor óperas.

Acho, Jacqueline, que você deve adotar a lenda que lhe parecer mais simpática: essa do compositor alemão me parece encantadora, por exemplo.

Vesper & Bond

Agora, quanto ao James Bond e a Vesper. Em Casino Royale, a primeira novela de Ian Fleming, o criador do 007, a heroína chama-se Vesper Lynd. E o drinque não é nada parecido com o que o cinema tornou popular. Sua receita: seis colheres de sopa (89 ml) de gim inglês (um Bombay Sapphire, como gosta a Jacqueline); uma colher das de sopa (30 ml) de vodka russa (uma Stolichnaya, por exemplo); meia colher (de sopa) de “Kina Lillet”, um ótimo aperitivo francês.

Fleming orientava que essa mistura fosse levada para uma coqueteleira com muito gelo para ser “sacudida”, naturalmente, embora a tradição reze que o bom Martíni seja “mexido” no copo (seja por um daqueles palitos de metal ou de plástico utilizados pelos barmen, seja pelo cabo de uma colher ou por uma faca).

Essa mistura, então, é servida numa taça de champanhe (daquelas que os barmen chamam de “globet”: são altas, mas gordotas no meio e abertas nas extremidades, como um trompete). Novamente contra a maré das tradicionais taças de Martíni, cujo formato lembra um cone de cabeça pra baixo. A guarnição é sempre uma farta casca de limão.

Quanto ao licor, o Lillet é, como dissemos, um aperitivo francês, uma mistura de vinho, licores, frutas e ervas. Tem origem na cidade de Podensac, Bordeaux e é feito desde o início do século 19. É envelhecido em carvalho por 12 meses e só utiliza grandes vinhos de Bordeaux. Existe em duas versões: o branco e o tinto.

Na versão do Ian Fleming/James Bond, temos o Kina Lillet, o branco, cuja cor, na verdade, é dourada. Deve sempre ser servido gelado. Infelizmente, é muito difícil encontrá-lo nas lojas daqui.

No cinema, James Bond pede invariavelmente uma vodka Martíni, devidamente “sacudida” – o que acabou por popularizar essa versão de vodka. Fleming seguramente não estava a serviço de sua majestade britânica quando criou esse drinque. Um pecado substituir o gim pela vodka.

Infalível

Dizem que as últimas palavras de Humphrey Bogart (aquele machão, o Rick, de Casablanca) foram: “Nunca deveria ter trocado o uísque por martínis”. É um drinque infalível. Luis Buñuel tem uma receita que é quase clássica e seguramente infalível:

1 – Gele as taças, o gim e a coqueteleira um dia antes de preparar o drinque;
2 – Encha a coqueteleira de gelo e coloque poucas gotas do vermute Noilly Prat e uma colher de chá de angustura;
3 – Sacuda e deixe escorrer, de modo a que fiquem na coqueteleira restos do vermute e da angustura que ainda cobrem o gelo;
4 – Acrescente gim – qualquer marca inglesa (Buñuel recomendava o Bombay ou o Tanquerey);
5 – Sacuda e sirva. Sirva com azeitonas (uma das guarnições mais famosas, adotadas pelo genial cineasta por ser ele espanhol, talvez);
6 – Beba cuidadosa e vagarosamente.

Outra grande figura e estupendo bebedor, Winston Churchill manda fazer seu Martíni com seis colheres de gim inglês e uma casquinha de limão. Nada de vermute. Mexer (e não sacudir) numa coqueteleira com gelo até que a mistura fique bem gelada. Servir numa taça e guarnecer com a casca de limão. Simples, superseco e seguramente infalível.

Se vocês pensam que a Jacqueline não está com nada e gostariam de saber sobre outros drinques, por favor cliquem aqui para o Bolsa de Mulher ou para a Soninha no adegaebar@adegaebar.com.br

Mamãe e a bêbada moderna

by soniamelier em 8 de maio de 2003 | 21:00

De saia justa estou eu, Soninha, com esse Dia das Mães. Um problemaço que vou ter que destrinchar – não com minha mãe, avós e tias, mas com uma determinada comadre. Sim, essa comadre prenuncia uma tempestade aqui em Secretário para esse domingo.

Vamos dividir essa tempestade em três partes:

Primeira parte: mês passado minha mãe e uma de suas comadres (justo a mais terrível, a única e verdadeira Miss Fofoca) fizeram uma visitinha de surpresa por aqui. Vieram pescar pechinchas na feirinha de Itaipava e passaram para fazer um lanche.

Se soubesse da visita tinha dado uma arrumaçãozinha básica na casa. Colocado livros e revistas em ordem. Melhor: escondido alguns livros e revistas – santo remédio para adiar problemas.

Só que tinha acabado de receber o número mais recente da louquíssima e bem humorada “Modern Drunkard Magazine”. O título diz tudo: Revista do Bêbado Moderno! Tava bem ali, na cara, na infalível mesa de jantar – um mesão de fazenda, onde confortavelmente sentam-se 20 pessoas. É onde como, leio e escrevo. E onde recebo as visitas – caso sejam mais de três pessoas.

A “Modern Drunkard” traz nesta edição artigos preciosos, como “A Etiqueta do Vômito”. Uma suculenta matéria com recomendações do tipo “nunca saia correndo do salão, vomitando…”, em vez disso, informe a seus amigos: “desculpem-me, mas preciso vomitar”, e saia casualmente em direção ao banheiro para aliviar-se.

Outra dica fundamental: “Um dos maiores erros do vomitador é curvar-se. Você pressionará seu diafragma tornando o ato de expulsão muito mais difícil. Vai garantir que suas narinas fiquem entupidas de algo indesejável. Fique de pé, ereto e orgulhoso. Lembre-se de que o alvo de seu vômito é de vital importância”.

A seção seguinte fala dos cuidados que o vomitador deve tomar com esse alvo. Grandioso, pois não? E de morrer de rir – se o seu senso de humor estiver em ordem.

Temos ainda a continuação da série “Quem é o maior bêbado de todos os tempos?”. O estilo de narração é dos mais interessantes. É como um locutor de rádio, anos 40, narrando uma luta de boxe. Nesse número temos duas lutas: Ernest Hemingway contra Jackie Gleason e Charles Bukowski contra William Faulkner – todos lendários bebedores. Ganha quem entorna mais. Aqui você aprende sobre um número incontável de drinques e coquetéis. Basta ler para ficar um bocadinho tonta. Em edições passadas tivemos Humphrey Bogart contra Dean Martin, Jackie Gleason contra W. C. Fields etc.

Ah, tem também matéria sobre as “86 regras para embebedar-se”. Entre elas: “nunca, jamais, revele ao barman que ele fez seu drinque forte demais”, “se ele fez fraco demais, peça um duplo em seguida. Ele vai entender o recado”. Ou: “se você oferece um drinque a uma mulher e ela aceita, ela ainda pode não gostar de você”. Ainda: “tente um novo drinque a cada semana”. “Qualquer pessoa num palco ou atrás de um balcão de bar parece 50% mais bonita”. “Para cada drinque há 5% de chance de você entrar numa briga. Tem também 3% de chance de você apanhar nessa briga”.

A edição desse mês incluiu também um glossário de gírias de pinguço, ditos em boa parte intraduzíveis. Alguns deles até que dá pra entender, como o “Britney Spears”, que significa cerveja leve, usado em frases como “Um cara que fica mamando uma Britney Spears a noite toda não pode ser levado a sério”.

A “Modern Drunkard” não pára por ai. Tem matéria para todos os (des)gostos mais alegres. Quem quiser dar uma olhada é só clicar em http://www.moderndrunkardmagazine.com e depois me falar o que achou.

Só que a tal comadre viu, deu uma folheada e logo a jogou na bolsa. “Depois devolvo”, disse-me. Estou com azia desde então. Sei que vou ouvir de minha mãe, avó e tias, sem contar essa querida comadre, certamente, sobre as minhas simpatias para com o álcool – que vocês todas sabem que não é bem assim.

Segunda parte: passei a semana toda juntando matérias sobre os benefícios do álcool, em particular do vinho, para a saúde. Reuni algumas novidades: o vinho pode (se bebido com moderação, claro) reduzir as chances de osteoporose em mulheres maduras, segundo estudo da Escola de Medicina da Universidade de Connecticut.

O vinho (claro, claríssimo, se bebido moderadamente) pode prevenir resfriados, conforme testes feitos na Espanha por cinco universidades espanholas.

Componentes do vinho tinto têm potencial para combater o câncer de pele. Esse é um estudo da Universidade de West Virginia. Já se sabia que as uvas, o vinho tinto e o amendoim podem combater certas formas de câncer. Agora, temos mais essa boa novidade.

Inclusive, numa experiência conduzida pela Universidade de Marshal, colocou-se resveratrol (importante componente químico dos vinhos tintos) em células de melanoma durante 72 horas. O resveratrol matou as células cancerosas em 24 horas.

Pois eu tinha tudo isso e muito mais para apresentar à mulherada. Só que sei que a Miss Fofoca, a danada da comadre da minha mãe, ex-professora de inglês, chegará aqui com parte das matérias da “Modern Drunkard” devidamente traduzidas ou na ponta da língua. E língua é o que a Miss Fofoca tem de mais afiado atualmente. O que será desse meu Dias das Mães?!

Terceira Parte (incompleta): afora mimos e outras lembrancinhas, procurei me municiar contra os venenos da tal comadre má. Sei que vou ouvir coisas como “Não vê o mal que álcool pode fazer?”. Calma, responderei que no máximo tomo duas taças de vinho por dia, quantidade que até mesmo o Federal and Drug Administration dos Estados Unidos confessa que cortará em 30% o risco de doenças cardíacas e alongará minha vida por até mais 10 anos.

Estou preparada até com a Bíblia: “Dê uma bebida forte aquele que está pronto para morrer e vinho para os que têm coração pesado. Deixe-os beber e esquecer sua pobreza e não mais lembrar sua miséria” (Provérbios: 31:06-07).

No ano 30 de nossa era, Jesus transformou água em vinho, no seu primeiro milagre, impedindo que um casamento se transformasse em mais um acontecimento chato. Depois disso, o número de seus seguidores só fez aumentar!

Em 625, Maomé declara que o álcool é demoníaco. E os europeus se perguntam o que os muçulmanos faziam para se divertir. A resposta vem em seguida: em 711 os muçulmanos invadem a Europa.

Tá bom, “Modern Drunkard” não é uma publicação das mais politicamente corretas. É de enlouquecer xiitas abstêmios e sufocar virtuosos de caderninho. Mas vai divertir minha mãe, cujo grande senso de humor sempre me inspirou. Para agonia da comadre fofoqueira, a primeira coisa que vai lembrar quando chegar aqui em casa é de sua costumeira taça de Porto, um de 20 anos, Tawny, para abrir os trabalhos. Beberá essa e, depois, duas taças de vinho no almoço e ponto.

A “Modern Drunkard” existe há seis anos, é baseada em Denver, Estados Unidos, e tira 30 mil exemplares mensalmente. Seu editor, Frank Kelly Rich, que escrevia novelas de ficção científica, acha que está na hora de apresentar uma visão “menos sóbria” da humanidade e das bebidas.

Se as amigas quiserem saber mais sobre a revista e sobre o final pra valer do meu Dia das Mães é só clicar aqui para o Bolsa de Mulher ou para a Soninha no adegaebar@adegaebar.com.br.  Um beijo em vocês e em suas mamães!



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