Às vezes é inevitável juntar A com B.
Estava tentando entender o absurdo dessa guerra santa contra o Iraque quando topei com um artigo na edição deste mês da revista norte-americana Atlantic, intitulado “Em nome de Deus”. Seu autor, Jack Beatty,
revela que, na verdade, o presidente W. Bush acredita mesmo que Deus o escolheu para liderar os Estados Unidos numa guerra contra o “mal”.
A opinião do mundo, do Papa, das Nações Unidas, a situação econômica do país e do restante das nações - ”tudo isso é nada, pois Deus tem desempenhado um papel salvador na vida de Bush”, afirma o jornalista. O presidente americano encontrou-se com um grupo de religiosos em setembro passado e revelou: “Vocês sabem que eu tinha um problema com as bebidas. Agora mesmo eu estaria num bar do Texas e não no Salão Oval da Casa Branca. E só há uma explicação de estar agora no Salão Oval e não no bar do Texas. Eu encontrei a fé. Encontrei Deus”.
No seu pronunciamento anual ao Congresso e ao povo Americano no início do ano, Bush deixou bem claro que ele foi o escolhido por Deus para essa batalha contra o “mal”. Ele é o Aiatolá americano.
Não tenho nada contra abstêmios, muito pelo contrário. Temo apenas radicalismos, extremismos. Era um alcoólico e conseguiu transformar-se um abstêmio: ótimo! Só que a maioria dos alcoólicos consegue isso sem precisar tomar o tempo de Deus e fazer guerras. Os AA estão ai mesmo para provar isso.
Em seguida leio uma outra matéria, mais uma da série sobre o consumo de bebidas alcoólicas e saúde. O Journal of the American Medical Association acaba de publicar um importante estudo demonstrando que o consumo
moderado de bebidas alcoólicas é recomendado também para evitar o desenvolvimento de vários tipos de demências, inclusive o mal de Alzheimer.
Agora, não se trata mais de especulação, de estudos iniciais, de sugestão. O órgão da Associação Médica Americana publica uma prova de que, entre as pessoas que foram analisadas, aqueles que consumiam de um a seis
drinques por semana tinham bem menos risco de ficarem ruins da cabeça do que os abstêmios.
Já se demonstrou que as pessoas que bebem moderadamente conseguem baixar o risco de um ataque cardíaco para 37%. O estudo acompanhou perto de 400 pessoas na faixa dos 65 anos por até sete anos. Aqueles desse grupo que bebiam de um a seis drinques por semana, tinham o risco de demência reduzido para 54%. Mas, para os que bebiam menos do que
um drinque semanal, o risco ficava em 35%. Bebendo além das seis doses semanais (14 ou mais drinques) o risco era ainda maior: ficava nos 22%, ou seja: 78% de chance de desenvolverem algum tipo de demência.
Somos ou não somos obrigadas a juntar A com B?
Talvez alguém devesse mostrar esse estudo a Bush. Então, ele forçava a barra e admitia beber um bourbon vez por outra (afinal, até Noé entornava). Temos de tentar de tudo para fazer a paz e evitar mortes. É melhor para todo o mundo, principalmente para os negócios.
Como vivo de falar de bebidas, vinhos em particular, fico assustada com a presença de Aiatolás, mesmo anglo-saxões, acima de minha cabeça e com poderes de decretar o que der em suas cabeças dementes. Como, por exemplo, que as bebidas fazem parte do Eixo do Mal.
Vejam vocês que essa praga pega. O vinho foi o primeiro a pagar o pato. E vinho bom, o francês. Tem dono de restaurante jogando vinho francês em esgotos e rios. Estão também boicotando queijos franceses. E até mudaram o nome das batatas fritas (de Fritas Francesas para Fritas da Liberdade). Os funcionários alfandegários norte-americanos estão atrasando o desembarque de vinhos franceses, buscando falhas idiotas em rótulos para impedir a entrada.
O curioso é que os itens importados de outros países que acompanharam o voto francês contra a guerra não sofreram nada: o vinho e os Mercedes alemães, a vodca e o caviar russo, os restaurantes chineses, o vinho chileno, a tequila mexicana. E olha que os Estados Unidos são o país que mais exerceram o poder de veto em toda a história da ONU. É uma situação pra lá de ridícula.
Se essa crise já está sobrando pro bom vinho francês, talvez a coisa volte a ficar preta para a bebida no Oriente Médio. Sim, lá também se faz vinho e a bebida tem até um papel importante. O Líbano faz vinho desde o tempo dos fenícios. É de lá que vem um dos melhores tintos do mundo, o Château Musar, de uma vinícola fundada em 1930 e que aprendeu a fazer vinho entre bombas e tiros. Ela fica a uns 30 quilômetros ao norte de Beirute.
A produção e a qualidade do vinho de Israel só fazem crescer. E não fazem apenas vinhos kosher. Estão cada vez mais craques nos vinhos secos, nos cabernets, chardonnays e merlots. O Egito também é produtor, através do grupo Al Ahram. Quem voa pela Royal Jordanian Airlines pode beber vinho jordaniano a bordo.
O próprio Iraque produz vinhos, através das minorias cristãs. Uma comunidade de dissidentes curdos, os Yezidj (“Adoradores do diabo”), também faz um vinho muito parecido com o Madeira. Agora, com a guerra, tudo isso pode ou acabar ou sofrer mais um retrocesso.
Estou aqui, do meu santuário em Secretário torcendo para que Bush leia os estudos feitos por gente muito séria de seu país, tome uns goles, tenha uma conversa menos tensa com Deus e busque fazer a paz.
Agora, para que não se diga que estou sendo intolerante com o presidente americano, temos um problema sério com Sadam Husseim. Numa outra matéria da revista Atlantic, de autoria de Mark Bowden, sobre a vida privada do ditador, ficamos sabendo que ele gosta de tomar uma taça do super enjoativo Mateus rosé em suas refeições, o que justificaria uma intervenção – mas sem tropas, bombas, tiros, mortes etc.
Talvez solicitemos a Portugal que pare de vender esse vinho ao ditador. Que tente vender um Barca Velha: iria faturar mais e o pecado do ditador (o de consumir álcool) poderia ser bem mais compreensível.
O que você faria: enviaria o estudo sobre álcool e demência para Bush, pediria para Portugal proibir a exportação do intragável Mateus ou, num último recurso, apelaria a Deus para que os homens ficassem menos lelés e voltassem a ter boa vontade? Respostas aqui para o Bolsa ou para a Soninha no adegaebar@adegaebar.com.br.
