As amigas podem achar demais da conta, mas a Associação dos Assuntos da Gula, que reúne na França notáveis como o chef Paul Bocuse, está enviando petição ao papa João Paulo II para que ele retire a gula dos sete pecados capitais. O pedido deve estar chegando às mãos do Santo Padre agora, agorinha. Legal: ficaria bem mais fácil administrar apenas os seis restantes: a avareza, a ira, a preguiça, a luxúria, a soberba e a inveja. Elas seriam tratadas como velhas amigas e companheiras. Bem como a companheira e pesadelo de sempre, a nossa gula, e as gorduras em excesso e a abolição dos espelhos em nossas casas.
Os franceses, liderados pelo que consideram o maior padeiro do mundo, o mestre francês Lionel Poilane (morto recentemente num acidente de helicóptero), estão em campanha feroz buscando a reabilitação da gula, que é “la gourmandise”, em francês. A petição será apresentada ao Papa pela filha do mestre panificador, representando chefs, escritores e celebridades preocupadas com a eventual fatilidade dos prazeres que levam à gula.
Vocês podem estar achando que os franceses estão preocupados, por exemplo, com os 120 milhões de americanos que estão ou acima do peso ou obesos, pois só comem frituras, fritas e hamburgers acima dos limites; bebem refrigerantes além do normal, consumido 100 ou mais calorias de alimentos acima do que qualquer nutricionista poderia imaginar.
Não, não pensem também que a associação francesa está esquecida dos 40 milhões de africanos que estão morrendo de fome. Ou que está retirando o seu apoio à população de Oaxaca, uma cidade mexicana tombada pela Unesco como patrimônio mundial. O pessoal de lá conseguiu fazer com que o McDonald’s desistisse de abrir uma filial de seu fast food no centro histórico da cidade. Na cidade de Santa Fé, na Califórnia, o pessoal também conseguiu fechar outra loja do mesmo grupo.
Ou o grupo francês frontalmente se opõe ao projeto “Fome Zero” do nosso fofinho Lula? Afinal, eles não foram a Porto Alegre ou a Davos. Estão indo a Roma. Será que, no fundo, esses franceses abriram mão de controlar alimentos geneticamente modificados. Na Índia, agora, agorinha, o governo recusou a receber uma grande carga de soja e milho dos Estados Unidos (eles não mandam apenas marines). Segundo o jornal “Hindustan Times”, mil toneladas desses grãos não tinham o certificado de que não eram geneticamente modificados. Daí que ficaram de fora.
Não, a Associação francesa busca, na verdade, um refinamento. Trata-se essencialmente de um problema lingüístico. Conforme explicam os franceses, “gourmandise” chegou a significar comer e beber em excesso – o que mereceu um capítulo entre os sete pecados capitais da igreja católica – isso apesar de termos, ao correr de toda a história, uma infindável galeria de padres gorduchos (e com narizes vermelhos atestando a presença do vinho santo).
Hoje, “gourmandise” é associada a viver bem socialmente, com estilo. Uma outra palavra, “gloutonnerie” (glutonaria) traduziria o pecado mais exadamente, dizem os franceses. A Associação tem uma penca de gente da maior importância, como o chef Alain Ducase, os escritores Laure Adler e Jean-François Revel, o iatista Oliver de Kersauson e Helene Carrere d’Encausse, membro da Academie Française. Todsos buscando um reparo que substitua “gourmandise” das bulas sacrossantas.
A presidente da Associação, Catherine Soulier, afirma que a “gloutonnerie” não apresenta qualquer possibilidade de sociabilidade, enquanto a “gourmandise”é toda pelo prazer da comunhão. Em inglês, a palavra “gourmand” significava originalmente glutão. Seu significado mudou com a palavra “gourmet”, que se origina do francês antigo e cujo significado era a de um provador de vinhos e amante de comidas finas.
Em português, já que continuamos ainda tão jovens, não temos essas sutilezas. Semanticamente, não distinguimos perfeitamente quem come finamente de quem devora um caldeirão. Glutão é, infelizmente, apenas glutão. Ele é quem se empanturra. Só que aqui o glutão pode ser também quem come muito, como quem rouba muito. E fabrica contas em Luxemburgo ou na Suíça ao arrepio (ou sob a proteção) da lei. Atitude que deixariam nossos franceses sem apetite, pelo menos os dessa associação. Mas essa interpretação da gula é mundial. Todos buscam se locupletar como diria o inesquecível Stanislaw Ponte Preta.
Os sete pecados capitais foram formulados pela primeira vez pelo papa Gregório I, no século VI, em razão do perigo que supostamente causavam à espiritualidade da humanidade. Soberba, inveja, luxúria, preguiça, gula, ira e avareza: uns dois minutinhos no shopping e temos hoje uma invejável colheita desses pecados a cada dia.
As amigas o que acham? É melhor morrer de gula do que de fome? Da irrefreável vontade de beber e comer normalmente opõem a moderação – moderação para aceitar os seus limites naturais, aquilo que você efetivamente pode e deve consumir, com prazer.
O que não pertence apenas ao departamento das comidas e bebidas, mas a outros bens e até à companhia de outros. Quem você já comeu apenas por gula? O físico J. Roberto Oppenheimer dizia que o otimista pensa que esse é o melhor dos mundos. O pessimista teme que seja verdade. A verdade é que os sete pecados continuam disputando a liderança até hoje. Quem quer que seja vitorioso, estamos fritas, amigas.
Mas claro que tratamos aqui de comer e beber no sentido proposto pelos franceses: o de associar “gourmandise” ao viver bem socialmente, a um estilo de vida, ao prazer em cada mesa e em cada copo. O que acham as amigas: a gula merece ser riscada; não será mais um pecado capital? A gula é apenas um desejo que não se transforma em gordurinhas localizadas, nem em semanas em spas?
Ou o que faz engordar, na verdade, é a tensão provocada pelos outros pecados. Tensão que nos leva a esvaziar a caixa de bombons? Por favor, sua opinião é importante. Clique para o Bolsa de Mulher ou para a Soninha (soniamelier@adegaebar.com.br).
