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Gula, sem pecado

by soniamelier em 30 de janeiro de 2003 | 21:00

As amigas podem achar demais da conta, mas a Associação dos Assuntos da Gula, que reúne na França notáveis como o chef Paul Bocuse, está enviando petição ao papa João Paulo II para que ele retire a gula dos sete pecados capitais. O pedido deve estar chegando às mãos do Santo Padre agora, agorinha. Legal: ficaria bem mais fácil administrar apenas os seis restantes: a avareza, a ira, a preguiça, a luxúria, a soberba e a inveja. Elas seriam tratadas como velhas amigas e companheiras. Bem como a companheira e pesadelo de sempre, a nossa gula, e as gorduras em excesso e a abolição dos espelhos em nossas casas.

Os franceses, liderados pelo que consideram o maior padeiro do mundo, o mestre francês Lionel Poilane (morto recentemente num acidente de helicóptero), estão em campanha feroz buscando a reabilitação da gula, que é “la gourmandise”, em francês. A petição será apresentada ao Papa pela filha do mestre panificador, representando chefs, escritores e celebridades preocupadas com a eventual fatilidade dos prazeres que levam à gula.

Vocês podem estar achando que os franceses estão preocupados, por exemplo, com os 120 milhões de americanos que estão ou acima do peso ou obesos, pois só comem frituras, fritas e hamburgers acima dos limites; bebem refrigerantes além do normal, consumido 100 ou mais calorias de alimentos acima do que qualquer nutricionista poderia imaginar.

Não, não pensem também que a associação francesa está esquecida dos 40 milhões de africanos que estão morrendo de fome. Ou que está retirando o seu apoio à população de Oaxaca, uma cidade mexicana tombada pela Unesco como patrimônio mundial. O pessoal de lá conseguiu fazer com que o McDonald’s desistisse de abrir uma filial de seu fast food no centro histórico da cidade. Na cidade de Santa Fé, na Califórnia, o pessoal também conseguiu fechar outra loja do mesmo grupo.

Ou o grupo francês frontalmente se opõe ao projeto “Fome Zero” do nosso fofinho Lula? Afinal, eles não foram a Porto Alegre ou a Davos. Estão indo a Roma. Será que, no fundo, esses franceses abriram mão de controlar alimentos geneticamente modificados. Na Índia, agora, agorinha, o governo recusou a receber uma grande carga de soja e milho dos Estados Unidos (eles não mandam apenas marines). Segundo o jornal “Hindustan Times”, mil toneladas desses grãos não tinham o certificado de que não eram geneticamente modificados. Daí que ficaram de fora.

Não, a Associação francesa busca, na verdade, um refinamento. Trata-se essencialmente de um problema lingüístico. Conforme explicam os franceses, “gourmandise” chegou a significar comer e beber em excesso – o que mereceu um capítulo entre os sete pecados capitais da igreja católica – isso apesar de termos, ao correr de toda a história, uma infindável galeria de padres gorduchos (e com narizes vermelhos atestando a presença do vinho santo).

Hoje, “gourmandise” é associada a viver bem socialmente, com estilo. Uma outra palavra, “gloutonnerie” (glutonaria) traduziria o pecado mais exadamente, dizem os franceses. A Associação tem uma penca de gente da maior importância, como o chef Alain Ducase, os escritores Laure Adler e Jean-François Revel, o iatista Oliver de Kersauson e Helene Carrere d’Encausse, membro da Academie Française. Todsos buscando um reparo que substitua “gourmandise” das bulas sacrossantas.

A presidente da Associação, Catherine Soulier, afirma que a “gloutonnerie” não apresenta qualquer possibilidade de sociabilidade, enquanto a “gourmandise”é toda pelo prazer da comunhão. Em inglês, a palavra “gourmand” significava originalmente glutão. Seu significado mudou com a palavra “gourmet”, que se origina do francês antigo e cujo significado era a de um provador de vinhos e amante de comidas finas.

Em português, já que continuamos ainda tão jovens, não temos essas sutilezas. Semanticamente, não distinguimos perfeitamente quem come finamente de quem devora um caldeirão. Glutão é, infelizmente, apenas glutão. Ele é quem se empanturra. Só que aqui o glutão pode ser também quem come muito, como quem rouba muito. E fabrica contas em Luxemburgo ou na Suíça ao arrepio (ou sob a proteção) da lei. Atitude que deixariam nossos franceses sem apetite, pelo menos os dessa associação. Mas essa interpretação da gula é mundial. Todos buscam se locupletar como diria o inesquecível Stanislaw Ponte Preta.

Os sete pecados capitais foram formulados pela primeira vez pelo papa Gregório I, no século VI, em razão do perigo que supostamente causavam à espiritualidade da humanidade. Soberba, inveja, luxúria, preguiça, gula, ira e avareza: uns dois minutinhos no shopping e temos hoje uma invejável colheita desses pecados a cada dia.

As amigas o que acham?  É melhor morrer de gula do que de fome? Da irrefreável vontade de beber e comer normalmente opõem a moderação – moderação para aceitar os seus limites naturais, aquilo que você efetivamente pode e deve consumir, com prazer.

O que não pertence apenas ao departamento das comidas e bebidas, mas a outros bens e até à companhia de outros. Quem você já comeu apenas por gula? O físico J. Roberto Oppenheimer dizia que o otimista pensa que esse é o melhor dos mundos. O pessimista teme que seja verdade. A verdade é que os sete pecados continuam disputando a liderança até hoje. Quem quer que seja vitorioso, estamos fritas, amigas.

Mas claro que tratamos aqui de comer e beber no sentido proposto pelos franceses: o de associar “gourmandise” ao viver bem socialmente, a um estilo de vida, ao prazer em cada mesa e em cada copo. O que acham as amigas: a gula merece ser riscada; não será mais um pecado capital? A gula é apenas um desejo que não se transforma em gordurinhas localizadas, nem em semanas em spas?

Ou o que faz engordar, na verdade, é a tensão provocada pelos outros pecados. Tensão que nos leva a esvaziar a caixa de bombons? Por favor, sua opinião é importante. Clique para o Bolsa de Mulher ou para a Soninha (soniamelier@adegaebar.com.br).

Mesa limpa

by soniamelier em 23 de janeiro de 2003 | 21:00

O que falta responder? Querem saber como resolvo problemas de ressaca. Todo início de ano é isso: muitas perguntas sobre o que acontece depois da festa. Só acontece, bem dizendo, se não soubemos controlar a quantidade de bebida. A Internet está cheia de sites sobre ressaca. É só procurar em “hangover” e, pronto: vamos dar de cara com as mais variadas soluções, com curas miraculosas etc. e tal. Contudo, nenhuma dessas curas tem comprovação médica ou científica. Não há cura para quem se maltrata.

Ainda as ressacas

Para evitar a ressaca só existem três possibilidades:
1) Você não bebe nada durante a festa; fica nos sucos e refrigerantes, aturando aqueles que bebem;
2) Bebe moderadamente e toma alguns cuidados durante a festa;
3) Bebe o quanto quiser e cuida da ressaca na manhã seguinte.

A terceira opção é enganosa: há pouco o que fazer, a não ser tentar acalmar os sintomas e esperar que o seu sistema fique desintoxicado. Dor e paciência. A primeira só mesmo para radicais abstêmios. A segunda solução me parece a mais recomendada.

A maioria das ressacas acontece porque bebemos muito e rapidamente. Não interessa o que você bebeu ou se você misturou. Isso não tem qualquer influência. O que importa é a quantidade de álcool que você ingeriu e em que espaço de tempo.

Bebeu muito e rapidamente, o nosso fígado não vai conseguir digerir o que deve. É igual a caixa de banco na hora do assalto: entrega tudo, até a esferográfica. O limite de um fígado é um drinque por hora (mais ou menos 8 gramas de álcool puro: uma dose de uísque, por exemplo).

Se beber muito e rapidamente, os vasos sangüíneos que banham nosso cérebro incham e pressionam os sensíveis nervos dessa região. É o que causa aquela inesquecível e retumbante dor de cabeça. Um bate estaca sem precisar ir à boate da moda.

O álcool é um diurético: ele faz você urinar e suar mais. Você vai ficar desidratada, o que vai piorar ainda mais a sua dor de cabeça. Logo, se acha que seu estado vai melhorar tomando um café bem forte na manhã seguinte, esqueça. O café também é um diurético. A dor de cabeça pode melhorar com água, muita água e eventualmente com um remedinho para dor de cabeça.

Se você resolver misturar bebidas, comece pela cerveja, pois ela será absorvida mais rapidamente pelo corpo do que os destilados. Mas, atente, as misturas não são responsáveis por quaisquer estragos.

Tomar vitamina C ajuda, pois reduz os níveis de álcool no organismo. Nunca beba com o estômago vazio. A comida absorve uma parte do álcool consumido e ajuda a digeri-lo mais rapidamente.

Beba muita água antes de dormir. E descanse o máximo que puder. Viu, leitora, o negócio é beber, sim, mas sabendo que seu limite não deve passar o de um drinque por hora. E preste atenção nos barmen: eles querem ver nossa caveira e vão especialmente reforçar os nossos drinques.

O vinho e o tempo

Leitora quer saber quando vale a pena deixar o vinho envelhecer. Muita gente acha que qualquer vinho melhora com o tempo. Algumas pessoas acreditam até mesmo que possam lucrar com isso: o vinho mais velho ganha valor de mercado.

Querida: só uma pequena, pequeníssima fração dos vinhos produzidos no mundo são feitos para ser guardada, “envelhecida” como dizemos. Assim, esses vinhos vão ganhar mais aromas e mais sabores. E mais: valor, podendo valer fortunas depois de anos na adega, desde que armazenados direitinhos. Na vertical, no escuro, numa temperatura constante de 13º C. A grande maioria desses vinhos é bem cara e são tintos, em sua maioria.

Mas provavelmente 99% dos vinhos em todo o mundo são feitos para serem bebidos logo. Não quer dizer que não possam ser guardados por meses até mesmo por um ou dois anos. Mas, como todas as frutas, todos os alimentos, eles foram feitos para serem bebidos jovens. O frescor aqui é a sua maior virtude.

O problema de nós todas é saber quando um vinho fica melhor se ficar um tempo maior na adega. Você tem que prová-lo: se ele apresentar uma combinação de taninos (vai saber pela sensação de adstringência, de enrugamento na sua boca), mais sabor de frutas e uma acidez bem equilibrada, esse vinho tem uma razoável condição de melhorar com o tempo.

La Tour ou Latour?

Leitora afirma que conseguiu comprar um “La Tour” por “apenas” R$ 40,00. E agora pergunta se esse vinho é falsificado. Se é “the real thing”, pois achou o preço anormalmente baixo.

Querida, vinhos com nomes similares e até duplicados é o que não faltam em Bordeaux e, de resto, em toda a França e em todo o mundo. O vinho famoso em questão é o Château Latour, que custa 350 dólares, pelo menos (estou falando da safra de 98).

Mas, amiga, não se incomode. Ninguém enganou ninguém na sua compra. Você, quase que com certeza, comprou o Domaine de La Tour, um Bordeaux genérico da região de Entre-Deux-Mers. O nome é parecido com o fabuloso vinho de Pauillac, do Château Latour, mas não foi criado assim de propósito.

O nome Domaine La Tour tem uma história que começa no ano de 1400. Então, ninguém pode falar de apropriação indevida. Se quiser comprar um “Latour”, o vinho famoso de 350 dólares, tente familiarizar-se mais com seu rótulo. E com um fato de que um Bordeaux famoso jamais custaria 40 pratas.

Vinho no seriado

Leitora noveleira pergunta qual é o vinho que se toma na série “A Casa das 7 Mulheres”, a atual superprodução da Globo. Pelo que a produção da novela enviou (e confirmado pela minha amiga Denise Cavalcanti, assessora de imprensa), o vinho utilizado é o dos Vinhos Salton, vinícola em ascensão lá do nosso Rio Grande do Sul, onde continuam bebendo Farrapos e Maragatos.

Qual o copo?

Leitora quer saber qual o copo certo para um Prosecco. Todo o espumante, esse italiano inclusive, deve adotar a tulipa normal utilizada para os champanhes. A diferença não poderá ser feita no copo, portanto.

Os verdes de sempre

Quem quiser retomar o (bom) gosto de desfrutar de um vinho verde português, favor entrar em contato com a Interfood (11- 3341-7255), que está trazendo para o país verdes recomendados por autoridades como a revista Wine Spectator. Experimente do Aveleda Trajadura, da vinícola Quinta da Aveleda, famosa pela produção o também verde Casal Garcia, talvez o mais famoso vinho desse estilo aqui no Brasil. Um vinho fresco, com aroma floral, que pode ser servido como aperitivo ou acompanhando pratos de peixe, mariscos, saladas e aves, servidos entre 8º e 10º C. Uma presença obrigatória nesse nosso verão.

Mais italianos

Já a Débora Capelo (12-3922-6633) informa que é a importadora exclusiva da vinícola Friulvini, da região do Friuli, Itália. Coloca à disposição seus Chardonnay, Cabernet Sauvignon, Pinot Grigio, Refosco, Merlot, Bardolino, além de espumantes. Vale dar uma experimentada.

Bom, acho que já arrumei o que pude da minha mesa. Semana que vem é continuar na luta.



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