Se você chegou até o Bolsa de Mulher, é porque certamente tem bom gosto. Logo vai incluir o vinho entre seus presentes de Natal. Uma atitude sábia e de resultados pra lá de garantidos. O problema de sempre é saber quais vinhos comprar. Mas não é que a Associação Brasileira de Sommeliers, São Paulo, resolveu esse grande problema para nós? Nesse Natal, não saia de casa sem antes dar uma passadinha pelo site da ABS/SP (http://www.abs-sp.com.br) e consultar o seu excelente “Guia do Vinho Brasileiro – 2002/2003″.
Foi feito com base em degustações severamente controladas, realizadas no 1º semestre de 2002, a partir de amostras compradas no varejo de Bento Gonçalves, Farroupilha, Garibaldi, Caxias do Sul e em lojas de SP. O corpo de degustadores trabalhou com cinco níveis de notas. Abaixo de 50 pontos, vinhos mal elaborados; entre 70 e 79, vinhos honestos, sem defeitos; entre 80 e 89, vinhos bons, mas podendo chegar a muito bons (85 a 89). Entre 90 e 100 pontos, vinhos raros, potentes, elegantes, complexos, o melhor dentro de um estilo.
A safra de 97 foi difícil em razão das chuvas, da umidade e da baixa insolação. Melhor aqui para as uvas de maturação precoce: Chardonnay, Gewürztraminer e Pinot Noir. Em 98, tivemos também complicações (como também o Chile e a Argentina) resultantes do El Niño, com chuvas acima do normal. Já 1999 registrou uma das melhores safras da década, com poucas chuvas, mais o tempo seco e ensolarado, favorecendo a floração e o desenvolvimento do fruto. Em 2000 a safra favoreceu as uvas de maturação intermediária (como a Merlot), num período de baixa precipitação e com dias ensolarados. Com um inverno mais intenso e mais duradouro, a safra de 2001 beneficiou mais as uvas de maturação tardia, como a Cabernet Sauvignon. A safra de 2002 foi muito boa, com inverno menor e temperaturas mais elevadas na colheita, dando mais força às uvas de maturação precoce (Chardonnay etc.).
Destaques. O “Guia do Vinho Brasileiro – 2002/2003″ é bastante farto e variado. Vamos tentar oferecer um resumo dos seus destaques.
Chardonnay. Compre os vinhos dessa varietal a partir da safra de 1999, recomenda o Guia. A partir daquele ano houve melhora no manuseio da uva, que também recebeu melhor tratamento durante a vinificação, com dosagem correta do carvalho, evitando disfarçar defeitos e expondo melhor o sabor da varietal.
Os vinhos com melhor pontuação foram:
Reserva Miolo Chardonnay 99, com 77,54 pontos, foi considerado pelos degustadores como “talvez o vinho que melhor represente a expressão da Chardonnay no Brasil, com cor amarelo-ouro intensa e agradáveis aromas de frutas tropicais maduras…”.
Reserva Boscato Chardonnay 2000, com 77,35 pontos, “com aromas de frutas maduras, carvalho tostado, anis e manteiga”.
Casa Valduga Excellence Gran Reserva 2001, com 76,9 pontos, belo amarelo-ouro, boa intensidade, intensos aromas de frutas maduras e corpo médio, informa o Guia.
Salton Classic Chardonnay 99, com 76 pontos, “um vinho bem elaborado, de veemente amarelo palha … e intensos aromas de frutas tropicais…”.
Assemblage Brancos. O Guia achou essa categoria com baixo desempenho e com vinhos pouco interessantes para o consumidor. Os vinhos melhores pontuados aqui foram:
Amadeu Selectus, com aromas de baunilha, elevada acidez e alto teor alcoólico. Teve 75,7 pontos.
Miolo Seleção Branco. Com corpo médio, aromas de baunilha, coco, gengibre e especiarias. Nota: 73,4.
Gewürztraminer. Uva bem adaptada ao Brasil, com vinhos de menor corpo e menor teor alcoólico – o que, lembra o Guia, “acaba sendo uma vantagem, tornando-os mais apropriados ao nosso clima”. Os vinhos relevantes são:
Salton Classic 1999, com um amarelo palha, aromas típico dessa uva, lembrando rosas e lichia. Bom corpo, certo predomínio do álcool sobre a acidez. 78,1 pontos.
Salton Classic 2000. Aromas de rosas e lichia, corpo médio: 77,4 pontos.
Aurora Gewürztraminer Varietal 2001. Aromas típicos, corpo leve, agradável retro-olfato. Conseguiu 73,9 pontos.
Riesling. O Guia considera que “com raras exceções, os vinhos desta varietal pecam por falta de concentração e de mais caráter”. Acha que a Riesling no Brasil é mais adequada para espumantes. Destaques:
Navarro Correa Riesling 2000. Aromas de maçãs, corpo leve e equilibrado: 74,2 pontos.
Clos de Nobles Riesling 2001. Aroma floral com toque de baunilha. Corpo leve e boa acidez: 73,8 pontos.
Sauvignon Blanc. Categoria que não tem ainda, no Brasil, expressão que chegue perto da verdadeira personalidade dessa uva. Os melhores pontuados foram:
Salton Classic Sauvignon Blanc 2001. Cor de ouro velho, aromas com toques de baunilha e coco e corpo médio. Ganhou 76,1 pontos.
Casa Valduga Gran Reserva Sauvignon Blanc 2001. Cor esverdeada, aromas herbáceos, corpo médio, equilibrado: 75,6 pontos.
Reserva Miolo Sauvignon Blanc 2000, com 71,31 pontos. “Pouca fruta e aromas de manteiga num vinho de pouca acidez, amargor e pouca persistência”.
Malvasia. É nome de uma variedade branca muito antiga, originária da Grécia e hoje utilizada especialmente na Espanha e na Itália. Na Europa, produz vinhos com alto teor alcoólico e, com freqüência, açúcar residual. A Malvasia di Cândia é também uma uva histórica, mas distinta das subvariedades da Malvasia. Começa a ganhar força, mais uma vez, nos vinhedos da ilha da Madeira, quando era a variedade utilizada para produzir o Malmsey. A Malvasia, em qualquer de suas versões, não produziu nada de interessante. Os vinhos melhores pontuados foram:
Valmarino Malvasia Bianca 2001, com 74,7 pontos. Aromas florais e herbáceos, corpo leve, predomínio do álcool.
Don Laurindo Malvasia de Cândia 2001, com 73,7. Equilibrado, aromas herbáceos, corpo médio.
Chenin Blanc. Originária da França, a Chenin é talvez a mais versátil uva do mundo, capaz de produzir ótimos vinhos doces e servir como vinho de mesa entre outras possibilidades. Destaque para:
Botticelli Chenin Blanc 1999. Aromas florais e frutados, corpo leve, muito refrescante: 73,9 pontos.
Sémillon. Uva originária do sudoeste francês, tradicional parceira da Sauvignon Blanc nos brancos daquele país, produziu apenas um vinho de destaque aqui: o Versec Pompéia Sémillon 1999, com 67,46 pontos.
Trebbiano. Conhecida também como Ugni Blanc e a mais plantada uva branca da Itália, no Brasil produziu poucos vinhos de interesse:
Monte Lemos “Do Lugar” Trebbiano 2001. Aromas de frutas secas, corpo médio: 71,5 pontos.
Dal Pizzol “Do Lugar” Trebbiano 2000, com 71,15 pontos.
Vinhos Doces (Licorosos). O Guia destaca o esforço de se começar a produzir esse estilo de vinhos no Brasil (e em alta em todo o mundo). Sobressaíram-se aqui:
Terranova Late Harvest 2000. Aromas intensos de frutas secas, caramelo e coco queimado. Macio, com o álcool e o açúcar predominando sobre a acidez: 76,5.
Casa Cordelier. Aromas típicos da Moscatel, com notas florais. Bom equilíbrio entre álcool e açúcar: 76,2 pontos.
Aurora Ratskeller 1999. Com doçura média, boa acidez e bom corpo. Aroma discreto de frutas maduras. Nota: 75,65.
Miolo Terranova Late Harvest 2000. Feito a partir da Moscatel, mas com pouca doçura, acidez média, maciez e aromas cítricos. Nota: 75,38.
Cabernet Sauvignon. Informa o Guia que a tradicional Cabernet Sauvignon não repetiu este ano a mesma atuação registrada no Guia de 2001. Acha que os vinhos da safra de 1999 são “ainda muito superiores”. Destaques:
Gran Reserva Marson Cabernet Sauvignon 1999. É considerado o melhor Cabernet Sauvignon do ano, com uma bela cor rubi, aromas de frutas escuras e maduras, elevada acidez, bom corpo, com taninos ainda presentes e muito macio. “Um vinho bastante representativo da varietal, mostrando o potencial da uva quando colhida em condições adequadas de maturidade…” Ganhou 78,9 pontos.
Pizzato Cabernet Sauvignon 2000. Mais um bom vinho da excelente Vinícola Pizzato. Rubi de boa intensidade, aromas de frutas escuras maduras, com notas de chocolate. Boa acidez, bom corpo, boa concentração de frutas e com taninos médios. “Um bom trabalho do enólogo na vinificação”, arremata o Guia. Pontos: 77,7.
Miolo Reserva Cabernet Sauvignon 1999. Belo exemplar da uva, com uma cor granada, aromas de geléia de framboesa e morango. Boa acidez, álcool elevado, bom corpo, maciez e taninos médios: 77,6 pontos.
Boscato Cabernet Sauvignon 1999. Empatou com o Miolo: 77,6 pontos. Cor púrpura, aromas frutados, acidez média, corpo leve, taninos médios ainda presentes.
Merlot. A Merlot, uva tinta que está na moda, mostrou em 2002 um desempenho melhor do que em 2001, segundo o Guia, que informa ainda que “a safra de 2002 foi excepcional para a Merlot e poderemos ter surpresas muito agradáveis num futuro próximo”. Atenção para:
Marco Luigi Merlot 1999. “Um belíssimo exemplar desta prestigiada uva”. Cor de um intenso rubi, aromas muito interessantes de frutas escuras maduras, notas florais e toques de coco e chocolate. Boa maciez e sensação de doçura, além de uma refrescante acidez e taninos muito finos e maduros. Ganhou 81,4 pontos.
Pizzato Merlot 1999. A Vinícola Pizzato foi inaugurada em 1998 e virou um mito. Seus Merlots estão virando itens de colecionador. Vem com cor rubi, aroma intenso de frutas escuras e um toque de chocolate. Acidez e álcool equilibrados, taninos ainda presentes. Conseguiu 80,3 pontos.
Miolo Merlot Reserva 1999. Cor rubi de boa intensidade, aromas com toques de ervas e toques de chocolate. Acidez e taninos médios. Nota: 77,3.
Shiraz. É uva tinta original do Vale do Ródano, França, mas que aqui está sendo produzida no Vale do São Francisco, no nordeste. Mas, acha o Guia, “este ano ficou devendo”, pois as duas únicas amostras “mostraram um preocupante amargor final que coloca em dúvida o potencial de qualidade desta uva plantada numa região pouco adequada para o cultivo de uvas viníferas, com a honrosa exceção da Moscatel”. Não temos dúvidas em endossar essa posição. No Vale, só mesmo uvas de sobremesa. Temos, então:
Lovara Shiraz 2000. Aromas muito agradáveis, com frutas escuras maduras. Macio, com taninos médios: 76,2.
Terranova Shiraz 2001. Aromas de frutas escuras maduras e de especiaria, corpo médio e boa acidez. Intenso amargor final: 75,2.
Ancellotta. Uma novidade no mercado, uma uva tinta de origem italiana (vem da Emilia-Romagna e do Lambrusco), a Ancellotta é valorizada pela sua cor profunda e utilizada em blendings. Destaque:
Don Laurindo Ancelotta 2000. Na boca é muito potente, com acidez e álcool muito elevados, bem como seus taninos, de qualidade média: 73,1 pontos.
Tannat. O Guia lembra que essa uva foi a melhor surpresa nas degustações de 2001. Originária do Madiran, no sudoeste da França, esta potente uva, muito escura, sentiu os efeitos do clima desfavorável em 2000. Contudo, a varietal, diz o Guia, tem bom potencial para se desenvolver no Brasil. Atenção para:
Salton Classic Tannat 2000. Com intensa cor violácea e bons aromas de frutas escuras: 77,5 pontos.
Pinot Noir. Uma uva difícil, como mostras de não se aclimatar por aqui, pelo menos até o momento. Já não é fácil lidar com ela na Borgonha, sua terra natal. O Guia acha que seu destino, como a Riesling, deve ser na produção de espumantes. A ser notado:
Miolo Reserva Pinot Noir 2001. Cor granada, com aromas de frutas e especiarias. Acidez adequada e taninos de média qualidade: 77,9 pontos.
Gamay. A popular uva originária de Beaujolais apresentou apenas um único destaque:
Don Laurindo Gamay 2001. Com intenso rubi, aromas de frutas, boa acidez e corpo leve: 72,5.
Espumantes – Secos. Os “brut” brasileiros aparecem em posição inferior à conseguida em 2001, talvez em razão das safras de 2000 e 2001. Atenção para:
Chandon Excellence Brut Reserva. O Guia o considera o melhor espumante brasileiro, com espuma adequada e bolhas pequenas, aromas de leveduras e ervas frescas, fino e elegante: 79,6 pontos.
Don Giovanni Branco Brut 1997. Cor de ouro velho, um “belo espumante”, com aromas de frutas em compota, boa acidez e bom corpo: 77,9.
Prosecco. Essa varietal italiana está indo muito bem no Brasil. Atenção para:
Prosecco Salton Brut 2002. O Guia o considera um “notável exemplar desta varietal”, com cor esverdeada, boa perlagem e aromas de frutas frescas. Ganhou uma senhora nota: 80 pontos.
Nas próximas colunas estaremos dando dicas de bons locais de compras, destes e de outros vinhos. Qualquer dúvida quanto ao Guia de Vinhos da ABS/SP é só clicar para o Bolsa ou para o Adega & Bar (http://www.adegaebar.com.br/).