Andréa Leite é estudante de jornalismo na Hélio Alonso, no Rio. Trabalha de dia, estuda à noite, encontra tempo para cuidar do filhote, e ainda precisa fazer uma reportagem sobre o papel da mulher no mundo dos vinhos. É um mundo masculino, a mulher sofre resistências para penetrar nesse nicho? Leu alguma coisa aqui na Soninha a respeito de discriminação e preconceito atrapalhando a relação das mulheres com o vinho e resolveu, como boa repórter, fazer perguntas.
Então vamos tentar respondê-las.
Andréa Leite – Num de seus artigos você comentou que as mulheres são esquecidas ou relegadas, principalmente quando se trata de manifestar seu gosto pelo vinho, que na maioria das vezes é escolhido pelo parceiro. Gostaria de saber sua opinião sobre porque isso ainda acontece, mesmo que a mulher seja independente e até uma conhecedora do assunto.
Sonia Melier – Nos Estados Unidos as mulheres são responsáveis pela compra de 70 a 80% de todos os produtos e por 60% dos vinhos vendidos em lojas e supermercados em todo o país. Índices semelhantes são encontrados na Inglaterra, na África do Sul, na Austrália. Como não tenho dados sobre a relação das brasileiras e a venda de vinhos, posso imaginar que os números sejam semelhantes – já que aqui também é a mulher a principal responsável pelas compras da casa.
O dado mais importante, relativo à discriminação, é que os lojistas, tanto lá quanto aqui, tratam as mulheres alguns degraus abaixo dos homens. Para estes, tapete vermelho. Toda a atenção é dada. Afinal, os homens, sim, entendem de vinho. Agora, as mulheres não sabem onde estão se metendo. Então, eu, lojista, vou oferecer um vinho qualquer e pronto.
Olha que esses dados são de um importante levantamento realizado pela Rossman, Graham Associates, empresa de consultoria de marketing e vendas de vinhos e destilados, baseada em Nova York. Marlene Rossman é também presidente da Women for WineSense, capítulo de NY.
O Women for WineSense (“Mulheres pelo Sentido do Vinho”, numa tradução livre) é uma organização educacional, sem fins lucrativos, com a missão de promover os benefícios do consumo moderado de vinho, apoiar o sucesso e o desenvolvimento de homens e mulheres no comércio do vinho e promover um fórum relacionado ao ensino do vinho e seu conhecimento pelo público. E a colocar os lojistas, pelo menos os norte-americanos, no seu devido lugar.
A pesquisa mostra que, entre as consumidoras de vinhos caros e de preços médios, 57% preferem vinhos tintos, 30% os brancos, 9% os rosés e 6% os espumantes. Somente 5% são influenciadas por publicidade, críticos de vinhos. E, principalmente, que 40% desse universo quer aprender mais sobre vinho. Ou seja: são dados que vão contra qualquer preconceito. Que demonstram a ignorância dos lojistas (e, de resto, de garçons, maitres, sommeliers) com relação ao que preferem as mulheres.
É mulher? Um vinho branco qualquer. Ou um rosé! Estão perdendo clientes e vendas. E, principalmente, estão perdendo o respeito.
As mulheres, como os homens, querem tomar um bom vinho. E ponto. O pensamento é que o homem escolhe o vinho e a mulher certamente vai tomar um branco ou um refrigerante. E olhe lá.
Se isso acontece lá, imagine aqui. Aqui, as mulheres ainda fazem seus pedidos aos seus parceiros, que os repassam aos garçons, maitres etc. Mais por uma questão de, digamos, educação. Lá, as mulheres estão se organizando mais, se unindo, procurando se informar, se educar. Aqui ainda não temos associações como a da Sra. Rossman. Mas isso já está acontecendo.
Temos associações femininas voltadas para quase tudo. Logo, logo, o vinho entra em cena. Basta entrar em qualquer sala de aula, basta entrar em qualquer escritório para confirmar que as mulheres presentes ou estão dando aulas, ou são as gerentes ou estão preenchendo pelo menos metade das vagas. Agora, porque isso acontece?
Vamos voltar aos anos 50, ao auge da Rádio Nacional (o grande fenômeno de mídia da época), ao sucesso de vendas da “Revista do Rádio” (que circulou entre 1948 e 1970). Uma revista que falava da Emilinha, do Cauby Peixoto, da Marlene, do apresentador César de Alencar. Todos diziam que era apenas lida pelas empregadas. Mas eram as patroas que mandavam comprar e liam mais ou menos às escondidas. Ela tinha uma seção fixa dedicada às perguntas da semana. Colhemos aqui duas respostas dadas à pergunta: “Você gosta de mulher falando muito?”
Resposta do locutor José Garcia: “Muito pelo contrário: gosto das mulheres que não falam nada”.
Resposta do grande cantor Orlando Silva: “Deus me livre! Quando elas falam pouco só acertam até a metade … imagine-as falando muito!” (Essa curiosidade tirei de matéria sobre “Revista do Rádio – Cultura, fuxicos e moral dos anos dourados”, livro do coleguinha e pesquisador Rodrigo Faour, a ser lançado esta semana pela editora Rio Arte/Relume Dumará).
Ou seja: mulher tinha de ficar sempre à sombra. Calada e obediente. Esse era o pensamento da sociedade mundial, não só a brasileira, naqueles tempos. Nossa sociedade foi estruturada assim. O homem é o provedor. A mulher fica em casa, tomando conta dos tesouros, cozinhando e limpando. E fazendo filhos. De vez em quando ganha um carinho (mas só pode gozar – se conseguir – com discrição britânica).
A tradição católica ensina que as mulheres sejam receptivas, pacientes, que, enfim, esperem pela próxima visita do anjo. Ou seja: as mulheres são seres inferiores, vasos histéricos da procriação. Outras igrejas, aqui e outras partes do mundo, ensinam as mesmas coisas. Aquela história de igualdade entre homens e mulheres, do Concílio Vaticano II, com a igreja comunitária e igualitária, onde homens e mulheres seriam iguais na hierarquia, tal como prometida pelo Papa João XXIII, não se cumpriu. Não existe uma mulher “cardeal” ou “bispo”. Estão sempre abaixo nessa escala religiosa – responsável por fazer cabeças há séculos.
Vamos tomar como exemplo um nicho primo-irmão do vinho. O da comida. As mulheres não podiam trabalhar, ser profissionais da cozinha na Grécia e na Roma antigas. Mas os banquetes elegantes já eram símbolo de status social e de sucesso econômico. Essa atitude era um reflexo direto da tirania masculina tanto na sociedade grega quanto na romana, na qual as mulheres eram excluídas de reuniões públicas, proibidas de exercer qualquer profissão e confinadas em suas casas a maior parte do tempo. (Veja Lois W. Banner: “Why Women Have Not Been Great Chefs”, The South Atlantic Quarterly, primavera de 1991).
Embora as escravas pudessem fazer pão e realizar pequenas tarefas na cozinha, eram os escravos que planejavam os jantares supimpas, que criavam os pratos elaborados e sofisticados servidos. E que recebiam os aplausos dos convidados.
Já que as mulheres eram vistas como criaturas inferiores, os ricos romanos concluíam que os escravos comandando a cozinha somavam para seu status. Essa atitude espalhou-se pela hierarquia dos escravos. Na época de Júlio César, os escravos (incluindo os chefs) tinham muito maior status do que as escravas.
E assim foi ao longo dos tempos. Tornar-se um chef era uma maneira de rapidamente conquistar um melhor nível social. Taillevent, o cozinheiro do rei Carlos V, e autor do primeiro livro de receita francês, ganhou terras e um título de nobreza do rei. François Pierre de la Varenne fez fortuna como cozinheiro do rei Henrique IV. Vatel, filho de um trabalhador belga, ficou famoso mundialmente como cozinheiro-chefe do Príncipe de Conde. Antoinin Careme tornou-se a coqueluche como cozinheiro na Europa napoleônica. O grande Escoffier, filho de um ferreiro, tornou-se o mais conhecido e respeitado chef da Europa e da América do Norte.
Esses homens queriam segurar sua invejável posição: não passava pela cabeça deles deixar mulheres entrarem na sua seara, o que degradaria a sua profissão. Eles tinham que provar que eram diferentes dos cozinheiros comuns (ou seja: as mulheres); que não eram meros artesãos ou empregados (como as mulheres). Consideravam-se artistas, grandes criadores.
Formaram associações (as guildas) para proteger o seu status. Criaram símbolos como os chapéus estranhos que os chefs usam até hoje – colocando-os acima dos meros mortais, como diz o crítico Daniel Rostov (de onde estou recolhendo parte dessas informações). Das suas vestimentas aos seus salários e imagem projetada, esses chefs fizeram o possível para diferenciar-se dos cozinheiros comuns. E as mulheres ficaram associadas até hoje à cozinha caseira, simples. (Mas é essa cozinha caseira a marca nacional. Foram as escravas que marcaram a cozinha norte-americana e brasileira. Veja o exemplo das cozinhas Cajun e Creole nos Estados Unidos. Veja o efeito da feijoada em todo o Brasil. Veja o resultado da comida de família, a feita pelas tias e avós na França e na Itália).
Em 1952, a revista Holiday apresentou a sua primeira lista do que considerava “Os Melhores 100 Restaurantes da América”. Apenas duas mulheres figuravam como chefs naqueles restaurantes. Passados 40 anos, a lista incluiu apenas uma mulher, em 1992. Os Guias Michelin e o Gault-Millay premiam com estrelas centenas de restaurantes na França. Nenhuma das cozinhas premiadas tem uma mulher como cozinheira-chefe.
Como afirma o ótimo Rostov, o problema não é que as mulheres não sejam capazes de se tornar grandes chefs, nem que não queiram entrar nesse pedaço. “A triste verdade é que… esse papel não está disponível para elas. Esse é um domínio exclusivo dos homens”.
Exatamente a mesma história repetiu-se com os vinhos. Ser um mestre de vinhos, um sommelier, não está aberto para as mulheres. A palavra sommelier, no francês antigo, segundo Le Robert, Dictionnaire historique de la Langue Française, designa um condutor de “bête de somme”, de besta de carga. Depois, a palavra passou a designar o funcionário que transportava as bagagens nas viagens da Corte (1316) e, em seguida, por quem cuidava das roupas de cama, das baixelas, das provisões e da cave de vinhos. A partir de 1690, sommelier era, na Corte, o funcionário que preparava o serviço de mesa e de vinho (embora um copeiro o servisse). Estava a serviço dos chefs, portanto.
A palavra se aplica hoje à pessoa encarregada pelos vinhos num restaurante. Na lista dos ganhadores do concurso “Os Melhores Sommeliers do Mundo”, que existe desde 1969, não existe uma só mulher. Mas isso também está mudando. Este setor, como o dos chefs, não é mais exclusivo dos homens, em nenhuma parte do mundo. É típico dos homens criarem esses “Clubes do Bolinha”, coisa deles, alienações próprias de quem está perdendo o terreno. Sabem que abrindo a porta do clube vão encontrar uma Luluzinha.
Andréa Leite – Você tem notado um crescimento do interesse da mulher sobre vinhos? Você acredita que com esse aumento do interesse e com a participação cada vez maior das mulheres em cursos e degustações, elas passarão a se impor um pouco mais, dominando mais esse reduto masculino?
SM – Você viu, pela pesquisa da Marlene Rossman, que as mulheres já dividiram esse pedaço com os homens. Um dos mais importantes centros de ensino e de pesquisas sobre o vinho do mundo é a Universidade da Califórnia, na cidade de Davis (UC Davis, como o pessoal chama). Ela existe, na prática, para apoiar o desenvolvimento do plantio e da produção de vinhos nos Estados Unidos, em particular na Califórnia.
Pois pela primeira vez, agora em outubro, as mulheres representam praticamente a metade dos alunos inscritos no curso de MBA. São 48% de mulheres, o maior índice num programa de MBA numa das 50 maiores escolas do país. Esse crescimento já pode ser notado por aqui. Você já encontra jornalistas especializadas em restauração e vinhos. Já encontra mulheres chefs de sucesso, embora continuemos a importar franceses e italianos para algumas casas fazerem bonito.
Agora, ao lado de um Troigros, sempre muito badalado, você encontra uma mulher, como a mulher do próprio, a Marlene, criadora de pratos de sucesso na casa (por incrível que pareça, pratos de origem “caseira”) e gerente dos negócios do medalhado marido. Ela parou por aí? Não, Marlene também é líder de um grupo de mulheres, o Brazilian Professional Women, reconhecido pela ONU, cujo objetivo é abrir caminhos para profissionais mulheres, quaisquer que sejam os seus segmentos de atividades.
Os cursos por aqui não são muitos, mas, pelo que sei, seguem de perto os índices de Davis: pelo menos metade das inscrições é de mulheres. Agora: não vejo a coisa como você. Ninguém quer dominar redutos masculinos. O que se quer é não reconhecer, em qualquer atividade, um sexo dominante. Sou mulher e quero ser astronauta. Pois já temos lá na NASA algumas. O que não se pode é repetir a tradição masculina, de cada macaco no seu galho. Você, mulher, fica no tanque e eu vou no meu carro zero quilômetro com a camisa mais branca do que o branco paquerar a sua vizinha.
Vamos onde a necessidade de trabalho nos manda ir. A mulher teve de sair de casa – para mantê-la, para sobreviver, para educar as crianças. Para se vestir, alimentar e se divertir. Essas necessidades, todas de base econômica, explicam porque as mulheres não vão aceitar que exista um segmento do mercado de trabalho proibido para elas. O mesmo aconteceria com os homens, se a situação fosse inversa.
Temos hoje um conjunto de leis que reconhece todos esses direitos. Estamos começando a fazer uso dessas leis. Aprendendo a andar com nossos próprios pés, a fazer uso dessas conquistas – todas nossas, sem precisar queimar sutiãs.
Andréa Leite – Que dica você daria às mulheres para furarem esse bloqueio masculino?
SM – Continuar indo à luta. Acho que respondi essa pergunta na questão anterior. A resposta da próxima pode ajudar também.
Andréa Leite – É sabido que há uma legião de mulheres que comanda grandes vinícolas, mas mulheres enólogas ou sommeliers ainda são uma coisa rara de se encontrar?
SM – Não, não é mais. A UC Davis forma enólogos, entre outros técnicos especializados, através do seu Departamento de Viticultura e Enologia, criado em 1880. Esse departamento ganhou reconhecimento mundial, como líder na ciência da vinha e da uva, principalmente graças ao trabalho da enóloga Ann Noble, professora de Enologia. Noble trabalhou na Davis mais de 20 anos e é considerada a maior especialista na ciência de aromas e sabores dos vinhos. Ela criou a “Roda de Aroma”, um instrumento através do qual qualquer uma de nós pode definir aspectos específicos do aroma dos vinhos. Ann Noble é talvez o maior exemplo de onde podemos chegar nesse mundo. No seu topo.
A Davis, como vimos pelo exemplo do curso de MBA, cospe mulheres todos os anos – todas com alguma especialidade em vinhos. Outra fonte de dados é o famoso Instituto de Masters of Wine, que teve suas origens lá em 1955, em Londres. O objetivo era qualificar pessoas em enologia, viticultura, produção, engarrafamento, controle de qualidade, mas em nível mundial. Ou seja, um MW tem de conhecer vinhos de todo o mundo. Os exames são dificílimos.
Em 1978, o número de MW era de 100, incluindo 2 mulheres. Em 1998, o total era de 224, entre eles 45 mulheres. Essas mulheres vão ser críticas, autoras, produtoras, consultoras de vinho ou sommeliers em várias partes do mundo. Quer dizer, não há como negar que estamos preenchendo os espaços. Estamos nos preparando cada vez melhor para competir de igual para igual.
Será que consegui atender você, Andréa? Só peço licença para repetir a Simone de Beauvoir, no melhor trabalho até hoje sobre feminismo, o “Segundo Sexo”. “Para ganhar a suprema vitória, é necessário que, pelas suas diferenças naturais, homens e mulheres inequivocamente afirmem a sua irmandade”.
A suprema vitória é ter direitos e oportunidades iguais.
Sem brigas estamos chegando lá: sem síndromes de castração, se lixando se somos úteros ambulantes, topando qualquer parada, e, como você, perguntando tudo, falando muito, para desespero dos Orlando Silva da vida. Sem medo de ser feliz.
Estou à sua disposição aqui no Bolsa ou no Adega & Bar. E boa reportagem, Andréa.
