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Sem medo de ser feliz

by soniamelier em 31 de outubro de 2002 | 21:00

Andréa Leite é estudante de jornalismo na Hélio Alonso, no Rio. Trabalha de dia, estuda à noite, encontra tempo para cuidar do filhote, e ainda precisa fazer uma reportagem sobre o papel da mulher no mundo dos vinhos. É um mundo masculino, a mulher sofre resistências para penetrar nesse nicho? Leu alguma coisa aqui na Soninha a respeito de discriminação e preconceito atrapalhando a relação das mulheres com o vinho e resolveu, como boa repórter, fazer perguntas.

Então vamos tentar respondê-las.

Andréa Leite – Num de seus artigos você comentou que as mulheres são esquecidas ou relegadas, principalmente quando se trata de manifestar seu gosto pelo vinho, que na maioria das vezes é escolhido pelo parceiro. Gostaria de saber sua opinião sobre porque isso ainda acontece, mesmo que a mulher seja independente e até uma conhecedora do assunto.

Sonia Melier – Nos Estados Unidos as mulheres são responsáveis pela compra de 70 a 80% de todos os produtos e por 60% dos vinhos vendidos em lojas e supermercados em todo o país. Índices semelhantes são encontrados na Inglaterra, na África do Sul, na Austrália. Como não tenho dados sobre a relação das brasileiras e a venda de vinhos, posso imaginar que os números sejam semelhantes – já que aqui também é a mulher a principal responsável pelas compras da casa.
O dado mais importante, relativo à discriminação, é que os lojistas, tanto lá quanto aqui, tratam as mulheres alguns degraus abaixo dos homens. Para estes, tapete vermelho. Toda a atenção é dada. Afinal, os homens, sim, entendem de vinho. Agora, as mulheres não sabem onde estão se metendo. Então, eu, lojista, vou oferecer um vinho qualquer e pronto.

Olha que esses dados são de um importante levantamento realizado pela Rossman, Graham Associates, empresa de consultoria de marketing e vendas de vinhos e destilados, baseada em Nova York. Marlene Rossman é também presidente da Women for WineSense, capítulo de NY.
O Women for WineSense (“Mulheres pelo Sentido do Vinho”, numa tradução livre) é uma organização educacional, sem fins lucrativos, com a missão de promover os benefícios do consumo moderado de vinho, apoiar o sucesso e o desenvolvimento de homens e mulheres no comércio do vinho e promover um fórum relacionado ao ensino do vinho e seu conhecimento pelo público. E a colocar os lojistas, pelo menos os norte-americanos, no seu devido lugar.

A pesquisa mostra que, entre as consumidoras de vinhos caros e de preços médios, 57% preferem vinhos tintos, 30% os brancos, 9% os rosés e 6% os espumantes. Somente 5% são influenciadas por publicidade, críticos de vinhos. E, principalmente, que 40% desse universo quer aprender mais sobre vinho. Ou seja: são dados que vão contra qualquer preconceito. Que demonstram a ignorância dos lojistas (e, de resto, de garçons, maitres, sommeliers) com relação ao que preferem as mulheres.

É mulher? Um vinho branco qualquer. Ou um rosé! Estão perdendo clientes e vendas. E, principalmente, estão perdendo o respeito.
As mulheres, como os homens, querem tomar um bom vinho. E ponto. O pensamento é que o homem escolhe o vinho e a mulher certamente vai tomar um branco ou um refrigerante. E olhe lá.
Se isso acontece lá, imagine aqui. Aqui, as mulheres ainda fazem seus pedidos aos seus parceiros, que os repassam aos garçons, maitres etc. Mais por uma questão de, digamos, educação. Lá, as mulheres estão se organizando mais, se unindo, procurando se informar, se educar. Aqui ainda não temos associações como a da Sra. Rossman. Mas isso já está acontecendo.

Temos associações femininas voltadas para quase tudo. Logo, logo, o vinho entra em cena. Basta entrar em qualquer sala de aula, basta entrar em qualquer escritório para confirmar que as mulheres presentes ou estão dando aulas, ou são as gerentes ou estão preenchendo pelo menos metade das vagas. Agora, porque isso acontece?

Vamos voltar aos anos 50, ao auge da Rádio Nacional (o grande fenômeno de mídia da época), ao sucesso de vendas da “Revista do Rádio” (que circulou entre 1948 e 1970). Uma revista que falava da Emilinha, do Cauby Peixoto, da Marlene, do apresentador César de Alencar. Todos diziam que era apenas lida pelas empregadas. Mas eram as patroas que mandavam comprar e liam mais ou menos às escondidas. Ela tinha uma seção fixa dedicada às perguntas da semana. Colhemos aqui duas respostas dadas à pergunta: “Você gosta de mulher falando muito?”

Resposta do locutor José Garcia: “Muito pelo contrário: gosto das mulheres que não falam nada”.

Resposta do grande cantor Orlando Silva: “Deus me livre! Quando elas falam pouco só acertam até a metade … imagine-as falando muito!” (Essa curiosidade tirei de matéria sobre “Revista do Rádio – Cultura, fuxicos e moral dos anos dourados”, livro do coleguinha e pesquisador Rodrigo Faour, a ser lançado esta semana pela editora Rio Arte/Relume Dumará).

Ou seja: mulher tinha de ficar sempre à sombra. Calada e obediente. Esse era o pensamento da sociedade mundial, não só a brasileira, naqueles tempos. Nossa sociedade foi estruturada assim. O homem é o provedor. A mulher fica em casa, tomando conta dos tesouros, cozinhando e limpando. E fazendo filhos. De vez em quando ganha um carinho (mas só pode gozar – se conseguir – com discrição britânica).

A tradição católica ensina que as mulheres sejam receptivas, pacientes, que, enfim, esperem pela próxima visita do anjo. Ou seja: as mulheres são seres inferiores, vasos histéricos da procriação. Outras igrejas, aqui e outras partes do mundo, ensinam as mesmas coisas. Aquela história de igualdade entre homens e mulheres, do Concílio Vaticano II, com a igreja comunitária e igualitária, onde homens e mulheres seriam iguais na hierarquia, tal como prometida pelo Papa João XXIII, não se cumpriu. Não existe uma mulher “cardeal” ou “bispo”. Estão sempre abaixo nessa escala religiosa – responsável por fazer cabeças há séculos.

Vamos tomar como exemplo um nicho primo-irmão do vinho. O da comida. As mulheres não podiam trabalhar, ser profissionais da cozinha na Grécia e na Roma antigas. Mas os banquetes elegantes já eram símbolo de status social e de sucesso econômico. Essa atitude era um reflexo direto da tirania masculina tanto na sociedade grega quanto na romana, na qual as mulheres eram excluídas de reuniões públicas, proibidas de exercer qualquer profissão e confinadas em suas casas a maior parte do tempo. (Veja Lois W. Banner: “Why Women Have Not Been Great Chefs”, The South Atlantic Quarterly, primavera de 1991).

Embora as escravas pudessem fazer pão e realizar pequenas tarefas na cozinha, eram os escravos que planejavam os jantares supimpas, que criavam os pratos elaborados e sofisticados servidos. E que recebiam os aplausos dos convidados.

Já que as mulheres eram vistas como criaturas inferiores, os ricos romanos concluíam que os escravos comandando a cozinha somavam para seu status. Essa atitude espalhou-se pela hierarquia dos escravos. Na época de Júlio César, os escravos (incluindo os chefs) tinham muito maior status do que as escravas.

E assim foi ao longo dos tempos. Tornar-se um chef era uma maneira de rapidamente conquistar um melhor nível social. Taillevent, o cozinheiro do rei Carlos V, e autor do primeiro livro de receita francês, ganhou terras e um título de nobreza do rei. François Pierre de la Varenne fez fortuna como cozinheiro do rei Henrique IV. Vatel, filho de um trabalhador belga, ficou famoso mundialmente como cozinheiro-chefe do Príncipe de Conde. Antoinin Careme tornou-se a coqueluche como cozinheiro na Europa napoleônica. O grande Escoffier, filho de um ferreiro, tornou-se o mais conhecido e respeitado chef da Europa e da América do Norte.

Esses homens queriam segurar sua invejável posição: não passava pela cabeça deles deixar mulheres entrarem na sua seara, o que degradaria a sua profissão. Eles tinham que provar que eram diferentes dos cozinheiros comuns (ou seja: as mulheres); que não eram meros artesãos ou empregados (como as mulheres). Consideravam-se artistas, grandes criadores.
Formaram associações (as guildas) para proteger o seu status. Criaram símbolos como os chapéus estranhos que os chefs usam até hoje – colocando-os acima dos meros mortais, como diz o crítico Daniel Rostov (de onde estou recolhendo parte dessas informações). Das suas vestimentas aos seus salários e imagem projetada, esses chefs fizeram o possível para diferenciar-se dos cozinheiros comuns. E as mulheres ficaram associadas até hoje à cozinha caseira, simples. (Mas é essa cozinha caseira a marca nacional. Foram as escravas que marcaram a cozinha norte-americana e brasileira. Veja o exemplo das cozinhas Cajun e Creole nos Estados Unidos. Veja o efeito da feijoada em todo o Brasil. Veja o resultado da comida de família, a feita pelas tias e avós na França e na Itália).

Em 1952, a revista Holiday apresentou a sua primeira lista do que considerava “Os Melhores 100 Restaurantes da América”. Apenas duas mulheres figuravam como chefs naqueles restaurantes. Passados 40 anos, a lista incluiu apenas uma mulher, em 1992. Os Guias Michelin e o Gault-Millay premiam com estrelas centenas de restaurantes na França. Nenhuma das cozinhas premiadas tem uma mulher como cozinheira-chefe.

Como afirma o ótimo Rostov, o problema não é que as mulheres não sejam capazes de se tornar grandes chefs, nem que não queiram entrar nesse pedaço. “A triste verdade é que… esse papel não está disponível para elas. Esse é um domínio exclusivo dos homens”.

Exatamente a mesma história repetiu-se com os vinhos. Ser um mestre de vinhos, um sommelier, não está aberto para as mulheres. A palavra sommelier, no francês antigo, segundo Le Robert, Dictionnaire historique de la Langue Française, designa um condutor de “bête de somme”, de besta de carga. Depois, a palavra passou a designar o funcionário que transportava as bagagens nas viagens da Corte (1316) e, em seguida, por quem cuidava das roupas de cama, das baixelas, das provisões e da cave de vinhos. A partir de 1690, sommelier era, na Corte, o funcionário que preparava o serviço de mesa e de vinho (embora um copeiro o servisse). Estava a serviço dos chefs, portanto.
A palavra se aplica hoje à pessoa encarregada pelos vinhos num restaurante. Na lista dos ganhadores do concurso “Os Melhores Sommeliers do Mundo”, que existe desde 1969, não existe uma só mulher. Mas isso também está mudando. Este setor, como o dos chefs, não é mais exclusivo dos homens, em nenhuma parte do mundo. É típico dos homens criarem esses “Clubes do Bolinha”, coisa deles, alienações próprias de quem está perdendo o terreno. Sabem que abrindo a porta do clube vão encontrar uma Luluzinha.

Andréa Leite – Você tem notado um crescimento do interesse da mulher sobre vinhos? Você acredita que com esse aumento do interesse e com a participação cada vez maior das mulheres em cursos e degustações, elas passarão a se impor um pouco mais, dominando mais esse reduto masculino?

SM – Você viu, pela pesquisa da Marlene Rossman, que as mulheres já dividiram esse pedaço com os homens. Um dos mais importantes centros de ensino e de pesquisas sobre o vinho do mundo é a Universidade da Califórnia, na cidade de Davis (UC Davis, como o pessoal chama). Ela existe, na prática, para apoiar o desenvolvimento do plantio e da produção de vinhos nos Estados Unidos, em particular na Califórnia.

Pois pela primeira vez, agora em outubro, as mulheres representam praticamente a metade dos alunos inscritos no curso de MBA. São 48% de mulheres, o maior índice num programa de MBA numa das 50 maiores escolas do país. Esse crescimento já pode ser notado por aqui. Você já encontra jornalistas especializadas em restauração e vinhos. Já encontra mulheres chefs de sucesso, embora continuemos a importar franceses e italianos para algumas casas fazerem bonito.

Agora, ao lado de um Troigros, sempre muito badalado, você encontra uma mulher, como a mulher do próprio, a Marlene, criadora de pratos de sucesso na casa (por incrível que pareça, pratos de origem “caseira”) e gerente dos negócios do medalhado marido. Ela parou por aí? Não, Marlene também é líder de um grupo de mulheres, o Brazilian Professional Women, reconhecido pela ONU, cujo objetivo é abrir caminhos para profissionais mulheres, quaisquer que sejam os seus segmentos de atividades.

Os cursos por aqui não são muitos, mas, pelo que sei, seguem de perto os índices de Davis: pelo menos metade das inscrições é de mulheres. Agora: não vejo a coisa como você. Ninguém quer dominar redutos masculinos. O que se quer é não reconhecer, em qualquer atividade, um sexo dominante. Sou mulher e quero ser astronauta. Pois já temos lá na NASA algumas. O que não se pode é repetir a tradição masculina, de cada macaco no seu galho. Você, mulher, fica no tanque e eu vou no meu carro zero quilômetro com a camisa mais branca do que o branco paquerar a sua vizinha.
Vamos onde a necessidade de trabalho nos manda ir. A mulher teve de sair de casa – para mantê-la, para sobreviver, para educar as crianças. Para se vestir, alimentar e se divertir. Essas necessidades, todas de base econômica, explicam porque as mulheres não vão aceitar que exista um segmento do mercado de trabalho proibido para elas. O mesmo aconteceria com os homens, se a situação fosse inversa.

Temos hoje um conjunto de leis que reconhece todos esses direitos. Estamos começando a fazer uso dessas leis. Aprendendo a andar com nossos próprios pés, a fazer uso dessas conquistas – todas nossas, sem precisar queimar sutiãs.

Andréa Leite – Que dica você daria às mulheres para furarem esse bloqueio masculino?

SM – Continuar indo à luta. Acho que respondi essa pergunta na questão anterior. A resposta da próxima pode ajudar também.

Andréa Leite – É sabido que há uma legião de mulheres que comanda grandes vinícolas, mas mulheres enólogas ou sommeliers ainda são uma coisa rara de se encontrar?

SM – Não, não é mais. A UC Davis forma enólogos, entre outros técnicos especializados, através do seu Departamento de Viticultura e Enologia, criado em 1880. Esse departamento ganhou reconhecimento mundial, como líder na ciência da vinha e da uva, principalmente graças ao trabalho da enóloga Ann Noble, professora de Enologia. Noble trabalhou na Davis mais de 20 anos e é considerada a maior especialista na ciência de aromas e sabores dos vinhos. Ela criou a “Roda de Aroma”, um instrumento através do qual qualquer uma de nós pode definir aspectos específicos do aroma dos vinhos. Ann Noble é talvez o maior exemplo de onde podemos chegar nesse mundo. No seu topo.

A Davis, como vimos pelo exemplo do curso de MBA, cospe mulheres todos os anos – todas com alguma especialidade em vinhos. Outra fonte de dados é o famoso Instituto de Masters of Wine, que teve suas origens lá em 1955, em Londres. O objetivo era qualificar pessoas em enologia, viticultura, produção, engarrafamento, controle de qualidade, mas em nível mundial. Ou seja, um MW tem de conhecer vinhos de todo o mundo. Os exames são dificílimos.

Em 1978, o número de MW era de 100, incluindo 2 mulheres. Em 1998, o total era de 224, entre eles 45 mulheres. Essas mulheres vão ser críticas, autoras, produtoras, consultoras de vinho ou sommeliers em várias partes do mundo. Quer dizer, não há como negar que estamos preenchendo os espaços. Estamos nos preparando cada vez melhor para competir de igual para igual.

Será que consegui atender você, Andréa? Só peço licença para repetir a Simone de Beauvoir, no melhor trabalho até hoje sobre feminismo, o “Segundo Sexo”. “Para ganhar a suprema vitória, é necessário que, pelas suas diferenças naturais, homens e mulheres inequivocamente afirmem a sua irmandade”.

A suprema vitória é ter direitos e oportunidades iguais.

Sem brigas estamos chegando lá: sem síndromes de castração, se lixando se somos úteros ambulantes, topando qualquer parada, e, como você, perguntando tudo, falando muito, para desespero dos Orlando Silva da vida. Sem medo de ser feliz.

Estou à sua disposição aqui no Bolsa ou no Adega & Bar. E boa reportagem, Andréa.

Fofocas, leilões e eleições

by soniamelier em 24 de outubro de 2002 | 21:00

A época é farta em fofocas eleitorais, que são ótimas para puxar assunto. Vejam, por exemplo, as histórias sobre os vinhos finíssimos, raros, caros, caríssimos, que candidatos à presidência e seus assessores andam tomando. Simplesmente nós, meros mortais, não temos cacife para tomarmos esses vinhos, pelo menos com a assiduidade de marketeiros políticos.

Uma garrafa de Romanée-Conti, safra de 96 (que, parece, foi oferecida a Lula por seu assessor, o publicitário Duda Mendonça) custa em Londres a partir de 3 mil dólares. Já o Lafite Rotschild que, pelo que li, diariamente é bebido pelo comunicólogo de Serra, Nizan Guanaes, custa, um da mesma safra, míseros 400 dólares, também em Londres.

Vão chegar na mesa do comprador brasileiro custando o dobro. Serão US$ 6 mil para o Pinot Noir de Duda: 24 mil reais por 750 ml do que muitos consideram o melhor vinho do mundo. Dá 800 reais por taça, considerando que uma garrafa resulta em 6 taças.

O Domaine de la Romanée Conti fica no distrito de Côte de Nuits, na cidade de Vosne Romanée, Borgonha. Seu nome foi dado pelo Príncipe de Conti, um italiano, que insistia que os vinhos produzidos naquele vinhedo fossem “nada menos que os mais requintados que a França viesse a produzir”. E conseguiu atingir seu objetivo.

Só 7 mil caixas são produzidas anualmente do DRC. 50% vão para os Estados Unidos, 10% para a Inglaterra, 5% para a Alemanha, 5% para a Suíça, 5% para o Japão e 5% para outros países. Vinte por cento são consumidos na França.

Assim, Duda Mendonça (e o grande amante e outro ardoroso admirador do DRC, José Bonifácio de Oliveira, o Boni) devem ficar com pelo menos cinco caixas cada um para pequena fração de caixas que sobra para os chamados “outros países”. Isso porque são capazes de tomar essa preciosidade em churrascarias (o Boni) ou em comemorações de pesquisas eleitorais e em companhia de pessoas, como o Lula, que até preferem uma caninha (no caso do Duda). Um indicativo da alta freqüência com que degustam o Romanée-Conti. As cinco caixas (ou 60 garrafas) de Duda sairiam por cerca de um milhão e meio de reais.

Já o Nizan receberia o seu Lafite Rotschild aqui por uns 800 dólares: R$ 3.200,00. Como falam que ele abre uma das lendas de Bordeaux todos os dias, o seu estoque custaria pelos menos R$ 1.168.000,00.

Como conseguem comprar? Sim, é muito dinheiro para vinhos – quanto mais para uma só marca de vinho. Não posso falar pelo Duda Mendonça, muito menos pelo Nizan. Já a caninha do Lula podemos até imaginar que existem alguns pés da “51″ espalhados pelo ABC paulista. Nada de caro ou complicado.

Agora, existe um recurso muito antigo e quase sempre frutífero, em termos de preços, que são os leilões de vinho. Você tem leilões de obras e objetos de arte, de antigüidades, de tapeçarias, de figurinhas do sabonete Eucalol, de carro. Leiloes de tudo. Tem também leilões de vinhos.

Pode ser que o Duda e o Nizan se aproveitem desse meio, os leilões, para conseguir seus vinhos raros e caros. E se você começar a saber de algumas manhas normais em quaisquer transações comerciais, e que existem também em leilões de vinhos, vai conseguir suas raridades a preços bem razoáveis.

Como participar de um leilão. Veja só, por exemplo, o leilão de vinhos franceses que o Club du Taste-vin vai promover dia 12 de novembro, no Hotel Sofitel (aquele estrelado, ali no Posto 6, em Copacabana). Tudo o que um enófilo, além do Boni, Duda e Nizan, gostaria de ver e tentar conseguir, pelo menos uma vez na sua vida de amante de vinhos, estará lá, à disposição.

Vão oferecer Petrus, Le Pin, Latour, Mouton-Rotschild, Margaux, Haut-Brion, Yquem, Le Montrachet, La Tache e, claro, o Romanée-Conti, das safras de 1966, 67, 71, 75, 76, 78, 82, 83, 84, 85, 87, 88, 89, 90, 94, 95, 96, 97 e 98. É um Papai Noel pra lá de prodigioso e farto. É a papa-finíssima de Bordeaux e da Borgonha, em quase quarenta anos de vinhos tão pujantes que poderão ser bebidos agora ou daqui a mais 50 anos!

Bem, você chega para o seu queridão e alerta: o real está pifando, o dólar não está pra brincadeira; o governo vai mudar; a especulação é enorme etc. e tal. E se fizerem o que a Zélia fez? Nesses dias, está todo mundo tirando dinheiro do banco e colocando principalmente em imóveis. A turma está atrás de solidez. Mas, sabe?, talvez colocar em vinhos seja até melhor – isso se os vinhos forem os que estarão no leilão do Taste-vin. Você, afinal, não vai disputar um fusca 67 – que pode ser trocado por um sofá (e velho). Todos os dados do mercado de vinhos indicam que esses grandes vinhos têm liquidez muito rápida e estão sempre valorizando. E se a venda demorar, tome o vinho. Será um grande prazer e também uma descoberta para você: é uma outra maneira de compreender liquidez.

Muitos marinheiros de primeira viagem em leilões reclamam que gastaram mais do que queriam ou que, na hora H, ficaram temerosos em fazer seus lances. São problemas menores, que você pode evitar se seguir alguns e fáceis conselhos.

Primeiro de tudo, leia com muito cuidado o catálogo do leiloeiro com a maior antecedência possível. Você vai poder estudar com cuidado os vinhos que mais lhe interessam, saber de seus preços, analisar suas possibilidades. Enfim, entrar no salão sabendo que tipo de música você sabe cantar. No leilão do Taste-vin, você pode examinar os lotes nos dia 7, 8 e 11 de novembro, na sede do Club (Av. Almirante Barroso, 139, Loja E, no Centro do Rio).

Examine tudo. Tem dúvidas? Esclareça-as com o François Dupuis, responsável pelo leilão há seis anos. Informação e antecipação são importantes porque, em geral, os lotes são apresentados e vendidos muito rapidamente. Faça suas anotações ou marque no catálogo o que você quer. Assim, você controla a chamada compra por impulso (e evita uma singela clareira em sua conta bancária). Uma vez feitas essas anotações, estabeleça um limite para seus gastos. E procure não sair dele.

Entre suas anotações, procure saber quanto os vinhos em leilão estão custando no mercado. Existe um site na Internet que facilita essa tarefa: clique para o www.wine-searcher.com e pronto. Vai estar lá o preço e os mercados onde entregam os vinhos. Mesmo os de safras passadas.
Procure saber a procedência dos vinhos, onde foram comprados originalmente, como e onde foram guardados. O Club du Taste-vin é talvez a casa mais bem reputada no Rio nesse tipo de evento. Há seis anos promove esse leilão, sempre com sucesso.

A segunda coisa a fazer é evitar lances até que tenha uma idéia bem clara do como está indo o leilão. Tem gente que vai ao leilão apenas para “brincar”. Resolve disputar lances apenas para provar que tem grana. Quando não é esse o caso, temos aquele colecionador que está disposto a tudo para ter em sua adega novos rótulos de seu vinho preferido. E, com isso, joga os preços lá pra cima. Claro que queremos nos divertir. Mas temos que tomar cuidado com nosso dinheiro. Será tolice pagar mais por um vinho no leilão, se numa loja ele poderia custar menos.

E olhe que o preço inicial dos lances desse leilão do Taste-vin será de 50 a 70% do preço de avaliação. Assim, um vinho avaliado em mil dólares pode até ser comprado pela metade do preço mais um dólar. Ou mesmo por 300 dólares. Arriscar não custa nada.

Agora, não esqueça de que não há, nem poderia haver, garantia do que você vai encontrar quando abrir as garrafas, principalmente com os vinhos mais velhos, aqueles com mais de 30 anos. Estarão em perfeito estado? Você os abre, prova, não gosta. E não vai poder devolver.

Muitos vinhos são vendidos em caixas com 12 garrafas, ou de 6 garrafas. Assim, que tal organizar um grupo de amigos interessados nesses vinhos e fazer lances coletivos? Ou seja: onde você sozinha gastaria 150, vai gastar 50, se rachar a caixa com três amigas.

Se tiver tempo, dê uma olhadinha no site da www.winebid.com. É o maior leiloeiro de vinhos do mundo, tanto online como ao vivo. Você vai ver que a média de compras, virtuais ou não, é de 200 dólares por garrafa (e, na maioria dos casos, de vinhos finos, de boa procedência e safras recomendadas). Nada muito exorbitante, não é mesmo?

Enfim, divirta-se. Confirme sua presença no leilão do dia 19 (o telefone é o 2240-0350, com a Srta. Grasielle). Verifique se o Duda e o Nizan vão dar as caras. Um vai comprar para comemorar. Outro para poder suportar o novo presidente. E não deixe de me contar mais essa fofoca. É só clicar para o Bolsa ou para a Soninha (http://www.adegaebar.com.br/). E bom leilão.

Brand, James Brand

by soniamelier em 17 de outubro de 2002 | 21:00

Você acha que publicidade leva ao abuso do álcool? Pois outro dia repassava estudos sérios realizados nos Estados Unidos, onde o consumo de bebidas alcoólicas é muito maior do que aqui. Fiquei relativamente tranqüila.

Um deles, feito pela Comissão Federal de Comércio, afirma que “não há base confiável para se concluir que a publicidade de bebidas alcoólicas afeta significantemente o consumo, quanto mais o abuso de bebidas…”. Um subcomitê do Senado dos EUA revelou no “Congressional Record” (Registro do Congresso) que “não pôde achar evidência de que a publicidade leve abstêmios a beber ou que promova o abuso do consumo”.

O Departamento de Saúde norte-americano apresentou ao Congresso estudo demonstrando que “não há significante relação entre a publicidade e consumo de álcool”. Por isso, não recomendou o banimento ou qualquer restrição à publicidade de bebidas.

Um estudo da Universidade do Texas sobre a publicidade de bebidas alcoólicas num período de 21 anos verificou que o total de dinheiro investido em anúncios de bebidas pouca relação teve com o consumo total da população. Mais: os gastos com publicidade de bebidas alcoólicas no país aumentaram num período em que declinaram os acidentes de trânsito fatais ligados ao consumo de álcool.

James Brand

Agora, mas agorinha mesmo, duas grandes companhias estão brigando por causa da marca de vodca de seus espiões. É briga de gente grande. A Vodka Finlândia ocupou o lugar que desde 1962, com o filme “Dr. No”, era da Smirnoff, e aparece como a pedida de James Bond no seu novo filme, “Die Another Day”. Pagou dezenas de milhares de dólares para isso. Já o grupo The Regata, dono da vodca Red Army (“Exército Vermelho”), está processando a gigantesca Columbia Pictures por ter usado sua marca sem permissão no recente filme “XXX”.

No primeiro filme, 007 (Pierce Brosnan) entra num bar e pede o seu coquetel preferido – uma Vodka-Martini (“… sacudida; mexida, não”). Não fala o nome da vodca. Só que o bar é todo decorado com garrafas da Finlandia. Já a vodca Red Army, que pelo que sei ainda não chegou por aqui, é a bebida preferida por um dos bandidos do filme. A história é a de sempre: um campeão dos esportes é recrutado pelo governo norte-americano para infiltrar-se na máfia russa. O mocinho não bebe nada. Mas os bandidos vão com a vodca do The Regata.

O caso é que nos Estados Unidos as televisões abertas recusam-se a anunciar comerciais de bebidas alcoólicas. Daí, já sabemos o caminho que os seus fabricantes percorrem. Vão direto para Hollywood fazer seu merchandising em filmes, particularmente aqueles que certamente estourarão nas bilheterias. Não é à toa que o editor e crítico Chris Brook, do site just-drinks.com, chama James Bond de James Brand (James “Marca”). Sim, Bond/Brand vem conseguindo estabelecer algumas marcas no mercado. A Smirnoff foi uma delas. Agora é a vez da Finlandia.

Bom, quer dizer que a propaganda, mesmo que indiretamente (muitas vezes não tão indiretamente assim), funciona, ao contrário do que dizem as pesquisas? Não, não é bem assim. Afinal, quando James Bond pede o seu coquetel preferido ninguém sai por ai entornando vodca goela abaixo.

O que a publicidade de bebidas alcoólicas consegue fazer é aumentar as vendas de uma bebida em seu nicho de mercado. Os marqueteiros chamam isso de aumentar o share. A vodca Finlandia deverá ganhar mais consumidores da Absolut, da Smirnoff e de outras. Martinis à base de vodca também serão mais pedidos. Apenas isso. Quem não bebe, continuará não bebendo. Ou quem prefere vinho, uísque, gim ou um guaraná permanecerá fiel a suas bebidas.

Desde Bogart

Fazer esse tipo de propaganda em filme não é novo. Para começar, temos os cigarros. No início, apenas registrava o vício e não uma ou outra marca especificamente ou propositadamente. Não havia “mocinho” ou galã que não fumasse.

Hoje, em tempos tidos como politicamente corretos, continuamos vendo Travoltas e outros atuando sem largar o cigarro. Essa indústria deve investir pesadamente no cinema, já que a publicidade de cigarros está praticamente banida da mídia tradicional, em quase todo o mundo.

Mas, só para efeitos de documentação, o primeiro feito de merchandising que tenho notícia envolvendo bebidas e, especificamente, uma marca, aconteceu em 1951, com o gim Gordon, inglês, numa obra prima – na verdade, considerado um dos 100 melhores filmes do século passado.

The African Queen (“Uma Aventura na África”) ganhou um Oscar de melhor ator – para Humphrey Bogart, o único que ganhou em toda a sua carreira. Ganhou também três indicações da Academia: melhor atriz (Katharine Hepburn), melhor diretor (John Huston) e melhor roteiro (do grande James Agee e John Huston). O filme só tinha cobras, cobraços.

Humphrey Borgart interpreta o bêbado capitão Charlie Allnut, do dilapidado African Queen, o pequeno vapor que foge por rios africanos, durante a Primeira Guerra. E, entre uma fala e outra, para desespero da religiosa e firme Rose Sayer (Katherine Hepburn), entorna direto do gargalo goles e mais goles do Gordon. A marca tinha de aparecer por uma questão de realismo.

Publicidade mais aberta, sem pudores de parecer mensagem comercial, aparece logo em seguida, em 1961, no Un homme et une femme (“Um homem, uma mulher”), do diretor francês Claude Lelouch. Esse filme ganhou uma palma de ouro em Cannes, mas acho que às custas de um grande bairrismo dos franceses.

Os astros do filme, fora a dupla romântica (Anouk Aimée e Jean-Louis Trintignant), são a Coca-Cola e o Ford Mustang: aparecem tanto quanto os atores principais. De lá pra cá, apenas casos isolados de bebidas leves – como as aparições bem feitas da Pepsi-Cola na série “De volta para o futuro”.

O efeito Bond

Bem recentemente, temos a série do Dr. Hannibal Lecter, o Canibal. Todos sabemos que ele adora gastar fortunas com vinhos caríssimos (como o Château Phélan-Ségur 1996) para degustar um suflê de lóbulos frontais. Ou fígado (humano, sem dúvidas) com um bom Chianti.

No caso acima, os autores querem passar que o nosso Dr. Lecter é um homem culto, sofisticado, maduro, com alto QI etc. Não acho que Sir Anthony Hopkins, nesse papel, conseguiria vender sequer uma tubaína. O Dr. Hannibal está aí com nova aventura, “The Red Dragon”. Não sabemos que vinho tomará. Ou quem comerá.

A cerveja Guinness foi uma das patrocinadoras do recente Minority Report, de Steven Spielberg. Os mutantes super-heróis de X-Men tomavam Dr. Pepper. A cervejaria norte-americana Coors acaba de assinar um contrato com a Miramax para exibir sua marca em 15 novos filmes, a partir do ano que vem. É coisa de centenas de milhares de dólares.

O público saberá achar um limite entre o entretenimento, o filme, e a jogada comercial. Se achar que o seu herói ficou pior depois de tomar a Finlandia, a série terá de ser revista ou mesmo terminada. E esse esquema revisado.

Em 1971, no “Diamonds are Forever”, ele identifica a safra de um jerez Solera: 1851. Seu chefe, M, fica com a cara no chão! No mesmo filme, dois bandidos, disfarçados de garçons, entram em sua cabine num navio para servir uma refeição. Bond elogia o vinho, mas lamenta que não seja um clarete. Ora, o vinho era um Mouton-Rotschild de 1996, um grande Bordeaux. Os bandidos lamentam que a adega do navio não esteja bem estocada, caindo na armadilha de Bond. Os ingleses chamam qualquer Bordeaux de clarete. Os bandidos são despachados, claro!

E é isso que alguns patrocinadores querem. Um herói sofisticado, civilizado, que saiba das coisas. E que seja também um grande amante e tenha pontaria certeira. Quando esse tipo de publicidade é bem realizada, como tem acontecido pelo menos nos filmes de James Bond, o que ocorre é uma rearrumação no mercado. A vodca de Mr. Bond deverá ganhar mais consumidores – tirados de outras marcas.

A grande influência para o consumo e abuso de álcool está mesmo em nossas casas. A grande maioria (62%) dos jovens americanos entre 12 e 17 anos identifica seus pais como sua principal influência. Depois, vêm seus amigos (28%), seus professores (9%), o que assistem na TV (7%) e o que vêm nos anúncios (4%). A “sacudida”, portanto, começa em casa. É em casa que começamos a criar, conscientemente ou não, os Charlie Allnut (do African Queen) da vida.

As referências são muito sólidas a respeito dos dados acima. E se você quiser mais dados sobre elas é só clicar para o Bolsa ou para a Soninha (http://www.adegaebar.com.br/).

Dar à luz, sem abusos

by soniamelier em 10 de outubro de 2002 | 21:00

Você que está grávida ou você que planeja ter um bebê, preste atenção no que está acontecendo na Inglaterra, conforme li em recente matéria do “Daily Telegraph”, de Londres.

Uma em cada três inglesas bebe mais do que cinco taças de vinho ou o equivalente no dia em que ela concebe a criança, segundo uma pesquisa realizada pela “Mother & Baby”, a Pais & Filhos das inglesas. Pois bem: mais da metade descreveu seu parto com “a coisa mais chocante que já viveu”.

Perto de ¾ dos casais consultados revelaram que não fizeram qualquer tipo de esforço ou se preocuparam em melhorar sua condição de saúde antes do parto. E 36% beberam uma média de cinco unidades de álcool no dia da concepção. Durante a gravidez, 46% das mulheres continuaram a tomar um drinque ou outro.

Não tenho dados sobre o abuso de álcool durante a gravidez das brasileiras. Sei apenas que, por associação, os médicos aqui toleram até quatro taças de vinho por dia. Mas, durante a gravidez, impõe algo próximo da lei seca.

O quadro inglês, segundo a revista, está próximo de uma história de horror, com muitas mulheres reclamando por ficarem no escuro completamente, sem que lhes dissessem o que estava acontecendo. Reclamavam também da proibição de andar. Isso porque, na Inglaterra os médicos começam a encorajar as mulheres a ficar de pé e andar durante o parto, pois verificam que a nossa tradicional posição de parto, deitada, causa mais dor e dificuldades. É algo próximo ao parto das nossas índias.

De dez mulheres, oito declararam-se apavoradas, enquanto 75% revelaram que ter um bebê era mais doloroso do que imaginavam. Mais da metade não fizeram o pré-natal e declararam-se despreparadas para o parto. Somente 6% conseguiram um parto completamente natural. Um quinto do total submeteu-se à cesariana. Daquelas que tiveram um parto dito “normal”, 24 submeteram-se a indução e 38% fizeram uma peridural.

Mitos e fatos. Existe um mito em torno de se nós, mulheres: se bebermos uma gota sequer de bebida alcoólica podemos causar problemas no bebê, seja enquanto feto, seja no nascimento, seja no seu desenvolvimento. O fato é que existem milhares de estudos envolvendo grávidas de todo o mundo e nenhum deles conseguiu até hoje qualquer evidência de que o álcool, se bebido com moderação, pudesse causar qualquer tipo de problema durante a gravidez. A escolha mais segura, na verdade, é a abstenção nesse período. Mas um gole ou outro certamente não fará nenhum mal.

Até mesmo porque todos nós, homens, mulheres, crianças, adultos, produzimos álcool normalmente em nosso corpo, 24 horas por dia, todos os dias, do nosso nascimento à nossa morte. Logo, não existe essa coisa de uma pessoa completamente “limpa” ou “livre” de álcool. As grávidas têm lá um tantinho de álcool. E o bebê até que deve gostar.

Outro dos mitos é de vidas seriam salvas se não se bebesse, se o mundo não tivesse a “praga” da bebida. Bom, se fosse tão demoníaco e prejudicial assim, Deus não teriam dado a Noé a incumbência de plantar a primeira videira. Ele não só obedeceu, como tomou o primeiro porre que se tem notícia no mundo cristão. Tá tudo lá, na Bíblia.

Perdem-se vidas com o álcool em função do abuso. São os acidentes causados por intoxicação e por problemas de saúde, como as doenças do coração. Os médicos T. Pearson e Terry P., num ensaio no “Journal of the American Medical Association”, “O que aconselhar aos pacientes sobre bebidas alcoólicas”, de 1994, afirmam que estimativas geradas por 13 pesquisas sugerem que 135.884 mortes ocorrem a mais anualmente, nos Estados Unidos, em função apenas da abstinência.

Essas estimativas consideram apenas mortes resultantes de um aumento das doenças coronarianas. Não incluem mortes adicionais que ocorrem em razão de enfartos, diabetes e de muitas outras doenças que aumentam em razão da privação do álcool. O quadro seria muito pior.

Álcool e saúde. É fato médico provado que beber com moderação está associado a uma saúde melhor e mais tempo de vida. Fatos comprovam que a moderação é melhor do que a abstinência e, naturalmente, do que o excesso. As bebidas alcoólicas não contêm gordura, não contêm colesterol e muito pouco sódio. O excesso de álcool está associado à cirrose do fígado, ao câncer no seio e a outros problemas de saúde.

Álcool e peso. Tá bom que o álcool contém calorias. Mas você se engana achando que a bebida pode levar a um aumento de peso. Segundo importantes pesquisas médicas, registra-se até mesmo uma redução de peso em mulheres que bebem. Se quiser saber de onde tirei isso, anote: “Stable behaviors associated with adult’s 10-year change in body mass index and the likelihood of gain at the waist”, Dr. H. S. Kahn, no “American Journal of Public Health”, 1997. A tradução, livre, poderia ser “Comportamentos estáveis associados à mudança no índice de massa em corpos de adultos num período de dez anos e a possibilidade de ganhos na cintura”.

A razão pela qual o álcool não aumenta nosso peso ainda não está clara. Mas as pesquisas propõem que a energia originária do álcool não é eficientemente utilizada. O álcool também parece aumentar nossa taxa de metabolismo de modo significativo, resultando ai em mais calorias para a queima do que para o armazenamento como gordura. Uma outra pesquisa demonstra que o consumo de açúcar cai na medida em que aumentamos o consumo de álcool. Atenção que muitos dos estudos que estou citando aqui envolveram até perto de 80 mil mulheres. Outros chegaram a entrevistar ou analisar 140 mil pessoas. Coisa séria.

Bom, mas certamente o álcool destrói as células do nosso cérebro. É outro dos mitos. Fique sabendo que o álcool, sempre bebido com moderação, não destrói nada, muito menos as células do cérebro. Ao contrario, os cientistas freqüentemente o associam a um funcionamento cognitivo (mental) melhor. Na ponta tida como “saudável” temos Hitler, um radical vegetariano e abstêmio.

O que é moderação. Nos Estados Unidos, moderação é beber-se dois drinques por dia para um homem. Ou apenas um drinque diário, para as mulheres. Esses drinques podem ser armazenados e bebidos apenas num dia. É claro que você não vai esperar um mês e beber tudo num só dia. Com 60 drinques você vai entortar.

Aqui, um drinque possui os seguintes volumes:

Uma latinha de cerveja;
Uma taça de vinho de mesa (cerca de 147 ml de vinho);
Uma dose de destilado (44 ml).

As grávidas inglesas tiveram problemas não apenas por não beberem moderadamente. Fica claro na reportagem que não se cuidavam, eram desleixadas em termos de saúde, em geral. Mas a moderação deve comandar nossos hábitos, a começar pelas bebidas alcoólicas.

Se vocês quiserem saber de todas as referências relativas a essa matéria, é só clicar para o Bolsa ou para a Soninha (http://www.adegaebar.com.br/). Tenho certeza de que algumas dessas pesquisas você vai querer mostrar pro seu médico.

Vinhos encaracolados

by soniamelier em 2 de outubro de 2002 | 21:00

“Vinho cor do dia, vinho cor da noite,… vinho estrelado filho da terra, vinho liso como uma espada de ouro, suave como um desordenado veludo, vinho encaracolado e suspenso, amoroso…”. O grande poeta Pablo Neruda sabia das coisas. Em sua “Ode ao vinho”, ele cria metáforas a partir dos estilos de vinho.

Na coluna anterior (Escolhendo Amigos) fizemos sugestões sobre a escolha dos vinhos lisos, tanto os da cor do dia, como os da cor da noite. Vinhos brancos, rosados e tintos: os parados.

Agora, vamos falar sobre a escolha dos vinhos encaracolados e suspensos, amorosos: os espumantes. E também sobre os fortificados. Antes, vale dar uma repassada no que chamamos de estilos de vinho para que tenhamos uma melhor compreensão dos espumantes.

Os tintos são feitos com uvas pretas, que são fermentadas com suas cascas e talos. Os brancos podem usar tanto uvas brancas como as pretas. Só que as cascas e talos não entram no processo de maceração e fermentação. Apenas o sumo dessas uvas – que é branco. Os rosados (rosés) são produzidos a partir de uvas pretas, sem os talos. O sumo é separado das cascas logo que começa a ficar rosado.

Escolhendo os espumantes

Já os espumantes têm uma produção um tanto mais complexa. Em primeiro lugar, fazem um vinho branco de mesa. Em seguida, acrescentam fermento e uma pequena dose de açúcar. O vinho então é selado e guardado. Dentro da garrafa vai ocorrer uma segunda fermentação (a primeira já aconteceu quando o vinho de mesa foi feito – um vinho ainda parado, ainda não “encaracolado”). É essa segunda fermentação que produz um gás (dióxido de carbono) do qual resultam as preciosas bolhas.

Os espumantes também variam muito em qualidade, caráter e estilo. Seu melhor exemplo é o Champagne francês, imitado em todo o mundo. Os estilos são tantos que vale voltarmos às perguntas. Para que você quer um espumante? Quer impressionar alguém, fazer com que caia em seus braços sem pestanejar? Quer quebrar um gelo e fazer de sua reunião social um acontecimento bem caloroso? Quer dar uma festa e não sabe qual a bebida irá receber aprovação de todos? Quer dar um presente sem medo de decepcionar? Quer exibir-se, demonstrar que é a dona do pedaço, está com tudo e ainda por cima está prosa?

Os espumantes, em particular o Champagne, sempre souberam responder muito bem a todas essas questões. São as bebidas talvez mais sedutoras, caindo bem em qualquer hora do dia, em qualquer ocasião e quase com qualquer prato.

Uma questão de méthode

Os Champagnes, os franceses feitos na região de mesmo nome, são, como dissemos, o protótipo. Outros vinhos espumantes variam: vão de concorrentes próximos desses franceses, feitos com as mesmas uvas e usando o mesmo sistema, até a vinhos espumantes, simplesmente, às vezes com sabores de frutas, às vezes sem qualquer sabor.

Os produtores de Champagne são ferozes defensores desse nome. Vinhos de qualquer lugar do mundo, mesmo se feitos pelo método tradicionalmente utilizado em Champagne, não mais podem usar o termo “méthode Champenoise” em seus rótulos.

Eles utilizam expressões como “Méthode Classique“, “Méthode Traditionelle” ou algo como Fermentado na Garrafa. Você pode ficar tranqüila que tudo isso geralmente significa que são versões de qualidade para vinhos feitos através do método que utiliza aquela segunda fermentação na garrafa.

A ocasião e o espumante

O Champagne pode ser a primeira escolha para uma festa. Mas seu preço pode ser proibitivo. Você convidou umas 50 pessoas. Todas confirmaram. Todas gostam de vinho. Agora, multiplique 100 reais por garrafa (para um Champagne de boa qualidade) e calcule que cada convidado tomará pelo menos 4 taças (ou seja: 1 garrafa). Você terá de comprar 50 garrafas – desembolsar 5 mil reais!

Mas existem ótimas alternativas, e de boa qualidade. Mesmo entre os franceses, você pode escolher os espumantes da Borgonha, um pouco mais em conta. Ou os maravilhosos espumantes espanhóis, os Cava, ambos feitos pelo método de Champagne, o tradicional. São feitos, porém, com uvas um pouco mais neutras, têm menos peso e um tanto mais de acidez.

Os espumantes da Alemanha e os da Itália utilizam uvas que proporcionam sabor, mas são menos secos (ou seja: você sente a presença do açúcar no vinho). São vinhos feitos para serem bebidos bem jovens e servidos bem gelados. Bem mais baratos que os franceses e espanhóis, podemos servi-los em maior quantidade. São ótimos para matar a sede.

Um espumante seco (sekt) alemão, feito com a uva Riesling, é um grande quebra-gelo e com preço convidativo. Não esqueça de acender as velas.

Espumantes no Brasil

Uma pedida ainda mais em conta – e com muita qualidade – é a do espumante brasileiro. Com o dólar a quase R$ 4, é claro que a opção natural é pelo produto nacional. E ela é tão mais válida quando esse produto tem reais qualidades. Pode comprar. O seu susto será, talvez, o de verificar que estamos bem no segmento de brancos e de espumantes. Você encontrará boas opções.

Os tipos de Champagne. Embora a preferência dos brasileiros seja pelos espumantes secos, você pode encontrar uma grande gama de espumantes doces. Do levemente adocicado, como os vinhos italianos com base na uva Muscat, até os Champagnes que tiveram uma dosagem de açúcar um pouco maior que a normal. Esse tipo de espumante foi feito para intencionalmente acompanhar sobremesas. Mas, cuidado, se o seu pudim for muito doce ele certamente vai ofuscar o sabor do vinho. Um vinho mais doce, espumante ou parado, deve sempre ser um pouco menos doce do que a sobremesa.
Os tipos de Champagne obedecem à graduação de açúcar que recebem:

Brut: é a seca, com ¼ a ½%.
Extra-seco: de 3 a 5%.
Seco: de 4 a 6%.
Meio-Seco: de 6 a 7%.
Doce: de 8 a 12%.
Crémant: fica entre doce e meio-seco. É menos espumoso do que qualquer outro tipo de champagne. Sua pressão não passa de 3 kg (normalmente é de 6 kg). Quando a servimos não forma a espuma característica, mas uma espécie de creme. Daí seu nome.

Servindo espumantes

Um espumante deve ser servido numa taça tipo flute ou numa tulipa, à temperatura entre 5,6 e 8ºC. Quando servir, primeiro coloque uma pequena quantidade na taça e espere que a espuma e bolhas se acalmem. Em seguida, encha no máximo 2/3 da taça.

Numa recepção, uma garrafa de 750 ml de espumante é suficiente para 3 ou 4 convidados. Numa refeição, considere uma garrafa para cada duas ou três pessoas. Num brinde mais formal (por exemplo, num casamento), uma garrafa serve de seis a 10 pessoas (um tantinho para cada um).

Escolhendo os fortificados

Chamamos assim pois são vinhos que foram submetidos a um processo chamado de fortificação – através do qual o vinicultor acrescenta uma aguardente, normalmente de vinho, naturalmente com bom teor alcoólico, durante a fermentação do vinho.

O que acontece? A fermentação será interrompida, o vinho ficará com maior teor alcoólico e será mais doce (em razão do açúcar que restou do vinho, pois deixou de ser transformado em álcool). Você encontra vários vinhos com esse estilo. Os mais famosos sãos o do Porto, o Madeira, o Jerez (ou Sherry), o vermute, o Málaga, o Montilla, o Marsala, o Liqueur Muscat, o Liqueur Tokay, entre outros na Europa.

Mas você os encontra também no Novo Mundo: os da Austrália, Califórnia e África do Sul. Os vinhos fortificados clássicos são da península ibérica e da Itália: os portugueses do Porto e os da ilha da Madeira; os espanhóis Jerez e Málaga. Na Itália, temos o Marsala, na Sicília. Todos esses vinhos apresentam uma grande variedade de sabores. Podem ser austeramente secos até francamente doces.

Os Porto Vintage são doces quando jovens, mas ao amadurecer ficam secos. Todos os Jerez (Sherry) são secos. Há estilos mais doces quando o produtor adiciona um vinho doce.  Os Jerez estilo Manzanilla e Fino nunca são doces, ao contrário dos Amontillado e Oloroso, freqüentemente meio-doces e doces. Os vinhos do Porto são doces quando sua fermentação é interrompida antes que todo o açúcar seja convertido em álcool, como vimos acima. Com a idade vão ficando mais secos.

Os fortificados podem ter também uma grande variedade de teor alcoólico. Alguns têm apenas 14-15º, com a maioria dos Portos e alguns Jerez chegando a 20º – quase duas vezes mais fortes que a maioria dos vinhos de mesa.

Servindo o Porto

Um vinho do Porto não deve ser servido à nossa temperatura ambiente – a partir de 21ºC. Isso fará com que o vinho fique muito volátil e difícil de degustar. O melhor é servi-lo em torno dos 18ºC.

Há copos especialmente criados para servir o Porto (e os demais fortificados). São uma reprodução em miniatura de uma flute de Champagne – cerca de um terço do seu tamanho. Devem ser cheios no máximo até a sua metade de modo a exibir melhor os seus aromas.

Os vinhos do Porto que tenham no rótulo Traditional LBV e Garrafeira devem ser bebidos assim que abertos – e até a última e deliciosa gota.

Bom, agora você tem referências de sobra para escolher seus tintos, brancos, rosés, espumantes e fortificados. Pode contar que, qualquer que seja a escolha, só fará amigos. Mas se ficou um tanto encaracolada, ainda tiver dúvidas, é só clicar pro Bolsa ou para a Soninha (http://www.adegaebar.com.br).



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