O mundo dos vinhos é bem parecido com medicina caseira: o vizinho da direita tem uma receita pra gripe que é tiro e queda, só na base dos chás; o da esquerda despreza as ervas e entrega-se ao famigerado coquetel de injeções e comprimidos; o de baixo prefere prevenir e há 30 anos toma uma vitamina estranhíssima pelas manhãs; o de cima mistura chás e rezas, tudo depois de um senhor abraço na árvore mais próxima. O grande problema é que as gripes continuam firmes; pegam em todo o mundo. Inclusive na Soninha. Agora, consultar um médico nem pensar!
E com os vinhos: eles devem “descansar” antes de servir? Se for um château significa que tem mais qualidade? Vinhos baratos não podem viajar? Todos os vinhos melhoram com o tempo – quanto mais velho melhor? Grandes vinhos jamais podem ser feitos em tanques de aço inoxidável? Enfim, é equívoco que não acaba mais. E é sobre eles que vamos conversar.
Château é igual a qualidade. Qualquer propriedade vinícola na França pode chamar o edifício ou construção onde fica a sua sede de Château, mesmo que seja uma modesta cabaninha de sapê. Em Bordeaux, particularmente, quase toda a propriedade é chamada de château. Para complicar ainda mais, algumas cooperativas burlam as leis e colocam château nos rótulos de seus vinhos. Enfim, só alguns châteaux são castelos mesmos; só alguns desses castelos são também propriedades vinícolas e quase todas essas propriedades denominam-se châteaux. E só alguns châteaux produzem vinhos de qualidade. Ufa! Deu pra entender?
Os grandes vinhos vêm sempre de vinhedos específicos e nunca são misturados (“blends”). Pegue um champagne de categoria (como a Krug, por exemplo): resulta de uma mistura de, às vezes, quase 50 vinhos de diferentes safras e cepas diversas. O mesmo acontece com os vinhos do Porto vintage. O grande vinho Grange usa, desde a sua criação em 1950, de uma mistura de uvas de várias regiões da Austrália (e não apenas de um só vinhedo).
As novas tampas de rosca, metálicas, não são tão boas quanto às rolhas. Elas são é menos românticas. Mas os testes até agora provaram que são mais eficientes não só em termos de conservação do vinho como naturalmente para eliminar o risco da chamada “doença da rolha”, que deixa no vinho um aroma insuportável.
Essa “doença da rolha” é detectada cheirando-se a rolha. Olha, só às vezes uma rolha com mau cheiro é indicativa de alguma falha no vinho. É muito freqüente que a rolha esteja impecável, sem sinais de deterioração, e o vinho na garrafa com graves problemas. A maneira certa de sabermos se um vinho tem a “doença da rolha” ou apresenta alguma falha é quando o provamos na taça. Às vezes, aromas ou sabores estranhos desaparecem em minutos. Se esses sabores e aromas persistirem, desista. Peça outro vinho. Temos de ficar de olho é na duração do problema. Muitas vezes, uma briguinha só não justifica um divórcio.
Todos os vinhos tintos melhoram com a decantação. Grande e tradicional equívoco. Só os vinhos mais jovens podem beneficiar-se com a decantação, pois através dela eliminamos eventuais resíduos gasosos na garrafa. Mas será um pecado decantarmos vinhos menos encorpados, como os tintos da Borgonha, que podem perder pelo menos parte do seu conteúdo de fruta ao ser manuseado dessa maneira.
Como regra geral, só os vinhos com depósitos (pequenas partículas resultantes da fermentação – que não interferem em nada na qualidade da bebida) é que deveriam ser decantados. Por exemplo: a maioria dos Bordeaux tintos bem maduros; os tintos maduros do Rhône, os Barolos (da Itália), além dos vinhos do Porto tipo vintage.
O Champagne mais seco é o Brut. Você pensa que ele é seco, mas na verdade leva uma pequena dose de açúcar. Se você estiver a fim de um champagne verdadeiramente seco, tem de pedir pelo Brut Zero ou Brut Sauvage. Ambos têm zero de açúcar, sem qualquer dosagem no momento do engarrafamento.
Uma boa safra em Bordeaux é também boa na Borgonha. Por favor, esqueça isso: as duas regiões são separadas pelo Maciço Central, uma cadeia de montanhas e, portanto, possuem climas diferentes (isso sem contar com relevos e topografias diversos). A histórica safra de 1982 para os tintos de Bordeaux foi diferente para os tintos da Borgonha, com resultado no máximo razoável.
E tem mais: não assuma que todas as safras apresentam qualidade para todos os estilos de vinho, mesmo os de uma mesma região. Os brancos da Borgonha, safra de 1992, foram muito melhores que os tintos. Os Sauternes (o vinho doce natural da área de mesmo nome, na região de Bordeaux) de 1967 ficaram na história como simplesmente maravilhosos. Já os tintos de Bordeaux, daquele mesmo ano, foram decepcionantes.
Rótulos com as palavras Qualitatswein, Appellation Contrôlée, DO, DOC ou DOCG garantem a boa qualidade de um vinho. Bem que poderiam, querida. Mas infelizmente todas essas expressões indicam apenas que o produtor assegurou que o vinho está dentro dos controles legais regulando as variedades de uva utilizadas, sua origem e métodos de produção. E isso tudo não quer dizer que o produtor do vinho seja bom. Esses nomes servem apenas como guias antecipando como os vinhos deverão comportar-se na taça.
Um verão quente é garantia de uma boa safra. No caso da Europa, não adianta nada ter um verão bem quente em agosto, com um outono chuvoso e frio. As safras dependem da correção do clima nas várias fases do desenvolvimento da uva, da primavera ao outono. Uma tempestade em setembro pode acabar com a festa do vinicultor antes do tempo (e isso acaba de acontecer no Piemonte, Itália, praticamente eliminando a safra dos famosos, encorpados, deliciosos e caros Barolos).
Um grande vinho jamais pode ser feito em tanques de aço inoxidável. Acha mesmo? Pois saiba que alguns dos melhores châteaux de Bordeaux fermentam atualmente seus vinhos em tanques de aço inoxidável – e fazem um vinho melhor do que nunca.
Vinhos baratos não podem viajar. Ou seja: você deve comprar um vinho caríssimo em Paris, momentos antes de embarcar. Caso contrário, se for baratinho, o coitado vai ficar cansadíssimo e praticamente dormir na taça brasileira.
Alguns vinhos baratos e jovens e alguns vinhos caros (e normalmente mais velhos, mais maduros e portanto mais frágeis) não viajam bem, é verdade. Tudo vai depender é da maneira como foram produzidos. Vinhos bem feitos, não importa se baratos ou caros (e você encontra de tudo – o segredo é saber achar) não têm dificuldades em viajar. Em sair da França, da Itália, Austrália e dar um pulinho na sua mesa. Se um vinho que você achou genial na Itália não se provou tão bom no Brasil, provavelmente o problema está em você: na Itália, com aquele gatão do lado, até água descia bem. Não culpe o querido vinho.
Todos os vinhos melhoram com a idade. Essa é uma crença bastante popular em quase todos os países, da Europa à América do Sul. Vinhos bons são vinhos velhos por definição. E todo mundo acaba tomando vinho oxidado, que já passou do ponto. Os consumidores modernos preferem vinhos mais frescos, com sabores de frutos. Quase todos os vinhos brancos mais baratos deveriam ser bebidos no máximo em dois anos da sua safra. Mesmo os de Bordeaux em grande parte pedem para ser bebidos mais jovens.
Cabernet Sauvignon é a uva dos vinhos tintos de Bordeaux. Uma boa quantidade deles é, de fato, feito com a Sauvignon. Porém, a uva mais plantada (e usada) em Bordeaux é a Merlot. Nas áreas de St. Emilion e Pomerol, inclusive, a Cabernet Sauvignon não entra. Lá, o blend é apenas Merlot e Cabernet Franc.
O vinho canadense, japonês e britânico é feito com uvas nascidas no Canadá, Japão e Grã-Bretanha. O Canadá e o Japão fazem vinhos com suas próprias uvas, mas também importam concentrado de uvas da América do Sul e engarrafam como se fosse produção local. O vinho britânico, diferente do vinho inglês, é na verdade produzido através de uma técnica local, que dilui e fermenta o concentrado que, normalmente, vem da ilha de Chipre.
A verdade é que nenhuma dessas reconstituições de concentrados pode ser definida como vinho. Para a legislação da União Européia, o vinho tem de ser feito de uvas frescas. Assim, o vinho inglês é que é o verdadeiro. E vem se saindo muito bem.
O vinho é feito de sumo de uva e álcool. Oh, Céus! Numa garrafa normal (750 ml), entre 70 e 87% do vinho temos água. O álcool normalmente compreende de 12 a 13% do total. Sobram resíduos de açúcar e outras substâncias. Os elementos responsáveis pelos aromas e sabores compreendem, portanto, apenas uma pequeníssima parte dessa garrafa.
Portanto, atenção: quem fizer afirmações categóricas sobre vinhos (ou qualquer outros temas) pode crer que cometeu algum equívoco em algum momento. Todos somos uma soma maravilhosa de equívocos. Maravilhosa porque costuma ainda dar certo. Se quiser saber mais sobre equívocos, verdades e mentiras do nosso mundico, cliquem aqui pro Bolsa ou para a Soninha (http://www.adegaebar.com.br/).
