Por mais deselegante que seja, existem vinhos com cheiro – ou aroma, conforme os cânones enófilos – de m. Isso mesmo, de m. No seu excelente Burgundy (“Borgonha” – Faber & Faber, ISBN 0571151787, 1995, 2a edição, ainda não publicado no Brasil), Anthony Hanson destrincha os fascinantes vinhos dessa que é uma das mais famosas regiões vinícolas do mundo. O respeitado crítico e negociante de vinho declara a certa altura que “…um grande Borgonha tem aroma de merda”. Curto e grosso, certamente.
O problema de captarmos exatamente o que os críticos de vinho querem traduzir com suas descrições de aromas e sabores é enorme, principalmente para os não iniciados. Nos tempos do meu pai, seu Josué, quem me abriu as portas para essa cultura e prazer, os vinhos eram simplesmente “próprios”, “impróprios”, “agradáveis”, “desagradáveis”. Eles tinham “elegância” e “finesse”. Possuíam “pega” e “garra”.
Mas a partir dos anos 80, com a chegada dos vinhos varietais, supermaduros e frutados do Novo Mundo, a coisa mudou. Com eles chegaram uma nova estirpe de críticos de vinho, profissionais, com espaço em colunas, páginas de jornais e revistas e espaço em TV e rádio. Tinham que conquistar leitores, que “fazer mais”.
O mais fácil era mesmo complicar. E a velha simplicidade (embora limitada e nem sempre acurada) deu lugar a descrições como “texugo úmido…”, “lona velha…”.
O famoso e sempre bem humorado Peter Mayle (autor do ainda best-seller “Um Ano na Provence” – que sozinho fez aumentar em 5% o fluxo de turistas para aquela região da França) testemunha esse tipo de complicação no seu trabalho mais recente, French Lessons – Adventures with Knife, Fork and Corkscrew (“Lições de Francês – Aventuras com Faca, Garfo e Saca-rolhas” – Alfred A. Knopf, 2001, ISBN 0-375-405090-91, ainda não publicado entre nós).
Ao descrever sua participação numa degustação durante o talvez mais famoso leilão de vinhos do mundo – o do Hospices de Beaune, também na Borgonha, ele tenta encontrar uma explicação para o jargão barroco e obscuro dos críticos.
Antes, uma notinha sobre esse importante leilão. Em 1443, Nicolas Rodin, chanceler do Duque Felipe, o Bom, da Borgonha, fundou um hospital então capital daquela região, Beaune. E dotou o Hospices de Beaune com vinhedos, de modo a garantir a sua renda. Até hoje, quase 600 anos depois, o sustento dessa instituição tem origem nos vinhos. Todo ano, no terceiro domingo de novembro, o vinho da safra mais recente é vendido em leilão, durante um grande festejo.
As degustações são parte obrigatória dessas festas. Numa delas, num produtor de Gevrey-Chambertain, estava o nosso Peter Mayle, que entre goles e sorvos, anotou algumas atrapalhadas semânticas, “… frases que são fora do comum ou grotescas o bastante para ficar na memória”.
Algumas, explica, são lógicas e objetivas, como “Le goût de la planche”, pois, diz, o vinho novo em barris de carvalho vai certamente adquirir um gosto de tábua de madeira. Outros termos são tentativas desesperadas de se chegar a uma analogia. São os “aromas de couro úmido”, de “cachorros molhados”, de “doninha”, de “ventre de lebre”. Onde será que os críticos estão colocando a língua e o nariz?
Mayle entende que as descrições normais, como “frutado”, “potente”, “complexo” etc. tornaram-se demasiadamente genéricas. Daí o recurso aos “ventres de lebre” e outras invenções. Conta ele que um crítico, presente à citada degustação, notou um distintivo “goût de tapis” num dos vinhos experimentados. “Gosto de tapete quem tem são os vinhos de Bordeaux”, respondeu o produtor de Grevey, irritadíssimo. O crítico ainda tentou uma saída, acrescentando que “não se trata de um tapete qualquer, mas de um tapete raro e velho”. Piorou.
Mas, amiga leitora, teremos sempre essas situações quando tentarmos descrever aromas – quaisquer um deles. Nossa boca pode avaliar o peso, o corpo e a textura de um vinho – contando já com um vocabulário específico aceitável. Palavras como “encorpado”, “macio”, “seco”, “tânico”, “espumante” etc. são utilizadas para corretamente descrever essas qualidades físicas.
Sabemos que a boca pode registrar apenas quatro sensações básicas: acidez, amargor, salinidade e doçura. Mas nosso olfato registra concentrações minúsculas de até uma parte por 10 mil e reconhece milhares de diferentes aromas. A infelicidade é que nosso bulbo olfativo não está conectado com a parte do cérebro que cria os adjetivos, o que explica os “aromas de ventre de lebre”, de “tapete velho e ilustre” ou de “forro de gaveta de talheres”.
Como o sexo, nosso olfato é extremamente subjetivo. Quando tem um orgasmo, o melhor a ser feito é procurar imediatamente um bom dicionário. Diante de problema tão angustiante (e capaz de afugentar um simples interessado em provar uma tacinha de vinho), os pesquisadores da Universidade da Califórnia, em Davis, criaram uma “Roda do Aroma”.
É um gráfico simples, no formato de uma pizza, cortada em dezenas de pedaços, cada um relativo a um aroma específico. Ela cumpre quatro objetivos: a) identificar os aromas mais comumente encontrados nos vinhos; b) anotar as palavras mais utilizadas na degustação ou na avaliação dos vinhos; c) agrupar os termos de acordo com seus similares e; d) apresentá-los de modo a facilitar a sua compreensão.
Todos os termos são analíticos. Por exemplo: “Floral”, um termo descritivo específico, é encontrado na Roda. Mas não “Elegante”. Alguns já se tornaram padrão na descrição de vinhos e uvas. Um vinho com aroma de querosene? Trata-se de um Riesling. “Sela suada” tem relação com a uva Syrah. Cassis e amoras com Cabernet Sauvignon. Morangos ou framboesa com Pinot Noir. Amanteigado é Chardonnay. “Xixi de gato” é a Sauvignon Blanc. Tem até “aroma de chiqueiro”.
Como vê, paciente leitora, o mundo dos críticos de vinho é bem folgado, subjetivo. E pirandeliano, pois são muitos personagens em busca de um adjetivo. Assim, identifique o aroma e anote com suas próprias palavras. Você terá um glossário todo seu, de muita personalidade e, sobretudo, de grande precisão. Afinal, só você mesma precisa entendê-lo.
Caso crie algum substituto para “ventre de lebre” ou resolva colocar o nariz em regiões inexploradas no mundo do vinho, por favor, faça contato aqui para o Bolsa ou para a Adega & Bar.
