Falei que estava rouca de viver cantando as qualidades medicinais do vinho, mas não tem jeito: os cientistas não param e vivem descobrindo coisas novas. O vinho parece um oceano aberto para novas descobertas. E, para a nossa felicidade, o que os centros de pesquisa e laboratórios revelam coloca o vinho numa posição de grande vantagem sobre a maioria dos itens de consumo.
E olha que não estamos falando de uma erva medicinal danada de ruim para beber. Falamos de algo que é mais do que uma bebida. O vinho fala conosco. Conta milhares de histórias sobre aromas, cores, sabores, regiões, paisagens, temperamentos, que mudam a cada garrafa, a cada gole, a cada dia. Parece quieto lá na sua garrafa. Mas só nas aparências, pois, como diz a escritora Joanne Harris (Chocolate, Vinho de Amoras), o vinho é um ventríloquo.
A solução é voltar a falar das novas descobertas sobre as qualidades medicinais do vinho. E continuar rouca.
Peptídeo – Já ouviram sobre ele? É uma substância que faz os vasos sanguíneos contraírem. O sangue tem dificuldades em passar… e babau! Nossa carreira é interrompida – temporariamente se dermos sorte.
Agora mesmo, em janeiro, um time de cientistas londrino descobriu como o vinho tinto reduz o risco de doenças do coração. Essa equipe, que opera na Queen Mary University, de Londres, estava tentando decifrar o enigma do chamado “Paradoxo Francês”. Há pouco mais de dez anos, o epidemiologista e nutricionista francês Serge Renaud provou os benefícios do vinho para a saúde e das suas vantagens sobre cerveja, destilados e – atenção – a abstinência do álcool.
No dia 17 de novembro de 1991, o famoso e respeitado programa 60 Minutes, do canal de TV norte-americano CBS, colocou no ar uma reportagem intitulada “The French Paradox” (O Paradoxo Francês), entrevistando Serge Renaud. O cientista descreveu como era possível o povo francês ter um índice tão baixo de ataques fatais do coração, mesmo consumindo regularmente grandes quantidades de gordura animal. O segredo estava no consumo de grandes quantidades de álcool sob a forma de vinho, provava Renaud.
60 Minutes – Era (ou ainda é) o programa jornalístico de maior audiência do país. Vocês lembram do filme O Informante (“The Insider”), com Al Pacino e Russell Crowe, que teve 7 indicações para o Oscar? É todo em volta do programa e de uma entrevista sobre o cigarro como uma droga como qualquer cocaína – que cria dependências, danifica também o cérebro, além de ser cancerígena. É visto por 40 milhões de pessoas. Logo, logo, as revelações de Renaud fizeram com que o interesse do público sobre o vinho explodisse.
Desde então, as pesquisas científicas sobre o vinho como elemento importante para a saúde tomou grandes proporções em universidades, laboratórios médicos, hospitais, escolas de enologia e empresas farmacêuticas e alimentícias. E Renaud passou a ser conhecido como “o pai do Paradoxo Francês”. O que se sabia era que o vinho tinto contém, entre seus elementos positivos, polifenóis – substâncias antioxidantes que ajudam a reduzir o risco de problemas cardiovasculares. Os cientistas londrinos descobriram como. Eles bloqueiam a ação dos peptídeos (proteínas e hormônios formada por dois ou mais aminoácidos), que contraem nossas artérias.
O vinho tinto torna menor a produção de um peptídeo em particular, a endotelina-1. Normalmente, esses elementos ajudam a manter a estrutura dos vasos sanguíneos. Mas em excesso, a endotelina promove a formação de depósitos de gordura que bloqueiam as artérias. A pesquisa foi feita numa cultura de células da veia aorta retirada de vacas. A essa cultura adicionaram extratos de 23 vinhos tintos, 4 brancos, um rosé e suco de uva tinta.
No caso dos vinhos tintos, a produção de endotelina-1 caiu 50% em uma hora. O suco de uva também funcionou, mas não com a mesma força. Vinhos brancos e rosés não tiveram efeito sobre o peptídeo. “Isso indica que o princípio ativo do vinho tinto deriva das cascas das uvas e outros componentes criados durante o processo de vinificação”, afirma o estudo.
Os resultados mostraram também que quanto maior a quantidade de polifenóis de um vinho, mais baixa a produção da endotelina-1. O estudo utilizou extratos de várias cepas, como Merlot, Pinot Noir, Sangiovese e Shiraz. De um modo geral, os vinhos com base na uva Cabernet Sauvignon demonstraram os mais altos índices de polifenóis e o maior impacto sobre os peptídeos.
Pareci um tanto científica hoje? Mas a causa, nem precisa falar, é pra lá de boa, não é mesmo?
Se quiser saber mais sobre outros benefícios do vinho (e olha que os brancos e rosés também tem os seus) é só clicar no Bolsa ou na Adega & Bar.
