» 2001 » dezembroSoniaMelier

A cesta inteligente

by soniamelier em 27 de dezembro de 2001 | 21:00

Faz de conta que você quer encomendar uma cesta para as festas de fim de ano: vinhos, destilados e uma dezena de iguarias. Bem, já que estamos no faz de conta, procure prever como será sua ceia natalina e o almoço (o famoso “enterro dos ossos”) do dia seguinte ou como planeja os comes e bebes da sua festa de ano novo. Monte uma ou duas cestas de acordo com seu planejamento. Na minha opinião, sua cesta de fim de ano ficará mais objetiva – e, de certo modo, mais em conta –, pois as bebidas que lá estarão servirão para combinar melhor com o que será servido.

Como não posso adivinhar gostos e apetites das leitoras, vou apresentar várias possibilidades: ora de entrada, ora de pratos principais, de sobremesas, de tira-gostos. Enfim, do que cabe em festas como as do Natal e Ano Novo. E quais as bebidas (claro, de preferência os vinhos) a acompanhar melhor cada escolha. O objetivo é ajudá-la a compor mais objetivamente a sua cesta, por mais imaginária que seja. Caso contrário, você ficará encantada com as cestas que vê nas lojas e acabará se esquecendo do que vai ter à mesa. Aí, é dinheiro jogado fora.

Aperitivos:

Vamos seguir os conselhos de mestre Oz Clarke, Jancis Robinson e Hugh Johnson: espumantes (se possível, champagne) que acompanham qualquer prato e ainda podem ser degustados como aperitivo, desacompanhados. As opções são o xerez (sherry) espanhol, o vinho do Porto ou um vermute italiano. Ou ainda um branco seco ou rosé (um Riesling ou Chenin Blanc, mas não um Chardonnay). Atenção! Não use amendoim e azeitonas: destroem os sabores do vinho. Só combinam com xerez ou um Martini. Você tem alternativas mais criativas, como amêndoas, pistache – nessa linha.

Entradas:

Carpaccio de peixe (carne branca) – Prefira um Chablis – aquele vinhaço branco francês, lá da Borgonha. Opção (que também é ótima): um Muscadet (um vinho feito com uma cepa, conhecido como Melon de Bourgogne ou Muscadet de Bourgogne, na parte mais a oeste da região do Loire).

Carpaccio de salmão – Chardonnay ou champagne.

Carpaccio de carne – Um tinto, Cabernet Franc, ou um Chinon (também do Loire).

Caviar – Se for o legítimo, não abra mão de champagne, de preferência uma Blanc de Blancs. De outro modo, se forem ovas de peixes outros, ou com contribuição da indústria química, compre um espumante nacional. Eles estão tinindo de bons.

Caesar Salad – Chardonnay (melhor da Califórnia ou australiano).

Antipasti – Certo, não bem o nosso antepasto, mas o italiano que conhecemos de bons restaurantes. Escolha um branco seco, de preferência italiano: Soave, Pinot Grigio ou um Prosecco. Pode também pensar num Dolcetto ou num Chianti bem jovem.

Hors d’oeuvres – Da mesma família dos antipasti: um branco como o Sancerre, qualquer Sauvignon Blanc, um Chenin Blanc da cidade do Cabo, África do Sul. Cabe também um xerez seco.

Ostras cruas – Uma boa champagne, um ótimo Chablis, um branco de Graves, Bordeaux ou um Sancerre.

Ostras cozidas – Chardonnay da Califórnia ou Austrália. Champagne também acompanha bem.

Abacate com frutos do mar – Branco seco ou meio seco. Sancerre, Pinot Grigio, Chardonnay australiano. Se utilizar vinagrete, sirva um xerez seco.

Berinjela (em purê ou em salada) – Um Sauvignon Blanc australiano, chileno ou neozelandês.

Presunto, cru ou curado – Um Pinot Gris da Alsácia. Um Porto tawny ou um xerez seco.

Presunto com melão (ou com pêra ou figo) – Um branco seco, meio encorpado. Um Rioja branco, um Sauvignon Blanc.

Patê de campagne – Um branco seco (pode ser um bom vinho branco regional).

Patê de fígado de galinha – Um branco mais presente: Pinot Gris ou Marsanne da Alsácia. Ou um tinto francês do Pomerol.

Patê de pato – Um Chianti Classico, um Châteauneuf-du-Pape.

Patê de peixe – Um Chardonnay australiano (sem madeira), um Muscadet.

Quiche – Não é prato para vinhos finos. Pode pegar desde um Sauvignon Blanc até um Pinot Noir chileno ou um Beaujolais-Villages.

Saladas- Se guarnecida por queijo azul (gorgonzola), qualquer branco seco. Atenção que o vinagre da salada destrói o sabor do vinho. Mude o vinagre por vinho ou com um pouco de suco de limão.

Bom, já é um começo para você compor a sua cesta inteligente. Não importa o tamanho dela. O que vale é que cada item será efetivamente degustado. Terá uma serventia imediata. Tudo se harmonizando o melhor possível. Na próxima coluna falo de pratos quentes, peixes, carnes, aves etc. Se quiser alguma receita antecipadamente é só clicar agora para o Bolsa ou para a Adega & Bar.

Feliz Festas!

Quando o copo pega II

by soniamelier em 13 de dezembro de 2001 | 21:00

Vimos dos mitos que envolvem o consumo de álcool (do vinho em particular) com nossas calorias, com o “colesterol bom”, com a possibilidade de cirrose e com a quantidade: quanto é “beber demais”. Pois é, desde que bebamos moderadamente, o vinho não interfere com suas calorias, como até é benéfico para aumentar o seu HDL, fora o fato de não contribuir com cirrose hepática. E o que é beber moderadamente? Na média das pessoas, é tomar até duas taças de vinho tinto diariamente. Nada mal, não é mesmo?

E o que mais? Vinho aumenta o risco de câncer de mama? Tenho uma amiga que adora vinho, mas é uma senhora hipocondríaca. Ela leu um artigo que sugeria o risco de câncer de mama para quem bebe vinho tinto, em razão dos polifenóis (que são ótimos para reduzir doenças cardíacas, por falar neles). Essa amiga acha que só devemos beber vinho orgânico (aquele que não usa transgênicos, adubos químicos etc.). Pedimos, mais uma vez, socorro ao Dr. R. Curtis Ellison, mestre da Escola de Medicina da Universidade de Boston, Estados Unidos, famoso pelos estudos comparativos relacionados ao consumo de bebida (o vinho particularmente) e a saúde. Ele concorda que a única condição adversa para a saúde associada com um consumo entre leve e moderado de vinho é o câncer de mama em mulheres. Todos os demais efeitos negativos são decorrentes de abuso no consumo ou de beber na hora errada (durante a gravidez, antes de dirigir ou com estômago vazio, por exemplo).

O cientista completou um estudo que envolveu 5 mil mulheres (trabalho que já se alonga por décadas). É o Estudo Framingham, que descobriu que mulheres abstêmias tinham tanto (ou mais) câncer de mama do que as não abstêmias. Informa, porém, que outros estudos mostram níveis um pouco mais altos desse mal em mulheres que bebem, mesmo que moderadamente. Contudo, afirma o médico, se uma mulher, especialmente após a menopausa, decide evitar bebida de qualquer modo, esperando reduzir o risco de câncer de mama, a redução da incidência do problema (se houver) será mínima. Por outro lado, se optar pela abstinência completa aumentará acentuadamente o risco de problemas cardíacos, inclusive de um infarto, diminuindo as chances de viver por mais 10 anos.

O Dr. Curtis Ellison alerta para o fato de que seus colegas médicos, em particular os cardiologistas, precisam atualizar-se mais a respeito dos estudos relacionando álcool e saúde. Recomenda que procurem o Instituto de Estilo de Vida e Saúde da Universidade de Boston e a Universidade do Mississipi, onde a Associação Americana do Coração realiza cursos de atualização desses estudos regularmente. Ou então que acessem o site dele: http://med-www.bu.edu/cme/seminars/alcohol.htm. Viu? Você pode até dar uma “volta” no seu médico.

E outros tipos de câncer? Minha amiga está com seu pai sob quimioterapia. Ele tem 55 anos e está na batalha contra um câncer nos intestinos. Mas o homem é um bebedor de vinho e consome uma média de duas taças por dia, nos fins de semana. Esse vinho pode prejudicar o tratamento dele, pergunta minha amiga? O importante nesse caso é que o médico do seu pai saiba dos hábitos dele quanto a bebidas. Importante de modo que o vinho não provoque interações indesejadas com os medicamentos. Com toda a razão, alguns médicos se preocupam com os efeitos resultantes da combinação do álcool com alguns medicamentos. Se souberem o que e quanto seu pai bebe, podem levar isso em consideração e receitar outros tipos de drogas.

Outras amigas leram que, depois de um infarto, só faz bem consumir uma taça de vinho por dia ou a cada dois dias. E perguntam que tipo de vinho é o preferível. Vou logo lembrando que o álcool causa um modesto aumento na pressão sangüínea e as pessoas que têm hipertensão não deveriam abusar (aliás, ninguém deveria abusar). Um estudo feito em Maryland, Estados Unidos, demonstra que a pressão aumenta mais entre os bebedores de cerveja e de destilados. E menos entre os bebedores de vinho. De qualquer modo, sabemos que os piores efeitos da alta pressão – ataques cardíacos – podem ser bem reduzidos pelo consumo moderado de álcool. Este aumenta o HDL, o nosso “colesterol bom”, ajudando a reduzir a camada de gordura nas artérias. Logo, aliviando aumentos de pressão no sangue.

De qualquer modo, se uma pessoa está em tratamento de hipertensão e resolve beber, mesmo que em quantidades que considera moderadas, o melhor é falar com o médico. Ele precisa saber dos hábitos do seu paciente para que os medicamentos receitados não atropelem o meio de campo, em contato com o álcool, por menor quantidade que seja. O vinho branco é melhor que o tinto, com relação à nossa saúde. E as pessoas que misturam várias bebidas? Na gravidez, mesmo um copinho de vinho pode fazer mal ao feto? Gente, temos é assunto. Se quiser saber antes clique agora para o Bolsa ou para a Adega & Bar.

Vinho é saúde, podem crer. Não percam a próxima coluna.

Feliz Festas!

Quando o copo pega

by soniamelier em 6 de dezembro de 2001 | 21:00

Continuo com as dicas de médicos e cientistas sobre o que pega e o que não pega quando resolvemos levantar o copo. E o momento é esse: Natal, Ano Novo, quando todas nós teremos sempre motivos para beber um copo ou mais. Quanto é demais?

Demais para a minha silhueta, para o meu fígado, para a minha cabeça. Demais até para a minha moral (aquela hora em que você manda a sogrinha plantar batatas)!

Calorias – Vamos começar por elas. Para cada taça de vinho, quantas calorias você soma em sua dieta?

Uma taça de vinho tinto (mais ou menos 142 mililitros ou quase dez colheres das de sopa) tem entre 125 e 150 calorias. Tem a mesma quantidade de álcool que uma boa dose de destilado (uísque etc.) e uma tulipa de cerveja.

A boa notícia é que essas calorias geralmente não contribuem para aumento do seu peso. Por alguma razão, o álcool é metabolizado de modo diferente. Logo, se você acrescentar aos seus hábitos de 100 a 200 calorias de álcool, diariamente, não ganhará peso, segundo a maioria dos estudos mais sérios. Agora, se o mesmo número de calorias é acrescentado na forma de gordura, carboidratos ou proteínas, você já começa a ganhar um pesinho extra.

HDL – O pessoal acha que vinho afeta a contagem do HDL (mais conhecido como “colesterol bom”, que ajuda a reduzir o risco de problemas cardíacos). E muitos até param com as bebidas (inclusive o vinho), começam a bancar os atletas e a correr (o que deve ser feito, mas com orientação de médicos e profissionais de Educação Física).

Não sei se você faz aquela caminhada em volta da Lagoa ou pela praia. Mas um dos melhores remédios para aumentar o seu HDL é beber um pouquinho todos os dias. O Dr. R. Curtis Ellison, mestre da Escola de Medicina da Universidade de Boston, Estados Unidos, completou em 1998 um estudo comparando exercício físico e álcool. Mais boas notícias:

Descobriram que uma taça ou duas por dia (de vinho) estavam associadas a um aumento de 10 mg na contagem do HDL, entre os pesquisados. Enquanto isso, no grupo que só fazia exercício (corria ou andava) regularmente, a contagem do HDL só aumentava uns 2 mg no HDL. Mas fazer exercício é ótimo. Só que não esqueça das duas taças de vinho diárias.

Agora, se você fuma e está preocupada com seu HDL, pare! Saiba que ele reduz em 10 mg o seu HDL se você fuma um maço por dia (a comparação é feita com mulheres não-fumantes). E, nesse caso, não adianta a taça de vinho.

Qual o limite? – Voltamos então à grande mentira. Todo mundo declara que “bebe pouco”, “só bebe socialmente”, que “o que fez mal foi aquele camarão…” entre outras lorotas. Mas o quanto é demais? Qual a dose saudável?

A maioria dos estudos demonstra que as pessoas que bebem menos que três taças diariamente não apresentam problemas de saúde. Mas esse é um limite que varia de pessoa para pessoa. Normalmente, são os aspectos sociais que nos alertam sobre nossos excessos com a bebida. Sabe, você fica alegrinha “demais”, começa a passar a mão no seu priminho, debaixo da mesa, achando que ninguém está notando. Uma lástima!

Beber e comer – Muitas amigas falam que só comem com uma taça de vinho. Na média, consomem três taças às refeições, diariamente. Faz mal?

Bem, é melhor beber com estômago cheio, sem dúvidas. Quando você come, o nível alcoólico é cortado pela metade. Uma parte fica no seu sistema, a outra é diluída pela comida. Seu corpo tolera muito mais. Se você (voltando à pergunta anterior) não tem problemas com essas três taças (dá meia garrafa de vinho), então vá em frente.

Paradoxo francês – Os franceses são talvez os maiores consumidores de vinho do mundo e apresentam uma baixa incidência de problemas cardíacos. Contudo, a incidência de cirrose é muito alta na França. Muitos médicos acham que morrem mais franceses de cirrose do que de problemas cardíacos. E agora? O Dr. R. Curtis Ellison mostra que o índice de casos de cirrose é sete vezes mais alto no norte e nordeste francês do que no sul e sudeste, onde o vinho é a bebida mais consumida.

Existe, na França, segundo o médico, uma relação inversa entre consumo de vinho e cirrose: quanto mais vinho é consumido, menor o risco de cirrose. Se você bebe moderadamente e tem uma dieta saudável, seu risco de cirrose é praticamente zero.

Falta falar sobre a relação do vinho com câncer de mama e de cólon. E muitos outros aspectos da relação álcool e saúde. Espere pela próxima coluna ou clique agora para o Bolsa ou para a Adega & Bar. Queremos que você entre nas festas em forma e bem informada.



perfil

Espaço para as mulheres que apreciam um bom vinho – e para as que querem entender melhor sobre esse universo