» 2001 » novembroSoniaMelier

Nem tudo que é duro é bom

by soniamelier em 29 de novembro de 2001 | 21:00

Natal e Ano Novo estão aí e você contempla, entre feliz e preocupada, uma agenda entupida de festas, festinhas, festanças, amigo-ocultos, fogos e shows na praia, fora aquela champagne no motel. Tem um bocado de bebida, comida e outros enfrentamentos pela frente. E a minha forma, o meu corpinho (esquecemos sempre do que nosso espelho registra, não é mesmo?), meu fígado, meu HDL, meu colesterol? E minha saúde e o meu prazer?

Calma, temos notícias ótimas com relação ao consumo de álcool – e muito particularmente de vinho. Vamos a elas:

Moleza para as artérias – A primeira é muitíssimo recente: são os resultados de uma conferência (Scientific Sessions 2001), realizada pelos doutores da American Heart Association (Associação Americana do Coração), em Anaheim, Califórnia, validando outros estudos que demonstram que o consumo moderado de álcool pode retardar o envelhecimento (leia-se enrijecimento) das artérias – que é o quadro que leva ao aumento da pressão sangüínea, com o possível resultado de um ataque cardíaco. Gente, desta vez não se trata de mais um grupo de pesquisa de uma ou outra universidade, do trabalho de um ou outro laboratório. Agora, o aval é dado pela autoridade máxima: a AHA.

O estudo, divulgado dia 12 de novembro e já publicado pela Winespectator, relata a longa pesquisa realizada com 563 voluntários, entre 20 e 90 anos, todos sem registro de operações cardíacas e que se inclui no mais longo exame científico sobre o envelhecimento humano já realizado na América. Essa pesquisa começou em Boston, em 1958, e seu objetivo é observar como as pessoas envelhecem e determinar as alterações ocorridas em razão da idade e aquelas motivadas por doenças.

Os voluntários foram categorizados pelo seu consumo médio semanal de álcool: abstêmios, bebedores ocasionais (menos de um drinque), bebedores leves a moderados (de um a nove drinques) e bebedores pesados (mais de 10 drinques). Um drinque foi definido como uma taça com 118 a 147 ml (ou 8 a 10 colheres das de sopa) de vinho. Ou uma dose de qualquer destilado ou 341 ml de cerveja (23 colheres das de sopa). Trocado em miúdos, é uma taça universal de vinho tinto pela metade ou uma tulipa pequena de cerveja. Se você é um bebedor médio de vinho, tomaria, pelas contas dos cientistas, quase uma garrafa e meia (9 taças) por semana. Sem qualquer problema. Jingle Bells!!!

Mediu-se o diâmetro das artérias dos voluntários por ultra-som, considerando-se que quanto mais grossas as suas paredes, menos flexíveis eram as artérias, resultando num trabalho maior de bombeamento do coração. Moro aqui na Serra, onde só usamos fossa. Você já experimentou não limpar sua fossa por seis meses? Entope tudo. De repente, ela transborda e bum! Tudo vira Kabul! Com seu coraçãozinho é a mesma coisa, querida. Bum!

Titicas de lado, os pesquisadores descobriram que a rigidez das artérias entre os grupos dos abstêmios (é a turma que inventou a Máfia, ao criar a Lei Seca, ou que anda de cachecol no verão) e dos bebedores pesados (vocês, por favor, fiquem tranqüilas que estou nessa ala) é na média de 10 a 20% maior do que o pessoal moderado. Os bebedores ocasionais ficam entre esses dois grupos, com rigidez arterial 5% maior do que a dos moderados. Viu, não adianta ser patricinha, tipo “só bebo socialmente”.

Os pesquisadores afirmam que os efeitos benéficos do álcool (para o grupo dos moderados) acontecem não importa o tipo de álcool: cerveja, destilado ou vinho. O Dr. Jerome Fleg, um dos principais autores da pesquisa e cardiologista do Instituto Nacional da Terceira Idade e do Centro de Pesquisa de Baltimore, revela que o estudo demonstra que o consumo moderado de álcool está efetivamente relacionado com uma taxa menor de mortalidade cardiovascular.

Exemplo: bebedores leves e moderados, abaixo da faixa dos 50 anos, apresentaram apenas 15% menos de rigidez arterial do que os abstêmios (pelo menos, um ponto para eles). Contudo, esse mesmo grupo (leves e moderados), com 70 anos ou mais, mostrou 30% menos de rigidez arterial do que os abstêmios.

Se eu fosse um Pró-Cardíaco da vida, além do oxigênio, fibrilador e quejandos, equipava a ambulância com uma garrafa de vinho. Só procuraria não cobrar esse item a partir dos extorsivos preços dos restaurantes. Aí, abstêmio ou não, o paciente… bum!

Dr. Fleg até arremata com um encorajamento: “Se eu fosse um bebedor entre leve e moderado, certamente não teria nada a temer”.

Querida, claro que quase sempre queremos dureza. Menos quando estamos bebendo, não é mesmo? (Se bem que quando chega naquela parte da festa que é a do champanhe no motel, nosso parceiro está que é uma moleza só, da língua até os pés). A pesquisa deveria contemplar esse grupo: “parceiros em geral”, pois são mutantes: ora leves, moderados, pesados e… abstêmios.

Falei de algumas notícias, mas dei uma só.

E os benefícios do vinho para o seu HDL (o chamado “colesterol bom”), e a relação entre vinho e cirrose, entre vinho e câncer de mama, entre vinho e tudo o mais? A receita é você marcar uma consulta agora aqui no Bolsa ou clicar para a Adega & Bar. Semana que vem, de qualquer

Uma idéia de abundância

by soniamelier em 22 de novembro de 2001 | 21:00

Uma improvável Disneylândia onde impera o bom gosto. Um Louvre com cursos e degustação de vinhos, além de obras de arte. Jardins onde você aprende sobre horticultura orgânica e cultura biodinâmica. Um parque com aulas sobre cozinha africana, asiática, entre outras. Uma galeria com aulas ao vivo dos mais importantes mestres de arte. Pois Copia é tudo isso e muito mais. O nome oficial é Copia: The American Center for Food, Wine and the Arts (Copia: Centro Americano de Alimento, Vinho e Artes). É novinho em folha. Foi inaugurado agora, dia 18 de novembro, na cidade de Napa, Califórnia, e tem como idealizador o legendário vinicultor Robert Mondavi, um dos mais importantes do mundo, um dos homens que colocou o vinho norte-americano no mapa.

Copia é a deusa grega da abundância e dá nome àquilo que se apresenta como o mais importante centro cultural dedicado à descoberta, entendimento e celebração do vinho, comida e artes na cultura americana. Lá você pode aprender como criar e organizar uma adega ou fazer uma compota especial, saber tudo sobre merengues e assistir aulas da famosa historiadora da culinária, Jessica Harris, sobre a gastronomia afro-americana. Nos dias 15 e 17 de fevereiro, por exemplo, Jessica, formada pelo famoso Bryn Mawr College, EUA, e pela Université de Nancy, França, vai falar sobre a importância do arroz na África e no Brasil.

Os programas mudam diariamente e a cada mês o centro explora um tema. Em janeiro de 2002 o tema, por exemplo, é “O Ano Novo Nasce no Leste” e destacará as várias modalidades de celebrações da passagem do ano em todo o mundo, além da cultura, arte e cozinha asiáticas e a contribuição das comunidades asiático-americanas. Já no mês seguinte, fevereiro, o tema é “Celebrando o Carnaval e o Mardi Gras”, destacando, claro, as festas de Nova Orleans, o carnaval brasileiro e rituais e eventos artísticos, além das comidas tradicionais que envolvem esses eventos.

Outro palestrante que vou fazer questão de assistir, se eu conseguir vender todas as minhas carijós aqui em Secretário, é Jancis Robinson, escalada para palestras em meados de 2002. Jancis é Master of Wine, escritora, colunista, autora de The Oxford Companion to Wine (obra de consulta obrigatória em qualquer biblioteca que se preze). Agora mesmo, dia 30, sexta-feira, entre palestras sobre jardinagem, culinária, arte, a uva Pinot Noir será examinada e provada em profundidade, com exemplos de seus vinhos de todas as regiões do mundo.

Por falar nisso, o curador de vinhos do Copia é Peter Marks, um dos 14 americanos membros do Institute of Masters of Wine, de Londres – o mais difícil título de ser conseguido. O exame toma quatro dias e inclui todas as áreas do vinho, viticultura, enologia, marketing e aspectos sociais. Ainda são feitos testes cegos onde os candidatos devem identificar vinhos pela variedade da cepa, origem, safra, qualidade, estilo, método de produção e condições de maturação. Logo, Peter sabe o que está fazendo melhor que ninguém.

Copia é uma idéia antiga de Robert Mondavi, que se estabeleceu no Vale de Napa em 1960 e logo apresentou ao mundo vinhos memoráveis. No clima favorável de Napa até que não é lá difícil produzir vinhos de qualidade. Só que Mondavi fez e faz isso em quantidades astronômicas. Ele pesquisou exaustivamente as propriedades e nuances do carvalho francês antes de decidir como seus vinhos deveriam amadurecer. Criou um gênero exclusivo, um estilo de Sauvignon Blanc amadurecido em carvalho que chamou de Fumé Blanc. Foi um dos primeiros produtores da Califórnia a produzir Pinot Noir de qualidade regularmente. Associou-se ao Barão Philipe de Rothschild para criar o Cabernet Opus One, ao estilo de Bordeaux.

Desde o início, criou tours pelas vinícolas de Napa e projetos educacionais de modo a que os americanos entendessem melhor o que é vinho fino. Para ele, vinho sempre foi um bem cultural. Por isso, existe Copia, projeto pelo qual lutou onze anos e onde investiu 20 milhões de dólares, até agora.

Sei que o mundo é um medo só: terrorismo, guerras, bombas, miséria, tudo num envelope só. Ninguém quer sair de casa, embora uma bala perdida nos espreite: basta olhar pela janela. Mas acho que visitar Copia vale a pena. Não é uma viagem qualquer: você se diverte e aprende, sem precisar ver ou bancar o pateta (isso para quem gosta da Disney). É uma maneira bem eficiente de você aprender a conhecer mais sobre vinhos. Afinal, onde você poderia encontrar num mesmo lugar só cobras pra te ensinar?

Você também pode olhar por outro lado. Copia é um bom exemplo de como lutar contra o estigma do terror e da miséria. Contra a destruição das torres, faz-se um centro de cultura, arte e gastronomia. Onde se propõe a falta, ensina-se tudo o que se sabe sobre abundância. É uma idéia que você, amiga, deveria considerar. Afinal, chega de achar que bom é apenas o médio, o mediano, o medíocre. Bom é viver em abundância.

Agora, vai ver você ficou com água na boca mas está sem tempo de ir até a Califórnia, que sempre custa uma graninha e o dólar tá que tá, não é mesmo? Não tem problema: você pode providenciar já, já, uma ida ao Rio Grande do Sul e conhecer nossas vinícolas. Meninas, é outro grande programa – e de muito bom gosto. Você pode consultar a Associação Brasileira de Sommeliers, no Rio, que sempre organiza programas de visitas às nossas principais regiões e vinícolas – todas ciceroneadas por um professor da ABS. Ou uma agência de viagens especializada na área.

O Rio Grande do Sul é o nosso melhor e maior produtor vinícola. Não deixe de conhecer, em particular, as montanhas do nordeste do estado, a região da Serra Gaúcha, a grande estrela de vitivinicultura nacional. E lá visite Bento Gonçalves, Caxias do Sul e Garibaldi. Você vai conhecer vinícolas que empregam tecnologias ao par das suas colegas européias. Bento Gonçalves, em particular, sedia as mais famosas vinícolas do país. Cada uma delas possui restaurante de cozinha italiana (retrato do principal grupo de imigrantes) e, em algumas, ótimas pousadas.

Na vinícola Miolo você pode degustar um ótimo javali assado na Osteria Mamma Miolo – tudo ao jeito e gosto dos imigrantes. Tudo com muito sabor, aroma e cor. Só que é tudo nosso – e fica aqui mesmo. Desculpem o estilo, mas nem tudo que abunda está lá fora.

Se quiser dicas de como chegar no Copia e no melhor de nossas regiões vinícolas, é só clicar para o Bolsa ou para a Adega & Bar.

De volta ao baú

by soniamelier em 15 de novembro de 2001 | 21:00

Como o baú com perguntas, dúvidas, pedidos e afins continua cheio, aproveito esses dias aparentemente mais calmos (aparentemente, porque, de repente, cai um avião no quintal), com feriados esticados, para colocar tudo em dia.

Asas, sopas e rolhas – Começo por onde terminei, cumprindo a promessa de revelar como devem ser posicionadas as asas das xícaras de café e chá.

Eu não dormia direito por desconhecer esse aspecto crucial do serviço. Pois é, desde criancinha me perguntava sobre a existência ou não de um procedimento para essa aparente banalidade. Mas existe, pelo menos é o que aprendi na New York Professional Service School.

As xícaras de café e de chá devem ter as asas orientadas para as quatro horas. Se ficarem posicionada para as 3 horas (45o), por exemplo, você não vai sair bem na foto. Aqui em Secretário, no meu pedacinho de chão, tenho um problema com o Inácio, que toda a vez que se debruça na mesa (ele não consegue ficar em outra posição), destrói qualquer arranjo ou projeto de arrumação, fora quebrar copos e xícaras. Massas brutas esses labradores.

Atenção para as sopas. Ela é uma bebida e, portanto, deve ser tanto retirada quanto servida pelo lado direito, como qualquer outra bebida. Os demais pratos (que não sejam bebidas) mantêm-se na regra de servir pela esquerda e retirar pela direita.

Isso tudo se relaciona com uma série de dúvidas da Lydia L quanto ao serviço de vinhos e de uma refeição um pouco mais formal. Não, Lydia, não faça absolutamente nada com a rolha quando o garçom colocá-la à sua frente na mesa. Você vai cheirar, olhar e ficar parecendo ridícula. O pessoal pensa que a análise da rolha é decisiva para antecipar sabores e aromas do vinho. Engano: abriu o vinho, serve um pouco. E só aí você analisa: cor, aromas e sabores. Se alguma coisa estiver fora do lugar, reclame, recuse.

Agora, querida, ficar olhando, manuseando e cheirando rolhas? Sei não, mas talvez só o Dr. Freud explique. E não esqueça, Lydia: sirva primeiro as mulheres, depois os idosos, as crianças e, por fim, os homens.

Os copos certosRossella C. está se equipando para uma graaande comida de Natal e quer dicas sobre copos e suas queridas bebidas.

Para champagne prefira a tulipa. Não só é elegante e feita para reter o máximo dos aromas (e das bolhas), como também permite colocar o nariz de modo a sentir o máximo da bebida – o que não se consegue com as flautas (que colunista social só chama de flute).

Mais uma vez, seja qual for o copo, não abra mão de que, todos, sejam de vidro ou cristal transparente e com a menor espessura possível. Você e seus convidados têm de ver e sentir a bebida com o mínimo de interferência do copo.

Porto, Madeira, Marsala – enfim, os vinhos fortificados – usam copos iguais aos do tinto, mas em tamanho menor, já que a quantidade da bebida é menor em razão do teor alcoólico ser maior nesses vinhos – quase sempre utilizados ao final, acompanhando as sobremesas (em particular os doces).

O Jerez ou Sherry usam um copo parecido, mas especial, chamado copita. Se você não encontrar, use os copos dos fortificados (Porto etc.). Cognac, Armagnac, Brandy, Marc e Aguardentes Velhas podem utilizar aqueles copos balão, de haste curta – se a temperatura estiver mais para a fria (assim, as mãos vão esquentar a bebida).

Com o calor de rachar, como se espera no nosso Natal, pode usar copos de licor (mas que não sejam para duendes usarem; tente um tamanho decente).

Cabernet de onde e com o quê?Roberta vai dar um jantar para o namoradinho – que, por sua vez, adora um Cabernet Sauvignon. Ela foi investigar e descobre que tem Cabernet Sauvignon do Pólo Sul ao Norte. Tem até na África! Aí, embatucou: o acompanhamento deve ser o mesmo, não importa a origem do vinho?

Certo, Roberta, você está fazendo a pergunta correta. Um Cabernet francês vai bem com carnes vermelhas (particularmente cordeiro), aves, queijos azuis maduros. Os da Califórnia preferem ragu de carnes bem temperadas. Os da Austrália, rins e filé mignon. Lá eles comem com canguru (é sério, moça). Mas como quem pula aqui somos nós mesmas, o melhor é escolher um bom mignon.

Na Nova Zelândia é com cordeiro. Os do Chile e da Argentina com pratos de carne condimentados. Na Itália, com caças grelhadas e carnes bovinas. No Leste europeu, com lingüiças, lasanha e peru. Os Cab de lá são mais suaves e com poucos taninos.

Lembram os Beaujolais, que devem estar fazendo a festa novamente. Já experimentou o novo? Os Beaujolais (os Nouveau principalmente) são pouco encorpados. Vão bem com embutidos, carnes assadas frias, costeletas de porco, peixes em molho de vinho tinto, cogumelos em torradas.

Ainda cozinhando com vinho – A Cecília leu aquelas dicas sobre cozinhar com vinho e ficou na dúvida se usa indistintamente o branco e o tinto. Vai, claro, depender do prato e de seu instinto, Cecília. Eu prefiro usar quase que exclusivamente os tintos.

O vinho, ao cozinhar, terá seus sabores concentrados e sua acidez acentuada. Por isso, use com cautela os vinhos brancos, naturalmente mais ácidos que os tintos. Eles precisam de um volume igual de caldo ou de água (uma xícara de branco com uma xícara de caldo, por exemplo). Não desperdice um vinho que seja muito aromático, floral e frutado. São aromas voláteis, logo evaporam. Prefira os vinhos mais encorpados.

Quer saber o melhor vinho para acompanhar seu cassulê? Ou um cheesecake, chocolate, chucrute? Clique já para o Bolsa ou para a Adega & Bar.

Dúvidas e mais dúvidas

by soniamelier em 8 de novembro de 2001 | 21:00

Querida leitora,
Tenho um punhado de perguntas e pedidos pendentes. É bom começar a colocar a correspondência em dia antes que esse ano acabe. E tomara que acabe logo.

Estou doida pra isso. Para qualquer lado que olhemos é só ataques terroristas, bombardeios noturnos, diurnos e diuturnos, pós brancos nas cartas, nos vídeos. E tome medo de voar, paralisia do turismo, mesas e quartos vazios em restaurantes, bares e hotéis. Gente consumindo menos artigos essenciais como a alegria de viver.

E agricultores e produtores de vinho, em particular, perdendo mercados, ninguém querendo importar, a começar pelos até ontem poderosos compradores norte-americanos. Um horror!

Como será ano que vem? Só consultando os astros. E começo por eles as respostas que devo às queridas leitoras:

Vinhos e o zodíaco – Patrícia S. pede que eu atualize aquele guia divertido que harmoniza vinhos e horóscopo. É uma idéia original da revista Wine X da qual tomei partido. Mas guardo um pouco de munição (já que estamos no meio desse tiroteio todo) e apresento apenas os que vão daqui a dezembro. Tá bom assim, Patrícia?

Escorpião (23 de outubro a 21 de novembro) – Todo mundo sabe que esse povo de escorpião, quando se mete a entender de uma coisa, acaba mestre no assunto. Com o vinho nem se fala: sabe tudo! Mas, sina do signo, não divide nada com ninguém. Descobre verdadeiros tesouros e o segredo morre com ele. Rapaz, tá na hora de mudar um pouquinho e botar pra fora todo esse conhecimento. Você vai se sentir melhor com você mesmo. Explique para a Pat, por exemplo, porque só aquele Merlot, daquela região, daquela safra, daquele produtor, naquela hora, naquele lugar, é a bebida perfeita para escutar a Diana Krall interpretando “Boulevard of Broken Dreams” (e relembrar Nat King Cole). A turma de escorpião pode esconder o jogo, mas que tem swing, tem. Pat: faça-o colocar a coisa pra fora! Vai valer a pena.

Sagitário (de 22 de novembro a 21 de dezembro) – Não, Pat, esse seu “amigo” (a Pat tem cada uma!) sagitariano não é um besta convicto. Pertence a um povo de gostos muito refinados. O que pode atrapalhar um pouco. Só admite vinhos exóticos, como aquele raro tinto grego com a uva Xinomavro. Você nem sabia que a Grécia podia ter vinhos assim, com uvas tão aromáticas e saborosas – e que custam uma nota preta e do qual você só foi autorizada a provar um tantinho assim! Pois é, esse povo precisa lembrar-se de que há prazeres reais em bebermos um simples e delicioso Beaujolais (inclusive os Nouveau, que acabam de ser lançados mundialmente) ou um singelo Chianti diante da brisa do mar. Manda ele tirar a gravata e colocar a camiseta. Melhor: manda ele tirar tudo, Pat. Mas seja crítica!

Anna procura Beaujolais – Anna B., embalada pela coluna passada sobre os Beaujolais Nouveau, pede uma lista de vinhos e de produtores daquele região, pois gostaria de experimentá-los (os vinhos). Anninha, tenho horror a listas: os melhores, os piores, os melhores entre os razoáveis etc. O mais acertado, acho eu, é fazer o que você está pretendendo: partir para a experimentação, por conta própria e, ao final, ter as suas intransferíveis e irrefutáveis referências. É o que todos os escritores de vinhos fazem, com a diferença de que vivem de publicar os resultados. Mas, enfim, vamos lá: reuni algumas notas, consultei algumas listas e vou dar mais ênfase aos produtores. São eles: Aujoux & Cie; Paul Beaudet; Barton & Guestier; Bouchacourt; Caves de Champclos; Chanut Frères; Chevalier Fils; David & Foillard; Descombes; Joseph Drouhin; Georges Dubœuf; Pierre Ferraud; Jacquemont Père & Fils; Gobet; Labouré-Roi; Loron & Fils; Louis Jadot; Mercier; Mommessin; Ph. Moreau; Pasquier Desvignes; Pelletier; François Pacquet; Pellerin; Piat; Reine Pédauque; Robert Sarrau e Trenel & Fils.

Os mais famosos são Georges Duboeuf, Joseph Drouhin, Barton & Guestier e Louis Jadot. Mas famosos nem sempre quer dizer melhores. Experimente, Anna, experimente.

Dos vinhos, me lembro de três “crus”: Georges Duboeuf Regnie 99; Joseph Drouhin Moulin-A-Vent 99 e Château de La Chaize, Brouilly 98. Ah, tem também um ótimo Beaujolais Villages, também tinto, de 97: Abarbanel.

Onde colocar o copo? – Lydia L. pergunta em que posição deve ficar o copo de vinho numa mesa. “A etiqueta recomenda alguma posição, em particular?”. Não sei sobre a etiqueta, propriamente. Mas os professores da New York Professional Service School, por onde dei uma passada, ensinam que a taça de vinho deve ficar imediatamente acima da faca. Como a faca deve ser posicionada à direita do copo, já viu onde a taça deve ficar, certo?

E por acaso você sabe, querida leitora, como devem ser posicionadas as asas das xícaras de café e chá? Não? Pois clique já para o Bolsa ou para a Adega & Bar (http://www.adegaebar.com.br/). Semana que vem continuo a colocar as pendências em dia.

O frisson do Beaujolais Nouveau

by soniamelier em 1 de novembro de 2001 | 21:00

Você vai notar logo: quando chegar o dia 15 de novembro, o namoradinho fica agitado e só fala dele, sua amiga corre para a primeira loja de vinhos atrás dele, a conversa no elevador é sobre ele.

A terceira quinta-feira de novembro marca a chegada em todo o mundo do Beaujolais Nouveau. Que cores e sabores terá desta vez? É, sem dúvida, um acontecimento de marketing pra não se colocar qualquer defeito. Um feito comercial notável – que ajuda um bocado a colocar o vinho em evidência. É o maior oba-oba no mundo do vinho, pelo menos em termos de comunicação e distribuição.

O que é o Beaujolais Nouveau?
Vamos por partes. Primeiro é preciso saber o que é Beaujolais. Embora faça parte, pelo menos tecnicamente, da Borgonha, o Beaujolais produz quase que exclusivamente vinhos tintos e só da uva Gamay – que é proibida na Borgonha, onde impera a Pinot Noir.

A uva Gamay é rica em aromas e sabores de frutos e tem boa acidez. Ao contrário da Pinot Noir, é pobre em taninos e álcool. E o resultado, no caso do Nouveau, é um vinho em nada complicado, agradável, feito para ser bebido ainda muito jovem.

A região apresenta três níveis de vinhos – do mais complexo ao mais simples, como é o caso do Beaujolais Nouveau. Os mais complexos, dos melhores vinhedos, são os chamados “crus” e se originam de dez vilarejos, os únicos autorizados a colocar o nome de suas cidades no rótulo: Brouilly, Morgon, Moulin-à-Vent, Fleurie, Côte de Brouilly, Chiroubles, Chenas, Julienas, St.-Amour e Regniê.

Esses crus refletem bem o terreno e o microclima de seus vinhedos. Os de Chiroubles e Regniê são os mais leves e simples. Os Morgon e Moulin-à-Vent são mais densos e longevos. Populares, os de Fleurie ficam entre os dois extremos acima. Esses vinhos podem envelhecer e melhorar na garrafa até 5 anos. Os de maior qualidade podem amadurecer tranqüilamente por 10 anos. Alguns Morgons se confundem com bons borgonhas da Côte d’Or.

Num segundo nível temos os Beaujolais-Villages, feitos no extremo norte da região, em solos de granito com boa drenagem. As uvas da maioria das 40 vilas da área podem misturar-se para fazer esses vinhos, bem apreciados quando lançados.

Os do terceiro nível, simplesmente rotulados Beaujolais, são os mais leves e mais baratos. Aqueles com nível alcoólico acima de 10% são os Beaujolais Supérieur. As suas uvas são colhidas com um nível maior de álcool. No Beaujolais, o nível mínimo é de 10%, e no “Supérieur”, de 10,5%. Portanto, existe uma diferença, mas que não deve ser levada tão a sério, entende?

Beaujolais Nouveau é uma categoria à parte. É uma AOC, portanto controlada pelo governo, coisa séria. Os Nouveau se transformaram, na prática, em embaixadores da França, representantes universais do vinho. São eles que reinam a partir de 15 de novembro em supermercados, lojinhas e lojonas, delis e bares de todo o mundo.

Só que o “Nouveau” não é assim tão novo. Saiba que por séculos a humanidade só bebeu vinho novo. Ou seja: aquele que é compulsoriamente bebido assim que é feito. O homem não sabia como fazer um vinho envelhecer. Melhor, não sabia como proteger o vinho da oxidação e, portanto, como guardá-lo por um longo tempo sem que estragasse.

A garrafa só existe há 300 anos e saber como fechá-la hermeticamente é coisa relativamente recente. Sob esse ponto de vista, o vinho que amadurece, que envelhece, é que é “novo” na história.

Na França, após a Segunda Guerra, os vinhos AOC tinham datas certas para serem lançados. Uma lei de 1951 proibia que esses vinhos fossem vendidos antes de 15 de dezembro de cada ano. Mas o pessoal de Beaujolais, que produzia vinho jovem, conseguiu um regime mais realista e foi autorizado a lançar seu vinho em novembro. E assim uma data foi oficializada: 15 de novembro.

O Beaujolais Nouveau é vinificado como qualquer outro vinho. A única diferença é que as uvas passam pelo processo da maceração carbônica (as uvas são colocadas por inteiro, sem serem amassadas, num tanque de aço inox e a ação do calor provocado pelo dióxido de carbono completa o processo de fermentação). Ficam no tanque no máximo por uns 4 ou 5 dias, de modo que o vinho ganha muito pouco em taninos (e por isso não consegue envelhecer por muito tempo), permanece fresco, aromático, frutado, com uma cor profunda, quase azulada. É uma das uvas de reconhecimento mais fácil que conheço, justamente por esse aspecto azulado.

Enfim, um vinho charmoso, gostoso e fácil de beber. Seus aromas, embora muito presentes, não são assim tão fáceis de reconhecer. A Gamay tem grande acidez e, por isso, é muito refrescante. É na verdade mais um vinho branco do que tinto e deve ser bebido lá pelos seus 11oC. Somente os vinhos de Beaujolais e Beaujolais Villages podem ser vendidos como Beaujolais Nouveau.

Ensina a escritora Jancis Robinson, minha guru em assuntos de vinho, que é uma vergonha que a uva Gamay tenha saído um pouco de moda e seja pouco plantada fora da França. O motivo é que vivem dizendo para os consumidores que vinho tinto tem de ter um rubi profundo e sabores concentrados. “É uma pena”, afirma ela.

Vá, amiga, participe dessa festa. Você, nós e o mundo estamos muito precisando de um acontecimento como esse. Dê um viva à Gamay. Você encontrará ótimas opções. Procure o seu Nouveau logo ali, na esquina. Ele certamente estará por lá. Dê uma olhada em produtores como George DuBoeuf (o maior e mais famoso deles), Louis Jadot, Jean-Pierre Merle, Dominique Piron, entre vários.

Os vinhos desse último, informa o pessoal do Club Taste-Vin (Tel: 21 2240-0350), teve as uvas Gamay recolhidas dia 11 de setembro, em vez do dia 6, data oficial da safra. Deve ter ganho mais cor, aroma e sabor. Uma pedida.

Enfim, você vai ter como matar a sede em grande estilo. Os Beaujolais Nouveau devem ser tratados como vinhos brancos. Combinam bem com pratos de verão, hamburgers, peixes e galinhas grelhadas. Ou simplesmente frescos, lendo essa informativa, simpática e ampla página, numa horinha de folga.

Mais dicas sobre os Beaujolais Nouveau, clique pra cá, Bolsa de Mulher, ou para a Adega & Bar (http://www.adegaebar.com.br/).



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