Sabe, uma coisa é ficarmos aqui falando do que o Hemingway bebia, o que Nero Wolf preferia e o que e quem Hannibal “Cannibal” comia e bebia. Até vale como um incentivo para conhecermos essa ou aquela bebida. Ou para fazermos algum farol, citando gente famosa. Mas para sabermos mais de vinhos, o melhor mesmo é experimentar sem parar. E fazer disso a nossa escola. Vamos, claro, ler isso e aquilo. Um pouquinho de teoria, afinal, não faz mal.
Mas só vamos conhecer mais de vinhos provando-os, não parando de experimenta-los. Falar é fácil, você vai dizer, pensando com seus botões que a realidade é outra. Nada disso. É mais fácil do que você pensa. Quem sabe fazemos juntos alguns exercícios. São deveres pra casa. Isso mesmo, vão funcionar melhor se você os realizar em casa. Mais à vontade, com a ajuda do maridinho ou namorado.
Então, vamos começar lembrando aquelas nossas propriedades relativas a olfato e a paladar. Aromas e sabores. Se não lembrar, faço um resuminho. Um resumo a partir de um teste. Aí vai. Se você tiver em casa uma lasanha e uma torta salgada. – a preferência é que você tenha dois pratos de igual consistência. Corte dois pedaços de tamanhos iguais (da lasanha e da torta). Coloque óculos escuros e tampe o nariz (use o dedo, grampo – pode ser até grampo de mergulhador: o objetivo é evitar que você sinta os aromas da lasanha e da torta). Os óculos escuros são para, claro, que você não “adivinhe” a resposta.
Prove de um e prove de outro: se fizer tudo o que recomendei, você não vai conseguir identificar um e outro: o que é a lasanha e o que é a torta. Isso porque nosso paladar depende de nosso olfato: só vamos saber da riqueza dos sabores de um prato se tivermos com nosso olfato liberado. Pela boca, pelo paladar só vamos distinguir o doce, o salgado, o amargo e o azedo. Todos localizados em áreas determinadas da língua. Vamos poder dizer, também, alguma coisa sobre a textura de sólidos e líquidos que ingerimos.
Faça um outro exercício, desta vez apenas com os olhos fechados (ou volte aos óculos escuros). Coloque numa taça um branco: tente um Borgonha branco, um Chardonnay. Eles são bem secos e têm bom corpo. Noutro copo, coloque um tinto. Um Pinot Noir ou um simples Valpolicella. São tintos secos com muita acidez e sem muito corpo. Meninas, vai ser difícil saber a diferença – qual o branco e qual o tinto. Pois colocamos brancos que sabem a tintos. E tintos que têm gosto de brancos.
Pegue o açucareiro e cheire (ou faça alguém cheirar, mas de olhos fechados ou que aqueles óculos escuros). Vai ser difícil afirmar que aquilo é açúcar. Mas se a pessoa provar de uma boa colher, já pela ponta da língua saberá que se trata de algo doce. E pela textura, sentindo os pequenos grãos sendo absorvidos pela saliva, chegará ao açúcar.
Agora, vamos ao nosso dever de casa.
Todos os vinhos sempre têm um tanto de açúcar. Afinal, são o suco da uva que, sob a ação do levedo, transformado em álcool. O que resulta, o vinho, é mais forte e seco que o suco original, mas sempre terá algum açúcar – que o pessoal chama de açúcar residual.
A quantidade dele nos vinhos varia tremendamente. E daí termos os vinhos extra secos, secos, semi-doces e doces. Calma, lá, meninas. Estamos quase chegando ao gostoso exercício de casa. Continuando, a maioria dos vinhos muito baratos (e, por isso, populares) tem muito açúcar residual porque é mais fácil a turma gostar de algo mais doce e, além disso, a doçura pode disfarçar um produto mais grosseiro, mal acabado.
Já vimos que com a ponta da língua podemos identificar o sabor doce. E não precisa muita quantidade. Você tira um tantinho de sorvete com a ponta da língua e já sente a doçura. Pois tente identificar variações de doçura dos vinhos. Experimente um pouquinho a cada dia, a partir das dicas abaixo. Digo um pouquinho a cada dia, para você não ficar daquele jeito e provocar um cisma na família e um escândalo na vizinhança, certo?
Os exemplos são dados pela mestra Jancis Robinson e estão no seu Wine Tasting Workbook.
Experimente os brancos extra-secos: vinhos do Loire (feitos com a Sauvignon Blanc), como o Sancerre, o Pouilly-Fumé; a maioria dos champanhes e outros espumantes (que tenham a palavra “brut” no rótulo). Os Chablis franceses e os alemães que tenham “trocken” (seco) no rótulo.
Esfregue a ponta da língua contra o líquido e tente verificar quanto de (pouco) açúcar ele tem. Agora, passe para a categoria mais numerosa, a dos brancos secos. Experimente os Chardonnays, os brancos do Rhône e da Provence, os Chenin Blanc do Loire ou da África do Sul, os italianos Soave, Verdicchio e Pinot Grigio, os Rioja, entre tantos. Depois passe para os meio secos: os brancos com as uvas Riesling, Viognier, Gewürztraminer, os franceses que trazem no rótulo a expressão “demi sec” (de Vouvray e Côteaux du Layon, por exemplo).
Vamos aos doces: os Sauternes, Barsac, Tokay, alsacianos e os chilenos que trazem “Late Harvest” ou “Vendage Tardive” no rótulo; os Moscato e Asti italianos, o Moscatel de Setúbal, os alemães Auslese e os brancos Zinfandel da Califórnia. Você também encontra tintos doces. Os vinhos do Porto são o maior exemplo. A maioria dos tintos é de secos (85% deles). Os supersecos são os do Loire (tente os Chinon), os do Médoc e de Pessac-Léognan. Os grandes italianos Barolo, Barbaresco e Brunello di Montalcino e os Chianti Classico.
Prove em seguida os meio doces: Recioto della Valpolicella, a maior parte dos Brachetto, os Zinfandel “Late Harvest” da Califórnia. E a nossa já citada (em colunas recentes) sangria. Bom, tem dever aí que não acaba mais.
Fiquei devendo a vocês, ainda, falar dos fine e marc, esses simpáticos e eficientes destilados franceses (tão citados – e consumidos – pelo nosso Hemingway).
Vou passar mais dever pra casa e falar dos fine nas próximas colunas. Se você quiser mais dicas sobre esses exercícios e que vinhos comprar (e onde comprá-los) basta ligar pra cá, para o Bolsa de Mulher ou diretamente para a Adega & Bar: www.adegaebar.com.br.
