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A ressaca e a samambaia da vovó

by soniamelier em 14 de janeiro de 2001 | 21:00

Sua cabeça está que é um salão de baile funk, um potente bate-estaca lembrando que algo de errado aconteceu no dia anterior. A insuportável náusea avisa que você não deve ficar longe do banheiro. Isso sem falar da tremenda irritação, da arrasadora azia, da dor no fígado e da angústia de não se lembrar direito se foi você mesma que fez pipi na samambaia que pertenceu à sua avó, falou verdades pro maridinho e tentou aquele sonhado (tentou?) strip-tease no meio da mesa de jantar. Onde você deixou sua memória?

Para a ressaca ainda não existe cura. Você bebeu demais e o álcool, na sua simplicidade (carbono, hidrogênio e oxigênio) não consegue afinar-se com o cérebro e uma série de outros órgãos vitais. E olha que a ressaca é, apenas, uma versão amena dos sintomas sofridos pelos alcoólicos. Pode durar um dia inteiro e até mais. E ela pode até matar, por asfixia, nos casos em que as pessoas desmaiam vomitando.

Desculpem-me, amigas, sair assim do mundo encantador e saudável dos vinhos para lembrar desses excessos. Mas essa é uma boa oportunidade. Vamos registrar então algumas das causas da ressaca e de cuidados possíveis (é isso mesmo: possíveis, já que chega uma hora que não tem jeito – quem vai sofrer é você e a samambaia da vovó, para divertimento dos outros).

Beba muita água. Desidratamos toda vez que bebemos álcool. Sem trocadilhos: isso é líquido e certo. A cura (se é possível colocarmos dessa maneira) para uma ressaca é tempo, repouso e muita, muita, mas muita água pura. Quando bebemos álcool perdemos muito mais líquidos do que os ingerimos. Para cada duas taças de vinho que bebemos precisamos repor quatro taças de água.

A desidratação afeta o corpo todo, mas em primeiro lugar, o cérebro, cuja camada exterior (dura-máter) pode encolher e causar aquela tremenda dor de cabeça. Daí que beber bastante água, além de uma dessas bebidas isotônicas como o Gatorade, normalmente contendo sódio, potássio, cálcio e magnésio para repor eletrólitos perdidos pelo cérebro. Ou a água de coco, rica em potássio, sódio, cálcio, fósforo e um pouco de magnésio.

Ajudando o fígado. Além da água, você pode tentar alguns remedinhos caseiros pra ajudar seu fígado e sua nutrição. Um exemplo clássico é um copo de suco de laranja misturado com um ovo cozido (melhor que o cru, que às vezes vem com a salmonela). O suco entra com vitamina C e frutose e o ovo é especialmente rico em aminoácidos, cisteína e taurina.

O fígado precisa da cisteína para desintoxicar-se do acetaldeído (obtido pela oxidação do álcool), que é 30 vezes mais tóxico que o álcool. Ele é o primeiro subproduto do excesso de bebida no organismo (o fígado rapidamente converte álcool em acetaldeído). Pra se ter uma idéia do problema: o acetaldeído é usado na fabricação de adesivos e plásticos e é primo próximo do formaldeído. Já ouviu falar em formol, certo?

Pois esse acetaldeído é um gerador de radical livre, uma potente neurotoxina, que interfere no fluxo sangüíneo do cérebro e se transforma no principal culpado da ressaca. Causa inflamação, depressão e interfere na produção de energia para o cérebro. Rompe a função celular misturando moléculas. Se você olhar aquela pele que parece uma máscara de couro no rosto dos alcóolicos você vai entender.

Quanto mais tempo o acetaldeído permanecer no fígado, pior a ressaca. O fígado age muito lentamente para transformá-lo em ácido acético (e, em seguida, em dióxido de carbono e água). O acetaldeído destrói rapidamente a vitamina B1 e a tiamina, a vitamina do nervo, essencial para a função do cérebro – e vem daí a perda de memória. Reduz também o ácido pantotênico (vitamina B5, a do anti-stress) e, assim, contribui para os sintomas de dor de cabeça, náusea e cansaço.

Portanto, você precisa de muita água e de antioxidantes, que vão dar combate aos radicais livres e tentar salvar seu cérebro e fígado. Assim, você já está bebendo muita água, tomou seu suco com ovo e pode variar com outros sucos, como o de tomate. Laranja e tomate contêm boa dosagem de potássio, um mineral que se perde na urina quando bebemos. Baixo nível de potássio contribui para aquele tremor e fraqueza durante a ressaca.

Outra dica, bem caseira e do tempo da samambaia da vovó: mel, cravo, camomila e salsa. Faça um chá de camomila adoçado com mel e coloque cravo e salsa à vontade. O mel vai levantar o nível de açúcar do sangue e defendê-lo de uma hipoglicemia (o álcool em excesso acaba com as reservas de glicose – açúcar – do fígado). Com ele, o cérebro começa a ter de volta a energia necessária para seu funcionamento normal. Você também começará a sair do estado letárgico ingerindo mais mel ou açúcar. A camomila, o cravo e a salsa acalmam as dores de cabeça e particularmente as estomacais. A salsa, além disso, é uma boa fonte de vitamina C.

Não faça

1. Nunca tome Tylenol (acetaminofen). Combinado com álcool, pode causar sérios danos ao fígado.

2. Nunca tome aspirina. Você vai ficar mais bêbada, ainda. E pode acabar de irritar seu estômago.

3. Nunca se automedique. Ligue pro seu médico antes de tentar o remédio salvador receitado pelo farmacêutico da esquina.

Medidas Preventivas

1. Nunca beba de estômago vazio. Ponha pra dentro alimentos mais gordurosos, como queijos, que absorvem bem o álcool e diminuem sua taxa de absorção pelo sistema sangüíneo.

2. Beba vagarosamente. Se seu fígado estiver em ordem, ele só vai poder absorver 29 gramas de álcool por hora: mal dá uma dose de uísque.

3. Cuidado com as bebidas espumantes e drinques carbonatados – que aceleram a absorção de álcool pela corrente sangüínea.
4. Conheça seus limites e os efeitos dos diferentes tipos de alcoóis. Bebidas mais escuras, como brandy, uísque, vinho tinto, do Porto, são ricos em “congêneres”, ingredientes ricos em sabor, mas que tendem a piorar a ressaca, pois são de difícil absorção pelo fígado, se bebidos em grande quantidade.

5. Para evitar a desidratação pelo excesso de álcool beba muita água pura durante e depois dos drinques. Quando acordar de ressaca, não beba café – que contribui para a desidratação. Beba água, o mais que puder.

O que se pode ou não se pode fazer em excesso.

Um bebedor de vinho (essa, pelo menos, é a minha experiência) dificilmente bebe pelos efeitos. Bebe pelo prazer: o visual, o olfativo e o do sabor e o de estar bem em sociedade. Ele sabe que o álcool em excesso vai fazer o cérebro mais vulnerável a substâncias tóxicas, provocando a morte de células cerebrais pelos radicais livres. Ele quer que seu corpo e mente continuem inteirinhos para apreciarem plenamente os múltiplos prazeres que só um vinho podem oferecer. Bem, só um vinho, não. Tem alguns excessos que podemos nos permitir, não é mesmo? Se você quiser mais dicas sobre ressacas, efeitos do álcool, é só clicar www.adegaebar.com.br ou aqui na Bolsa mesmo.

Harmonia com a promoção da Bolsa

Pra semana, começaremos a dar dicas de harmonização (vinhos & comidas), a partir dos cardápios dos restaurantes onde o Bolsa de Mulher estará fazendo a promoção do ano. Cure-se e viva.

Óia o áio e o óio, aí, ó!!

by soniamelier em 7 de janeiro de 2001 | 21:00

Queria começar a coluna com alguma coisa que ribombasse, demonstrasse imenso contentamento. E encontrei essa, digamos, frase, um bordão do bloco carnavalesco “Mukiranas do Brás”, lançado em 97 (e que vem a ser uma das maiores frases do mundo sem consoantes). Acho que achei: a frase ribomba, mesmo! Claro que exagerei, forcei um pouco para chamar atenção. E consegui, né? Mas “…qualquer coisa é a mesma coisa, o que importa é o que interessa!” (mais uma dos Mukiranas).

O que interessa aqui, é o nosso júbilo e o orgulho crescente pela indústria nacional, por aquilo que nossos vitivinicultores vêm conseguindo: reconhecimento internacional e sucesso crescente no mercado interno. Justiça, enfim. O premiado no caso é a Adega Dal Pizzol Vinhos Finos (antes conhecida como Adega Monte Lemos), que acaba de receber quatro importantes prêmios internacionais: três primeiros lugares na Argentina e uma medalha de prata na Turquia. Conquistou agora em novembro a “Gran Medalla de Oro” e o “El Gran Premio Pais” para o seu Espumante Brut e “Medalla de Oro” para o Assemblage, num importante concurso em Mendoza, Argentina (grande produtor e quarto consumidor mundial de vinhos). Em outubro, o mesmo Espumante Brut emplacou uma Medalha de Prata, num concurso na Capadócia, Turquia, berço da cultura vitivinícula desde os primórdios da humanidade. Não custa nada lembrar que em março o Dal Pizzol Cabernet Sauvignon 99 recebeu menção honrosa no 34º Vinitaly Concurso Enológico Internacional 2000, em Verona, Itália, num certame apoiado pela Organização Internacional da Uva e do Vinho e da União Internacional de Enólogos.

Seu Antônio

Na coluna sobre espumantes e festas, já tinha dado uma dica do prêmio recebido pelo belo Espumante Dal Pizzol Brut e, um pouco antes, consegui uma pequena entrevista com Antônio Dal Pizzol, o homem que dirige a Adega desde a sua fundação, há 25 anos. Estava procurando alguém ligado ao mercado de vinho, mas menos marqueteiro, daqueles que só falam de vendas. Queria saber mais sobre a real qualidade de nossos vinhos. E encontrei no seu Antônio uma pessoa paciente e dedicada em fazer de seus vinhos produtos de qualidade, em vencer no mercado nacional por essa diferença. Daí que é um obstinado em só distribuir seus vinhos em casas que “possam cuidar bem dele”.

Você não vai encontrar um vinho Dal Pizzol num pé de chinelo, cozinhando em pé, numa prateleira qualquer de supermercado. Certo encontrá-lo em restaurantes mais finos, em lojas especializadas com adegas climatizadas e pessoal bem treinado na guarda e no serviço de vinhos. “Se a Dal Pizzol quisesse dobrar sua produção hoje conseguiria facilmente. Mas isso não vai acontecer, pois queremos que o produto dentro de nossas garrafas mantenha sua qualidade. Não vamos massificar, pois estaremos deseducando o consumidor. Vamos crescer gradativamente, colocando nosso produto em locais que respeitam o vinho tal como entendemos que ele deva ser respeitado”.

A Dal Pizzol tem realmente uma imagem mais seletiva, de butique de vinhos finos.
Conseguiu essa imagem com seus produtos. Daí seu Antônio perseguir o conceito de qualidade. “A cultura do consumidor brasileiro está evoluindo. Devemos contribuir para a melhoria dessa cultura. Vamos, produtores e consumidores, crescer juntos. Fazer o que todo mundo faz não é difícil (referindo-se à massificação desenfreada), mas talvez não seja o mais certo quando falamos de qualidade, de vinhos finos”.

Nacionais e importados

“Minha nossa!! Como tem carro importado por aqui…” Dizem que foi essa a exclamação de Jardel, ex-jogador do Grêmio ao chegar ao Japão. Antônio Dal Pizzol está animado com a presença mais constante do vinho na mesa dos brasileiros. O consumo vem aumentando muito nos últimos cinco anos. O mercado de vinhos finos anda pela casa dos seis milhões de garrafas (3.200.000 para os nacionais e 2.800.000 para os importados). Um Jardel já não se espantaria.

“As pessoas estão despertando para a cultura do vinho. O importado sempre esteve ao alcance do consumidor brasileiro, só que a preços muito altos, o que privilegiava somente algumas pessoas. A partir de 1992 e com grande força em 95, ele já estava à disposição de todos com preços acessíveis e até inacreditáveis.
Com isso, o mercado de vinhos nacionais enfrentou uma enorme batalha na conquista de seu espaço. Em 96, as importações baixaram consideravelmente devido a uma reação positiva dos vinhos brasileiros. Nossa qualidade aumentou, nosso vinho se valorizou e hoje compete lado a lado com os importados. O consumidor está aprendendo a comparar, falar sobre este ou aquele vinho. Inicia-se um período de renovação cultural. E vamos todos ganhar com isso”.

Degustando

Degustamos alguns vinhos com a assistência de seu Antônio. Seu Espumante Brut harmoniza três uvas: a Chardonnay, a Pinot Noir e a Sylvaner. É elaborado pelo método tradicional, aquele praticado há séculos em Champagne, França, onde a segunda fermentação é feita na garrafa. A produção é mais demorada, mas os resultados são compensadores. Um espumante seco, de cor amarela com reflexos esverdeados. Aroma lembrando frutas como pêssego maduro, amêndoas, bananas e toques de flores e pão tostado. Sabor persistente e equilibrado até a última bolha. Vai bem como aperitivo ou alegrando a sua festa, ou acompanhando uma larga faixa de pratos: peixes, aves, queijos, tortas e sobremesas em geral.

Vai bem do início ao fim.



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