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Vinho: usando e abusando dos seus sentidos – II

by soniamelier em 19 de novembro de 2000 | 21:00

Deu o que falar! Pelas mensagens que recebi, metade das amigas que começaram a degustar vinhos como se deve e seguindo as dicas da semana passada se deram bem. E impressionaram seus acompanhantes nas mesas dos restaurantes (e em suas casas). Mas deu bode com a outra metade. Deixaram o copo cair, só viram uns borrões dentro do copo (esqueceram as lentes em casa ou não quiseram colocar seus óculos). Sacolejaram o copo (no truque que ensinei) e o deixaram cair, pois o seguraram com os dedos esticados para não quebrar as unhas. Sabe como é, não é? Um desastre! Mas continuem tentando.

Hoje, vamos dar dicas sobre o passo seguinte. Temos, primeiro, a visão. Agora, o olfato. É considerado o sentido mais importante ao degustar vinhos. Mais rico, mais complexo, mais prazeroso. Muitos puristas, inclusive, não admitem sequer a presença de pessoas muito perfumadas ou que fumem por perto quando estamos degustando vinhos. Têm ótimas razões.

Sempre cheiramos as coisas antes de coloca-las na boca. É uma atitude natural, universal. Muito do que saboreamos é, na verdade, aroma. Líquidos ou sólidos na boca liberam vapores que sobem por uma rampa entre a boca e o nariz e são detectados por pequenos pêlos do olfato que ficam imersos num fluido mucoso na parte posterior do nariz. Esses pelos se correspondem com uma região do cérebro, o bulbo olfativo. É um sentido muito mais poderoso do que o do paladar – que só vai medir quatro itens: doçura, acidez, amargor e salinidade. Logo, se temos um bom nariz, vamos poder aproveitar muito mais do que comemos e bebemos.

Segure o seu copo pela base; faça-o girar gentilmente. Isso permite que o vinho libere seus aromas. Se eles custam a se fazer notar, cubra a tampa do copo com as mãos e faça o copo girar vigorosamente (já sei que vamos ter mais copos quebrados e manchas de vinho por todo o salão, sem falar na camisa de grife do seu amigo). Mais aroma será liberado. Então, coloque o narizinho na borda do copo de inale fortemente. Gostou? Lembrou de que? O aroma deve ser agradável, apetitoso. Não deve cheirar a rolha estragada, coisas sujas, bolorentas, a vinagre. Se isso acontecer, tem alguma coisa errada com o vinho.

Mas, na maioria das vezes, o aroma é muito apelativo. No começo, você pode encontrar dificuldade em identificar alguns deles. O melhor é você tentar comparar os vários aromas do vinho àqueles que você mais conhece. Lembra uma frutinha, dessas que tem nas geléias vermelhas? Lembra baunilha, lembra couro novinho, algo defumado? Gente, é um continente de possibilidades, é uma fantástica riqueza que chega às suas narinas e imediatamente apela ao seu paladar. E prazer. Alguns desses aromas podem ser imediatamente associados às variedades (ou à variedade) de uvas contidas no vinho – o que você vai começar a reconhecer com a prática. Leia os contra-rótulos, veja que tipo de uvas o vinho utiliza. Diz lá que é Cabernet Sauvignon, do Chile. Da próxima vez, experimente a mesma uva, mas da Califórnia, ou de Bordeaux. Faça suas comparações. É assim que se forma um expert, um sommelier.

Pelo aroma você percebe, sem maiores conhecimentos, se o vinho parece jovem e frutado, ou velho e cansado. Está sentindo uma sensação algo picante lá no fundo do nariz? Sinal de que abusaram do dióxido de enxofre (usado normalmente como anti-séptico para destruir bactérias), embora existam normas e controles rígidos para os seus níveis de utilização. Pelo aroma, você vai saber muito mais sobre o seu vinho. E então chega a hora de prova-lo, saboreá-lo. Afinal, o vinho foi feito para beber. Deixo isso para a próxima semana, certo?

E por falar em tampões…o que você sabe sobre as rolhas?

Passei outro dia aqui na redação da Bolsa de Mulher e o pessoal estava desenvolvendo temas novos, entre eles sobre absorventes – formas, benefícios e problemas. Não pude deixar de pensar na velha e tradicional rolha de nossas garrafas como possível tema paralelo. Pois são elas que impedem a entrada de oxigênio, não deixam o vinho vazar, que mantêm sua integridade, ajudam-no a envelhecer. Com as rolhas o vinho pode ficar Sempre Livre (desculpem o paralelo) e sair pelo mundo. Mas elas apresentam seus probleminhas.

Pode parecer um pecado, mas há um movimento no sentido de substituir as rolhas e terminar com uma tradição secular. Contra as rolhas existem algumas e pesadas queixas. Como o vinho, as rolhas também envelhecem, o que pode resultar em danos fatais para o vinho. Se tudo der certo, elas resistem por 10-15 anos numa garrafa (vai depender de como o vinho é guardado), mas depois disso ninguém pode assegurar nada.

As rolhas podem estragar-se e passar um sabor e um nojento aroma de mofado ao vinho. Em suma: contaminam o vinho. O estrago é provocado principalmente por bactérias que podem se originar até da casca da sobreira, um tipo de carvalho de onde, há séculos, são feitas as cortiças e rolhas. E até mesmo de contágio no estágio industrial, quando não conseguem livrar-se de restos de cloro utilizado na sua limpeza e clarificação.

Fala-se de uma perda de 7% dos vinhos, em todo o mundo, em função das rolhas. Isso é igual a milhões de dólares de prejuízo anualmente. Daí a procura por alternativas à rolha. Não vamos esquecer que devemos a ela (a partir do século XVII) a existência do grande vinho, do vinho de qualidade, pois se conseguiu conservá-lo adequadamente. E as coisas só não mudam mais rapidamente em razão da pesada tradição em torno da rolha e do ritual de abrir-se uma garrafa de vinho. Como relação a esse papel, de conservação, estima-se que 95% da produção mundial de vinho é envelhecida apenas alguns meses na garrafa. E 85% de todos os vinhos são consumidos no seu primeiro ano de vida. Logo, o papel da rolha não parece, agora, muito necessário. Talvez, uma tampinha de alumínio possa dar conta do recado, como acreditam os produtores do famoso e caro PlumpJack.

Em junho último, os proprietários da reputada vinícola PlumpJack, em Oakville, Napa Valley, Califórnia, apresentaram a sua nova criação, o seu PlumpJack Cabernet Reserve 1997, uma jóia de vinho que custa US$ 135,00 a garrafa, selada não por uma rolha, mas por uma tampinha de alumínio. Essa moda pode espalhar-se e pegar. Se isso acontecer, vão balançar com a tradição (coisa muito séria em se tratando de vinhos) e causar um senhor estrago na economia de Portugal, o maior produtor de rolhas do mundo.

Vinho: use e abuse de seus sentidos

by soniamelier em 12 de novembro de 2000 | 21:00

Vocês lembram, né? Da última vez começamos a falar (e não vamos parar) sobre como e quanto as mulheres são esquecidas ou relegadas quando se trata de escolher ou manifestar seu gosto pelo vinho. Isso acontece até mesmo quando ela sai com seu parceiro, seu namorado. Na maioria das vezes, é ele quem escolhe o vinho.

A mulher tem direito: a) compartilhar um pouco daquele vinho (goste ou não dele); b) escolher água mineral; um suquinho ou refrigerante; c) aceitar, quando o parceiro é compreensivo, uma taça de vinho branco “da casa” – e olhe lá. Ainda por cima, ela fica assistindo uma (quase sempre) desajeitada pantomima do namorado degustando o vinho – apenas dando uma pequena bicadinha na prova que o garçom deixa na taça, para em seguida ordenar que acabe de servir os copos. No máximo, ele dá uma mexidinha do copo, imitando alguém que considere expert, tudo na base do ouviu falar.
Mas bem que ela poderia dar uma liçãozinha ao parceiro. Preste atenção nessas dicas de degustação de vinho e tente repeti-las na sua próxima saída.

Quando degustamos um vinho devemos usar três de nossos sentidos: a visão, o olfato e o paladar. E desses três, provavelmente o olfato é o mais importante, nesse caso. (Logo, essa história de ir logo tomando é uma senhora mancada – você estará jogando fora bem mais de 50% do valor do vinho.)

Primeiro, você olha o vinho em seu copo. Antes, assegure que ele esteja totalmente limpo, completamente transparente, sem manchas, restos de detergente ou outros agentes de limpeza (que poderão adulterar ou estragar o sabor da bebida). O copo também deve ser profissional, grande o bastante para conter uma razoável quantidade da bebida, sem estar cheio até em cima. O vinho deve ser servido no máximo até o fim da curva do copo (pouco mais de um terço das taças tradicionais). Isso vai ajudar o vinho a concentrar o seu aroma.

Aí, você começa a olhar aquele belo líquido no copo. Investigue. Se a luz não estiver muito boa, pegue o guardanapo (de pano ou papel, mas branco, como normalmente o é) e coloque-o atrás do copo, para impedir que outros objetos de cor confundam-se com a cor do vinho no copo e prejudique a sua análise.

Só essa olhadela já vai fornecer algumas dicas. Verifique a clareza. O vinho deve estar claro e brilhante. Não deverá haver qualquer tipo de névoa, opacidade, indicativo de algum defeito. Com a taça ligeiramente inclinada sobre o guardanapo, você descobrirá graus ou variações da cor do vinho.

Num vinho branco, o espectro de cores pode variar de um amarelo palha bem pálido passando a um amarelo mais denso, até chegar a um dourado profundo e de lá a um âmbar delicioso.

Um vinho branco que tenha uma cor pálida tem tudo para ser um vinho jovem e também seco. A cor dos brancos vai se aprofundando à medida que vão envelhecendo. Os vinhos doces, de sobremesa (os Sauternes franceses, os Beerenauslese alemães) têm sempre uma cor mais profunda que os brancos secos. Quando muito velhos, os brancos adquirem uma cor mais tingida, lembrando um bege meio desmaiado, parecendo enfraquecido mesmo). Perdem seu brilho.

A cor dos tintos é também indicativa de sua maturidade, mas com uma variação de cores maior que a dos brancos. Um tinto muito jovem (como o Beaujolais Nouveau – que daqui a pouco estará chegando no mercado) será de uma púrpura brilhante Já o Bordeaux com alguns anos de idade desenvolverá tons de laranja próximo à borda do copo (não esqueça de que você inclinou o copo ligeiramente sobre o guardanapo). E entre a púrpura e a laranja temos o vermelho rubi.

A profundidade e intensidade da cor são significativas. Quanto mais profunda a cor do vinho tinto, mais corpo, substância e peso ele terá. Mas se o tom de vermelho for pálido, ao contrário, o vinho será mais leve e menos substancial.

Se a cor de um tinto for claramente púrpura, pode adiantar que ele tem menos de três anos. Se caminhar para o grená, terá entre três e seis anos. Se adquirir aquele maravilhoso tom rubi, caminhando para um tom mais profundo, terá provavelmente entre seis e dez anos.
Se você mexer um pouquinho o copo, bastando incliná-lo uma ou duas vezes, notará pequenos veios de glicerina (que é um álcool) correndo da borda do copo. O pessoal chama isso de “lágrimas” ou “dedos”. Essa é uma boa indicação da viscosidade de um vinho, do nível alcoólico da bebida.

Quanto maiores forem essas “lágrimas” e quanto mais lentamente elas descerem pela borda do copo, mais encorpado e doce é o vinho. Com lágrimas finas e rápidas (ou mesmo nenhuma lágrima, apenas uma fina camada no interior da taça), pode esperar um vinho mais leve, fresco e seco.
Tem um outro truque. Cubra a taça com a palma de sua mão. Sacuda vigorosamente o copo e em seguida verifique a espuma. Se for branca e sem qualquer pigmento, o vinho terá mais de 10 anos. Se tiver qualquer pigmento, está abaixo dos 10. Sem apelação.

Já aí, com suas observações só de olhar o copo de vinho, você vai notar em seu esperto parceiro a formação de uma carinha de tacho. Viu, como vinho é só prazer ?
Semana que vem, vou continuar: vamos dar dicas sobre o aroma, aquela fase da degustação em que você gira o copo e dá aquela cheirada com o nariz bem dentro da taça. Talvez seja a melhor parte dessa viagem.

Vinho reduz risco de osteoporose
É, tem mais! Outro estudo, também recente, feito na França, pela Epidémiologie de l’Ostéoporose (EPIDOS), indica que beber de uma a três taças de vinho diariamente poder ter efeito positivo na massa óssea de mulheres mais idosas, reduzindo o risco de osteoporose. Contudo, se a quantidade for maior do que três taças (meia garrafa de 750 ml) pode haver problemas na densidade óssea. Esse estudo foi publicado na edição de 15 de abril do American Journal of Epidemiology. Ele examinou o efeito do álcool em 7.600 mulheres de 75 anos e mais, a partir de questionários voluntários preenchidos por pacientes de cinco centros médicos franceses, entre 1992 e 1994.

Das 7.598 mulheres estudadas, 60% não consumiam qualquer bebida alcoólica. Entre 3.062 bebedoras, 1.840 bebiam em média menos de um copo de bebidas alcoólicas por dia (as bebedoras lite); 1.044 de um a três taças diárias (as moderadas) e 178 mais de três taças por dia.

A maioria das bebedoras lite e das moderadas consumiam vinho em sua maioria. As mais abusadas (mais de três taças) consumiam vinho e destilados. O estudo tinha especificamente o objetivo de descobrir se o álcool tem um efeito positivo nos ossos de mulheres mais velhas, similar a da terapia com estrógeno. Os médicos utilizaram raios-X para medir a quantidade de minerais nos ossos das pesquisadas.

“Descobrimos que o uso moderado de álcool está associado a um aumento significativo na densidade mineral dos ossos”, diz o estudo – que também demonstrou que o efeito benéfico do álcool deixava de existir acima de três copos por dia. E aí a coisa muda: acima disso, o álcool começa a associar-se à osteoporose.

O estudo revela também que bebedoras moderadas tendem a ser mais ativas social e fisicamente, o que resulta em maior massa óssea e, logo, em vida mais longa.
Bem, essa última parte eu já sabia. Ponho a carapuça. Sou muito desenvolta social e fisicamente – embora esteja longe ainda de ser chamada de idosa. Nada contra, mas que estou nos trinques, estou.



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