Deu o que falar! Pelas mensagens que recebi, metade das amigas que começaram a degustar vinhos como se deve e seguindo as dicas da semana passada se deram bem. E impressionaram seus acompanhantes nas mesas dos restaurantes (e em suas casas). Mas deu bode com a outra metade. Deixaram o copo cair, só viram uns borrões dentro do copo (esqueceram as lentes em casa ou não quiseram colocar seus óculos). Sacolejaram o copo (no truque que ensinei) e o deixaram cair, pois o seguraram com os dedos esticados para não quebrar as unhas. Sabe como é, não é? Um desastre! Mas continuem tentando.
Hoje, vamos dar dicas sobre o passo seguinte. Temos, primeiro, a visão. Agora, o olfato. É considerado o sentido mais importante ao degustar vinhos. Mais rico, mais complexo, mais prazeroso. Muitos puristas, inclusive, não admitem sequer a presença de pessoas muito perfumadas ou que fumem por perto quando estamos degustando vinhos. Têm ótimas razões.
Sempre cheiramos as coisas antes de coloca-las na boca. É uma atitude natural, universal. Muito do que saboreamos é, na verdade, aroma. Líquidos ou sólidos na boca liberam vapores que sobem por uma rampa entre a boca e o nariz e são detectados por pequenos pêlos do olfato que ficam imersos num fluido mucoso na parte posterior do nariz. Esses pelos se correspondem com uma região do cérebro, o bulbo olfativo. É um sentido muito mais poderoso do que o do paladar – que só vai medir quatro itens: doçura, acidez, amargor e salinidade. Logo, se temos um bom nariz, vamos poder aproveitar muito mais do que comemos e bebemos.
Segure o seu copo pela base; faça-o girar gentilmente. Isso permite que o vinho libere seus aromas. Se eles custam a se fazer notar, cubra a tampa do copo com as mãos e faça o copo girar vigorosamente (já sei que vamos ter mais copos quebrados e manchas de vinho por todo o salão, sem falar na camisa de grife do seu amigo). Mais aroma será liberado. Então, coloque o narizinho na borda do copo de inale fortemente. Gostou? Lembrou de que? O aroma deve ser agradável, apetitoso. Não deve cheirar a rolha estragada, coisas sujas, bolorentas, a vinagre. Se isso acontecer, tem alguma coisa errada com o vinho.
Mas, na maioria das vezes, o aroma é muito apelativo. No começo, você pode encontrar dificuldade em identificar alguns deles. O melhor é você tentar comparar os vários aromas do vinho àqueles que você mais conhece. Lembra uma frutinha, dessas que tem nas geléias vermelhas? Lembra baunilha, lembra couro novinho, algo defumado? Gente, é um continente de possibilidades, é uma fantástica riqueza que chega às suas narinas e imediatamente apela ao seu paladar. E prazer. Alguns desses aromas podem ser imediatamente associados às variedades (ou à variedade) de uvas contidas no vinho – o que você vai começar a reconhecer com a prática. Leia os contra-rótulos, veja que tipo de uvas o vinho utiliza. Diz lá que é Cabernet Sauvignon, do Chile. Da próxima vez, experimente a mesma uva, mas da Califórnia, ou de Bordeaux. Faça suas comparações. É assim que se forma um expert, um sommelier.
Pelo aroma você percebe, sem maiores conhecimentos, se o vinho parece jovem e frutado, ou velho e cansado. Está sentindo uma sensação algo picante lá no fundo do nariz? Sinal de que abusaram do dióxido de enxofre (usado normalmente como anti-séptico para destruir bactérias), embora existam normas e controles rígidos para os seus níveis de utilização. Pelo aroma, você vai saber muito mais sobre o seu vinho. E então chega a hora de prova-lo, saboreá-lo. Afinal, o vinho foi feito para beber. Deixo isso para a próxima semana, certo?
E por falar em tampões…o que você sabe sobre as rolhas?
Passei outro dia aqui na redação da Bolsa de Mulher e o pessoal estava desenvolvendo temas novos, entre eles sobre absorventes – formas, benefícios e problemas. Não pude deixar de pensar na velha e tradicional rolha de nossas garrafas como possível tema paralelo. Pois são elas que impedem a entrada de oxigênio, não deixam o vinho vazar, que mantêm sua integridade, ajudam-no a envelhecer. Com as rolhas o vinho pode ficar Sempre Livre (desculpem o paralelo) e sair pelo mundo. Mas elas apresentam seus probleminhas.
Pode parecer um pecado, mas há um movimento no sentido de substituir as rolhas e terminar com uma tradição secular. Contra as rolhas existem algumas e pesadas queixas. Como o vinho, as rolhas também envelhecem, o que pode resultar em danos fatais para o vinho. Se tudo der certo, elas resistem por 10-15 anos numa garrafa (vai depender de como o vinho é guardado), mas depois disso ninguém pode assegurar nada.
As rolhas podem estragar-se e passar um sabor e um nojento aroma de mofado ao vinho. Em suma: contaminam o vinho. O estrago é provocado principalmente por bactérias que podem se originar até da casca da sobreira, um tipo de carvalho de onde, há séculos, são feitas as cortiças e rolhas. E até mesmo de contágio no estágio industrial, quando não conseguem livrar-se de restos de cloro utilizado na sua limpeza e clarificação.
Fala-se de uma perda de 7% dos vinhos, em todo o mundo, em função das rolhas. Isso é igual a milhões de dólares de prejuízo anualmente. Daí a procura por alternativas à rolha. Não vamos esquecer que devemos a ela (a partir do século XVII) a existência do grande vinho, do vinho de qualidade, pois se conseguiu conservá-lo adequadamente. E as coisas só não mudam mais rapidamente em razão da pesada tradição em torno da rolha e do ritual de abrir-se uma garrafa de vinho. Como relação a esse papel, de conservação, estima-se que 95% da produção mundial de vinho é envelhecida apenas alguns meses na garrafa. E 85% de todos os vinhos são consumidos no seu primeiro ano de vida. Logo, o papel da rolha não parece, agora, muito necessário. Talvez, uma tampinha de alumínio possa dar conta do recado, como acreditam os produtores do famoso e caro PlumpJack.
Em junho último, os proprietários da reputada vinícola PlumpJack, em Oakville, Napa Valley, Califórnia, apresentaram a sua nova criação, o seu PlumpJack Cabernet Reserve 1997, uma jóia de vinho que custa US$ 135,00 a garrafa, selada não por uma rolha, mas por uma tampinha de alumínio. Essa moda pode espalhar-se e pegar. Se isso acontecer, vão balançar com a tradição (coisa muito séria em se tratando de vinhos) e causar um senhor estrago na economia de Portugal, o maior produtor de rolhas do mundo.
