» relacionamentoRosana Caiado

Pelo seu aniversário

Eu sei qual é a sua meia preferida e, entre todas as suas cuecas, sei que a te aperta.

by rosanacaiado em 31 de janeiro de 2011 | 23:26

Eu sei que você não come nada que venha do mar, mas isso todo mundo sabe.

Eu sei que você coloca quatro gotas de adoçante e que prefere a xícara dourada porque nela cabe a quantidade ideal de café. Eu sei que você programa o despertador para mais cedo do que o necessário porque demora a conseguir levantar. Eu sei que você nunca escolhe uma hora exata mas números quebrados, como 7h38 ou 8h04, e que é a mesma coisa no forno de microondas.

Eu sei que você gosta de deitar pelado e, que, quando você acorda, gosta de ganhar carinho nas costas e beijo na nuca. Eu sei que o seu abraço é o melhor do mundo e eu sei o que você faz quando tiro a blusa na sua frente. + Leia mais

Quantos passos?

Quando a conquista amorosa parece brincadeira de criança.

by rosanacaiado em 1 de fevereiro de 2010 | 17:09

– Lembra do “Mamãe, posso ir”?
– Brincadeira de criança?
– De adulto! Na hora da conquista, quando vem a dúvida sobre o interesse do outro, é como se estivéssemos brincando de Mamãe, posso ir.
+ Leia mais

Silêncio

Há silêncios que dizem mais que frases inteiras…

by rosanacaiado em 11 de janeiro de 2010 | 18:30

Cerca de dez minutos depois que trocamos o nosso último beijo – cientes da possibilidade de ele honrar o nome –, vieram as dores no corpo. O peso nos braços (parte interna) evoluiu para o esmagamento involuntário do coração pelas costelas. É que às vezes não caibo dentro de mim.

Reprise: uma mulher sentou ao seu lado no ônibus e deixou a mão morta encostar seguidas vezes na sua coxa, até se aproveitar de uma curva para pousá-la entre suas pernas. + Leia mais

Aproveite

O ano que vinha já chegou. E você, como vai aproveitar 2010?

by rosanacaiado em 4 de janeiro de 2010 | 16:04

- Qual é a sua cor preferida?
- Azul claro.

(ele está usando uma camiseta azul claro)

- Quantos filhos você gostaria de ter?
- Três.

(ele tem duas irmãs mais velhas)
+ Leia mais

O teco-teco e a campainha

by rosanacaiado em 16 de setembro de 2009 | 15:35

Estou em um teco-teco cinza, voando em linha reta. O céu está azul. Somos eu e o piloto, de quem não vejo o rosto. A viagem está calma, sem turbulências. Até que, de repente, o chão sob meus pés se abre e caio em queda livre. Não tenho pára-quedas. Minha respiração acelera e sei que acordei, mas não consigo abrir os olhos colados por rímel e remelas.

Respiração acelerada, reclamo, engulo, mudo de posição e arregalo. É como se o sono tivesse sido interrompido bruscamente pelo teco-teco. Como se eu tivesse mais para sonhar, ou como se merecesse acordar aos poucos e não de supetão, como às vezes a vida teima em ser.

Ontem foi pior: bateram na porta do meu quarto, ou sonhei que bateram na porta do quarto. Acordei e fiquei com medo. Depois voltei a dormir, mas custei muitas lágrimas

O sonho do teco-teco tem se repetido ao longo da semana. Quando o vôo começa é como um aviso: estou prestes a acordar. Abro os olhos, checo imediatamente os ponteiros do relógio – não pararam. São sete e meia. Todos os dias, não importa se fui deitar às dez ou às duas, caio do teco-teco às sete e meia, no máximo, às oito.

Acontece muito de acordar no meio da noite como se a campainha tivesse tocado. De todos, esse é o sonho mais real que já tive. A campainha é a do apartamento, som de “zê”. Sento na cama, checo imediatamente os ponteiros do relógio – não pararam. São duas da manhã. Não, não é possível, não é ninguém, ninguém tocou a campainha, foi apenas um sonho. E volto a dormir, mas custo.

Além da campainha, o celular toca dentro do meu sonho. Acordo. Pego o telefone celular – nenhuma chamada – e volto a dormir. Mas custo. Ontem foi pior: bateram na porta do meu quarto, ou sonhei que bateram na porta do quarto. Acordei e fiquei com medo. Depois voltei a dormir, mas custei muitas lágrimas.

Me pergunto se a leitora já sonhou repetidas vezes que caiu do teco-teco poucos segundos antes de acordar. Ou se já foi acordada por toque de campainha, ou telefone dentro do sonho. Gostaria que esses sonhos fossem mais um dos que todo mundo sonha, como que está pelado na rua ou que vai cair (não do teco-teco, mas sozinha) – esse eu sonho mais no sofá, em cochilos e não em sonhos em cruzeiro.

Estou dormindo quando alguém chama o meu nome. Acendo a luz do quarto – ninguém. Checo os ponteiros do relógio – pararam. Não consigo mais dormir.

Flerte

by rosanacaiado em 27 de julho de 2009 | 21:00

Eu nunca quebrei nenhum osso do corpo. Nunca tomei ponto, exceto quando arranquei os sisos. Nunca pulei de asa delta. Nunca nadei pelada. Eu nunca encostei a língua na ponta do nariz. Nunca fui a Salvador, nem a centro espírita. Eu nunca rezei um credo até o final. Nunca comi um mamão, nem tomei suco de manga, nem mate.

Eu nunca fiz a três. Nunca engravidei. Nunca fiquei com primo – o que é muito comum na família. Nunca dormi com a porta do armário aberta, que é para os monstros não me assombrarem no meio da noite. Nunca chorei depois de alguém já ter começado a chorar antes de mim. Eu nunca me apaixonei por nenhum Pedro, nunca me dei bem com nenhum Felipe e nunca gostei de nenhuma Lílian. Eu nunca passei pelo seu prédio sem pensar em você. Eu nunca beijei um negro, nem alguém com piercing na língua, mas ainda vou.

Eu não sei fazer feijão, não sei nadar borboleta, não sei dar cavalinho de pau, não sei dormir de barriga para cima, mas sou boa de conchinha. Não sei dar mortal para trás, mas já soube dar para frente e ainda sei dar estrela. Não sei colocar camisinha com a boca, não sei perdoar, não sei aconselhar, não sei fingir que está tudo bem, não sei usar a furadeira, não sei tirar as mãos do guidom, não sei tocar Pour Elise, mas toco ‘O Bife’ até a segunda parte.

Não sei jogar xadrez, não sei escolher vinho, não sei andar de patins. Não sei fazer as unhas, não sei digitar com dez dedos, mas os seis que uso são ligeiros. Não sei de cor o nome dos sete anões nem dos planetas do sistema solar e outro dia descobri que existem planetas anões. Não sei viver sem amor e a vida anda difícil.

Tenho medo de panela de pressão. Tenho medo de ficar presa no meu elevador, que está cada dia pior. Eu tenho medo de andar à noite em Botafogo. Tenho medo de nunca mais gostar de alguém. Tenho medo de amar e não ser correspondida. Tenho medo de ser traída – por favor, não me conte. Tenho medo de não agradar. Tenho medo de passar ridículo, medo de falar errado, medo de não saber o significado da palavra sorteada no Imagem e Ação.

Tenho medo de ultrapassar caminhão. De andar de bicicleta no meio dos carros. De escrever e ninguém ler. Tenho medo de nunca mais ter boas ideias. De não conseguir escrever a coluna da semana que vem. De perder a hora. De não ter filhos. De dormir sem passar a chave na porta – duas vezes. Tenho medo de ficar sem luz às nove da noite. Tenho medo de envelhecer sozinha, tenho medo do dia em que meus pais vão morrer – espero que não aconteça. Tenho muito medo da morte e o meu maior medo é um dia não ter.

MINHA BOLSA

Junte-se a outras mulheres na rede social, converse, desabafe, troque experiências e faça novas amigas

É possível se reapaixonar? Opine!

Quer ler mais sobre amor? AQUI

Amor e sexo

by rosanacaiado em 12 de julho de 2009 | 21:00

Eu nunca tinha visto, assim tão de perto, duas mulheres se beijando, assim tão despudoradamente, ardente, vermelho.

Nunca tinha visto duas mulheres e um homem se beijando em trio, com as línguas à mostra.

Nunca tinha visto uma mulher ser massageada entre as pernas enquanto é beijada por outra mulher e observada pelo resto da festa.

Nunca tinha visto um trenzinho em que o último vagão é um homem, o maquinista é outro homem e no meio estão duas mulheres sem parte de cima.

Nunca tinha visto um homem sentir tesão em ver a sua mulher com outro. Outros. Vários. Seguidos. O marido fotografa e espirra lubrificante na sua mulher, que está deitada de pernas abertas sobre uma mesa redonda. Eu nunca tinha visto um tubo de lubrificante tão grande.

Eu nunca tinha visto um strip masculino em que o dançarino, ao final da música, tira a sunga e está duro.

‘Eu nunca tinha visto um homem esconder a cabeça debaixo da saia da sua mulher no meio da pista de dança

Nunca tinha visto uma mulher mandar um homem deitar de barriga para cima no chão do palco para oferecer a ele o melhor ângulo quando tira a calcinha.

Nunca tinha visto uma atriz pornô provar o figurino em cima da cama, nua, em dúvida sobre a primeira ou a segunda calcinha, que ela tiraria com poucos segundos de cena. Eu nunca tinha visto uma atriz posar para a capa de um filme, rebolar para a câmera e fazer meia hora de sexo anal.

Nunca tinha visto a mulher da mesa ao lado levantar-se e, como quem paga uma aposta, subir ao palco, tirar a roupa e segurar no poste. Rodopiar.

Nunca tinha visto um homem e uma mulher deitados na cama, sem roupa, enquanto outra mulher e outro homem, respectivamente, lhes dão sexo oral.

Eu nunca tinha visto um homem esconder a cabeça debaixo da saia da sua mulher no meio da pista de dança. Nunca tinha visto uma mulher ajoelhar-se para três homens, na mesma pista de dança.

Eu nunca tinha visto um casal fazer papai e mamãe assim na minha frente, completamente nu, bunda redonda. Nunca tinha visto um casal fazer a posição do cachorrinho logo ali na minha frente, em um show de sexo explícito.

Nunca tinha visto um homem acentuar o decote do vestido da sua mulher para mostrar o bico para mim. Mas nada tem me parecido tão excitante quanto o amor.

Tudo ele

by rosanacaiado em 17 de maio de 2009 | 21:00

Eu dirijo.

Eu atraso.
Eu telefono para dizer que vou demorar mais cinco minutinhos.
Eu buzino duas curtas.
Eu escolho a estação do rádio.
Eu controlo o ar condicionado, mais frio, menos.
Eu estico as marchas.
Eu tiro fino.
Eu escolho três vagas mais longe para evitar baliza.

O bom de estar dirigindo é o tudo eu.

‘Queria me jogar em seus braços, pedir que ficasse para sempre, sugerir que morássemos juntos no banco de trás, duas ou três mudas de roupa no porta-luva

Meia dúzia de brindes mais tarde, eu bato o martelo na hora de ir embora. Eu saco a chave. Eu avanço o sinal. Eu passo direto pelo motel. Eu encosto na frente do prédio e deixo o motor ligado.

Às duas da manhã, é ele, é ele o responsável pela parte mais difícil: se despedir e sair do carro.

Me beija "boa-noite" e faz que vai embora. Não vai. Passa o dedo no meu rosto e checa se minhas pintas estão todas lá. Estão. E eu, que um dia sentei no banco do carona e sei como é duro sair quando a vontade é ficar, dou risada. Já passei por isso: tirei da cartola assuntos inadiáveis e, principalmente, beijos de boca aberta que não podiam ficar para o dia seguinte. No quinto "tchau", era sair ligeiro ou perder a dignidade.

Me envaidece perceber a resistência dele em sair do carro.

Ele ameaça, tira o cinto de segurança.
- Só mais um beijo – diz, antes de me dar cinco.

Queria me jogar em seus braços, pedir que ficasse para sempre, sugerir que morássemos juntos no banco de trás, duas ou três mudas de roupa no porta-luva. Mas não:
- Durma bem. Está tarde… – fecho o beijo antes do fim.

É a deixa. Suo frio, cruzo os dedos. Ele quase vai, mas fica. Relaxo o corpo.
- Só mais um beijo, vai…

***

Da calçada, pede que eu ligue, avisando que cheguei bem. Quando piso em casa, vem a prova dos nove: toca o celular – é ele. E, por mim, vestia a camisola preta, tirava a calcinha molhada e conversava baixinho até dormir.

Qualquer dia

by rosanacaiado em 19 de abril de 2009 | 21:00

Quando vejo uma menina de nariz vermelho na rua, passo alguns quarteirões pensando no motivo de sua tristeza. Se tomou bronca do chefe, se acabou de puxar o saldo no caixa eletrônico e descobriu que está sem dinheiro, se seus pais estão doentes, sua tia-avó com câncer. Na terceira esquina, foi briga de namorado, tenho certeza e torço para que façam as pazes depressa.

Quando entro na fila do pão, quero saber o que as pessoas à minha frente vão pedir: um colegial, um pão doce, três sonhos e um lamego, 250 gramas de pão de queijo, 100 de presunto e 150 de minas, dois croissants e cinco pães pretos (do médio), ou uma focaccia. Em geral o pedido é meia dúzia de pães franceses, o que muda é a cor de preferência – que sempre erro.

Quando vejo um cachorro amarrado na porta da padaria, quero saber o nome dele, quantas vezes tem que passear por dia e se o dono pega o cocô com saco de plástico. Se sim, de que mercado é.

‘Quando divido o vagão do metrô com um homem de sapatos novos, quero pegar o número do seu celular

Na cabine da loja, quero saber o que a vizinha está experimentando e, se for o caso, se tem o meu número. No metrô, quero saber que livro o vizinho está lendo. Tento ver se está perto do final, depois miro em seus olhos para saber se está gostando, cronometro o tempo que demora para virar as páginas, checo se mexe os pés enquanto lê e se usa marcador.

Sempre que mudam a vitrine da loja de móveis da esquina, quero saber se o armário anterior foi vendido ou preterido. Quando vejo um rapaz de aliança se engraçar para uma garota de quinta categoria, quero saber onde está a sua mulher e também por que noventa por cento dos homens, em vez de honrarem suas calças jeans, preferem sair de um relacionamento à francesa.

Quando os noivos cochicham no altar, quero saber que palavras usam. Quando divido o vagão do metrô com um homem de sapatos novos, quero pegar o número do seu celular. Quando ultrapasso um senhor de meia-idade que usa fones de ouvido, quero saber que música está ouvindo. Qualquer dia pergunto.

Angústia

by rosanacaiado em 1 de março de 2009 | 21:00

- Você sabe tirar angústia?

Ele está vendo o jogo na televisão e não me dá bola.

- Você sabe tirar angústia? – cutuco.

- Ãh?

Explico pausadamente:

- Você sabe um jeito de tirar essa angústia que está dentro do meu peito, bem aqui*, entre as minhas costelas?

* Quando falo "aqui", pego a mão dele e coloco em cima da angústia, como uma mulher que, na cama, mostra onde é o lugar certo. Exatamente.

- Não – ele responde sem pensar.

Falta. Falta digna de cartão amarelo.

- Para tirar angústia, você tem que pegá-la com a mão e jogar fora – resumo rapidamente.

- Como é que eu vou fazer isso?

- Dá um jeito!

O time dele está na retranca.

‘Ele esfrega a ponta dos dedos indicador, médio e anelar na minha angústia. Olha pra mim e dá um beijo estalado entre as minhas costelas.

- Por favor – cutuco.

Ele passa a mão sobre as minhas costelas, em movimentos verticais, como se fosse até o pescoço e depois até o umbigo, só que menor.

- Assim você não está tirando, está só tocando na angústia, o que pode fazer com que ela dobre de tamanho…

(Se a intenção é tentar dissipar a angústia, em vez de movimentos verticais, é preferível fazer movimentos circulares no peito a la Vick Vaporub)

- O que eu faço então? – ele pergunta, sem olhar pra mim.

- Come a angústia! Mastiga! Joga no vento! Suga, cava, puxa, arranca… Usa os seus poderes.

Ele passa a ponta dos dedos sobre a angústia e, um tanto envergonhado, leva a mão até a boca.

- Você vai comer a angústia?

- Vou.

- Então, mastiga bem – cutuco.

Ele mastiga devagar, como se angústia fosse bom.

Bola na trave.

- Você não pode tirar angústia e ver o jogo ao mesmo tempo.

- Por que não?

- Porque a angústia é caprichosa e não vai embora se não perceber afinco.

Ele olha para mim e quer, acima de tudo, que minhas angústias cheguem para bem longe dali, pelo menos até o final do segundo tempo. Levanta e segue em direção à cozinha.

Nessa hora, penso: "Ele vai pegar o aspirador de pó, ele vai pegar o aspirador de pó, ele vai pegar o aspirador de pó". Ele ligaria o aspirador na tomada, escolheria o bico ("o de canto, o de canto"), aspiraria a angústia debaixo das minhas costelas, puxando levemente a pele pelo cano. Tiraria o coletor descartável e jogaria na lixeira do prédio. Eu só sorrisos, pulando pelo corredor, ida e volta.

Mas ele vem da cozinha com uma lata de cerveja na mão.

- Quer?

Aceito. Ele senta ao meu lado e pergunta onde está exatamente. Eu mostro. Ele esfrega a ponta dos dedos indicador, médio e anelar na minha angústia. Olha pra mim e dá um beijo estalado entre as minhas costelas.

- Passou? – pergunta.

E na terceira latinha, depois do apito final, a angústia sai de campo.



perfil

Rosana Caiado Ferreira nasceu no Rio de Janeiro em 1977. Formada em Comunicação Social, é escritora e roteirista. Participou do livro "Como se não houvesse amanhã" (Editora Record) com um conto escrito a partir da música “Eduardo e Mônica”. Mantém o blog Complete a frase. Para entrar em contato, escreva um email para rosanacaiado@gmail.com