» namoroRosana Caiado

Eu gosto muito

Tem coisas que gosto muito e as pessoas não entendem. Por exemplo, dormir no meio do filme.

by rosanacaiado em 24 de janeiro de 2011 | 19:01

- Tem coisas que eu gosto muito e usar a meia napolitana é uma delas – disse. – A meia napolitana não tem nada de extraordinário, além de o comprimento e a textura exatas. É listrada de rosa, marrom e branco, honrando o apelido que você deu.

“Outra coisa que gosto muito é, antes de dormir, no inverno, tomar um banho quente com o sabonete de erva doce, não tão novo que ainda esteja duro, nem tão velho que já se desfaça entre os dedos. Também gosto muito de tomar a última ducha gelada, quando é verão, e pular debaixo do chuveiro, dando gritos agudos. Eu falo que não gosto, mas é muito bom.

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Vendaval

Eu queria abrir as janelas da minha memória e fazer uma corrente de ar que levasse para longe o que precisa ir.

by rosanacaiado em 20 de setembro de 2010 | 22:53

Saí no capricho: vestido novo, sandálias de salto fino e batom rosado. Era um daqueles dias em que tudo cai bem e eu estava me sentindo, no mínimo, adequada para acenar, sorrir e puxar conversa com os amigos e familiares do meu namorado, na festa pelo seu aniversário.

Quando cheguei na casa dele, que também estava vestida especialmente com toalhas de linho e vasos de flores, fui até a cozinha onde vi a minha sogra – short jeans, camiseta de malha e testa suada.

A intenção era das melhores quando, ao cumprimentá-la, entre uma bochecha e outra, disse:

- Está em cima da hora! Vai se arrumar!

Ela olhou nos meus olhou e respondeu:

- Já estou pronta. + Leia mais

The real me

Que cena da sua vida representa quem você é?

by rosanacaiado em 24 de maio de 2010 | 18:30


Às vésperas da estréia do segundo “Sex and the city”, revi o meu episódio preferido da série. Carrie é convidada para participar de um evento em que desfilarão “modelos” e “pessoas reais”. Ela fica insegura sobre aceitar ou não o convite e se expor ao julgamento alheio em uma passarela, até que diz sim. Na prova de roupa, pede que os saltos que vai usar sejam bem altos. Algumas confusões que não vêm ao caso depois, Carrie está se sentindo uma top model. Aponta na passarela incrivelmente linda – eu sempre me arrepio nessa hora. É quando ela dá três passos, tropeça nos saltos e leva um tombo circense. + Leia mais

Tenho dois gatos por quatro meses – final

Só quem tem bichos sabe como é a relação com eles.

by rosanacaiado em 3 de maio de 2010 | 20:16

Sexta-feira, 19 de março de 2009

Nunca entendi o amor das pessoas pelos bichos. Hoje recebi em minha casa dois gatos que vou hospedar por 4 meses em troca de 1.200 reais. Quando contei para o meu pai, ele achou que fosse piada.

Terça-feira, 27 de abril de 2010

Os gatos vão embora amanhã. + Leia mais

Márcia

Cinco ou seis coisas que toda mulher deve ter.

by rosanacaiado em 26 de janeiro de 2010 | 11:27

Há cinco ou seis coisas que toda mulher deve ter. Uma delas é uma boa cartomante.

Márcia é morena, cabelo comprido, argolas, corpete vermelho e preto. Short jeans. Cobra barato. Márcia tem um cachorro – salsicha. Abre a geladeira para me oferecer um copo d’água. A geladeira estaria vazia não fossem os ovos e as garrafas pela metade. Doze ovos.

- Quem é a próxima?
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A corrida

Uma corrida em que o vencedor é quem chega por último.

by rosanacaiado em 16 de dezembro de 2009 | 19:14

No almoço de domingo, meu pai contou uma história que nunca tinha sido contada. Por este único motivo, já me conquista – em família, as histórias são repetidas dezenas de vezes, com as mesmíssimas palavras, como a de quando minha mãe terminou o namoro de oito anos com meu pai e, em seguida, foi comprar o enxoval, certa de que seria pedida em casamento.

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O que mais gostamos de fazer

by rosanacaiado em 27 de outubro de 2009 | 17:58

Eu queria que, em torno das sete, o interfone tocasse. De tanta alegria, eu duvidaria dos meus ouvidos, até que você tocaria de novo, dessa vez mais demoradamente – como é o seu olhar sobre mim, depois de uma bebida. E então eu abriria a janela e veria seu corpo em miniatura, as mãos sobre o portão do prédio. Eu caminharia aos saltos até o interfone e apertaria o botão para você entrar. Em seguida, iria até o banheiro onde escovaria os dentes da frente e bochecharia com bastante pasta. Pentearia a franja e jogaria os cabelos para frente e para trás como as garotas do Fantástico. Iria querer trocar de roupa, mas não daria tempo.

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Bianca / Zé / eu

by rosanacaiado em 19 de outubro de 2009 | 15:25

Vamos chamá-la de Bianca. Há um homem, sempre há. Vamos chamá-lo de Zé, ainda que todos sejam. Biancas sempre rezam por Zés, emagrecem, noivam, gastam tempo, dinheiro e sonhos com Zés. Sobretudo, choram por Zés. Bianca se descabela.

Zé não está interessado em assuntos mundanos / salário mínimo / paz na Terra / canastra real / previsão do tempo para o fim de semana. Não sei ao certo o objetivo de Zé. Não aparenta ter a ver com Bianca.

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A torta de banana

by rosanacaiado em 16 de agosto de 2009 | 21:00

No nosso primeiro Dia dos Namorados, resolvi fazer uma torta, a minha primeira torta. E tinha que ser de banana, que era a da preferência dele.

A poucas horas da marcada, fui ao mercado da esquina comprar os ingredientes que faltavam. Soube onde encontrar ovos e leite, mas não tinha ideia de onde ficava o fermento. E descobri que existem vários tipos de farinha. As bananas não estavam maduras como a receita pedia. Eram as verdes, ou nada. Levei. Depois de uma fila de quinze minutos, saí do mercado satisfeita, me sentindo uma verdadeira doceira, ainda que de primeira torta.

Cheguei em casa e reli a receita enviada por email pela amiga cuja liberdade impressiona, a notar pelo passo a passo:

Ingredientes:
2 xícaras de açúcar
4 colheres de sopa de manteiga
3 xícaras de farinha de trigo
4 colheres de chá de fermento
1 pitada de sal
2 xícaras de leite
canela
bananas bem maduras

Modo de fazer:
Untar e colocar a massa no pirex, colocar sobre a massa bananas cortadas em tiras, canela e açúcar. Forno. Comer com o gatinho na cama, antes do sexo.

***

A noite dos namorados seria na casa dele, para evitar filas na porta de restaurantes e diante de hotéis. Lá chegando, logo após os primeiros beijos e sentindo o rosto queimar de timidez, mostrei a torta como quem abre o peito. Não sei qual foi a reação dele, porque, naquele momento e nos que se seguiram, meus olhos não conseguiam mirar outro lugar além do chão. Comemos um pedaço cada um, ainda quente. E tratamos de seguir a receita até o fim.

A torta de banana foi a primeira prova de amor que lhe dei, embora ele não tenha se dado conta de imediato. Foi também uma prova de que eu não era lá muito experiente na cozinha. E foi uma prova inequívoca dos sentimentos que ele guardava por mim, visto que só conseguimos comer a torta embalados pelo calor daquele nosso primeiro Dia dos Namorados.

Flerte

by rosanacaiado em 27 de julho de 2009 | 21:00

Eu nunca quebrei nenhum osso do corpo. Nunca tomei ponto, exceto quando arranquei os sisos. Nunca pulei de asa delta. Nunca nadei pelada. Eu nunca encostei a língua na ponta do nariz. Nunca fui a Salvador, nem a centro espírita. Eu nunca rezei um credo até o final. Nunca comi um mamão, nem tomei suco de manga, nem mate.

Eu nunca fiz a três. Nunca engravidei. Nunca fiquei com primo – o que é muito comum na família. Nunca dormi com a porta do armário aberta, que é para os monstros não me assombrarem no meio da noite. Nunca chorei depois de alguém já ter começado a chorar antes de mim. Eu nunca me apaixonei por nenhum Pedro, nunca me dei bem com nenhum Felipe e nunca gostei de nenhuma Lílian. Eu nunca passei pelo seu prédio sem pensar em você. Eu nunca beijei um negro, nem alguém com piercing na língua, mas ainda vou.

Eu não sei fazer feijão, não sei nadar borboleta, não sei dar cavalinho de pau, não sei dormir de barriga para cima, mas sou boa de conchinha. Não sei dar mortal para trás, mas já soube dar para frente e ainda sei dar estrela. Não sei colocar camisinha com a boca, não sei perdoar, não sei aconselhar, não sei fingir que está tudo bem, não sei usar a furadeira, não sei tirar as mãos do guidom, não sei tocar Pour Elise, mas toco ‘O Bife’ até a segunda parte.

Não sei jogar xadrez, não sei escolher vinho, não sei andar de patins. Não sei fazer as unhas, não sei digitar com dez dedos, mas os seis que uso são ligeiros. Não sei de cor o nome dos sete anões nem dos planetas do sistema solar e outro dia descobri que existem planetas anões. Não sei viver sem amor e a vida anda difícil.

Tenho medo de panela de pressão. Tenho medo de ficar presa no meu elevador, que está cada dia pior. Eu tenho medo de andar à noite em Botafogo. Tenho medo de nunca mais gostar de alguém. Tenho medo de amar e não ser correspondida. Tenho medo de ser traída – por favor, não me conte. Tenho medo de não agradar. Tenho medo de passar ridículo, medo de falar errado, medo de não saber o significado da palavra sorteada no Imagem e Ação.

Tenho medo de ultrapassar caminhão. De andar de bicicleta no meio dos carros. De escrever e ninguém ler. Tenho medo de nunca mais ter boas ideias. De não conseguir escrever a coluna da semana que vem. De perder a hora. De não ter filhos. De dormir sem passar a chave na porta – duas vezes. Tenho medo de ficar sem luz às nove da noite. Tenho medo de envelhecer sozinha, tenho medo do dia em que meus pais vão morrer – espero que não aconteça. Tenho muito medo da morte e o meu maior medo é um dia não ter.

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perfil

Rosana Caiado Ferreira nasceu no Rio de Janeiro em 1977. Formada em Comunicação Social, é escritora e roteirista. Participou do livro "Como se não houvesse amanhã" (Editora Record) com um conto escrito a partir da música “Eduardo e Mônica”. Mantém o blog Complete a frase. Para entrar em contato, escreva um email para rosanacaiado@gmail.com