Eu nunca quebrei nenhum osso do corpo. Nunca tomei ponto, exceto quando arranquei os sisos. Nunca pulei de asa delta. Nunca nadei pelada. Eu nunca encostei a língua na ponta do nariz. Nunca fui a Salvador, nem a centro espírita. Eu nunca rezei um credo até o final. Nunca comi um mamão, nem tomei suco de manga, nem mate.
Eu nunca fiz a três. Nunca engravidei. Nunca fiquei com primo – o que é muito comum na família. Nunca dormi com a porta do armário aberta, que é para os monstros não me assombrarem no meio da noite. Nunca chorei depois de alguém já ter começado a chorar antes de mim. Eu nunca me apaixonei por nenhum Pedro, nunca me dei bem com nenhum Felipe e nunca gostei de nenhuma Lílian. Eu nunca passei pelo seu prédio sem pensar em você. Eu nunca beijei um negro, nem alguém com piercing na língua, mas ainda vou.
Eu não sei fazer feijão, não sei nadar borboleta, não sei dar cavalinho de pau, não sei dormir de barriga para cima, mas sou boa de conchinha. Não sei dar mortal para trás, mas já soube dar para frente e ainda sei dar estrela. Não sei colocar camisinha com a boca, não sei perdoar, não sei aconselhar, não sei fingir que está tudo bem, não sei usar a furadeira, não sei tirar as mãos do guidom, não sei tocar Pour Elise, mas toco ‘O Bife’ até a segunda parte.
Não sei jogar xadrez, não sei escolher vinho, não sei andar de patins. Não sei fazer as unhas, não sei digitar com dez dedos, mas os seis que uso são ligeiros. Não sei de cor o nome dos sete anões nem dos planetas do sistema solar e outro dia descobri que existem planetas anões. Não sei viver sem amor e a vida anda difícil.
Tenho medo de panela de pressão. Tenho medo de ficar presa no meu elevador, que está cada dia pior. Eu tenho medo de andar à noite em Botafogo. Tenho medo de nunca mais gostar de alguém. Tenho medo de amar e não ser correspondida. Tenho medo de ser traída – por favor, não me conte. Tenho medo de não agradar. Tenho medo de passar ridículo, medo de falar errado, medo de não saber o significado da palavra sorteada no Imagem e Ação.
Tenho medo de ultrapassar caminhão. De andar de bicicleta no meio dos carros. De escrever e ninguém ler. Tenho medo de nunca mais ter boas ideias. De não conseguir escrever a coluna da semana que vem. De perder a hora. De não ter filhos. De dormir sem passar a chave na porta – duas vezes. Tenho medo de ficar sem luz às nove da noite. Tenho medo de envelhecer sozinha, tenho medo do dia em que meus pais vão morrer – espero que não aconteça. Tenho muito medo da morte e o meu maior medo é um dia não ter.
MINHA BOLSA
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