21h. Deitada na cama, estico o braço até a mesa de cabeceira e pego o rolo de papel higiênico. Arranco um pedaço e assôo o nariz. Meus olhos estão inchados e minha boca, rachada. Apesar do barulho dos carros lá fora, poderia jurar que não há mais ninguém no mundo além de mim.
‘Tenho a sensação de que estou submersa e, mesmo sem querer, preciso subir à tona para encher as bochechas de ar. Às vezes, é o inverso: me sinto na superfície e sinto falta das profundezas. Noutras, acho que é só o nariz entupido de gripe
Pego o telefone e ligo para a minha mãe. Mãe, oi, tudo bem? Pode falar? Tudo bem, só que estou com 40° de febre. É. Um aedes me picou, então, pode ser dengue. Minha mãe fica apavorada e chama toda a sagrada família. Eu digo que não deve ser nada, só um resfriado e desligo. Três segundos depois, meu pai – ou seria minha mãe? – telefona e diz assim: você vai entrar em um banho morno, tomar um tylenol, deitar, se cobrir com um cobertor grosso e suar até a febre abaixar. Obedeci a tudo, menos a parte do suar, porque não é um ato voluntário, e acabei dormindo. Quando acordei, torci para que o dia estivesse amanhecendo mas o relógio ainda não tinha chegado no dois.
Meus olhos afundaram no rosto, feito em areia movediça. Preciso de outro tylenol (não tem), uma sopa de mandioca e dois ou três versos de amor. Pego o meu melhor Vinícius e coloco debaixo do travesseiro, como eu fazia com o caderno de matemática em véspera de prova.
Tenho a sensação de que estou submersa e, mesmo sem querer, preciso subir à tona para encher as bochechas de ar. Às vezes, é o inverso: me sinto na superfície e sinto falta das profundezas. Noutras, acho que é só o nariz entupido de gripe.
Quando eu era pequena, faltando dez minutos para a hora do almoço, deitava no sofá e fingia dormir. Minha mãe ficava com pena de me "acordar" e eu estava dispensada do almoço. Eu acaba dormindo de verdade, porque fingia tão bem que até o meu sono acreditava. Às duas da manhã, finjo que estou dormindo, mas não adianta.
No dia seguinte, para minha surpresa, estou bem melhor. Era só um resfriado.
Meu peito está inchado, minha boca, rachada e quero te dar um par de óculos.
Vou almoçar na minha mãe, porque preciso de arroz, feijão, batata, carne, salada e aqui em casa o almoço nunca tem mais de dois itens. Chegando lá, meu pai me dá uma sacola com algodão, gaze, comprimidos para dor de cabeça, dor de estômago, dor de garganta, febre e acho a maior poesia, mais bonita que as do Vinícius que entraram no meu sonho à noite. Tenho vontade de chorar, mas engulo.
Inventei uma nova língua que ainda não tem tradução para o português, de modo que ninguém entende o que digo, o que penso, o que choro e o que desejo. Durante esse tempo todo, o mundo continuou girando e agora tenho que me segurar nas paredes para não cair. Meu medo é que ele nunca mais pare de rodar.