» desejoRosana Caiado

Quantos passos?

Quando a conquista amorosa parece brincadeira de criança.

by rosanacaiado em 1 de fevereiro de 2010 | 17:09

– Lembra do “Mamãe, posso ir”?
– Brincadeira de criança?
– De adulto! Na hora da conquista, quando vem a dúvida sobre o interesse do outro, é como se estivéssemos brincando de Mamãe, posso ir.
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Márcia

Cinco ou seis coisas que toda mulher deve ter.

by rosanacaiado em 26 de janeiro de 2010 | 11:27

Há cinco ou seis coisas que toda mulher deve ter. Uma delas é uma boa cartomante.

Márcia é morena, cabelo comprido, argolas, corpete vermelho e preto. Short jeans. Cobra barato. Márcia tem um cachorro – salsicha. Abre a geladeira para me oferecer um copo d’água. A geladeira estaria vazia não fossem os ovos e as garrafas pela metade. Doze ovos.

- Quem é a próxima?
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Silêncio

Há silêncios que dizem mais que frases inteiras…

by rosanacaiado em 11 de janeiro de 2010 | 18:30

Cerca de dez minutos depois que trocamos o nosso último beijo – cientes da possibilidade de ele honrar o nome –, vieram as dores no corpo. O peso nos braços (parte interna) evoluiu para o esmagamento involuntário do coração pelas costelas. É que às vezes não caibo dentro de mim.

Reprise: uma mulher sentou ao seu lado no ônibus e deixou a mão morta encostar seguidas vezes na sua coxa, até se aproveitar de uma curva para pousá-la entre suas pernas. + Leia mais

O que é, o que é?

Não tem hora marcada pra chegar e, quando chega, toma conta de tudo?

by rosanacaiado em 2 de dezembro de 2009 | 16:39

Não tem hora marcada – vem. Toma conta. Pega de surpresa. Na
verdade, não tem a menor educação. Quando você vê, já colocou os pés no
sofá.

E iguala as pessoas: tomados por ela, somos todos donos
de vontades que não podem ficar para depois. Não sou mais a única
menina mimada, com um bico deste tamanho, braços cruzados. Amanhã
parece o ano que vem. A semana que vem é quase como uma outra vida – e
não sobreviverei a esta se não te encontrar na próxima meia hora.

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O que mais gostamos de fazer

by rosanacaiado em 27 de outubro de 2009 | 17:58

Eu queria que, em torno das sete, o interfone tocasse. De tanta alegria, eu duvidaria dos meus ouvidos, até que você tocaria de novo, dessa vez mais demoradamente – como é o seu olhar sobre mim, depois de uma bebida. E então eu abriria a janela e veria seu corpo em miniatura, as mãos sobre o portão do prédio. Eu caminharia aos saltos até o interfone e apertaria o botão para você entrar. Em seguida, iria até o banheiro onde escovaria os dentes da frente e bochecharia com bastante pasta. Pentearia a franja e jogaria os cabelos para frente e para trás como as garotas do Fantástico. Iria querer trocar de roupa, mas não daria tempo.

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O teco-teco e a campainha

by rosanacaiado em 16 de setembro de 2009 | 15:35

Estou em um teco-teco cinza, voando em linha reta. O céu está azul. Somos eu e o piloto, de quem não vejo o rosto. A viagem está calma, sem turbulências. Até que, de repente, o chão sob meus pés se abre e caio em queda livre. Não tenho pára-quedas. Minha respiração acelera e sei que acordei, mas não consigo abrir os olhos colados por rímel e remelas.

Respiração acelerada, reclamo, engulo, mudo de posição e arregalo. É como se o sono tivesse sido interrompido bruscamente pelo teco-teco. Como se eu tivesse mais para sonhar, ou como se merecesse acordar aos poucos e não de supetão, como às vezes a vida teima em ser.

Ontem foi pior: bateram na porta do meu quarto, ou sonhei que bateram na porta do quarto. Acordei e fiquei com medo. Depois voltei a dormir, mas custei muitas lágrimas

O sonho do teco-teco tem se repetido ao longo da semana. Quando o vôo começa é como um aviso: estou prestes a acordar. Abro os olhos, checo imediatamente os ponteiros do relógio – não pararam. São sete e meia. Todos os dias, não importa se fui deitar às dez ou às duas, caio do teco-teco às sete e meia, no máximo, às oito.

Acontece muito de acordar no meio da noite como se a campainha tivesse tocado. De todos, esse é o sonho mais real que já tive. A campainha é a do apartamento, som de “zê”. Sento na cama, checo imediatamente os ponteiros do relógio – não pararam. São duas da manhã. Não, não é possível, não é ninguém, ninguém tocou a campainha, foi apenas um sonho. E volto a dormir, mas custo.

Além da campainha, o celular toca dentro do meu sonho. Acordo. Pego o telefone celular – nenhuma chamada – e volto a dormir. Mas custo. Ontem foi pior: bateram na porta do meu quarto, ou sonhei que bateram na porta do quarto. Acordei e fiquei com medo. Depois voltei a dormir, mas custei muitas lágrimas.

Me pergunto se a leitora já sonhou repetidas vezes que caiu do teco-teco poucos segundos antes de acordar. Ou se já foi acordada por toque de campainha, ou telefone dentro do sonho. Gostaria que esses sonhos fossem mais um dos que todo mundo sonha, como que está pelado na rua ou que vai cair (não do teco-teco, mas sozinha) – esse eu sonho mais no sofá, em cochilos e não em sonhos em cruzeiro.

Estou dormindo quando alguém chama o meu nome. Acendo a luz do quarto – ninguém. Checo os ponteiros do relógio – pararam. Não consigo mais dormir.

Flerte

by rosanacaiado em 27 de julho de 2009 | 21:00

Eu nunca quebrei nenhum osso do corpo. Nunca tomei ponto, exceto quando arranquei os sisos. Nunca pulei de asa delta. Nunca nadei pelada. Eu nunca encostei a língua na ponta do nariz. Nunca fui a Salvador, nem a centro espírita. Eu nunca rezei um credo até o final. Nunca comi um mamão, nem tomei suco de manga, nem mate.

Eu nunca fiz a três. Nunca engravidei. Nunca fiquei com primo – o que é muito comum na família. Nunca dormi com a porta do armário aberta, que é para os monstros não me assombrarem no meio da noite. Nunca chorei depois de alguém já ter começado a chorar antes de mim. Eu nunca me apaixonei por nenhum Pedro, nunca me dei bem com nenhum Felipe e nunca gostei de nenhuma Lílian. Eu nunca passei pelo seu prédio sem pensar em você. Eu nunca beijei um negro, nem alguém com piercing na língua, mas ainda vou.

Eu não sei fazer feijão, não sei nadar borboleta, não sei dar cavalinho de pau, não sei dormir de barriga para cima, mas sou boa de conchinha. Não sei dar mortal para trás, mas já soube dar para frente e ainda sei dar estrela. Não sei colocar camisinha com a boca, não sei perdoar, não sei aconselhar, não sei fingir que está tudo bem, não sei usar a furadeira, não sei tirar as mãos do guidom, não sei tocar Pour Elise, mas toco ‘O Bife’ até a segunda parte.

Não sei jogar xadrez, não sei escolher vinho, não sei andar de patins. Não sei fazer as unhas, não sei digitar com dez dedos, mas os seis que uso são ligeiros. Não sei de cor o nome dos sete anões nem dos planetas do sistema solar e outro dia descobri que existem planetas anões. Não sei viver sem amor e a vida anda difícil.

Tenho medo de panela de pressão. Tenho medo de ficar presa no meu elevador, que está cada dia pior. Eu tenho medo de andar à noite em Botafogo. Tenho medo de nunca mais gostar de alguém. Tenho medo de amar e não ser correspondida. Tenho medo de ser traída – por favor, não me conte. Tenho medo de não agradar. Tenho medo de passar ridículo, medo de falar errado, medo de não saber o significado da palavra sorteada no Imagem e Ação.

Tenho medo de ultrapassar caminhão. De andar de bicicleta no meio dos carros. De escrever e ninguém ler. Tenho medo de nunca mais ter boas ideias. De não conseguir escrever a coluna da semana que vem. De perder a hora. De não ter filhos. De dormir sem passar a chave na porta – duas vezes. Tenho medo de ficar sem luz às nove da noite. Tenho medo de envelhecer sozinha, tenho medo do dia em que meus pais vão morrer – espero que não aconteça. Tenho muito medo da morte e o meu maior medo é um dia não ter.

MINHA BOLSA

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Regina

by rosanacaiado em 19 de julho de 2009 | 21:00

Ando depressa até a loja da esquina onde, mensalmente, incremento meu guarda-roupa íntimo. Saúdo Regina, a vendedora, sempre a mesma, que é também a dona do estabelecimento. Regina pinta os cabelos, mas não os olhos. É mais baixa do que eu cerca de 15 centímetros, não é gorda, não é magra e está agasalhada.

Analiso as peças penduradas em cabides plásticos que as deixam escapar ao mínimo toque. Tento recolocá-las com esforço e sem sucesso, até que Regina pede que deixe com ela. Volto a folhear os modelos – alguns inéditos. A loja sempre tem novidades de tecido e estampa.

Puxo assunto com Regina:

- É impressão minha ou elas estão maiores?
- Quando chega o inverno, ninguém quer sentir frio atrás.

Regina ganha o rosto de Aline, amiga de escola, no inverno de 1992, às sete e quinze da manhã, quando o sinal toca pela terceira vez, mandando que os alunos entrem na sala de aula. Aos mal humorados, Aline pergunta: “Dormiu com a bunda descoberta?”.

Passo três ou quatro cabides plásticos concentrada nos croquis de uma possível coleção outono-inverno de roupa de baixo – tecido felpudo e estampa xadrez – quando identifico o primeiro modelo que combina com meus desejos imediatos – poá lilás.

Em regra, a compra do mês consiste em três calcinhas e nenhum sutiã. Se há ocasião ou excitação especial, permito-me o luxo de uma lingerie avulsa entre uma compra e outra – não sem alegria, noto que a gaveta está apinhada.

A segunda eleita é preta e a terceira, malhada, de lateral média.

Enquanto Regina digita na calculadora a conta que já fiz de cabeça, especulo:

- Você deve ter muitas calcinhas, não é, Regina?
- Seis, só tenho seis.

Junto as sobrancelhas. A primeira reação é perguntar por que seis em vez de sete, como os dias da semana. Mas Regina não me dá tempo.

- Três dessa e três daquela ali – aponta. E em seguida define com propriedade – As mais sem graça da loja.

Sinto o rosto desmanchar sobre o pescoço.

- Por quê, Regina?
- Não sei.

Pego o troco, a sacola de compras e me despeço de Regina. Em casa, abro uma cerveja, mas tomo só a metade.

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40° à noite

by rosanacaiado em 8 de dezembro de 2008 | 21:00

21h. Deitada na cama, estico o braço até a mesa de cabeceira e pego o rolo de papel higiênico. Arranco um pedaço e assôo o nariz. Meus olhos estão inchados e minha boca, rachada. Apesar do barulho dos carros lá fora, poderia jurar que não há mais ninguém no mundo além de mim.

‘Tenho a sensação de que estou submersa e, mesmo sem querer, preciso subir à tona para encher as bochechas de ar. Às vezes, é o inverso: me sinto na superfície e sinto falta das profundezas. Noutras, acho que é só o nariz entupido de gripe

Pego o telefone e ligo para a minha mãe. Mãe, oi, tudo bem? Pode falar? Tudo bem, só que estou com 40° de febre. É. Um aedes me picou, então, pode ser dengue. Minha mãe fica apavorada e chama toda a sagrada família. Eu digo que não deve ser nada, só um resfriado e desligo. Três segundos depois, meu pai – ou seria minha mãe? – telefona e diz assim: você vai entrar em um banho morno, tomar um tylenol, deitar, se cobrir com um cobertor grosso e suar até a febre abaixar. Obedeci a tudo, menos a parte do suar, porque não é um ato voluntário, e acabei dormindo. Quando acordei, torci para que o dia estivesse amanhecendo mas o relógio ainda não tinha chegado no dois.

Meus olhos afundaram no rosto, feito em areia movediça. Preciso de outro tylenol (não tem), uma sopa de mandioca e dois ou três versos de amor. Pego o meu melhor Vinícius e coloco debaixo do travesseiro, como eu fazia com o caderno de matemática em véspera de prova.

Tenho a sensação de que estou submersa e, mesmo sem querer, preciso subir à tona para encher as bochechas de ar. Às vezes, é o inverso: me sinto na superfície e sinto falta das profundezas. Noutras, acho que é só o nariz entupido de gripe.

Quando eu era pequena, faltando dez minutos para a hora do almoço, deitava no sofá e fingia dormir. Minha mãe ficava com pena de me "acordar" e eu estava dispensada do almoço. Eu acaba dormindo de verdade, porque fingia tão bem que até o meu sono acreditava. Às duas da manhã, finjo que estou dormindo, mas não adianta.

No dia seguinte, para minha surpresa, estou bem melhor. Era só um resfriado.

Meu peito está inchado, minha boca, rachada e quero te dar um par de óculos.

Vou almoçar na minha mãe, porque preciso de arroz, feijão, batata, carne, salada e aqui em casa o almoço nunca tem mais de dois itens. Chegando lá, meu pai me dá uma sacola com algodão, gaze, comprimidos para dor de cabeça, dor de estômago, dor de garganta, febre e acho a maior poesia, mais bonita que as do Vinícius que entraram no meu sonho à noite. Tenho vontade de chorar, mas engulo.

Inventei uma nova língua que ainda não tem tradução para o português, de modo que ninguém entende o que digo, o que penso, o que choro e o que desejo. Durante esse tempo todo, o mundo continuou girando e agora tenho que me segurar nas paredes para não cair. Meu medo é que ele nunca mais pare de rodar.

Desejos para hoje à noite

by rosanacaiado em 20 de julho de 2008 | 21:00

O que eu quero

Quero ficar com você hoje à noite (senão morrerei).

O que eu deveria fazer

Esperar os minutos, depois as horas, talvez dias, seguindo as regras do Jogo do Amor.

O que eu sinto

Estou muito ansiosa por um telefonema seu, um email, um recado no celular. Mais ainda por um beijo, um amasso, um abraço…/

O telefone toca quando estou debaixo do chuveiro, na hora do xampu. Pulo do boxe, molho o chão do banheiro, o corredor, procuro a bolsa, procuro dentro da bolsa, atendo. É engano.

O que eu quero dizer

Vamos nos ver hoje à noite? Faço um macarrão pra você.

Ou

Vamos nos ver hoje à noite? Faço uma depilação pra você.

Ou

Vamos nos ver hoje à noite? A noite inteira, inteirinha?

Rabisco em uma folha de caderno várias frases, como "alô", "pode falar um minuto?", "tudo certinho?,"por aqui, tudo bem, fora essa pontada nas minhas costelas, acho que entre a segunda e a terceira costela, de baixo para cima, no lado esquerdo, bem aqui. Não sei exatamente o que é, mas desconfio que seja saudade".

O que eu digo

Quais são seus planos para hoje à noite?

E depois

Ah, tudo bem. A gente se fala outro dia. Beijo!

Desligo.

Há mais mistérios entre o que se diz e o que se pensa e o que se quer e o que se deve e o que se faz do que imagina a nossa vã filosofia.

No escuro do meu quarto, a sua ausência me rasga. Quando disse que senti sua falta, queria dizer que estava sangrando de saudade.

E, quando voltar a te ver, quero te abraçar por uma semana até o meu corpo perder as fronteiras no seu.

E quando você começa uma frase com "eu adoro", se abre um abismo entre os meus pulmões e torço para que a palavra seguinte seja "você". Mas é "o inverno" ou "batata doce" ou "a cor do céu às 6 da manhã".

E quando virei de lado no meio da noite, pensei que, se estivéssemos abraçados, nada de mal poderia acontecer.

E quando peguei no sono, sonhei que estávamos em uma casa onde nunca fui e você me oferecia lugar debaixo do cobertor azul.

E quando te dei minha boca, queria te dar meu corpo inteiro.

E quando te dei meu corpo inteiro, queria mesmo era ficar com o seu.



perfil

Rosana Caiado Ferreira nasceu no Rio de Janeiro em 1977. Formada em Comunicação Social, é escritora e roteirista. Participou do livro "Como se não houvesse amanhã" (Editora Record) com um conto escrito a partir da música “Eduardo e Mônica”. Mantém o blog Complete a frase. Para entrar em contato, escreva um email para rosanacaiado@gmail.com