Era verão, era à tarde e, no meio de um beijo, tive a certeza de estar diante do inédito – o primeiro amor.
É evidente que não sabia o que fazer com isso. + Leia mais
Todo amor, para sê-lo, dá a impressão de que é o primeiro.
Era verão, era à tarde e, no meio de um beijo, tive a certeza de estar diante do inédito – o primeiro amor.
É evidente que não sabia o que fazer com isso. + Leia mais
Na paixão, o que é pior do que não ser correspondido?
Na terceira vez em que nos encontramos, o restaurante estava cheio e meus ouvidos se confundiam entre talheres deslizando em pratos mal lavados e copos, mais de dois, se esbarrando em brindes e álcool, destilado ou não, mergulhando nos copos, e eu com a impressão de que ele não estava ouvindo nada ou quase nada do que eu dizia – o que por algum motivo seria o melhor cenário. Eu estava nervosa, escondendo as mãos trêmulas por debaixo das coxas e ele estava com o cotovelo apoiado sobre a mesa, o queixo sobre a mão fechada e os seus olhos guardavam segredos. + Leia mais
Há silêncios que dizem mais que frases inteiras…
Cerca de dez minutos depois que trocamos o nosso último beijo – cientes da possibilidade de ele honrar o nome –, vieram as dores no corpo. O peso nos braços (parte interna) evoluiu para o esmagamento involuntário do coração pelas costelas. É que às vezes não caibo dentro de mim.
Reprise: uma mulher sentou ao seu lado no ônibus e deixou a mão morta encostar seguidas vezes na sua coxa, até se aproveitar de uma curva para pousá-la entre suas pernas. + Leia mais
O sábado que me desculpe, mas sexta-feira é o melhor dia da semana.
Comparada a um relacionamento, a sexta-feira é como o primeiro encontro: taquicardia e projeções – a sexta-feira beira o ideal. Ela esconde os defeitos e ninguém faz questão de procurar. Só penso nela: sexta-feira, sexta-feira, sexta-feira.
Caminhamos de braços dados, eu e minha irmã. Eu olho para o chão, ela, para a nossa prima que está três passos à frente, de mãos dadas com seu primeiro namorado, ambos com 14 anos.
Eu nunca tinha visto, assim tão de perto, duas mulheres se beijando, assim tão despudoradamente, ardente, vermelho.
Nunca tinha visto duas mulheres e um homem se beijando em trio, com as línguas à mostra.
Nunca tinha visto uma mulher ser massageada entre as pernas enquanto é beijada por outra mulher e observada pelo resto da festa.
Nunca tinha visto um trenzinho em que o último vagão é um homem, o maquinista é outro homem e no meio estão duas mulheres sem parte de cima.
Nunca tinha visto um homem sentir tesão em ver a sua mulher com outro. Outros. Vários. Seguidos. O marido fotografa e espirra lubrificante na sua mulher, que está deitada de pernas abertas sobre uma mesa redonda. Eu nunca tinha visto um tubo de lubrificante tão grande.
Eu nunca tinha visto um strip masculino em que o dançarino, ao final da música, tira a sunga e está duro.
Nunca tinha visto uma mulher mandar um homem deitar de barriga para cima no chão do palco para oferecer a ele o melhor ângulo quando tira a calcinha.
Nunca tinha visto uma atriz pornô provar o figurino em cima da cama, nua, em dúvida sobre a primeira ou a segunda calcinha, que ela tiraria com poucos segundos de cena. Eu nunca tinha visto uma atriz posar para a capa de um filme, rebolar para a câmera e fazer meia hora de sexo anal.
Nunca tinha visto a mulher da mesa ao lado levantar-se e, como quem paga uma aposta, subir ao palco, tirar a roupa e segurar no poste. Rodopiar.
Nunca tinha visto um homem e uma mulher deitados na cama, sem roupa, enquanto outra mulher e outro homem, respectivamente, lhes dão sexo oral.
Eu nunca tinha visto um homem esconder a cabeça debaixo da saia da sua mulher no meio da pista de dança. Nunca tinha visto uma mulher ajoelhar-se para três homens, na mesma pista de dança.
Eu nunca tinha visto um casal fazer papai e mamãe assim na minha frente, completamente nu, bunda redonda. Nunca tinha visto um casal fazer a posição do cachorrinho logo ali na minha frente, em um show de sexo explícito.
Nunca tinha visto um homem acentuar o decote do vestido da sua mulher para mostrar o bico para mim. Mas nada tem me parecido tão excitante quanto o amor.
Eu dirijo.
Eu atraso.
Eu telefono para dizer que vou demorar mais cinco minutinhos.
Eu buzino duas curtas.
Eu escolho a estação do rádio.
Eu controlo o ar condicionado, mais frio, menos.
Eu estico as marchas.
Eu tiro fino.
Eu escolho três vagas mais longe para evitar baliza.
O bom de estar dirigindo é o tudo eu.
Meia dúzia de brindes mais tarde, eu bato o martelo na hora de ir embora. Eu saco a chave. Eu avanço o sinal. Eu passo direto pelo motel. Eu encosto na frente do prédio e deixo o motor ligado.
Às duas da manhã, é ele, é ele o responsável pela parte mais difícil: se despedir e sair do carro.
Me beija "boa-noite" e faz que vai embora. Não vai. Passa o dedo no meu rosto e checa se minhas pintas estão todas lá. Estão. E eu, que um dia sentei no banco do carona e sei como é duro sair quando a vontade é ficar, dou risada. Já passei por isso: tirei da cartola assuntos inadiáveis e, principalmente, beijos de boca aberta que não podiam ficar para o dia seguinte. No quinto "tchau", era sair ligeiro ou perder a dignidade.
Me envaidece perceber a resistência dele em sair do carro.
Ele ameaça, tira o cinto de segurança.
- Só mais um beijo – diz, antes de me dar cinco.
Queria me jogar em seus braços, pedir que ficasse para sempre, sugerir que morássemos juntos no banco de trás, duas ou três mudas de roupa no porta-luva. Mas não:
- Durma bem. Está tarde… – fecho o beijo antes do fim.
É a deixa. Suo frio, cruzo os dedos. Ele quase vai, mas fica. Relaxo o corpo.
- Só mais um beijo, vai…
***
Da calçada, pede que eu ligue, avisando que cheguei bem. Quando piso em casa, vem a prova dos nove: toca o celular – é ele. E, por mim, vestia a camisola preta, tirava a calcinha molhada e conversava baixinho até dormir.
Eu estava em uma festa, segurando um copo e olhando para os lados à procura de um tema para esta coluna. Passava das onze e eu coçava a cabeça, quando o DJ ouviu meus pedidos e tocou uma música que reconheci nos primeiros acordes. Entrei em um túnel até a pré-adolescência, quando, aos nove, dancei a mesma música com o menino por quem estava apaixonada.
A música: "Olhar 43". O menino: moreno, mais baixo do que eu, cabelo de cuia e pernas arqueadas. Não revelarei seu nome porque é desses que só se conhece um ou dois ao longo da vida. Trocávamos bilhetinhos em que ele se dizia afim de mim e da minha melhor amiga – o que não atrapalhava em nada a nossa amizade. Em um dos bilhetes, desenhou um retângulo e pediu que eu mandasse para ele um beijo pelo papel. Depois de treinar em outras superfícies como espelho, mão e folhas de caderno, com várias cores de batom e diferentes aberturas de lábios, beijei o retângulo como quem beija a boca do menino e perdi a virgindade de beijo no papel.
Dançar com ele na festa americana no play de uma amiga foi um daqueles momentos em que só existem duas pessoas no mundo, a despeito dos outros convidados – a turma toda da escola. Ele dançava bem, muito bem, e levantava uma das pernas arqueadas como quem chuta uma bola com a parte interna do pé. Eu olhava em seus olhos e em seguida desviava para o chão – a cena da tímida a qual ainda recorro nos momentos de conquista. As luzes coloridas iluminavam seu rosto e o nosso futuro: beijos, namoro, igreja, filhos e caminhar de braço dado em direção ao pôr-do-sol. Durante a música, que pareceu durar meia hora e se repetiu em meus pensamentos por muitos dias, noites inteiras, conversas por telefone e banhos demorados, senti meus primeiros arrepios e contrações involuntárias do abdome.
Para uma menina magricela que sequer tinha beijado na boca (fora a vez do papel), aquela dança foi o ápice do primeiro amor.
Nunca o beijei.
Nas brincadeiras de salada-mista, ele acabou beijando a minha melhor amiga, aquela de quem ele também estava afim, atrás da cortina do quarto cor-de-rosa dela. Eu só fui beijar a primeira vez alguns anos depois, um menino que nem era do colégio, tinha acabado de arrancar o siso e estava com gosto de dentista.
***
Quando a música acaba, de volta do túnel, uma amiga que não estava ouvindo meus pensamentos concentrada que estava nos próprios, conta que ficou com Paulo Ricardo. É um choque, mas consigo pescar frases como "ele estava me secando", "encarnação do desejo da minha adolescência", "ficamos", "começou a ficar mais quente", "carro", "motel", "estava maneiro", "tiramos a roupa", "maneiríssimo", "transamos", "ele disse: ‘vou te fazer uma surpresa'", "subiu na cama, tocou guitarra no ar e começou a cantar ‘olhar 43'", "queria sumir".
Ainda bem que nunca beijei Ulisses.
Quando procurei seus olhos pela primeira vez, você estava de óculos escuros. Na terceira frase, nossa terceira frase, tomei a liberdade de tirá-los, como se fossem meus, como se você já fosse meu, como se um dia você pudesse ser todo meu, só meu – quem sabe, hoje*.
* No dicionário, ver “desejo”.
Coloquei seus óculos entre os meus seios num presságio do que viria depois* e vi em seus olhos um homem com açúcar mascavo, mel e hortelã. A despeito de todo o carnaval, nossos olhares pertenceram um ao outro por uma longa seqüência de minutos, que, no compasso do meu coração, durou a vida inteira: flerte, beijos, amassos, eu-te-amos, alianças, mamadeiras, implicâncias e baralho aos domingos. Tudo começa com um olhar e, depois desse primeiro, viriam outros, tantos, dúbios, loucos, vermelhos, exaustos, inclusive o olhar que trocamos, ontem, antes de dormir.
* No dicionário, ver “sedução”.
Se fosse permitido, poderia passar horas vendo o futuro em seus olhos*. Eu, e acredito não ser a única, aprecio o belo: observo seus olhos como quem está diante de uma obra de arte – o seu retrato na parede do meu quarto.
* No dicionário, ver “magnetismo”.
E quando você me retribui o olhar, mesmo que por um só instante, lamento e festejo meus segredos revelados. Te entrego minha maior nudez*. Quando você, entre minhas pernas, confere meus olhos ou quando você me fita enquanto refoga na manteiga uma cebola ou quando você me encara no ensaio de uma briga, faço anotações mentais, nomeio e em seguida enumero cada um dos seus olhares, que compõem a minha já extensa coleção.
* No dicionário, ver “rendição”.
O seu olhar embaça o entorno, como hoje cedo, depois do banho quente*. É como se, em um levantar de sobrancelhas (prometo apará-las ainda nesta semana), você tirasse meus pés do chão. E me tomasse para si. É como se, em um olhar, o mais demorado, você me pedisse a mão. E eu, em silêncio, respondesse com um suspiro.
* No dicionário, ver “vaporização”.
Quando você me olha, poderia ficar paralisada até completar 100 anos*. Mas dou risada, pisco como nos desenhos animados, enrosco a cabeça no pescoço, quero fazer charme – não sei se consigo, mas me sinto em um daqueles momentos em que tudo faz sentido.
* No dicionário, ver “hipnose”.
Até que um dia, a despeito de todo o carnaval, assim como começou, você vai me oferecer um olhar que até então será inédito, e seus olhos entrarão nos meus com o peso da última vez*.
* No dicionário, ver “dor”.
No mês passado, no dia 21 de maio, esta coluna fez seu primeiro aniversário. Desejo a ela muitas felicidades e muitos anos de vida. Parabéns.
Escrevê-la é um enorme prazer. Aguça os sentidos. Me faz parecer maluca, quando, às quatro da manhã, levanto da cama para buscar caneta e papel – estou cheia de idéias. É também, não vou mentir, motivo de angústia quando me sinto vazia e não encontro assunto digno. Ou quando só moram na minha cabeça pensamentos que não quero dividir com ninguém.
***
Tenho recebido alguns e-mails carinhosos não pelo aniversário, que passou despercebido, mas quando a coluna toca alguém por algum motivo – acho que, às vezes, as pessoas se reconhecem nas minhas palavras. E é para isso mesmo que escrevo: emocionar e gerar identificação.
Tento responder a maioria dos e-mails. É curioso: respondo, agradeço e pergunto se a pessoa conhece o meu blog. Dou o link, mesmo antes de saber a resposta. E a resposta não vem. Nunca veio. Eu replico os meus leitores e eles nunca me treplicam.
Nessa semana, recebi um email especial. Divido com vocês:
"Rosana, você é um encanto. Sua coluna é muito bem escrita.
Estas coisas me fazem muito feliz.
Bjs de sua mãe"
Lembram da "Aula de Informática"?
***
A coluna nasceu no canal "Amor e Sexo". Seis meses depois, eu não escrevia nada sobre amor. Muito menos, sexo. Tanto que a coluna foi despejada e fixou morada no canal "Estilo de Viver". Logo em seguida, eu só falava de família. Tinha certeza que seria mandada para o "Casa e Família". Mas passou. Agora, minha editora, a querida Marcella Brum, puxa conversa:
- A coluna está linda, diz ela no MSN.
- Obrigada, respondo.
- Nossa, você anda inspirada, sabia?
- Você acha? Tem um quê de amargura, não?
- Nada! Você vai voltar pro "Amor".
Vou voltar pro amor. Vou voltar pro amor.
- Sério?, pergunto.
Depois de seis meses no "Estilo de Viver", volto para o amor, digo, para o canal "Amor e Sexo". Só penso nisso, na mudança, no amor, em sexo, em Botafogo, nas pessoas apressadas, nas britadeiras. Botafogo é prosa, a Lagoa é poesia. Penso em amor, amor, amor. Amor.
O amor, assim como o pôr-do-sol, é brega. Falar de amor: brega. Minha coluna da semana passada e outras que teimei em escrever: todas bregas, breguíssimas. Pois, então, nesse caso, diante disso, portanto, sou brega. Adoro.
Quero declarações de amor, café da manhã de comercial de margarina, beijo na barriga, Fábio Jr, rosas vermelhas, amor, amor, amor. E sexo, claro. Sexo, se possível, a noite inteira. Sexo, se possível, com olho no olho. Sexo, preferencialmente, com amor. Amor, amor.
O problema do amor é que ele não gosta de se sentir na obrigação de sê-lo. O amor é livre, gosta de chegar de surpresa e falar baixo. Desde que soube que voltaria para o "Amor", abri e estiquei os dedos dos pés, como garras.
Desculpe, Marcella, mas não sei se vou conseguir falar de amor e sexo, agora que você mandou. Às vezes, quase sempre, o subentendido é melhor. Sou aprendiz, mas estou gostando. Fica a seu cargo deixar a coluna no "Estilo de Viver" ou transferi-la para "Amor e Sexo". Depois me diz.