Houve esse dia, há muitos, quando sentamos frente a frente pela primeira vez estando o céu aceso. Entre o meu corpo debruçado na mesa e o seu, além de pães, duas xícaras e algumas fatias de presunto, um queijo, um delicioso queijo mineiro em formato de meia lua. Não foi dessa vez, mas numa próxima, esta quando em nossos dedos já estavam anéis iguais, que enfim expus a inquietação que me subia pelas costelas desde aquele primeiro café da manhã:
- Você infringe a lei do queijo – eu disse. – Uma regra informal, porém indispensável para o bem-conviver.
- Onde já se viu legislação para cortar o queijo? – você protestou.
Lá na Tijuca. Minha mãe colocava o queijo sobre a mesa, o último e talvez mais esperado convidado a chegar no banquete, e cortava com uma faca especial o primeiro pedaço. Sem que pedisse, eu, meu pai e minha irmã seguíamos o caminho que ela havia começado, cortando sempre na mesma face e no mesmo sentido que minha mãe, na posição de dona do queijo e da casa, havia delicadamente sugerido.
Agora isso:
- Na nossa casa jamais entrará em vigor a lei do queijo – diz ele com a faca e o queijo na mão.
Tiro da geladeira um queijo que nem de longe lembra uma meia lua, está mais para octogóno. Meu marido insiste em cortar o queijo a cada hora em uma parede diferente, não sem antes olhar para mim com ar de menino que vai enfiar o dedo na tomada.
- Olha a lei do queijo! – digo, como quem dá uma bronca.
E assim, sem dizer mais nada, está formalizada a nossa cumplicidade.

