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Meias palavras

Sent: Sunday, August 12, 2012 8:36 PM
Subject: RE: meias palavras

by rosanacaiado em 13 de agosto de 2012 | 23:02

I
Hoje acordei cedo, comi duas torradas com queijo, botei as roupas pretas para secar e as brancas, para lavar. Atrasada para o trabalho, em vez de perfume, passei atrás da orelha, no colo, no pescoço e nas bochechas, demaquilante. Só no pulso percebi que era demaquilante, que vem em um frasco translúcido como o do perfume, mas tem consistência oleosa. Eu estava atrasada.

II
Na portaria do prédio vi um cartaz improvisado, colado pelo síndico. Aviso: a CEDAE cortou a distribuição por três dias. Os moradores devem economizar água e não usar a máquina de lavar roupa.

Fiquei aborrecida, porque lavar roupa é a tarefa doméstica que mais me agrada. Quando vou receber visita, lavo uma máquina de lençol só para a casa cheirar a amaciante. Se síndica fosse, pediria também que não lavassem os cabelos, segurassem o xixi e, para as mulheres, nada de chuveirinho. Aqui em casa, lavar louça só na semana que vem.

SUTILEZAS
From: “B.”
To: “A.”
Sent: Sunday, August 12, 2012 8:36 PM
Subject: RE: meias palavras

Tam!

—– Original Message —–
From: “A.”
To: “B.”
Sent: Sunday, August 12, 2012 8:30 PM
Subject: meias palavras

Sau!

III
Sempre que está na prateleira, escolho o lençol de listras.  O problema é acordar de hora em hora para checar se estou reta na cama.

IV
Em vez de azeite, quase coloquei vinho na pizza.

V
No almoço, quando o copo esvaziou, em vez de Coca light, virei o vidro de shoyo e completei até a borda. Nem estava comendo sushi.

SUTILEZAS II
Meu coração não é muito experiente em sentir saudade. Parece gringo, é como se não conhecesse a palavra. Acostuma-se. Deixa pra lá. Substitui. Aos amigos e familiares, meus queridos e afins, enfim, peço desculpas por ele, coração pequeno e imaturo, que não sabe sentir e recusa-se a contar mentira. Demora meses e não horas, anos e não dias, para enfim apertar, detectar um leve estranhamento, a falta que faz, então lembra-se de uma cena, uma noite, uma da manhã, uma piscadela, uma foto amarela, e aí já viu.

XXIV
- Já passou mais de 24 horas sem falar nenhuma palavra?
- …

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perfil

Rosana Caiado Ferreira nasceu no Rio de Janeiro em 1977. Formada em Comunicação Social, é escritora e roteirista. Participou do livro "Como se não houvesse amanhã" (Editora Record) com um conto escrito a partir da música “Eduardo e Mônica”. Mantém o blog Complete a frase. Para entrar em contato, escreva um email para rosanacaiado@gmail.com