Na cama, à noite, ELE beija a testa de ELA.
ELE: Até amanhã.
ELA: “Até amanhã” por quê? Vai dormir na sala por acaso?
ELE: Claro que não! Vou dormir aqui na nossa cama, do seu ladinho.
ELA: Nesse caso, “até amanhã” não se aplica.
ELE: Por que não?
ELA: “Ate amanhã” é usado quando cada um vai para um lugar e só volta se encontrar no dia seguinte.
ELE: Então!
ELA: Então o quê? Você está me irritando…
ELE: Ué! Cada um de nós vai para um lugar, sim, e só vamos nos reencontrar amanhã.
ELA: Ah, é? E para onde a gente vai agora, eu de camisola e você de cueca? Separados!
ELE: A gente vai para o mundo dos sonhos.
ELA: Ah, mundo dos sonhos! Só o que faltava. De qualquer forma, meu bem, a gente vai para o mesmíssimo lugar.
ELE: Não vai, não, porque mundo dos sonhos cada um tem o seuzinho. Eu vou para o meu mundo dos sonhos e você vai para o seu mundo dos sonhos.
ELA: Eu não tenho mundo dos sonhos.
PASSAGEM DE TEMPO: carros cruzam avenidas em alta velocidade, deixando um rastro vermelho no ar. O céu vai do marinho ao bebê em segundos. Grilos cantam. E enfim cigarras.
ELE: Bom dia…
ELA: Eu não tenho mundo dos sonhos!
ELE: Caramba! Ainda isso? Vocêzinha não sonhou?
ELA: Sonhei que encontrei minha mãe, e ela pediu companhia para ir à feira. A gente comprou bananas, brócolis e couve-flor. Aí acordei. E você?
ELE: Sonhei que estava em um castelo em Praga, fugindo de um sequestrador de mãos gigantes. Me escondi na sala de jantar do castelo, que tinha tapetes de onças vivas. Então as paredes ao meu redor ficaram transparentes e o gigante me viu. Entrei em um corredor, que era na verdade um labirinto mágico, cheio de plantas carnívoras. Dei um salto e descobri que sabia voar, o céu estava furta-cor e…
