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Apenas uma frase

Abri o meu melhor sorriso enquanto meu coração pedia: “Por favor, seja legal comigo e poderemos namorar.”

by rosanacaiado em 25 de junho de 2012 | 23:17

Era uma quinta-feira quando ouvi o toque da buzina – duas curtas, como tínhamos combinado. Fechei a porta por trás de mim e corri até o carro. Quando fiz que ia entrar pelo lado do carona, um senhor olhou para mim como quem diz “acho que você se enganou”. Pedi desculpas e disse: “Acho que me enganei.” Nessa época, eu ainda não conhecia o carro dele, que chegaria três minutos depois e buzinaria uma vez só. Fechei a porta por trás de mim, para então correr e sentar no banco do carona no meio de uma risada, contando muito rápido o que tinha acabado de acontecer. Ainda estávamos naquela fase em que não se tem certeza de como cumprimentar o outro e ele beijou minha mão, o que considerei uma boa saída. Perguntei para onde iríamos mas ele preferiu fazer surpresa.

Era o nosso segundo encontro e a minha primeira vez no restaurante. Ele pediu carneiro, algo que eu nunca tinha comido, e fiquei um tanto boba, perdendo tantas virgindades ao mesmo tempo. Trocamos frases que terminavam em goles de chope e começamos histórias que eram precocemente cortadas por outras até que o garçom me serviu os melhores pedaços de carneiro e três colheres caprichadas de arroz de brócolis – o único velho conhecido da noite e em quem julgava poder confiar.

Em geral, demoro a me acostumar a novos sabores, mas com o carneiro foi diferente.

Lambi os beiços já na primeira garfada. O arroz de brócolis era como um cicerone do prato e fez com que o carneiro se enturmasse com facilidade no hall das minhas comidas preferidas. Comemos avidamente, bebemos quatro chopes cada e, antes do quinto, ele me deu um beijo do qual estava começando a aprender a gostar. Foi quando olhamos um dentro do olho do outro e abri o meu melhor sorriso, enquanto meu coração pedia: “Por favor, seja legal comigo e poderemos namorar.” Ele aproximou os lábios da minha orelha e disse baixinho uma frase que nunca mais iria esquecer:

- Não me leve a mal, mas os seus dentes estão cheios de brócolis.

Fechei o sorriso e coloquei a mão na boca e levantei depressa e derrubei o quinto chope, que o garçom tinha acabado de trazer. E perguntei, como um ventríloquo, onde era o banheiro. Chegando lá, me olhei no espelho, me mostrei os dentes e, para a minha surpresa, não havia um único pedaço de brócolis em toda a arcada dentária, que estava absolutamente limpa.

Em cinema, essa seria uma bela cena de apresentação dos personagens.

Dois meses depois, ele terminou o nosso mininamoro, alegando que éramos muito diferentes um do outro, no que ele estava coberto de razão. E até hoje penso que o melhor do período em que estivemos juntos é poder contar essa história sempre que como arroz de brócolis e terminar dizendo que, às vezes, uma pessoa é lembrada por apenas uma frase.

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Últimos comentários (4)

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  1. dea20 fez um comentário:

    26 de junho de 2012 | 12:50 #

    Ameii…..

  2. lindinhamao fez um comentário:

    26 de junho de 2012 | 20:51 #

    Sim, e você descobriu o porquê de ele ter mentido sobre o brócolis???

  3. Lorrain.y fez um comentário:

    28 de junho de 2012 | 8:33 #

    Eu já li esse texto antes…

  4. rcaiado fez um comentário:

    15 de setembro de 2012 | 12:21 #

    Calíope, ele falou que meus dentes estavam cheios de brócolis porque é grandessíssimo gozador.

    Andrea, obrigada.

    Lorrainy, que bom que você acompanha os meus textos.

    Beijos para as três.

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perfil

Rosana Caiado Ferreira nasceu no Rio de Janeiro em 1977. Formada em Comunicação Social, é escritora e roteirista. Participou do livro "Como se não houvesse amanhã" (Editora Record) com um conto escrito a partir da música “Eduardo e Mônica”. Mantém o blog Complete a frase. Para entrar em contato, escreva um email para rosanacaiado@gmail.com