Era uma quinta-feira quando ouvi o toque da buzina – duas curtas, como tínhamos combinado. Fechei a porta por trás de mim e corri até o carro. Quando fiz que ia entrar pelo lado do carona, um senhor olhou para mim como quem diz “acho que você se enganou”. Pedi desculpas e disse: “Acho que me enganei.” Nessa época, eu ainda não conhecia o carro dele, que chegaria três minutos depois e buzinaria uma vez só. Fechei a porta por trás de mim, para então correr e sentar no banco do carona no meio de uma risada, contando muito rápido o que tinha acabado de acontecer. Ainda estávamos naquela fase em que não se tem certeza de como cumprimentar o outro e ele beijou minha mão, o que considerei uma boa saída. Perguntei para onde iríamos mas ele preferiu fazer surpresa.
Era o nosso segundo encontro e a minha primeira vez no restaurante. Ele pediu carneiro, algo que eu nunca tinha comido, e fiquei um tanto boba, perdendo tantas virgindades ao mesmo tempo. Trocamos frases que terminavam em goles de chope e começamos histórias que eram precocemente cortadas por outras até que o garçom me serviu os melhores pedaços de carneiro e três colheres caprichadas de arroz de brócolis – o único velho conhecido da noite e em quem julgava poder confiar.
Em geral, demoro a me acostumar a novos sabores, mas com o carneiro foi diferente.
Lambi os beiços já na primeira garfada. O arroz de brócolis era como um cicerone do prato e fez com que o carneiro se enturmasse com facilidade no hall das minhas comidas preferidas. Comemos avidamente, bebemos quatro chopes cada e, antes do quinto, ele me deu um beijo do qual estava começando a aprender a gostar. Foi quando olhamos um dentro do olho do outro e abri o meu melhor sorriso, enquanto meu coração pedia: “Por favor, seja legal comigo e poderemos namorar.” Ele aproximou os lábios da minha orelha e disse baixinho uma frase que nunca mais iria esquecer:
- Não me leve a mal, mas os seus dentes estão cheios de brócolis.
Fechei o sorriso e coloquei a mão na boca e levantei depressa e derrubei o quinto chope, que o garçom tinha acabado de trazer. E perguntei, como um ventríloquo, onde era o banheiro. Chegando lá, me olhei no espelho, me mostrei os dentes e, para a minha surpresa, não havia um único pedaço de brócolis em toda a arcada dentária, que estava absolutamente limpa.
Em cinema, essa seria uma bela cena de apresentação dos personagens.
Dois meses depois, ele terminou o nosso mininamoro, alegando que éramos muito diferentes um do outro, no que ele estava coberto de razão. E até hoje penso que o melhor do período em que estivemos juntos é poder contar essa história sempre que como arroz de brócolis e terminar dizendo que, às vezes, uma pessoa é lembrada por apenas uma frase.
dea20 fez um comentário:
26 de junho de 2012 | 12:50 #
Ameii…..
lindinhamao fez um comentário:
26 de junho de 2012 | 20:51 #
Sim, e você descobriu o porquê de ele ter mentido sobre o brócolis???
Lorrain.y fez um comentário:
28 de junho de 2012 | 8:33 #
Eu já li esse texto antes…
rcaiado fez um comentário:
15 de setembro de 2012 | 12:21 #
Calíope, ele falou que meus dentes estavam cheios de brócolis porque é grandessíssimo gozador.
Andrea, obrigada.
Lorrainy, que bom que você acompanha os meus textos.
Beijos para as três.