Ontem chorei no metrô. Acho que não comentei, mas depois da noite com os alienígenas, o chip e a dor às três e meia da manhã , perdi a unha do pé, ou seja, a unha do pé caiu, caiu inteira, a unha do meu pé caiu, fiquei sem a unha do dedão do pé e essa perda me deixou muito triste.
Sem unha, o dedo ficou careca porque a unha é o cabelo do dedo, ainda mais do meu dedo, que usava perucas vermelhas, rosas ou liláses. O dedo ficou pelado, o meu sapato preferido virou o fechado. E, na hora de botar sandália, peguei um band-aid. Colei o band-aid e disse: “Essa é a melhor unha que posso ter no momento: um band-aid.” Você riu, e foi um riso de amor, um riso que só eu sei.
Dentro do possível, estava tudo caminhando bem. Até que ontem no metrô lotado, em menos de 20 minutos, duas pessoas pisaram exatamente no meu dedo. Uma delas estava de salto. A outra pesava mais de 100 quilos. Eu gemi e elas pediram desculpas. Então comecei a chorar. Elas pediram desculpas outra vez como se eu estivesse exagerando e eu disse que estava sem unha. “É que estou sem a unha do dedão”, eu disse. Elas fizeram uma expressão de pena, como se entendessem as lágrimas que já molhavam a gola do vestido. Não era um choro só pela unha. Era um choro por tudo o mais.
Uma vez, eu estava distraída, bati o rosto, bati o nariz contra uma porta de vidro. Doeu, claro que doeu. Sentei e chorei pela semana inteira, pelo ano todo, por tudo o que estava passando. No metrô, também foi assim.
A unha caiu e nunca haverá outra unha igual àquela. Demorará um pouco, tempo que parecerá longo, mas então outra unha virá, forte e nova – ainda que não apague a memória da primeira, que me acompanhou desde o nascimento, que esteve junto comigo em tantas topadas e pisões, tantos chinelos e sapatos de bico fino, tantos carnavais, tantas poças em dias de chuva. São memórias entre mim e a minha unha, a minha unha que caiu e não vai mais voltar.
Tenho uma teoria idiota que diz que a pessoa demora o tempo que passou com outra para esquecê-la. Por exemplo, se passei três anos com Fulano, demoro outros três para superá-lo. Se comecei com Siclano em março e com ele fiquei até maio, em agosto estarei nova em folha. No caso de uma unha que me acompanha desde o nascimento, dói pensar que só vou me conformar com essa perda quando cantar o sexagésimo oitavo parabéns.
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Coloquei uma unha postiça. Ficou ótimo e significou muito para mim. Às vezes, quase sempre, pequenas coisas significam muito.
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