» 2012 » maioRosana Caiado

A camisola transparente

Sempre fui uma grande doadora de roupas, mas de algumas peças não consigo abrir mão.

by rosanacaiado em 28 de maio de 2012 | 23:45

Eu já tinha saído da casa dos meus pais, e beirava os 30, quando chegou o Natal. Neste, pela primeira vez, meu pai e minha mãe resolveram me dar um presente cada um, o que – não apenas por isso – ficou cravado na minha memória. Primeiro abri a caixa da minha mãe, de onde tirei uma camisola branca de alças finas, totalmente transparente, com um pequeno bordado na altura do peito que não cobria nada e sim mostrava quem minha mãe achava que eu era (ou quem ela queria que eu fosse). Na sequência, abri a caixa de presente do meu pai, que também revelava como ele me via: um pijama cor de rosa, composto por bermuda até o joelho e camiseta folgada, com um enorme coração bordado. Dentro do coração, as palavras: “sweet love”. + Leia mais

80 anos

Mãe, estou muito feliz por você ter chegado aos 80 anos tão bem: com saúde, lucidez e esse corpinho.

by rosanacaiado em 21 de maio de 2012 | 22:50

Quando meu pai completou 80 anos, escrevi um pequeno texto em homenagem a ele em um pedaço de papel que, sem contar para ninguém, levei dentro da bolsa para a sua festa de aniversário. Lá chegando, não li. Por motivos que não sei explicar, não li. Oito anos depois, minha mãe me pediu que falasse algumas palavras no almoço em comemoração ao seu aniversário. Escrevi um pequeno texto em um pedaço de papel, coloquei no bolsa e, dessa vez, consegui ler. Foi mais ou menos assim:

“Se houvesse uma eleição para prefeito da Tijuca e essa eleição fosse amanhã, com certeza, sem precisar fazer campanha, a vencedora com larga vantagem seria Edith Caiado Ferreira – a minha mãe. Quem anda pelas ruas do bairro ao lado dela sabe como é: um cumprimento a cada 10 passos, um aceno de cabeça por minuto. Uma vez, estávamos no mercado, quando uma moça se aproximou, deus dois beijinhos nela e falou algumas palavras – estava até um pouco emocionada. Quando a tal moça virou de costas, perguntei: “Mãe, quem é?” E ela respondeu: “Se eu falar que não conheço, você acredita?” Na hora a gente deu uma gargalhada mas, pensando bem, eu sei quem a moça era: uma eleitora, uma fã, uma admiradora da minha mãe, como eu. Como nós. + Leia mais

Na mesa ao lado

Ela só usa calcinha de renda, não tem dor de cabeça, não atrasa, não cobra, não é chata nunca, não pede para colocar o lixo pra fora, não pede para ir embora.

by rosanacaiado em 14 de maio de 2012 | 16:20

Na mesa ao lado, o rapaz vê o futuro dentro dos olhos da menina. Puxa as pontas dos seus cachos, entrelaça seus dedos nos dela, respira fundo em seu cangote, que é para decorar o perfume. Derruba a tulipa na mesa e pede desculpas. A menina gosta. Entende o nervosismo do rapaz, já que seu coração está também em descompasso só por bater diante dele. A menina acredita que dessa vez é para valer. Ri da piada sem graça. Vê charme na sobrancelha desalinhada e no quebrado do dente.

Com os primeiros beijos, a competição é dura. A língua macia da menina escorrega entre os lábios grossos do rapaz pela primeira vez – gosto de hortelã e arrepios. + Leia mais

Pequenas coisas

Uma pessoa demora o tempo que passou com outra para esquecê-la. Se passei três anos com Fulano, demoro outros três para superá-lo.

by rosanacaiado em 7 de maio de 2012 | 17:13

Ontem chorei no metrô. Acho que não comentei, mas depois da noite com os alienígenas, o chip e a dor às três e meia da manhã , perdi a unha do pé, ou seja, a unha do pé caiu, caiu inteira, a unha do meu pé caiu,  fiquei sem a unha do dedão do pé e essa perda me deixou muito triste.

Sem unha, o dedo ficou careca porque a unha é o cabelo do dedo, ainda mais do meu dedo, que usava perucas vermelhas, rosas ou liláses. O dedo ficou pelado, o meu sapato preferido virou o fechado. E, na hora de botar sandália, peguei um band-aid. Colei o band-aid e disse: “Essa é a melhor unha que posso ter no momento: um band-aid.” Você riu, e foi um riso de amor, um riso que só eu sei.

Dentro do possível, estava tudo caminhando bem. Até que ontem no metrô lotado, em menos de 20 minutos, duas pessoas pisaram exatamente no meu dedo. Uma delas estava de salto. A outra pesava mais de 100 quilos. Eu gemi e elas pediram desculpas. Então comecei a chorar. Elas pediram desculpas outra vez como se eu estivesse exagerando e eu disse que estava sem unha. “É que estou sem a unha do dedão”, eu disse. Elas fizeram uma expressão de pena, como se entendessem as lágrimas que já molhavam a gola do vestido. Não era um choro só pela unha. Era um choro por tudo o mais.

Uma vez, eu estava distraída, bati o rosto, bati o nariz contra uma porta de vidro. Doeu, claro que doeu. Sentei e chorei pela semana inteira, pelo ano todo, por tudo o que estava passando. No metrô, também foi assim.

A unha caiu e nunca haverá outra unha igual àquela. Demorará um pouco, tempo que parecerá longo, mas então outra unha virá, forte e nova – ainda que não apague a memória da primeira, que me acompanhou desde o nascimento, que esteve junto comigo em tantas topadas e pisões, tantos chinelos e sapatos de bico fino, tantos carnavais, tantas poças em dias de chuva. São memórias entre mim e a minha unha, a minha unha que caiu e não vai mais voltar.

Tenho uma teoria idiota que diz que a pessoa demora o tempo que passou com outra para esquecê-la. Por exemplo, se passei três anos com Fulano, demoro outros três para superá-lo. Se comecei com Siclano em março e com ele fiquei até maio, em agosto estarei nova em folha. No caso de uma unha que me acompanha desde o nascimento, dói pensar que só vou me conformar com essa perda quando cantar o sexagésimo oitavo parabéns.

***

Coloquei uma unha postiça. Ficou ótimo e significou muito para mim. Às vezes, quase sempre, pequenas coisas significam muito.

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Janelas para a literatura

Um curso para quem acredita que o blog é uma janela para a literatura.

by rosanacaiado em 4 de maio de 2012 | 12:00

janelasComeça no dia 8 de maio no Centro Cultural da Justiça Federal (RJ) o curso Janelas para a Literatura – explorando a linguagem dos blogs. O curso terá aulas de Amanda Orlando, Denise Schettine, Fal Azevedo, Isabel A. W. de Nonno,   Leornardo Villa-Forte,  Luciana Bastos Figueiredo, Vivian Wyler e esta que vos digita.

Ainda dá tempo de se inscrever. Vai .

Inscrições também pelo telefone  2225-7186.

O curso é um projeto da Plumagenz.

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perfil

Rosana Caiado Ferreira nasceu no Rio de Janeiro em 1977. Formada em Comunicação Social, é escritora e roteirista. Participou do livro "Como se não houvesse amanhã" (Editora Record) com um conto escrito a partir da música “Eduardo e Mônica”. Mantém o blog Complete a frase. Para entrar em contato, escreva um email para rosanacaiado@gmail.com