Fiquei desconsertada. E uma longa sequência de perguntas endereçadas a mim, acuada no canto da mesa, tantas e sobre tantos temas, quando meu pensamento era um só. Taquicardia. Tremedeira.
- É o frio.
Depois passou.
Eu não me importo, juro que não me importo. Faça o que quiser, quando, onde, como, com quem preferir. Eu não me importo. A vida é boa e não oscila de acordo com a sua. Depois daquele dia, veio outro como tantos que vivi sem você. Passei pela fila da vacina segurando o tríceps, gemendo ai, fazendo medo nas pessoas, sendo que nem tinha sentido a agulha. Depois ri de boba, almocei meia garrafa e lanchei pipoca doce. Pedi um café, mas só tinha cerveja. Estava gelada de doer os dentes, como a noite, como eu e o vento. E tinha esse rapaz na mesa ao lado de olho no meu cruzar de pernas, cruzando meu olhar, olhando para mim. Pedi mais uma cerveja e gastei três segundos – ou teria sido meia hora? – torcendo pra você passar na calçada. E me ver.
E daí que a noite está fria e a cama, vazia? Tomo uma novela de banho escaldante até embaçar os vidros de perfume. Com a ponta do dedo indicador, escrevo o meu nome bem grande no espelho. Embaixo, uma flor. Visto o pijama que minha mãe trouxe de Teresópolis, esquento os lençóis com secador de cabelo, acendo a vela amarela de citronela, ligo um DVD de amor e não sinto falta de nada. Nada. Talvez chore na cena da despedida. Mas ninguém vai saber.
Se alguém perguntar por mim, diz que não sabe de mim, que sumi, que me arrependi, que endoidei. Aprendi a viver sem você. Decorei lições, pratiquei e agora tiro de letra. Sei estacionar de ré, tenho carteira assinada, troco pneu, abro vidro de palmito, peguei intimidade com o saca-rolha, conserto computador, carrego peso, arrasto móvel, bato martelo e tenho maleta de ferramentas própria. Sou auto-suficiente, me auto-estimo, me autofaço cafuné e me autoponho para dormir. Complica quando sonho.
