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Diz que não sabe de mim

Pedi mais uma cerveja e gastei três segundos – ou teria sido meia hora? – torcendo pra você passar na calçada.

by rosanacaiado em 30 de abril de 2012 | 22:12

Fiquei desconsertada. E uma longa sequência de perguntas endereçadas a mim, acuada no canto da mesa, tantas e sobre tantos temas, quando meu pensamento era um só. Taquicardia. Tremedeira.

- É o frio.

Depois passou.

Eu não me importo, juro que não me importo. Faça o que quiser, quando, onde, como, com quem preferir. Eu não me importo. A vida é boa e não oscila de acordo com a sua. Depois daquele dia, veio outro como tantos que vivi sem você. Passei pela fila da vacina segurando o tríceps, gemendo ai, fazendo medo nas pessoas, sendo que nem tinha sentido a agulha. Depois ri de boba, almocei meia garrafa e lanchei pipoca doce. Pedi um café, mas só tinha cerveja. Estava gelada de doer os dentes, como a noite, como eu e o vento. E tinha esse rapaz na mesa ao lado de olho no meu cruzar de pernas, cruzando meu olhar, olhando para mim. Pedi mais uma cerveja e gastei três segundos – ou teria sido meia hora? – torcendo pra você passar na calçada. E me ver.

E daí que a noite está fria e a cama, vazia? Tomo uma novela de banho escaldante até embaçar os vidros de perfume. Com a ponta do dedo indicador, escrevo o meu nome bem grande no espelho. Embaixo, uma flor. Visto o pijama que minha mãe trouxe de Teresópolis, esquento os lençóis com secador de cabelo, acendo a vela amarela de citronela, ligo um DVD de amor e não sinto falta de nada. Nada. Talvez chore na cena da despedida. Mas ninguém vai saber.

Se alguém perguntar por mim, diz que não sabe de mim, que sumi, que me arrependi, que endoidei. Aprendi a viver sem você. Decorei lições, pratiquei e agora tiro de letra. Sei estacionar de ré, tenho carteira assinada, troco pneu, abro vidro de palmito, peguei intimidade com o saca-rolha, conserto computador, carrego peso, arrasto móvel, bato martelo e tenho maleta de ferramentas própria. Sou auto-suficiente, me auto-estimo, me autofaço cafuné e me autoponho para dormir. Complica quando sonho.

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Meus 15 minutos como ladra de banco

Àquela altura, arrombar a nossa própria porta tinha virado uma questão de honra.

by rosanacaiado em 16 de abril de 2012 | 22:18

Passava de dez da noite, quando meu marido bateu a porta de casa e nos demos conta de que estávamos sem chave, portanto, presos do lado de fora – às vezes, a sensação de estar preso vem ao ar livre. A partir daí começou a discussão sobre de quem era culpa, ainda que o caso fosse um  exemplo clássico de “deixa que eu deixo”.

Depois de tentar ligar para três chaveiros diferentes e de passar mais de 10 minutos olhando para o nada, a única solução possível, se não quiséssemos passar a noite no sofá da portaria, seria arrombar a nossa própria porta. Foi nesse momento que a situação deixou de ser um drama para virar uma aventura.

Pedimos ao porteiro uma chave de fenda emprestada e ele nos ofereceu também um alicate de ponta fina que, mesmo sem imaginar sua serventia, aceitamos. No elevador, tirei dos cabelos um par de grampos que saquei como armas no corredor escuro, mas logo comprovei que as chances de abrir a porta com eles eram próximas de zero. Recorremos então à chave de fenda para tirar o espelho da fechadura, quando pudemos então avistar uma luz no fim do túnel ou a ponta da maçaneta – um cotoco, que, se virado, abriria a porta. Adrenalina.

O alicate estava sendo útil, mas a ponta fina dificultava, e muito, o processo. Nessa hora tivemos uma mãozinha do acaso: nossa vizinha argentina saiu para levar o lixo. Ela estava com cheiro de amaciante e nos ofereceu ajuda, buscando em seu apartamento um alicate com ponta mais apropriada. Estávamos indo bem: além de um pouco de sorte, ter a ferramenta certa muda tudo.

Em seguida, a vizinha se ofereceu para telefonar para outro chaveiro mas, àquela altura, arrombar a nossa própria porta tinha virado uma questão de honra, um jogo que queríamos ganhar, um frisson, meus 15 minutos como ladra de banco. Ou assistente de ladrão de banco.

- Posso tentar? – perguntei.

Meu marido, suado de tanto forçar a porta, não levou fé. Mas deixou, para poder descansar um pouco.

- Talvez seja uma questão de jeito – eu disse.

Na maioria das vezes,  não é na força que se consegue as coisas, mas no jeito. Examinei o cotoco, visualizei o movimento que precisaria ser feito, usei a ferramenta na vertical em vez de na horizontal como meu marido vinha fazendo e, na primeira tentativa, houve um barulho, depois gelo seco e chuva de papel picado: a porta abriu, e comemoramos como se fosse final de Copa do Mundo ou como se tivéssemos aberto o cofre de um banco de milhões de dólares.

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Para os meus padrões

Quando como uma fruta de sobremesa, me sinto muito adulta. Quando me chamam de senhora, não gosto.

by rosanacaiado em 9 de abril de 2012 | 23:38

Fui ao cinema com uma amiga. Filme: Um método perigoso. No estacionamento, depois que fechei o carro e enquanto guardava a chave na bolsa, ela disse que estou adulta. “Você está tão adulta”, ela disse. Achei que era a bolsa, o relógio, o carro, a chave do carro, o vestido, ou o sapato, até que ela disse que eu tinha amadurecido. “Você amadureceu muito”, ela disse.

A primeira vez que me senti adulta foi em Copacabana. A maré estava baixa e a gente andou um bom tempo até que a água chegasse aos joelhos. Eu e minha madrinha. Ela me ensinou a furar onda e eu pensei que tinha ficado adulta. “Pronto, fiquei adulta”, pensei.  Quando como uma fruta de sobremesa, me sinto muito adulta. Quando a casa está pronta para festa, me sinto adulta. Quando me chamam de senhora, não gosto. Sem maquiagem, vejo que os anos passaram pelo meu rosto.

Em Um método perigoso, Jung vem seguindo os passos de Freud e começa a fazer psicanálise – que Freud então chama de psicoanálise. Freud acha que encontrou um discípulo que vai continuar trilhando o caminho traçado por ele, mas Jung passa a falar de uma força maior, talvez mística, que não poderia ser ignorada. Além disso, Jung se envolve com uma paciente.  Minha amiga é psicóloga e freudiana. No meio do filme, nao aguentei e perguntei para ela se aquilo tudo era verdade. “Isso é verdade?”, perguntei. Eu não sabia e, agora que sei, me sinto adulta.

No dicionário, um dos sinônimos de amadurecer é aperfeiçoar-se. Mas talvez amadurecer seja saber que perfeição não existe – e não ficar emburrado por isso. O mundo dos adultos tem contas a pagar e sapos a engolir, além de boa comida. Uma das maiores vantagens de ser adulto é poder falar abertamente com os pais sobre qualquer assunto enquanto mata duas garrafas de vinho. Eu acho que maturidade e adulto são a mesma coisa, apesar de haver provas vivas de que não é bem assim.

A maturidade deve ser cinza. Cinza e branca. Não que seja monótona, mas serena. Eu gosto de ser madura, mas não gosto de ser séria, que é uma coisa que muita gente fala, ainda mais quando estou de cinza. “Você é séria”, muita gente diz. E, quando muita gente fala a mesma coisa, tendo a acreditar. “Não acredito em coincidências”, Jung disse.

No trabalho, um amigo vira-se para mim e diz que estou muito sóbria. “Você está tão sóbria”, ele disse e eu não estava de cinza, mas de jaqueta de bolinha, blusa listrada, sapato de onça, unhas vermelhas e quatro anéis. “Para os seus padrões”, ele disse.

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Um pequeno ser humano

Eu queria ter um bebê para vesti-la como uma princesa, se for menina, e tentar entender o sexo oposto, se for menino.

by rosanacaiado em 2 de abril de 2012 | 22:58

Às vezes, penso em ter um filho porque gostaria de gerar um ser humano dentro do meu corpo a partir das minhas próprias células e do meu sangue e de um óvulo que estava dentro do meu útero e foi encontrado pelo espermatozoide de um homem que é meu, que me ama como eu o amo e com quem minha vida é mais feliz. Eu queria gerar um ser humano dentro de mim, um pequeno ser humano, com dez dedos, dois olhos, duas orelhas, dois pulmões e um pâncreas, e depois iria me sentir uma pessoa incrível por ter conseguido fazer isso.

Eu quero um dia ficar grávida, e quero que a minha barriga seja pontuda. Quero que o meu peito fique bem grande, e quero usar calça jeans com cintura de elástico. Iria fazer ultrassonografia, saber o sexo antes, ouvir o coração dele bater, sentir os movimentos do bebê dentro da minha barriga, e dormir de lado, que é como já faço.

Compraria livros que falassem sobre gravidez e os primeiros meses. Comeria biscoito com feijão às duas da manhã e seria um clichê. Teria desculpa para dormir cedo, e tudo bem ter dor nas costas, e vomitar no início. Tudo bem parar de beber, tudo bem não comer sushi – não pode mesmo? Eu queria ter um bebê para vesti-la como uma princesa, se for menina, e tentar entender o sexo oposto, se for menino.

Seria bom ter um filho para cuidar de mim quando eu ficar velha, dizer que minha roupa está ridícula, que está na hora de pintar a raiz, e que essa gíria não se usa mais.

Talvez eu queira ter um filho pelos motivos mais loucos, como transformar o escritório em quarto de bebê.  Toda noite, antes de dormir, tenho pensado que quero ter um filho para amadurecer, redimensionar os problemas e formar a minha própria família. Eu quero ter um filho?

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perfil

Rosana Caiado Ferreira nasceu no Rio de Janeiro em 1977. Formada em Comunicação Social, é escritora e roteirista. Participou do livro "Como se não houvesse amanhã" (Editora Record) com um conto escrito a partir da música “Eduardo e Mônica”. Mantém o blog Complete a frase. Para entrar em contato, escreva um email para rosanacaiado@gmail.com