» 2012 » marçoRosana Caiado

Senão morrerei

Vamos nos ver hoje à noite? Faço uma depilação para você.

by rosanacaiado em 26 de março de 2012 | 21:08

O que eu quero

Quero ficar com você hoje à noite (senão morrerei).

O que eu deveria fazer

Esperar os minutos, depois as horas, talvez dias, seguindo as regras do Jogo do Amor.

O que eu sinto

Ansiedade e uma pontada na costela, do lado esquerdo.

O que eu queria dizer

Vamos nos ver hoje à noite? Faço um macarrão para você.

Ou

Vamos nos ver hoje à noite? Faço uma depilação para você.

Ou

Vamos nos ver hoje à noite? A noite inteira, inteirinha?

Rascunho um e-mail que começa assim: “Por aqui, tudo bem, fora essa pontada nas minhas costelas, acho que entre a segunda e a terceira costela, de baixo para cima, no lado esquerdo, bem aqui. Não sei exatamente o que é, mas desconfio que seja saudade.”

“Quando te encontrar, quero te abraçar por uma semana até o meu corpo perder as fronteiras no seu.”

“Quando você começa uma frase com ‘eu adoro’, torço para que a palavra seguinte seja ‘você’. Mas é ‘o inverno’ ou ‘batata doce’ ou ‘a cor do céu às 6 da manhã’.

Salvo como rascunho. Pego o telefone. Abro a geladeira. Pego o telefone. Suspiro. Pego o telefone. Tremo.

O que eu digo

Quais são seus planos para hoje à noite?

E depois

Ah, tudo bem.

Desligo.

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Adeus, manteiga

Se eu não fosse ansiosa, seria esquelética.

by rosanacaiado em 19 de março de 2012 | 19:40

Quando saia longa entrou na moda, pensei: “vou pedir para a minha mãe fazer uma para mim”. No dia seguinte, não deu tempo.

- Rosana, minha filha, saia longa está na moda e vou fazer uma para você.

Achei mágico.

No fim de semana, fomos juntas à loja de tecidos onde compramos, além de aviamentos, três alturas de um pano xadrez. Poucos dias depois, a saia estava pronta, a saia mais linda de todas as saias – e era minha. Tive que me controlar para não usá-la todos os dias, e todo dia que a usava me sentia uma princesa. Até que minha mãe, sem querer dizer, disse:

- Eu não queria dizer, mas essa saia te engorda.

Corta para: adeus, manteiga. Queijo amarelo. Ovo mexido. Pipoca. Ai, que saudade.

As pessoas gostam de falar do meu peso, embora eu nunca fale do peso dos outros. Não comento se a pessoa ganhou alguns quilos – ao menos, não na frente dela. Jamais perguntei se uma mulher estava grávida, quando não estava. Prefiro elogios e, se não tenho nada agradável para dizer, opto pela mudez. Pena que nem todos sigam o exemplo – principalmente, a minha mãe.

Um dia cheguei aos 62 quilos. Na época, eu malhava todos os dias e músculo pesa. O mínimo que já pesei na balança foi 52 kg e eu parecia doente, o que de fato estava, como o meu corpo fazia questão de mostrar. Hoje peso 58 quilos – sem sapato, sem roupa, sem brinco, sem jantar, e quando o meu cabelo está curto. Eu deveria estar contente, mas a minha mãe disse que fico gorda com a minha saia preferida, a de princesa. Quando passo a mão no meu tronco, sinto as costelas. Se eu não fosse ansiosa, seria esquelética.

Corta para: restaurante macrobiótico. Se eu contar para as minhas amigas, nenhuma acredita. Mas gostei e o risoto de salmão é uma delicinha. Salada verde orgânica com morango e kiwi. Suco de abacaxi. Tchau, Coca-cola. Ser magra requer comprometimento. Entrei na academia.

Tenho 1,72m e peso 58kg, logo sou magra. Tenho Tenho 1,72m e peso 58kg, logo sou magra. Tenho 1,72m e peso 58kg, logo sou magra. Queria que fosse mágica.

Passei a saia de princesa adiante. Se quiser me dar um abraço, pode.

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Eu só queria ler o jornal

Não é sempre, mas às vezes estou errada. Não é sempre, mas admito.

by rosanacaiado em 12 de março de 2012 | 23:33

Acordo e é feriado. Está sol. Abro a porta de casa e o jornal não está sobre o capacho. Passo a mão no telefone, disco com força para a central de atendimento e mando um “escuta aqui”.

- Escuta aqui, são dez da manhã e o meu jornal ainda não chegou.

- Dona Rosana, a assinatura da senhora é de fim de semana.

- Exatamente! – respondo.

- Mas, dona Rosana, hoje é quarta-feira.

Não é sempre, mas às vezes estou errada. Não é sempre, mas admito. O mundo não para de rodar e hoje é quarta-feira. O mundo anda depressa, mais depressa que eu. O mundo é um carrossel mas não tenho cavalo. Quero a minha vida, quero saber diferenciar o mundo da vida, e dar a cada um a atenção devida.

Não sou obrigada a sair de casa, a beber com os amigos, a ir à praia, ao cinema, não sou obrigada a comer pizza, pipoca, a passear na Lagoa e a andar de bicicleta porque hoje é feriado. Eu só queria ler o jornal, mas a minha assinatura é de fim de semana. Não sou obrigada a ser feliz  porque hoje é feriado. Talvez eu tenha ficado velha antes do tempo, antes da vida, antes do mundo, antes do meu desejo. Eu só queria ficar em casa sem fazer nada – o que, por algum motivo, parece criminoso. Culpa, sinto culpa.  Eu só queria dançar uma música lenta. Eu só queria ler o jornal, mas hoje é quarta-feira e o mundo roda depressa demais, mais depressa que eu.

Talvez eu não seja feliz. E o que há de errado com isso? Muita gente não é feliz. Por que eu, justo eu, seria feliz?

Quando o tempo demora a passar: de meio dia a meio dia e meia. Quando passa rápido: de sete às oito (manhã). Quando para: quando estou na fila – mas já foi diferente. Quando voa: de sexta a domingo. O tempo, o mundo, a vida e os meus desejos lutam cada qual por seu espaço e eu aqui sem saber quando e aonde ir. O mundo que me desculpe, mas a vida é fundamental. O tempo não é para iniciantes. E o meu desejo?

- Eu só queria ler o jornal.

- Mas dona Rosana…

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Eu não vou mais

Vou passar o fio dental todos os dias e arrumar o armário amanhã.

by rosanacaiado em 5 de março de 2012 | 23:54

Eu não vou mais dormir no meio do filme, não vou mais contar os segredos dos outros,  não vou mais fingir que estou dormindo no metrô, não vou mais misturar vodca com espumante com saquê com vinho e não vou mais deixar a coluna para a última hora.

“Não vou mais atrasar as contas. Não vou mais chamar todos os elevadores ao mesmo tempo. Não vou mais matar a academia. E vou seguir a dieta. De perto.

Vou visitar minha avó uma vez por mês e marcar todos aqueles médicos. Vou levar para a cozinha o copo vazio antes de levar outro cheio para o quarto. E chega de refrigerantes – pelo menos durante a semana.

Não vou mais futucar minha pele. Não vou fumar. Só quando beber. Aliás, não vou mais beber. Vou passar o fio dental todos os dias e arrumar o armário amanhã.

Vou ser menos mordaz com gostos diferentes dos meus, não vou sentir ciúmes bobos, não vou me aborrecer no trânsito e não vou, em hipótese alguma, colar no carro da frente. Não vou sacanear o meu tio quando o Vasco for vice de novo, não vou chorar na próxima vez que você me der um cartão, não vou  dormir depois das 2h” e não vou mais pedir para o meu marido escrever a coluna.

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perfil

Rosana Caiado Ferreira nasceu no Rio de Janeiro em 1977. Formada em Comunicação Social, é escritora e roteirista. Participou do livro "Como se não houvesse amanhã" (Editora Record) com um conto escrito a partir da música “Eduardo e Mônica”. Mantém o blog Complete a frase. Para entrar em contato, escreva um email para rosanacaiado@gmail.com