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Feliz 2012

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by rosanacaiado em 27 de dezembro de 2011 | 9:34

A coluna entra em recesso e volta a ser publicada no ano que vem. Divirtam-se!

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Rosana Caiado

Nos 11 anos de colégio nunca houve na turma alguém com o mesmo nome que eu.

by rosanacaiado em 19 de dezembro de 2011 | 18:00

Era o primeiro dia de aula na faculdade. Eu estava prestando atenção na chamada, tentando unir nomes a rostos como em um jogo da memória. Quando o professor disse “Rosana”, respondi “presente”, e o jogo teria continuado não tivesse outra aluna respondido na mesma hora que eu. Ela estava sentada na carteira ao lado e decorei seu rosto para sempre.

Nos 11 anos de colégio nunca houve na turma alguém com o mesmo nome que eu. Eram muitas Carolinas, Fernandas e Isabelas, mas Rosana sempre foi uma só. Agora que havia outra Rosana, eu seria conhecida por nome e sobrenome como tinha acontecido com Carol Alonso e Lopes, Fernanda Rocha e Balthazar, Isabela Ramalho e Leal.

- Rosana Caiado – disse o professor para o desempate.
E eu:
- Aqui.
E a outra Rosana:
- Aqui – disse ao mesmo tempo

Arregalei os olhos, levantei as sobrancelhas e olhei para ela de cima a baixo.

- Você se chama Rosana Caiado? – perguntei.

Sim, ela se chamava. Embora tenha apagado da memória – a minha memória faz isso de vez em quando, infelizmente nunca quando de meu agrado -, acredito que um dia tenhamos sentado nos pilotis e investigado nossa árvore genealógica sem encontrar nenhum Caiado comum entre os tios e primos mais próximos. Depois dessa breve conversa, não mostrei interesse em estreitar laços com minha homônima e, durante os quatro anos do curso, mantivemos distância, período durante o qual quase esqueci sua existência, até o dia em que, durante uma consulta, o médico perguntou:

- Então você está tomando o remédioY?
- Não.
- Vai fazer a cirurgia X?
- Não.
- Você não é Rosana Caiado?

Precisei de alguns segundos para me dar conta de que Rosana Caiado e eu dividíamos, além do nome, o ginecologista. Não só ele: um dia, ao sair da sala do homeopata com olheiras de rímel, nariz vermelho e uma lista de remédios para solidão, mágoa e dores em geral, Rosana Caiado estava na sala de espera. Suspeito que Rosana Caiado goste de mim, pois sorriu largo e, caso eu tivesse me mostrado minimamente aberta, teria me roubado um abraço. Nesse dia Rosana Caiado contou que é comum um amigo perguntar se ela tem uma coluna no Bolsa de Mulher. Era só o que faltava.

Homônimos existem aos montes, mas confesso que preferia que Rosana Caiado não fosse aos mesmos médicos que eu e não tivesse uma comunidade no orkut chamada Rosana Caiado canta muiiitoo. Na verdade, eu preferia que a outra Rosana Caiado morasse no Acre.

Nome devia ser que nem e-mail. No momento do registro, o escrivão checaria o sistema para em seguida informar:

- Rosana Caiado não está disponível. Temos Rosângela Caiado, Rosineide Caiado e Romualda Caiado. Interessa?

O problema é que, se assim fosse, a Romualda seria eu, visto que a outra Rosana Caiado nasceu um ano e dois meses antes de mim. É virginiana, morena e usa argolas que me serviriam de pulseiras. É alta – droga, a outra Rosana Caiado também é alta. Estudou no Guanabara, tem 326 amigos no Facebook, e outros dois sobrenomes: Farias Reis. Acho bonito Rosana Reis, juro. E, se algum dia, algum desavisado me perguntar se eu canto muiiitooo, talvez a outra Rosana Caiado sofra um acidente.

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Domingos

Sofrimento, se não mata, torna você mais simpático.

by rosanacaiado em 12 de dezembro de 2011 | 23:56

No mundo, Woody Allen. No Brasil, Domingos Oliveira. No sábado, o documentário que a atriz Maria Ribeiro fez sobre ele.

Logo no começo do filme, Domingos diz que a vida é uma rameira e o amor, uma selvageria. Domingos diz que já sofreu muito, mas só por amor. Sofrimento, se não mata, torna você mais simpático – diz ele. Depois, transforma-se em obra de arte. Domingos disse que se apaixonou pela Fulana de Tal assim que a viu. Aliás, naquela noite se apaixonou por duas ou três – disse ele. Na época tinha coração para isso.

Fulana de Tal era Leila Diniz e o filme que a história rendeu, Todas as mulheres do mundo.

Quando Domingos fala de paixão de forma totalmente despudorada, me identifico com ele. Há quem respeite a paixão. Há quem tenha cerimônia com ela, e prefira o distanciamento. São muitos os que ficam sem jeito diante da paixão. E os que não ligam o nome à pessoa ou não sabem como se dirigir a ela, como se a paixão fosse a rainha da Inglaterra.

Da paixão, como Domingos, sou íntima. Temos uma relação chegada e libidinosa, eu e a paixão. Ela abre a minha geladeira e coça as minhas costas onde não alcanço. Na frente dela, faço xixi de porta aberta.

Quando se dá muita intimidade para a paixão, ela vem com tudo: diz que vai dar só uma passadinha, mas estende a visita pelo fim de semana, 10 dias, as férias inteiras. Três meses depois, a paixão está instalada, virou a dona da casa – até o dia em que vai embora sem se despedir. E não cabe chororô: sei que ela volta.

Na saída do cinema, olho para o chão, mastigando as frases que saíram da boca de Domingos. Quando olho para a frente, o próprio. Em transe, ouço meu marido sugerir que a gente vá cumprimenta-lo. Não posso: Domingos, sim, é a rainha da Inglaterra. Volto para casa correndo e, antes de dormir, revejo Todas as mulheres do mundo.

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Meu coração

De toalha na cabeça, cruzei as pernas e me fitei com olhos de cobiça.

by rosanacaiado em 5 de dezembro de 2011 | 23:42

Quando eu era uma menina sardenta, de marias-chiquinhas e calcinhas de babado, fiz um desenho para o meu pai, como presente de aniversário: um coração, colorido de vermelho com pilot de ponta grossa, contorno em preto. No lado direito do coração (VD), havia um buraco de fechadura. Em anexo, uma chave – ou o desenho de uma chave – pequena, pintada de marrom, recortada com todo o capricho de uma menina de 5 anos.

Meu pai até gostou do presente, principalmente depois que minha mãe explicou a ele o significado – não sei se era o mesmo para mim. Ele passou a mão no desenho, agradeceu pela última vez e guardou o meu coração no guarda-roupa, dentro de um envelope pardo, embaixo das calças de prega, entre o pote de moedas antigas e um pacote de bombom Serenata.

Durante anos, fui feliz.

Tinha horror a meninos: mostrava-lhes a língua e passava-lhes a unha. Pulava elástico até a altura da cintura e brincava de cama de gato. Comia pão com açúcar e jujubas vermelhas. Ganhei medalha de ouro no campeonato de ginástica olímpica do Tijuca Tênis Clube – a favorita, minha melhor amiga,  faltou.

Até que um dia, levantei antes do despertador e tinha 14 anos. Sentei na privada e, enquanto o xixi  escorria, fiz a mistura do pó branco com água oxigenada de vinte volumes. Corri a pá de plástico do tornozelo ao joelho, voltei pelas panturrilhas e terminei nas axilas das pernas. Mais uma boa pincelada nas coxas, o restante nos antebraços, 15 minutos e uma ducha gelada, fiquei pronta. De toalha na cabeça, cruzei as pernas e me fitei com olhos de cobiça.

Justo nessa noite quando eu estava menstruada e éramos convidados de um casamento de espanhol,  alguém invadiu a casa.

Era um homem forte, um homem másculo, de olhar vivo e veias altas. Um homem que poderia pedir, mas preferiu roubar. Ele invadiu o quarto dos meus pais, abriu o armário e a porta rangeu. Meu pai não ouviu, porque estava dormindo, sonhando com a minha mãe. O homem, então, afastou as calças de prega, mordeu as moedas antigas, comeu um Serenata e abriu o envelope pardo.

Suas mãos ásperas rasgaram o papel, frágil como a idade. O homem pegou a chave do meu coração, virou duas vezes na fechadura que ficava no lado direito e entrou. Ninguém nunca havia feito isso e, uma vez feito, outro não poderia repetir, visto que o homem, ligeiro, engoliu a chave – ou o desenho de uma chave – pequena, pintada de marrom, com todo o capricho de uma menina de 5 anos.

Naquela noite, não pude ver seu rosto. Mas acho que era você.

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perfil

Rosana Caiado Ferreira nasceu no Rio de Janeiro em 1977. Formada em Comunicação Social, é escritora e roteirista. Participou do livro "Como se não houvesse amanhã" (Editora Record) com um conto escrito a partir da música “Eduardo e Mônica”. Mantém o blog Complete a frase. Para entrar em contato, escreva um email para rosanacaiado@gmail.com