Quando eu era criança, adorava cantar músicas no carro, porque, assim, quem estivesse dentro não tinha outra opção que não ouvir a minha cantoria. Cantar não tem graça se não tiver alguém ouvindo, mais ou menos como é escrever e ninguém ler, ou fazer um desenho ou dar uma estrela sem mostrar para nenhuma pessoa.
Para aprender a dar estrela, eu treinava todo dia no quarto dos meus pais. A minha mãe ficava sentada em uma cadeira avaliando a estrela, dizendo coisas como “estica a perna”, “essa foi boa”, “mais uma vez”.
“Você é a minha supernova”, ele disse. E eu não sabia o que isso significava. E ele disse “não sabe o que é supernova?”, com uma entonação de espanto como se todo mundo soubesse o que é. De fato não sei muitas coisas que todo mundo sabe. Em compensação sei outras que nem todo mundo sabe, como dar estrela. Até hoje eu sei, posso provar, porque treinei muito e nunca esqueci como se faz. Eu também sei digitar sem olhar para o teclado. Às vezes erro, mas aí corrijo. É muito mais legal digitar sem olhar quando tem alguém olhando, ainda mais quando esse alguém fica surpreso porque não é comum as pessoas digitarem sem olhar para o teclado, mas eu consigo.
“Supernova é quando uma estrela entra em combustão e fica muito brilhante.”
Não sei se entendi o que ele queria dizer com isso, mas acho que é como se eu estivesse na minha plenitude, como as pessoas costumam falar para as mulheres grávidas, quando na verdade elas estão com nariz de batata e raiz por fazer.
No carro, quando criança, eu continuava cantando bem alto a música que estivesse tocando no rádio quando entrávamos no túnel. Se, quando o túnel terminasse, eu estivesse cantando exatamente o mesmo verso que o cantor, era sinal de que daria praia, ou eu iria ganhar uma mochila nova, ou teria sorvete de sobremesa. É assim que me sinto agora, de olhos fechados, cantando dentro do túnel, cujo fim não consigo enxergar, sem saber se, quando ele acabar, vou estar na parte certa e poderemos ficar juntos. Eu sou a SN 1977 e você, o meu astrônomo.
