» 2011 » outubroRosana Caiado

Supernova

Cantar não tem graça se não tiver alguém ouvindo, mais ou menos como é escrever e ninguém ler.

by rosanacaiado em 31 de outubro de 2011 | 22:20

Quando eu era criança, adorava cantar músicas no carro, porque, assim, quem estivesse dentro não tinha outra opção que não ouvir a minha cantoria. Cantar não tem graça se não tiver alguém ouvindo, mais ou menos como é escrever e ninguém ler, ou fazer um desenho ou dar uma estrela sem mostrar para nenhuma pessoa.

Para aprender a dar estrela, eu treinava todo dia no quarto dos meus pais.  A minha mãe ficava sentada em uma cadeira avaliando a estrela, dizendo coisas como “estica a perna”, “essa foi boa”, “mais uma vez”.

“Você é a minha supernova”, ele disse. E eu não sabia o que isso significava. E ele disse “não sabe o que é supernova?”, com uma entonação de espanto como se todo mundo soubesse o que é. De fato não sei muitas coisas que todo mundo sabe. Em compensação sei outras que nem todo mundo sabe, como dar estrela. Até hoje eu sei, posso provar, porque treinei muito e nunca esqueci como se faz. Eu também sei digitar sem olhar para o teclado. Às vezes erro, mas aí corrijo. É muito mais legal digitar sem olhar quando tem alguém olhando, ainda mais quando esse alguém fica surpreso porque não é comum as pessoas digitarem sem olhar para o teclado, mas eu consigo.

“Supernova é quando uma estrela entra em combustão e fica muito brilhante.”

Não sei se entendi o que ele queria dizer com isso, mas acho que é como se eu estivesse na minha plenitude, como as pessoas costumam falar para as mulheres grávidas, quando na verdade elas estão com nariz de batata e raiz por fazer.

No carro, quando criança, eu continuava cantando bem alto a música que estivesse tocando no rádio quando entrávamos no túnel. Se, quando o túnel terminasse, eu estivesse cantando exatamente o mesmo verso que o cantor, era sinal de que daria praia, ou eu iria ganhar uma mochila nova, ou teria sorvete de sobremesa. É assim que me sinto agora, de olhos fechados, cantando dentro do túnel, cujo fim não consigo enxergar, sem saber se, quando ele acabar, vou estar na parte certa e poderemos ficar juntos. Eu sou a SN 1977  e você, o meu astrônomo.

Siga Rosana Caiado no Twitter.

Você já sofreu muito por amor?

Fala mais alto porque o meu coração está batendo muito forte.

by rosanacaiado em 24 de outubro de 2011 | 23:30

Hoje levantei com o pé esquerdo.  Às 5h45. Em seguida, um gato preto cruzou o meu caminho. Era Zica, a minha gata preta, nascida em uma sexta-feira 13 de agosto.

Previsão do tempo: evite saia rodada.

Se o meu chefe entrasse na minha sala dizendo que eu tinha que criar um nome para um bombom, eu jamais sugeriria Serenata de Amor. Nem Sonho de Valsa. Achei que o arco estivesse apertando a minha cabeça. Mas estou sem arco. Então é enxaqueca, mas o remédio acabou. Lurdes, a manicure, pediu aumento. Dei.

Entendo quem pede “por favor, confirme o recebimento deste email”. Recebi um que começava assim: Cara Rosane. Adoro mandar um email e receber a reposta três minutos depois. Também adoro ver a previsão do tempo e prefiro fruta que se come de colher. Uma amiga virou para mim e disse “larga esse chicote”. Fala mais alto porque o meu coração está batendo muito forte, eu disse. Depois larguei. Está tudo errado.  Está todo mundo de vestido. Não sabem que o tempo vai virar e no fim do dia vai chover. Lurdes, a manicure, disse que esse trânsito está de dar dor de barriga.

Quando assoo o nariz, sai uma lágrima. O meu assunto preferido é sexta-feira. Chuva na sexta-feira na hora de ir pra casa: sou contra. Ainda mais se for sexta-feira 13. Adoro perguntas que sei responder. Também adoro ver currículo, ainda mais quando tem foto. Não me permito experimentar certas coisas na vida por medo do vício. Exemplo: paçoca. Lurdes, a manicure, disse que engordei. Eu disse: “Putz”. E ela: “Só meio quilinho…” Vou pegar todos os meus doces, colocar dentro de um saco e jogar no lixo. Bife e salada. Mas enquanto houver sorvete, não vou comer gelatina.

“Você já sofreu muito por amor?”, perguntou Clarice. “Estou disposto a sofrer mais”, respondeu Neruda.  Meu pescoço não estava aguentando o peso da minha cabeça. Como não tinha remédio, comi um chocolate. Passou. Ouvi uma música que diz “eu quero ser feliz agora”. Todo mundo cantando bem alto “quero ser feliz agora”. Eu sei que ser feliz todo mundo quer. Mas agora?

Siga Rosana Caiado no Twitter.

Carinholândia

Empresa pioneira no ramo de carinho no Brasil e no mundo, voltada exclusivamente para a prestação de carinhos.

by rosanacaiado em 17 de outubro de 2011 | 22:57

Quem somos:

A Carinholândia foi criada em 17 de outubro de 2010 no Rio de Janeiro. É a empresa pioneira no ramo de carinho no Brasil e no mundo, voltada exclusivamente para a prestação de carinhos. Aqui não tem preguiça nem braço cansado. Venha conferir.

Missão:

Acariciar o maior número de pessoas possível, liberando o estresse e aumentando a autoestima da população mundial. Na Carinholândia, você tem atendimento personalizado sem hora marcada, além de profissionais altamente qualificados.

Público alvo:

Os carentes – pessoas que apreciam um carinho caprichado a qualquer momento do dia SEM TER QUE FICAR MENDIGANDO.

Horário de funcionamento:

De domingo a domingo, 24 horas por dia.*

* Evite sexta à noite ou domingo à tarde, horários de maior movimento.

Promoções:

- Indique um carente não cadastrado e ganhe um carinho na bochecha ou um carinho na mão.

- Descontos de 15% de segunda a sexta de 10h às 12h e de 14h às 18h.

Serviços*

Carinho comum

Carinho de unha

Carinho nas costas

Carinho na cabeça ou cafuné

Carinho na bochecha

Carinho na mão

Carinho com colinho

Carinho Express (15 minutos, podendo dobrar)

Carinho até dormir (preço sob consulta)

Carinho com plumas

Carinho com elogios mil

Carinho com faixa

* Todos os carinhos duram 30 minutos e vêm acompanhados por salada verde ou batata-frita.

Trabalhe conosco:

Se você tem o perfil da nossa empresa, é carinhoso e gosta de um chamego, cadastre o seu currículo e faça parte do nosso banco de talentos.

SE RECEBER CARINHO, NÃO DIRIJA.

Siga Rosana Caiado no Twitter.

Baseado em fatos reais

Imaginar que alienígenas existem é tão absurdo quanto pensar que somos os únicos no universo.

by rosanacaiado em 10 de outubro de 2011 | 22:21

Tudo começou com uma dor no dedo do pé. Eram três e meia da manhã quando acordei com o dedo latejando sem motivo aparente. Eu precisava de luz para ver a cara dele, do dedo do pé, e checar se estava ferido, roxo, inchado, ou se havia uma faca atravessando-lhe a unha. E também para fazer anotações caso fosse necessário.

Dizem que ninguém mais consegue viver os fatos com a entrega que eles merecem- ver shows, aproveitar uma viagem, admirar o pôr do sol – porque estamos sempre conectados, tirando fotos ou postando frases de até 140 caracteres. O nome disso é 2011. No meu caso, não é possível viver os fatos em sua plenitude porque estou sempre pensando em como vou contar depois. O nome disso é coluna semanal.

Achei por bem acordar o meu marido pois não queria infartá-lo acendendo, sem aviso, o lustre do quarto no meio da madrugada – até porque eu precisaria de ajuda caso o meu dedo tivesse sido de alguma forma amputado.

Chamei o nome dele duas vezes. Na terceira ele levantou a cabeça assustado. Quando avisei que precisava acender a luz porque o meu dedão estava doendo, ele disse jura? Depois ligou o abajur.

O meu dedão não estava roxo, tampouco tinha uma faca enfiada em sua carne. Mas de fato a pele parecia mais rosada e havia um leve inchaço em comparação ao dedo do outro pé – o que, posso garantir, só veio a aumentar com o passar dos dias. Meu marido pegou um copo d’água e uma cartela de analgésicos pelos quais me senti muitíssimo grata.

O problema é que, depois de me dar o remédio (dois), ele voltou a deitar e, ajeitando o travesseiro, disse:

- Hoje à tarde vi um filme sobre alienígenas baseado em fatos reais – meu marido tem muito interesse sobre o assunto – em que as pessoas acordavam entre três e quatro da manhã, sem motivo aparente. Com o tempo, descobre-se que essas pessoas tinham sido pinçadas por alienígenas que as levariam para outro planeta a fim de estudar o funcionamento de seus organismos. No filme, as pessoas acordavam com dor no ombro, mas por que não poderia ser no dedo do pé?

Dito isso, apagou a luz, virou-se para o lado e dormiu.

Meus olhos arregalados.

O apartamento começou a fazer barulhos como o estalar da madeira e o ranger de portas. É incrível como objetos inanimados emitem sons às quatro da manhã.

Foi aí que parei de viver os fatos para escrever esta coluna, tomada por um medo novo:  quando criança, tinha medo de fantasma e de ligar o gás; um pouco mais tarde veio o medo de ladrão; de barata sempre tive medo; de morrer sozinha às vezes ainda tenho, mas medo de ser abduzida foi a primeira vez. E, pensando bem, imaginar que alienígenas existem é tão absurdo quanto pensar que somos os únicos no universo.

No dia seguinte, acordamos no horário de sempre, café da manhã, banho, ônibus e trabalho. Nunca mais tocamos no assunto.  Mas não posso evitar pensar que no meu dedão, sob o pedaço de pele rosada e levemente inchado, pode haver um chip.

Siga Rosana Caiado no Twitter.

Minha imaginação estava de olhos fechados

Imagino mais perguntas do que respostas. Imagino os jogos e as sutilezas do primeiro encontro.

by rosanacaiado em 3 de outubro de 2011 | 21:49

Dizem que não há limites para a imaginação, mas nem sempre é assim.

Imagino um bar, o nome do bar, uma noite clara e uma mesa na calçada. Imagino as pessoas sentadas nas mesas ao redor, ao nosso redor, ingênuas todas. Imagino a conversa animada do vizinho e a nossa conversa sobre tudo, exceto o que quero dizer.

Imagino o garçom barrigudo, munido de bloco e caneta. Bic.  Imagino o pedido, imagino o garçom anotando o pedido: um chope e uma caipirinha. Imagino pizza branca, não sei o motivo, mas imagino pizza branca – nada que agarre nos dentes ou contamine o hálito.

Imagino palavras gaguejadas (de minha parte) e pausadas (de sua). Imagino nervosismo e tensão. Imagino mais perguntas do que respostas. Imagino os jogos e as sutilezas do primeiro encontro. Imagino você de azul marinho, porque a imaginação se aproveita de lembranças.

Imagino ir ao banheiro retocar o batom. Imagino você segurar a minha mão.

Imagino o momento em que não vai  mais adiantar disfarçar – será tão evidente que até o garçom e o grupo ao lado já terão percebido. Imagino um olhar que não desvia. Imagino os minutos correndo no relógio do seu pulso – você usa relógio? Às vezes memória e imaginação se confundem.

Imagino um beijo rápido por cima da mesa e a conta. Imagino um abraço de corpo inteiro – a imaginação é assanhada. Imagino gemidos (de minha parte) e imagino quando vamos contar como tudo começou, sem que planejássemos, naquela tarde improvável. Imaginação é também torcida.

Imagino estar no seu apartamento. A imaginação permite elipses, porém essa é uma imagem nublada. A luz da sala está apagada. Imagino chaves sobre a mesa, paredes brancas e tacos. Imagino eu e você encostados na parede, empurrando a parede. Imagino gelo seco. Imagino a sua mão na minha cintura e a sua boca na minha nuca. Imagino a minha saia (se eu estiver de saia) cair sobre os tacos. Mas é nesse momento, nesse desejado momento, que a minha imaginação abre os olhos – ela estava de olhos fechados – e para.

Siga Rosana Caiado no Twitter.



perfil

Rosana Caiado Ferreira nasceu no Rio de Janeiro em 1977. Formada em Comunicação Social, é escritora e roteirista. Participou do livro "Como se não houvesse amanhã" (Editora Record) com um conto escrito a partir da música “Eduardo e Mônica”. Mantém o blog Complete a frase. Para entrar em contato, escreva um email para rosanacaiado@gmail.com