» 2011 » agostoRosana Caiado

Despedida

Por que é tão difícil me despedir de você?

by rosanacaiado em 29 de agosto de 2011 | 23:16

- Estou apaixonada por três coisas: você, Ades de laranja e a outra  eu esqueci.

- Quer dizer que eu estou no nível do Ades de laranja?

- É que estou muito apaixonada por Ades de laranja. É a melhor hora do dia.

- Quer dizer então que estou um pouco abaixo do Ades de laranja?

- De jeito nenhum.

- Estou acima?

- Pau a pau.

Quero cochichar no seu ouvido,
me aninhar no seu corpo.
Quero colar a barriga nas suas costas.
O nariz na sua nuca.
Quero que você conheça os meus cheiros,
todos,
e os meus ângulos,
todos,
como naquela vez
em que deitei sobre você,
de cabeça para baixo,
e mordi a sola do seu pé.

- E eu sei que você prefere o MW2 a mim.

- Imagina.

- MW2 no sofá da sala ou eu nua na cama?

- Você, claro.

- MW2, com certeza.

- Está bem: você e depois MW2.

Por que é tão difícil
me despedir de você?
Mesmo que seja necessário,
urgente,
passageiro.
Mesmo que você não perceba,
enrugo a testa,
sinto um aperto no peito
e acho que não vou suportar
me despedir
te deixar sozinho no quarto
e ir até o banheiro
fazer xixi.

Siga Rosana Caiado no Twitter.

Canário na gaiola

Você não sabia que o amor é indomável?

by rosanacaiado em 22 de agosto de 2011 | 20:42

Às vezes, acontece uma coisa e na mesma hora você percebe que jamais vai esquecê-la. Meus lábios acariciam a sua orelha enquanto repito o seu nome. O seu nome. O seu nome. O seu nome me faz desfalecer.

Coloco o rosto no esconderijo que fica entre o seu pescoço e o seu ombro.

Você ri da minha calcinha. É rosa.

Seus olhos grudam nos meus.

Estou de joelhos. Olho para cima, mas você está fora de foco.

Deito de bruços. Você faz o que não identifico – só gosto.

Nós dois de pé, ao lado da porta, sem conseguir ir embora – ir embora, vi no dicionário, é sinônimo de impossível, adjetivo de dois gêneros. Aperto o abraço com força, olho para você, você olha para mim e enlaça a minha cintura. Seguro as paredes do quarto, ou elas vão desabar. Parece que o mundo vai acabar depois que sairmos daqui. E o que acontece é que, feitas as despedidas, nós dois é que deixamos de existir.

Há horas que duram anos e o seu nome, o seu nome, o seu nome ficou pendurado sobre a minha cabeça. Às vezes, parece uma bigorna. Noutras, um canário na gaiola. Cada vez que me lembro daquela tarde que nunca anoiteceu, sinto uma nova contração e também um gosto na boca que já não sei se é seu ou se inventei, fantasiosa que fui desde o começo. Estar com você jamais será tão intenso quanto a lembrança do que é estar com você.

 

Leia também: Às vezes

Siga Rosana Caiado no Twitter.

Peguetão

A casada tende a achar que tudo o que a solteira fala é uma tremenda bobagem.

by rosanacaiado em 15 de agosto de 2011 | 21:27

Não existe amizade entre casada e solteira. Primeiro porque o ritmo de uma é muito mais acelerado do que o da outra. É como se a casada andasse na velocidade segura de 60 quilômetros por hora enquanto a solteira pisasse fundo e passasse dos cem. Muitas coisas acontecem na vida de uma mulher livre, uma em seguida da outra, de modo que a casada acaba confundindo o nome do sujeito que depois de uma noite fantástica com a solteira nunca mais deu sinal de vida com o apelido do fulano por quem ela jura estar perdidamente apaixonada. Vida de solteira voa. + Leia mais

Meleca no nariz

Amigo é aquele que avisa quando vocá está com meleca no nariz.

by rosanacaiado em 8 de agosto de 2011 | 23:51

Em 2000, ano em que me formei em Comunicação Social na PUC, na solenidade de colação de grau, fui encarregada da tarefa de, antes das homenagens aos pais e a Deus, e depois da homenagem aos mestres, homenagear os amigos. Tal responsabilidade me fez sentir querida – para não dizer muito popular -, uma vez que concorri ao cargo com dezenas de formandos e fui eleita pela maioria, ainda que a votação tenha sido diluida e o número de votos  não tenha sido exatamente expressivo.

É óbvio que o meu discurso era emocional. Não me lembro de sequer uma palavra do texto mas sei que arregacei as costelas. Quando li a última palavra, com as mãos trêmulas por trás do púlpito, me vi tomada pela deliciosa sensação do dever cumprido, como se tivesse realizado com dignidade, ainda que com pouca ousadia, a tarefa que a mim tinha sido confiada.

Durou pouco.

Enquanto ainda mostrava os dentes para os tímidos aplausos, o formando ao meu lado, segundo lugar na votação para o amigo que iria homenagear os amigos, conforme o combinado, puxou o microfone para perto de si para as considerações finais. E disse:

- Amigo é aquele que avisa quando você está com meleca no nariz.

A plateia veio abaixo.

E eu nunca esqueci – não só o vexame, mas a definição.
Há quem tenha 854 amigos. Eu tenho poucos, mas acredito que todos eles – todos os quatro – me avisariam se com meleca no nariz estivesse. Convenhamos: não é fácil. Bate um constrangimento. Espera-se no mínimo três minutos em que se fica olhando fixamente para a meleca na expectativa de que ela se autodestrua pelos poderes desse olhar. Avisar que tem uma meleca no nariz requer intimidade. E bem querer.

Principalmente, avisar que o outro está com meleca depende do outro: há de se ter abertura para tanto. E, se você, por um motivo ou por outro, voluntária ou involuntariamente, não permitir que alguém te avise que está com meleca, danou-se: mais cedo ou mais tarde, você vai desfilar com o nariz sujo por aí.

É isso: a amizade é de verdade quando há liberdade para avisar que se está com meleca no nariz. É possível até, ocasionalmente, botar o dedo em riste no nariz e, inclusive, pisar no calo – é melhor que um amigo, e não um inimigo, faça isso. Cabe a você ouvir que está com meleca sem duvidar dos sentimentos do amigo, pelo contrário, sabendo que com ele  você pode contar até quando tiver com urubu na arquibancada – seja lá o que isso signifique.

Sim, é verdade, corri para o emocional de novo. Eu sei que sempre faco isso: os meus amigos, todos os quatro, já avisaram.

Siga Rosana Caiado no Twitter.

Clima de tensão sexual

De longe, mal dá para ver. Mas há quem sinta o cheiro.

by rosanacaiado em 1 de agosto de 2011 | 23:40

Uma amiga falou que clima de tensão sexual é grego – ela não entende nada. Eu cocei a cabeça, uni as sobrancelhas e franzi os lábios.

- Clima de tensão sexual não tem tradução, embora pudesse ter legendas.

- Me explica, por favor.

Coço o queixo.

- Clima de tensão sexual é quando, no final de uma frase, a troca de olhares se mantém por mais de três segundos, como se os olhos estivessem unidos por um fio.

- Que fio?

- Um fio de nylon. Experimentar o clima de tensão sexual é estar por um fio. De longe, mal dá para ver. Mas há quem sinta o cheiro.

- Dá para ser mais objetiva?

- Clima de tensão sexual não é objetivo.  Ao contrário, gosta de um quem sabe.

- “Quem sabe”? Mas eu sou uma mulher de certezas.

- Se há certeza, alivia-se a tensão e parte-se para a combinação dos detalhes do encontro. Aí não é mais tensão, e sim agendamento.

- Então clima de tensão sexual não é às claras?

- Claro que não. Clima de tensão sexual é no escurinho, mesmo que as luzes estejam acesas.

- Não posso falar que estou interessada?

- Se você der um passo à frente, ficará exposta. E, embora seja difícil acreditar, há sempre a possibilidade de o clima de tensão sexual ser unilateral.

- Então vou ficar parada.

- Eu não faria isso. Ele pode pensar que você não está interessada e cortar o clima.

- Então que eu faço?

- Anda para o lado.

- Mas assim não vou chegar a lugar nenhum.

- Tensão sexual não é para ansiosos. Requer calma. Convém esticar o fio.

- É que nem estar apaixonada?

- Clima de tensão sexual não é paixão. Mas lembra.

- Não consigo parar de pensar nele um segundo e fico imaginando como vai ser o nosso beijo.

-  Sôfrego. Arfante.

- E o que vai acontecer depois?

- Quem sabe?

À amiga não disse, mas informo ao leitor que, na maioria das vezes, o fim do clima de tensão sexual parece grego: não se entende nada. E evapora.

Siga Rosana Caiado no Twitter.



perfil

Rosana Caiado Ferreira nasceu no Rio de Janeiro em 1977. Formada em Comunicação Social, é escritora e roteirista. Participou do livro "Como se não houvesse amanhã" (Editora Record) com um conto escrito a partir da música “Eduardo e Mônica”. Mantém o blog Complete a frase. Para entrar em contato, escreva um email para rosanacaiado@gmail.com