» 2011 » maioRosana Caiado

Estica a perna

Exceto pelo rímel que escorre bochecha abaixo, choro como criança.

by rosanacaiado em 30 de maio de 2011 | 23:30

Eu estava nas redondezas da casa de uma amiga que, como se farejasse a nossa proximidade, ligou para o meu celular. Sua voz estava três tons mais alta e, às gargalhadas, ela contou que tinha ganhado um beijo, o primeiro, daquele homem no qual estava de olho fazia tempo. Pela euforia indisfarçável, o beijo tinha sido melhor do que o esperado, além de servir como um pretexto digno para nos encontramos para um brinde. Sugeri um chope dali a dez minutos, quando eu passaria de carro em frente ao seu prédio para buscá-la.

Eu já estava quase chegando, quando o telefone tocou novamente. Era a minha mãe que, um pouco preocupada, deu o recado: na portaria, à minha espera, minha amiga teve o celular roubado. Mais que isso, levou um soco que lhe quebrou o nariz. Em vez de chope, ela estava indo para o hospital. + Leia mais

As paredes do nosso quarto

Marcelo é casado, pai de dois filhos, tem a minha idade em cada perna e me chamou para sair.

by rosanacaiado em 24 de maio de 2011 | 9:35

No mês passado fiz aniversário e uma festa a que todo mundo foi. Tenho duas melhores amigas, um coelho e fogo debaixo da saia que preocupa os meus pais – temem virar avós antes da hora. Meus cabelos se aproximam do cóccix e engrosso as pernas na academia de ginástica em três séries diárias de agachamento. Às segundas, quartas e sextas, o professor é o Marcelo, que no final da aula, às oito, insinuou que, um dia, gostaria de me acompanhar até em casa.

- Por que não hoje? – perguntei. + Leia mais

Medalha de ouro

Foi uma daquelas decisões que você se dá conta de que foi errada logo depois de ter tomado.

by rosanacaiado em 16 de maio de 2011 | 22:39

Não queria fazer natação de jeito nenhum. Primeiro porque as minhas amigas estavam na Ginástica Olímpica e, depois, porque eu não gostava de enfiar o cabelo dentro da touca. A piscina do América tinha uma corda com boias, dessas que demarcam raias, que tinha a função de separar a parte rasa da funda. As aulas eram dadas na parte rasa e eu só me lembro de esticar os braços, segurando a prancha e batendo os pés. Também tinha um exercício de respiração em que pegava ar e soltava debaixo d’água trinta vezes, soltando bolhas.

No fim de semana, eu, meu pai e minha mãe batíamos ponto. Eu gostava de sentar um pouco afastada e fazer poses supostamente sensuais na cadeira de plástico, com a ilusão de que os garotos mais velhos estavam olhando para mim. Num domingo, desfilei até a piscina e, distraída, mergulhei do lado de lá da corda, onde não dava pé. + Leia mais

O centro mudou de lugar

Tenho que aprender novos caminhos – os que usava já não servem mais.

by rosanacaiado em 10 de maio de 2011 | 16:05

Insiro o tíquete de estacionamento na máquina e ela me lembra de colocar o cinto de segurança. Antes de passar a primeira, me deparo com a placa que já olha para mim faz tempo: Copacabana para a esquerda; Botafogo e Urca para a direita. Repito em voz alta o que a placa diz. Sozinha, dentro do carro, a despeito do cinto, não estou tão segura assim.

Quando mudo de endereço, é tanta coisa que se desloca e se transforma ao mesmo tempo, que não dou conta de catalogá-las. Preciso de semanas para absorver todas elas e, quando penso que consegui, descubro que tenho que aprender novos caminhos – os que usava já não servem mais.

Com o centro em outro lugar, os trajetos têm que ser lentamente reconstruídos. Até lá, faço barbeiragens, entro na rua errada e, quando distraída, ligo o piloto automático e faço a rota antiga. A saída do Rebouças é um clássico: quantas vezes entrei na Epitácio, em vez de seguir pelo Humaitá? E quantas caí no Humaitá, quando queria pegar a Borges de Medeiros?

Eu juro que sabia como ir ao shopping, como pegar o túnel, ir ao cinema e voltar. Agora, não mais. Rascunho o mapa da cidade no pára-brisa e faço cálculos aproximados de quilometragem e paisagem a fim de eleger o melhor caminho, ou simplesmente, traçar um que me leve até em casa.

É nessa hora que o motorista de trás perde a paciência e enfia a mão na buzina. Solto o freio de mão e vou pela esquerda. Não sei o percurso de cor, de modo que me valho do improviso – no que nunca me saí bem -, mas, à medida em que passo as marchas e avanço quarteirões, a ordem das ruas se desenha nas minhas lembranças como se estivessem sendo construídas naquele exato instante através do poder da minha imaginação.

Cheguei. Mas ainda não sei que caminho seguir.

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Canastra real

Se você nunca se deu conta, um jogo revela muito sobre os jogadores.

by rosanacaiado em 2 de maio de 2011 | 21:16

Jogar buraco é como amarrar os sapatos – se aprende em casa. Em uma tarde de domingo, talvez de chuva, você não lembra, mas sentou à mesa e ouviu as regras do jogo da boca de seus pais, no meu caso, exímios jogadores, conhecedores das manhas da jogatina, o que significa que cedo, muito cedo, fui apresentada às cartas do baralho, em que um dos naipes então se chamava coraçãozinho.

Engana-se quem pensa que buraco é um só. No que se refere a coringas e batidas, cada família sabe as regras que tem. Lá em casa, para bater, tem que fazer canastra real. Se quiser comprar a mesa, só se for para baixar. E trinca é algo que não existe – nem de às ou de três. Se você nunca se deu conta, um jogo revela muito sobre os jogadores: o buraco tem muito a dizer. + Leia mais



perfil

Rosana Caiado Ferreira nasceu no Rio de Janeiro em 1977. Formada em Comunicação Social, é escritora e roteirista. Participou do livro "Como se não houvesse amanhã" (Editora Record) com um conto escrito a partir da música “Eduardo e Mônica”. Mantém o blog Complete a frase. Para entrar em contato, escreva um email para rosanacaiado@gmail.com